A serpente e a estrela
30 Irmãos
Notas iniciais
Irmãos
Capítulo XXIX
Aquele corredor nunca lhe pareceu tão longo e estreito. À medida que andava, parecia tornar-se mais estreito a ponto de causar uma incômoda sensação de claustrofobia e com ela, ânsia de vômito.
“Lembre-se, Shaka, lembre-se!”, aquela voz estava em sua mente como um incômodo martelar. “Eu nunca estarei sozinho! Eu nunca estarei…. Tu és meu irmão, meu amigo!”, e juntava-se a outra voz, tornando-se uma tortura insuportável.
Shaka recostou-se a uma parede, o coração batia forte no peito. Não conseguia! Não conseguia! Lutara tanto para se tornar quem era agora. Lutara tanto para nunca mais ser a vítima patética, violentada, vilipendiada, escravizada! Era o rei no tabuleiro! O rei!! Lutara tanto para menoscabar os próprios sentimentos, senso de dever e lealdade. Tudo que um dia pensou ser qualidades indispensáveis a um homem e que só lhe trouxera dor e medo. Jurara aviltar toda a decência do seu caráter para realmente ser o rei no tabuleiro do destino. Comandar os fios invisíveis que controlavam homens mais fortes que ele. Por que fraquejar agora? Por que simplesmente não seguia em frente?
O corredor estava escuro, mas ele enxergou uma lança presa por dois aros de cobre. Shaka a retirou e voltou a passos rápidos para o jardim. O que viu deixou-o repugnado: os homens tocavam Mu que parecia perdido em algum tipo de sonho. Ele conhecia aquelas ilusões: era o efeito de um sonho erótico. Com sorte, na mente de Mu, quem estava com ele era Aiolia, seu amor-amigo, e não aqueles infames. Pobre criança. Não podia permitir.
— Afastem-se dele! — Shaka ordenou, selvagem, empunhando a lança. — Afastem-se e partam ou os matarei!
Os três homens se entreolharam e falaram algo em algum dialeto estranho. Não pareciam ameaçados pela presença do dançarino e nem pela lança. Shaka, longe de parecer um guerreiro, assemelhava-se àquilo que ele deveria ser: um belo eunuco para enfeitar os jardins do faraó, o presente do Oriente, um bibelô deveras caro. Seu corpo magro e seu poste gracioso não ameaçaria mercenários escroques como aqueles.
— Saíam daqui agora! — Shaka ameaçou novamente, cerrando os dentes. Sua atitude era agressiva, mas não amedrontava os homens que ali estavam, e os mercenários contratados por Hades, no entanto, não saíram. Eles tinham muito a perder se não encontrassem Hades e os sacerdotes naquela noite. Com isso, cercaram Shaka, que deu um passo para trás, segurando a lança com as duas mãos. O persa era inteligente suficiente para entender que não teria como lutar com os três, então em vez disso, ele começou a gritar por socorro. Com sorte a escolta de Sirius estaria por perto, fazendo a ronda no castelo como o de costume.
Foi então que os invasores temeram. Eles foram infiltrados no castelo, pois Hades não acharia entre egípcios qualquer um que aceitasse desonrar a casa real. Os homens estavam prontos para fugir assim que Hades chegasse ao jardim com os sacerdotes e estes testemunhassem a queda de Mu. Agora, com a ameaça iminente, os mercenários precisavam silenciar aquele escravo ou morreriam.
Eles agarraram Shaka, que se debateu chutando e golpeando quando a lança foi arrancada das suas mãos. O persa mordeu a mão que tentava sufocar sua boca e continuou a gritar. Foi jogado com toda a força no chão, machucando-se um pouco, mas conseguiu correr e tocar a sineta de alerta que havia no corredor.
Apavorados, os invasores debandaram pela saída lateral do jardim em direção às câmaras subterrâneas do castelo. Todavia, foram interceptados por Sirius e seus homens. Houve luta, e os três invasores tombaram mortos. Eles sabiam o que os aguardavam caso fossem pegos com vida: tortura e uma morte cruel e dolorosa.
Enquanto isso, Shaka envolvia Mu em seu manto e o retirava do jardim, praticamente arrastando o jovem embriagado pela poção em direção aos seus aposentos. Ele sabia que a noite seria longa. Depois que o efeito da poção passasse sobrevinha a doença.
— Shaka, o que está acontecendo….? Eu me sinto…. — Mu tentava falar, mas acabava rindo e gemendo com as sensações do seu próprio corpo tomado de amores e desejos. — Onde está Aiolia? Para onde ele foi? Sabes que fugiremos juntos? — ria. — Seremos tão felizes!
— Serão sim. Eu prometo — Shaka murmurou com lágrimas nos olhos, beijando a têmpora de Mu.
— Então me leve de volta a ele! Por que está nos impedindo?!
— Tu vais tomar um bom banho, alteza, e isso passará — Shaka disse, adentrando o jardim do príncipe. Contudo, Sirius os interceptou antes que ele levasse Mu para a sala de banho.
— O que aconteceu? — o general perguntou ofegante, o corpo ainda salpicado pelo sangue dos invasores.
— Não sei. Ao que parece, ele foi vítima de alguma poção. Não está em seu estado normal. Cuidarei dele.
— Como assim vítima? E onde estavas tu quando isso aconteceu? Não devias estar com ele?
— Fomos atacados por três invasores, general, o que acha que eu poderia fazer para evitar além de gritar por ajuda?! — Shaka declarou efusivo, lançando um olhar intimidante a Sirius. — Questiona a minha fidelidade a esta casa?
Sirius recuou, assentindo com a cabeça.
— Onde estão os invasores? — Shaka continuou.
— Mortos.
— Péssimo. Não saberemos nunca quem atentou contra o príncipe. — Shaka vestia a máscara, pois na verdade estava aliviado. Hades não chegou a tempo ao jardim, poderia enganá-lo, inventar uma história, dizer que algo saiu errado. — Chame os curandeiros, digam-lhes que temos que fazer uma poção. Cuidarei do príncipe agora.
Ele adentrou o quarto de Mu e deixou o general. Contrafeito, Sirius só pôde obedecer àquele escravo persa com pose de rei. Contudo, não desistiria de investigar o ocorrido.
Quando Hades chegou ao jardim com os sacerdotes e o encontrou vazio, sentiu-se confuso. O que teria dado errado? Os sacerdotes que o acompanhavam interrogaram-no sobre a terrível revelação da qual ele havia falado. Hades não soube o que dizer, alegou uma denúncia que se mostrava enganosa, mas os religiosos aparentaram desconfiança dos motivos do governador.
Um soldado lhe falou do incidente no jardim e em como Sirius havia matado os invasores. Alguns falavam em sequestro, outros em questões políticas. Hades entendeu, de alguma forma, que fora traído por Shaka. Seu ódio foi tamanho ao dar-se conta disso, que mesmo de fronte ao soldado, ele urrou e quebrou uma estátua. Havia conseguido plantar a desconfiança no seio dos hem-netjer. Ele havia manipulado todos e, agora, sem a prova cabal da impureza de Mu, ele, Hades, estaria sob suspeita. O jovem príncipe seria o holocausto à sua ascensão, mas ao que parecia, o jovem persa não era tão determinado quanto parecia.
“Eu esmagarei aquela pequena víbora com as minhas próprias mãos! Ele se arrependerá por me ter traído”, prometeu e logo tratou de voltar ao seu castelo. Tinha muito a pensar e fazer. Não se daria por vencido.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Asmita observava Ikki dormir. O sono dele era agitado e ele voltara a delirar. O Zoroastro analisava as palavras do rapaz e pressentia que seu irmão enfrentaria um grande perigo. Como conseguiriam alcançar Shaka se havia um oceano entre eles? Asmita sabia que tinha uma missão como zoroastro, mas havia as suas obrigações como homem e como irmão. Fora-lhe profetizado que ele passaria por grande prova. Sobreviveria a ela?
Um dia terás que escolher, Asmita, entre a vida que queres e a qual foste destinado.
Seu mentor lhe advertira que ele não nascera um zoroastro, ele nascera herdeiro do trono de Najah. Entretanto, agora sua missão era resgatar seu irmão mais novo das garras da degradação. Mas Asmita sabia que havia um perigo para ele no Egito. Ele fora avisado. Ainda assim, iria por seu jovem e sofrido irmão. Shaka era mais importante. A sina lutava contra o desejo, e o jovem asceta não sabia quais das duas forças venceria aquela peleja. Asmita ansiava por transcender a vida material e se tornar um verdadeiro zoroastro. Entretanto, e talvez, aquilo não lhe fosse Destino.
Aldebaran adentrou o quarto, mirando o amigo deitado na esteira.
— Como ele está?
— Dormindo. Ainda tem febre, mas ficará bem.
— Devemos partir ainda hoje para o Egito, achas que ele….
— Não te preocupes. Ele estará pronto.
Aldebaran assentiu com a cabeça e mirou o rosto de Asmita.
— Parece-me preocupado.
— Concentrado, caro saubeu. Concentrado. Aconselho que durmas um pouco. O dia será bem movimentado.
Aldebaran assentiu com a cabeça e deixou o quarto.
Nesse mesmo momento, Kanon acordava, movendo-se na cama de palha de maneira desconfortável, piscando os olhos verdes e enxergando o quarto sob a luz tênue de um candeeiro.
Radamanthys estava parado sob a janela de arcada, mirando o céu dourado. Ele já trajava suas vestes de general e a luz tênue do céu refletia-se em seus olhos claros.
— Que bom que acordou, alteza. Temos que partir hoje.
— Por que hoje? — Kanon indagou, preguiçoso.
— Já temos nossa resposta. Hamurabi não tem planos desleais para com o Egito e nos apoiará contra qualquer inimigo. O que mais queremos aqui?
Kanon espreguiçou-se novamente.
— Diversão… — ele disse num bocejo.
Radamanthys reagiria, mas a voz de um criado anunciando o convite de rei para o desjejum o fez calar-se. O general só direcionou um olhar sério ao príncipe e deixou o quarto.
Kanon sorriu, voltando a espreguiçar-se virilmente: que homem mais mal-humorado! Ele pensava, mas isso não importava, a noite tinha sido ótima!
O príncipe ergueu-se e foi até um canto do quarto onde havia uma bacia d’água, sabões e óleos para que ele se lavasse. Franziu as sobrancelhas, pensando que à noite, alguns dos servos deveriam ter deixado aquilo ali, já que aquele não era o seu quarto no grande castelo. Indagava se seria corriqueiro que os nobres ficassem tão loucos durante as festas naquele lugar que a criadagem já estivesse a postos para isso. Tal fato nunca aconteceria no Egito. Mesmo durante as festas de rua, a família real ficava confinada. Talvez ter o sangue dos deuses fosse mais uma maldição que privilégio. No Egito, ele nunca seria tão livre quanto era naquelas terras luxuriosas.
Kanon vestiu-se e quando deixou o quarto, encontrou-se com Asmita. O jovem persa carregava uma cuia e parecia bastante preocupado, ou talvez aquela fosse sua expressão comum, expressão que o fazia diferente de Shaka. Shaka tinha um olhar desafiador, debochado, e aquela voz de veludo que, entretanto, arranhava. Asmita era cego, não possuía o brilho no olhar do irmão, e parecia alguém tranquilo e seguro. Sua voz era suave e quase havia doçura nela. Perguntava-se quantos anos a mais ele teria que Shaka. Eram tão parecidos e ao mesmo tempo tão distantes. Como um espelho.
— Quatro.
A voz do zoroastro o surpreendeu. Kanon não se tinha dado conta de que ele parara o trajeto e nem que estivesse tão próximo.
— Que disseste? — indagou confuso.
— Perguntaste qual a diferença de idade entre mim e Shaka, eu respondi: quatro anos. Agora Shaka deve estar perto de completar vinte, ele nasceu na lua mitral, dias antes do grande equinócio.
— Não perguntei. Tens a capacidade de ler pensamentos? — Kanon indagou assustado.
— Não. Mas consigo perceber os murmúrios, e foi isso que fizeste: murmuraste. Também percebo, príncipe egípcio, que possuis mais interesse que o comum em meu irmão. Por favor, conte-me o que fizeram dele.
Kanon ponderou, mirando o outro homem com atenção. O rosto de Asmita continuava calmo e contemplativo e seu olhar morto recaía em direção alguma.
— Sim, mas primeiro, preciso que tu me contes o que se esconde por trás de Shaka. Se confiares em mim, eu confiarei em ti.
— Justo. Espere-me à mesa do rei e durante o banquete conversaremos. Estarei lá em alguns instantes.
Kanon assentiu com a cabeça por instinto, e Asmita afastou-se de volta ao quarto no fundo do templo de Ishtar.
Ikki tinha acabado de acordar. Ainda se sentia nauseado e com frio, mas conseguiu sentar-se e observar o lugar, mesmo que seus olhos ardessem.
— Deverias estar deitado — Asmita repreendeu, colocando a cuia com água ao lado da cama.
— Como sabes que não estou?
— Já disse que não sou completamente cego, enxergo sombras, contornos, e consigo perceber os movimentos, embora meus olhos sejam incapazes de ver de verdade.
— Os olhos espirituais.
— É como os chamam — ele encheu uma taça d’água. — Beba, é importante que bebas muita água para expulsar a droga do organismo.
Ikki tomou a taça e sorveu todo o líquido, sua sede parecia infinita.
— Quando podemos partir? — ele perguntou, mirando o piso de pedra. Sentia-se completamente morto naquele momento. Havia uma dor profunda, um asco profundo por si mesmo, tanto que ele preferia manter a mente vazia para não ensandecer. Hamurabi não tinha ideia do que havia feito com ele. Talvez ninguém tivesse, e Ikki agradecia por não se lembrar com coerência da noite no templo da deusa com pés de coruja.
— Ikki, sabe que não tem nada pelo qual deva se envergonhar, não é? — Asmita disse com a voz muito calma. — Fez o necessário para chegar até ele. Eu mesmo o faria.
O jovem guerreiro não respondeu, continuou compenetrado na missão de não pensar. Asmita vestiu-se em seu manto e prendeu os cabelos longos numa trança.
— Hamurabi convidou-nos para o desjejum. Não precisa ir.
— Se eu for, será para cortá-lo a garganta. Farei questão de bebê-lo o sangue em um de seus cálices de ouro — Ikki tornou entredentes.
— Não recomendado e é pouco higiênico. Melhor que fiques aqui. Retornarei logo e provavelmente partiremos hoje com os egípcios.
— Conseguiu convencê-los?
— Conseguirei. Enquanto isso descanse e não pense em vingança. Temos coisas maiores em jogo, jovem tamudaei — Asmita disse, deixando o quarto em direção ao castelo.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
— Estás… — Marin engoliu em seco. — Estás dizendo que devemos nos separar?
Aiolia andava pelo quarto, esfregando as mãos.
— Se serei o vizir, não posso ter uma esposa me distraindo, Marin. Não seria justo…
— Nunca foi exigido celibato dos vizires. O celibato do teu irmão foi um capricho do faraó e não uma exigência do cargo, e tu bem sabes disso, Aiolia. Se desejas me repudiar, é encontres melhor desculpa.
Aiolia voltou-se para a mulher, os olhos cheios de angústia.
— Deves compreender que não posso deixá-lo sozinho aos chacais. Não posso, Marin…
— Não é o que peço. Mas o que será de mim se me divorcio com tão pouco tempo de casamento? Ao menos espere um pouco — Marin suspirou entristecida. — Nunca esperei que foste me amar tão cedo, Aiolia. Nem sei se cheguei a cogitar que me amarias. Entretanto, se nossas famílias nos colocaram nesta posição, precisamos honrá-la o máximo que pudermos. Por isso… — ela o encarou. — Eu o livro de qualquer culpa que teu amor pelo príncipe possa causar. Jamais o acusaria publicamente de adultério.
— Está enganada, Marin. Não serei amante de Mu. Ele não merece tal desonra, eu só… desejo estar ao lado dele, protegê-lo.
— Esta também foi a desculpa do teu irmão?
— O que pensas? Acaso insinuas que Aioros e o faraó…? — Aiolia encarou a mulher, irritado. — Meu irmão jamais desrespeitaria uma promessa feita a nosso pai. Não insultes a memória dele com tais afirmações!
— Uma promessa? — Marin franziu o cenho.
— Nosso pai sabia do amor de Aioros por Saga. Ele implorou para que Aioros não desonrasse o nome da família tornando-se um… — riu sem humor, na verdade com muita angústia. — Meu pai falou muitas coisas duras naquela noite. Mas seu maior argumento foi a honra da família. O sangue de Leontópolis.
Marin guardou silêncio, imaginando a noite, as palavras, e entendendo por que havia tanta tristeza no olhar do grão-vizir. Ela não entendia tais questões. O Egito não condenava quaisquer modos de afeição, era verdade. Contudo, a falta de prole fazia com que as nobres famílias as evitassem e as considerassem inadequadas. Perpetuar o sangue era o mais importante e por isso uma relação que não desse frutos não podia ser bem vista entre os nobres. Marin entendia que o casamento entre ela e Aiolia era a tentativa desesperada do clã de Leontópolis de continuar a linhagem, já que o faraó jamais permitiria a união do amor da sua vida — isso toda a realeza comentava —com quem quer que fosse. Marin sempre considerou Saga Hórus um ser estranho. Sempre questionou em silêncio a sua divindade e depois de conhecer a história de Aioros, ela o julgava ainda mais cruel e egocêntrico.
— Enfim — Aiolia continuou. — Se meus planos se concretizarem, eu garantirei que não perderás nada. Logo estarás casada novamente e sairás de Leontópolis mais rica do que chegaste.
— Não é com bens que me preocupo, Aiolia — Marin murmurou e seus olhos castanhos pairaram sobre o esposo. — Em teus planos não teria lugar para mim? Não desejo retornar ao meu clã. Aceitei este casamento porque queria livrar-me do jugo de meu pai. Por favor, prometo que não serei inconveniente. Leve-me contigo para o castelo de faraó. Prometo ser uma devotada amiga.
Aiolia aproximou-se da esposa e levou a mão ao seu rosto.
— Mereces mais desta vida, Marin.
— Mereço construir o meu próprio destino, Aiolia. Leva-me contigo.
O jovem soldado sorriu. Não havia como negá-la. Além do mais, Marin era sagaz e inteligente. Com certeza a vida seria mais fácil com ela ao seu lado.
— Se assim desejas….
— Sim. E desejo mais uma coisa.
Aiolia ergueu uma sobrancelha.
— O que precisar — ele disse, mesmo meio desconfiado.
— Tu me farás um filho. Um filho com o sangue dos leões é a única coisa que garantirá que eu jamais volte para o meu clã.
— Será feito — Aiolia concordou.
Marin respirou fundo. Ela mesma faria o seu destino.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Asmita sentou-se ao lado do príncipe egípcio como convidado de honra, o que deixou Radamanthys intrigado, mas ele nada falou. Pensou que aquilo era mera provocação de Kanon. O general não tinha ciência das conspirações de Hades e suas relações com o dançarino do faraó. Para ele, Shaka era apenas um vaso de porcelana que Kanon desejava, não por afeto, mas porque o vaso pertencia ao seu irmão. Com isso, Radamanthys achava que Asmita era um mero substituto para os desejos do príncipe e não deu maior atenção ao fato, sentando-se no lado oposto aos dois.
— Sempre achei que Shaka tinha um quê de nobreza — Kanon comentou. — Diga-me, alteza, o que pretendes fazer ao chegar ao Egito?
Havia orgulho e desdém na voz de Kanon. O zoroastro farejava aquilo como um cão das ruínas. Contudo, conhecia o segredo para destruir sentimentos levianos como os dele. Asmita segurou uma caneca de suco de uva, cheirando antes de levar aos lábios.
— Dependerá do quanto está disposto a me ajudar, alteza. Quero resgatar o meu irmão a qualquer preço, e sei que não será fácil.
—Não será. Ele é o brinquedo favorito do faraó.
— E por que isso parece incomodá-lo tanto?
Kanon suspirou.
— Eu queria o brinquedo para mim. — O príncipe egípcio riu. — Agradeço por ter-me salvado a vida, mas não sei se posso ajudá-lo nisso. É perigoso desafiar meu irmão.
— Não pretendo desafiá-lo, alteza —Asmita esclareceu, mirando ao redor, percebendo uma conversa baixa entre o rei e seu sacerdote.
— E o que pretendes então?
— Uma negociação e, caso não tenha sucesso, um rapto. — Asmita tinha consciência de que se arriscava com Kanon, mas não tinha alternativas. Não conseguiria se aproximar de Shaka sem a ajuda dele.
Kanon riu.
— Nem negociação e muito menos rapto serão possíveis. Acredite quando digo que Saga é a pessoa mais teimosa do mundo.
— Ele ama meu irmão?
— Não. Mas ele o quer.
A mão pálida de Asmita cobriu a morena do príncipe egípcio e Kanon mirou-o, surpreso.
— O que mais deseja no mundo, alteza?
— O que quer dizer?
— Qual o teu maior desejo? Conta-me e faremos uma barganha. Eu te ajudo a conseguires o que desejas, tu me ajudas a salvar o meu irmão.
— E como poderias me dar o trono do Egito? — Kanon indagou, rindo.
— Tenho mais poder do que pareço. Se é o trono que desejas, terás o trono. Apenas leve-me até Shaka e ajude-me a salvá-lo.
Kanon ponderou naquelas palavras. Obviamente não acreditava nelas, afinal, de que forma um príncipe persa exilado poderia ajudá-lo a remover Saga do seu caminho? Todavia, algo martelava dentro de si, algo que dizia que seria uma vitória apenas conseguir tirar Shaka dos braços de Saga. E, ao mesmo tempo, algo lhe dizia que aquela empresa era maior do que ele sequer cogitava e que era seu destino fazer parte dela.
— Feito — ele apertou a mão pálida do zoroastro. — Eu o ajudarei. Irás comigo para o Egito. Instalar-te-ei longe do palácio, afinal, tua semelhança com Shaka o denunciaria.
— E o que faremos em seguida?
—Calma, persa. Depois que estivermos no Egito, eu o levo até o teu irmão e tu me dás o que preciso, apenas isso.
— Feito — Asmita sorriu.
Meia hora depois, ele se reunia com Aldebaran e Ikki, no quarto no fundo do templo.
— Partiremos essa noite no navio do príncipe. Uma parada na ilha de Lundi e daqui a alguns dias chegaremos ao Egito.
— Como conseguiu convencê-lo? — Aldebaran indagou, surpreso.
— Ele não conseguiu — Ikki antecipou-se. — Asmita blefou, e o egípcio sabe disso.
— Sim, mas estamos no barco — o persa sorriu. — Alegra-te, encontraremos a tua estrela.
Ikki, entretanto, era incapaz de sentir qualquer emoção. Estava seco como mil anos de estio. Seu corpo doía, sua vontade doía, e pela primeira vez em três anos, ele queria deitar-se e dormir eternamente. Era como se houvesse perdido um grande pedaço de si mesmo dentro daquele templo, e não tinha a ver com o que fizeram, mas com o que pressentira: talvez não pudesse salvar Shaka. Talvez ele estivesse perdido para sempre.
Os preparativos foram feitos. Era madrugada quando a barca partiu de Uruk em direção ao porto onde estava ancorado o navio egípcio. Ikki, Asmita e Aldebaran seguiam lado a lado. Era óbvio que o general que acompanhava Kanon não estava muito satisfeito com a presença deles. Todavia, não se manifestara.
Kanon havia dito a verdade a Radamanthys, mesmo que não toda a verdade. Dissera que Asmita tinha interesses em rever o irmão e que os outros dois eram meros mercenários que o protegiam. Asmita também fez questão que ele assim pensasse sobre Ikki e Aldebaran, pois sabia que um dos motivos para Kanon ajudá-lo era o seu interesse em Shaka. Incluir um amante devotado na barganha estragaria tudo.
Ao chegarem ao barco, Radamanthys informou onde Asmita deveria dormir numa cabine ao lado da de Kanon. Já os outros dois, deveriam dormir no porão como os escravos e serviçais. Nem o príncipe de Karna nem o da Saubeia reclamaram da decisão. Apenas acharam melhor observar o mar noturno enquanto o frio permitisse, pois logo seria dia.
— Sinto-o angustiado, meu amigo — Aldebaran comentou. — O que aconteceu naquele templo que tanto o afetou?
— Algo que quero esquecer, Aldebaran. Preciso me manter concentrado ou perderei essa guerra.
— Guerra?
Ikki respirou fundo e apoiou os braços na amurada do convés.
— Pensas acaso que conseguiremos resgatar Shaka sem derramamento de sangue? Tenho certeza que não. Ele é o favorito do faraó ao que parece.
Aldebaran guardou silêncio por um tempo, ouvindo as ondas baterem na madeira nova do navio egípcio.
— Ikki..., por algum momento já pensaste que este Shaka que dança no Egito para entreter faraó pode não ser mais aquele Shaka que foi a tua estrela? E se ele não quiser partir? E se ele estiver tão acostumado a essa vida de luxo que leva na corte do Egito, que já nem se lembre do jovem príncipe que amou na Arábia? Perdoe-me a dureza das palavras, meu amigo, e só os deuses sabem como o meu coração se aperta apenas por roubar-te a mínima esperança, mas... E se essa nossa viagem for em vão? Tu queres desafiar o homem mais poderoso do mundo por um amor que sabe os deuses se sobreviveu a tantas tristezas e tragédias. Temo por tuas emoções, amigo. Temo que a decepção o esfacele.
Ikki ficou calado por um longo tempo também. Sorriu com o canto dos lábios, pensativo. Tudo era negro em volta dos dois e a brisa marinha arranhava.
— Ele ainda me ama. Eu sinto. O que há entre mim e Shaka não pode ser comparado ao amor que os homens dizem sentir, meu amigo. Nunca foi. Nunca. Desde a primeira vez que o vi, eu sabia que se minha carne foi feita de alguma substância divina, foi a mesma substância com a qual os deuses fizeram a dele. Eu o trarei de volta. E se ele estiver quebrado, eu o consertarei, não importa o tempo que leve. Eu curarei todas as suas feridas e nunca mais deixarei que o firam novamente.
Aldebaran não replicou, apenas bateu no ombro do amigo e resolveu recolher-se. Era tarde. Os marinheiros já dormiam. Ikki ficou no convés mirando a madrugada que avançava e lembrando-se dos seus primeiros passos em busca de Shaka.
Depois que deixou Najah, ele voltou para a Arábia, precisava de alguma pista. Shyna havia dito que vendera Shaka aos maeditas, então Ikki se esforçou a encontrar todas as rotas maeditas de vendas de escravos. Zahira, a sacerdotisa de Al-Uzza, cuja vida fora poupada pelo relato final de Jamila na queda de Karna, contara a ele sobre as pérolas entregue a Shaka.
“São únicas. Encontre uma pérola vermelha, e saberás que ele passou por aquele lugar.” Ele seguiu a pista das pérolas vermelhas. Naquele meio tempo, Ikki aprendera mais coisas com Zahid. Outras línguas, outros jogos. Ele aprendeu a transitar nas sombras, a ser sutil para conseguir alcançar seus objetivos. E assim, Ikki chegou à velha estalagem onde encontrou uma pérola vermelha brilhando no pescoço de uma velha servidora.
“O garotinho bonito?! — ela perguntou com um olhar condoído. — Pobrezinho, ele me deu. Pediu-me ajuda, mas eu não podia fazer nada, ele era peça dos maeditas e deves saber como são os maeditas. Já faz tanto tempo, criança. Teu amigo deve estar morto, pobrezinho. Aquela raça ou mata ou vende.”
A mulher foi importante para que Ikki conseguisse rastrear os homens que levaram Shaka. Ele precisou fazer muitas perguntas e muitas ameaças, mas finalmente chegou até um dos compradores do persa, um homem grande e desagradável. Um maldito maedita.
Ikki foi direto. Deu as características de Shaka e informou que teria uma recompensa para qualquer um que desse informações sobre o paradeiro dele. Minotauro interessou-se e contou tudo. Apoiado pela cerveja abundante que bebia sozinho, já que Ikki não bebia nada, nem a menor gota, ele falou mais que o necessário, e terminou a noite estripado como um porco pela saif do árabe. Daquela vez, a crueldade do jovem tamudaei foi maior que a de todo seu clã, e ele retalhou o maedita. Cada corte era como se ouvisse os gritos de Shaka quando aquele desgraçado o estuprou. Ikki prendeu Minotauro da mesma forma que ele dissera haver prendido Shaka, suspenso pelos braços, e o dilacerou lentamente. Deixou que o homem visse os próprios intestinos pendurados, sangrando como um porco. Ikki estava mais que com raiva, era um misto de fúria desmedida e dor esfacelante. Ele precisava eliminá-la fazendo Minotauro sofrer como ninguém mereceria sofrer. E aquele homem sofreu muito antes de morrer.
Infelizmente, Ikki recordava-se, isso não aplacou sua dor. Ela estava silenciosa e guardada dentro de si, gritando contra as grades da frieza que ele havia construído com força e abstinências. O jovem tamudaei era abstêmio de qualquer felicidade. Jurara que só sentiria qualquer gota de alegria novamente, no momento em que Shaka estivesse consigo.
— Admirando a noite, mercenário? — a voz forte e sarcástica do príncipe egípcio se fez ouvir na escuridão. Ikki não soube bem o motivo, mas odiou a voz dele só de imaginá-la semelhante à voz do faraó.
— Uma das poucas coisas nesse mundo que são gratuitas, alteza — respondeu com o mesmo tom de autoridade de sempre. — Deverias dormir.
— Nunca fui de dormir muito. A noite sempre foi o melhor lugar para que Kanon Amon transitasse anônimo, como deveria ser.
— Não o compreendo.
—Tenho a mesma face do faraó, deus-na-Terra. Era desagradável para sacerdotes e conselheiros que me fizesse muito presente nos eventos sociais. Eu roubaria o brilho do deus, deveria permanecer nas sombras — Kanon riu. — Mas isso era bom, eu tinha uma liberdade que meu irmão nunca sonharia.
— Imagino que não foi fácil.
— Crescer na sombra de alguém? Não. Não foi. Ainda não é, mas tenho meus próprios planos de vida agora.
— E ele inclui trair seu irmão para ajudar o persa a resgatar o irmão? — Ikki tentou manter ao máximo a voz fria e desinteressada.
— Isso será um golpe e tanto na arrogância do deus Saga — Kanon riu.
— Saga…
— Saga Hórus, o deus na Terra. Esse é seu nome.
— Então o que desejas é punir o teu irmão?
— Não. Eu desejo apenas o que é dele.
Ikki sentiu os pelos da nuca eriçarem e controlou a respiração para não parecer alterado.
— O príncipe persa.
— Lá ele não é o príncipe persa, ele é o Presente do Oriente, o sacerdote de Háthor, presente dos deuses. É esse ser místico que quero, mercenário.
Os dedos de Ikki deslizaram sobre a saif presa à sua cintura.
— E o persa corresponde aos teus interesses?
Kanon riu.
— Shaka ama o poder. Ele não trocaria faraó por um mero príncipe sem grande poder político. Sem contar que ele não tem escolha, é um escravo, propriedade de Saga. Logo que chegou, ele tentou fugir e foi duramente punido.
Ikki fechou os olhos por um momento e segurou a amurada com as duas mãos, vencendo a vontade de decepar a cabeça daquele homem arrogante. Ele não sabia nada de Shaka, nada!
— Preciso dormir agora, alteza — ele disse, vencendo a raiva e angústia. — Creio que deva fazer o mesmo. — Afastou-se em direção aos dormitórios inferiores.
Kanon respirou fundo, uma linha amarela já aparecia no horizonte. Mirou o lampião que seguia aceso na cabine e viu o vulto de Radamanthys afastando-se da mesa de mapas. Ele devia estar discutindo com o capitão sobre as rotas. Kanon resolveu seguir para a sua própria cabine. Entrou e foi até a bolsa de couro e retirou o papiro kadin, a base da aliança entre os dois reinos. Hamurabi deixara ali uma carta, informando da ida do príncipe persa ao Egito e suas intenções. Kanon guardaria bem aquela carta. Saga nada deveria saber sobre Asmita. Não por enquanto.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
A febre de Mu cedeu um pouco durante a madrugada. Os curandeiros haviam-lhe ministrado elixires milagrosos, e Shaka lhe velou o sono. Agora, o dia principiava a clarear, envolto em sombras negras, e o belo persa estava prostrado ao lado do leito do jovem príncipe. Não sabia o que pensar, o que faria dali em diante e o que poderia fazer para evitar-se um destino terrível. Havia pensado em tudo que podia, a ponto da sua cabeça doer e não parecia haver saída. Seria capaz de convencer Hades? Teria se tornado tão ardiloso a ponto de enganar um necromante? Não. Não confiava nisso. Porém, era o rei do tabuleiro e não poderia ficar ali prostrado para o resto da vida. Precisava agir de alguma forma.
Ergueu-se do lado de Mu e pediu para que um servo o cuidasse. Shaka tinha algo em mente, fugir. Não podia ficar, não podia ser uma vítima da vingança de Hades, e só havia uma pessoa agora que poderia ajudá-lo nisso. Com tais pensamentos, ele rumou para a alcova de Nerfertari. A rainha já estava acordada e andava de um lado a outro, nervosa como sempre.
— Shaka! Que bom que vieste! Como está Mu? Eu… Eu não desejo o mal daquela criança. Pensam que sou um monstro, mas não sou! Eu o amo, mesmo com tudo, eu o amo! Ele é uma vítima! Uma vítima das maldades dos homens, como eu! Como eu!
Shaka percebeu que a mulher não apenas estava angustiada, ela também estava bêbada.
— Eu sei, minha soberana — Shaka falou, segurando as mãos angustiadas da mulher. — O que posso fazer para aliviar-te a tristeza esta noite?
A mulher aproximou-se dele e deixou cair o robe, deixando o corpo alvo e nu encostar-se ao dele.
— Dai-me prazer. Deita-te comigo como deita-te com Saga. Ama-me como amas Saga. Por favor, Shaka, por favor…
A expressão do escravo foi de derrota e também resignação. Ele tomou-a nos braços e segurando-a pelo queixo, beijou-a com toda a vontade que sua angústia e necessidade mandavam. Shaka também aprendera a fingir, a fingir ser o amante mais apaixonado, a excitar-se com pensamentos, ideias, a forçar seu corpo a querer aquilo que Tudo em sua alma desprezava. Ele conseguia desassociar corpo, mente e espírito, simplesmente porque precisava. E era assim que príncipe persa conseguia suportar os gemidos, o suor e os fluidos de Nerfertari enquanto seu corpo entrava no dela, língua, dedos, falo. E foi assim que ele chegou a apreciar o orgasmo dela, o contorcer do corpo bonito, a entrega daquela mulher carente e abjeta.
Nerfertari aninhou-se no peito pálido do dançarino e acariciou sua barriga bonita.
— Toda vez que estás aqui comigo, eu louvo Saga por tê-lo trazido ao Egito. Não conseguiria suportar a vida sem esse carinho fugidio…
— Poderias ter outros amantes, minha soberana — Shaka comentou, a mente pensando nos próximos passos.
— Não. Seria arriscado. Tenho por amante porque és um escravo…
— Há outros escravos.
— Tu és escravo de Saga. Sei que posso contar com teu silêncio e, em verdade, é-me prazeroso enganar o esposo que me despreza — ela confessou, deixando o ressentimento sair em sua voz. — Caso Aioros aceitasse o assédio do deus-na-terra e este pedisse minha desonra, Saga não pensaria duas vezes em me atirar aos leões. — Riu com o trocadilho implícito naquela declaração. — Deves temer Aioros, Shaka.
— Aioros só se interessa em prejudicar aqueles que prejudicam o deus. Eu sou insignificante, minha soberana. — Shaka procurava uma forma mais apropriada de abordar Nerfertari.
— Se ele soubesse então tudo que fiz... Mandar-me-ia executar.
— Não foram coisas são ruins, minha soberana. — Shaka beijou os cabelos castanhos da mulher. — E se eu pudesse, eu a protegeria.
Nerfertari riu.
— Ninguém poderá me proteger da ira de faraó se ele descobrir que eu deixei subir ao trono uma prole que não possui o sangue dos deuses.
Shaka arregalou os olhos e precisou conter-se para não demonstrar a sua surpresa.
— Mu?
— Nunca te pareceu estranho que houvéssemos tido apenas um filho? Nunca pude conceber. Mu nunca foi um filho, foi um propósito. Não podia ser repudiada por não conceber. Meus pais tiveram que agir. Ainda assim, eu tenho a obrigação de proteger essa criança que usurpei da verdadeira mãe em uma terra estrangeira. Não posso deixá-lo sofrer! Pobre Mu!
A mulher caiu em prantos, e Shaka a acalentou, completamente atento às suas palavras e reações.
— Como aconteceu, minha querida? — ele indagou com suavidade, os dedos acariciando lentamente a pele macia do rosto da mulher.
— Meus pais queriam que eu concebesse com urgência. Temiam que a falta de uma prole que confirmasse a união desse lugar a dúvidas da minha escolha. Deves saber que Pandora estava na fila, ansiosa para se tornar a puta do irmão!
Shaka respondeu com um movimento, atento a cada sílaba, porém pensando em quanto o destino era triste para as mulheres e em como seu destino sempre esteve amarrado aos delas: peças para uso, artimanhas e barganhas, nada mais.
— Eu não consegui conceber, embora eles houvessem posto duas crianças para copular como animais, trancados por dias! — Nerfertari fungou, eram lembranças terríveis. — Eu chorava tanto. Saga chorava tanto... Éramos dois infelizes dentro daquele quarto cercado de luxo. Veio a espera, confirmou-se a minha não gravidez e tudo se repetiu. E repetiu-se durante meses, até que eles... Bem, eles utilizaram o irmão de Saga, mas também não aconteceu. Então meus mais desistiram do sangue real e vieram outros... Outros dos quais nem vi o rosto. Tanto eu quanto os homens usávamos máscaras. Eles não podiam saber que aquela prostituta imberbe era a rainha do Egito. E como eu sofri até que eles percebessem que o problema era meu... Nunca pude conceber.
Shaka fechou os olhos com força. Ainda não estava imune, ainda havia empatia nele, mas o belo persa trancou-a. Estava ali por um propósito e não para se apiedar de Nerfertari.
— E como Mu nasceu, minha senhora?
— Meus pais pensaram em algo e me fizeram anunciar a gravidez que nunca existiu. Nessa época, ainda havia desavenças entre Egito e Babilônia, meu pai era porta-voz do faraó e fizemos uma longa viagem para a Mesopotâmia e arredores. Acabamos parando num pequeno reino, a cidade mais linda que já vi. Como embaixadores do Egito, meus pais foram recebidos pelo rei e sua bela rainha...
Shaka respirou fundo.
— Como era essa linda rainha? — Foi com muito esforço que manteve a voz firme.
— Parecida contigo tanto em beleza quanto em alegria! — Nerfertari riu. — Cabelos e olhos claros, pele alva, brilhante como o sol!
Shaka sentia o coração acelerar a cada palavra daquela mulher. Uma lágrima desceu por seu rosto e ele a afastou rapidamente com o nó do indicador.
— O que aconteceu nessa cidade?
— Minha mãe falou sobre o problema, e a rainha presenteou-a com um lindo bebê recém-nascido — Nerfertari sorriu. — A coisa mais linda que eu já havia visto, parecia um pedacinho de algodão de olhos verdes e cabelos claros. Eu sabia que aquilo estava errado, Shaka. Onde estaria a mãe daquele bebê? O que fizeram dela?
“Eu sei o que fizeram dela...”, Shaka murmurou para si mesmo, sentindo um desespero enorme agora.
— Esse bebê foi apresentado a Saga como seu filho. Mas nunca foi. Nem dele e nem meu. Essa história, contudo, nunca existiu, Shaka. Nunca. Se soubessem... Não apenas eu estaria condenada, Mu, também.
— Que história, minha soberana?
Nerfertari sorriu e ergueu-se do peito do rapaz.
— Podes partir. Venhas amanhã novamente.
— Virei.
Shaka havia temporariamente se esquecido dos seus planos. Limpou-se, vestiu-se e saiu ainda mais perturbado do quarto da rainha. Voltou para o quarto de Mu. O príncipe ainda dormia e tinha febre. Ele sentou-se à sua cabeceira, apoiou a cabeça dele em suas pernas e chorou, chorou muito enquanto afagava os cabelos do irmão.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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