Notas iniciais
Boa noite, queridos leitores! Devido ao pouco tempo não respondi os comentários do capítulo anterior ainda, mas prometo fazer isso em breve. Já agradeço com antecedência a todos que comentaram lá. Perdoem possíveis erros pelo texto, não foi betado. Boa leitura a todos! Sion

Inimigo prometido

Capítulo XXX

Saga e Aioros passaram a noite no deserto. Dormiriam sob a tenda de um caridoso beduíno, que jamais imaginaria que aquele viajante ao qual abrigava era o grande faraó.

Aioros analisava por seus conhecimentos astronômicos que estavam perto de Men-nefer, um dia no máximo. Não demorava à vida dos dois voltar ao normal e o idílio vivido na vila de pescadores ser esquecido. Precisavam esquecer, a propósito, pois ele sabia que romances e amores não cabiam na vida de homens como eles. Aioros orgulhava-se de ser um homem de palavra. Prometera ao seu pai, prometera ao antigo faraó e prometera a si mesmo que cuidaria não só de Saga como do Egito. Saga pensava que sua recusa em lhe ser amante se devia apenas à promessa e ameaça de maldição. Mas na verdade, ela se devia a duas coisas essenciais: seu dever e a sua falta de confiança no homem que amava. Infeliz que fosse, Saga nunca lhe inspirou a confiança necessária. Devido a isso, Aioros sabia que a sua nação precisava dele. Talvez, ainda que arrogante, sim, mais dele que do faraó.

Quando o dia despontava entre as dunas, o grão-vizir já estava de pé e vestido, mirando o horizonte. Saga o abraçou pela cintura e beijou-o no ombro, fazendo Aioros suspirar.

— Melhor seguirmos enquanto ainda está fresco — o faraó comentou. — Estou louco por um banho e cerveja.

— Saga, não sabemos o que está acontecendo. Já estamos há muito tempo distantes. Precisamos ser cautelosos. O Egito deve estar agitado nesse momento. Tu estás morto. Isso significa que a ascensão de Mu está sendo preparada.

— Não me preocupo com isso, Aioros. Sabe o que realmente precisamos? Precisamos fazer uma parada numa pequena vila. Dançar um pouco, beber um pouco, ser feliz um pouco — faraó sorriu. — Depois voltamos às velhas obrigações. Tu voltarás às velhas obrigações, não é verdade?

Aioros calou-se, apenas levou a mão aos cabelos castanhos.

— Não sei o que nos espera, Saga. Talvez precises mais do grão-vizir que do amigo...

— Preciso do amigo que sempre esteve ao meu lado, e mais que isso, da pessoa que amo...

— Saga...

— Aioros, achas que consegues viver a vida inteira assim?

— Estou conseguindo há quase vinte anos, por que não?

— Eu cansei de ser infeliz.

Aioros virou-se nos braços de Saga e levou a mão ao queixo dele, segurando com carinho.

— Está mesmo disposto a arriscar tudo para viver ao meu lado? Será que isso não é de um egoísmo muito grande, Saga? Meu clã...

— Eu nunca entendi essa história do teu clã, Aioros. Não seria uma honra para Leontópolis ter um filho que governa ao lado do deus na terra? O que seria maior que isso, uma promessa feita ao teu pai e agouros de velhos tão depravados quanto prostitutas?

Aioros riu, revirando os olhos.

— Não me importa o deus na terra, Saga. É isso que não consegues entender. Meu amigo de infância, meu amor da juventude, não era o deus na terra... Há muito não vejo o Saga que conheci. Mudaste, e me assustas às vezes.

— O Saga que conheceste?

— O Saga que conheci seria incapaz de escravizar um garoto para satisfazer seus prazeres — Aioros deixou escapar com amargura. — Quando levaste Shaka para o teu quarto, aquilo...— Engoliu em seco a ojeriza que aquela história lhe causava. — Ali eu soube que não eras mais o meu Saga... Quando trouxeste um menino da Babilônia, um garoto visivelmente infeliz e intimidado... Estás por demais afastado do homem que amei.

Saga apartou os braços dele, para encará-lo. Aioros afastou-se, desviando o olhar.

— Quem me afastou, Aioros? Quem me forçou a ser tudo que eu não queria simplesmente por que não era forte o suficiente para me amar e contrariar o pai? Quem me ajudou a ser um parvo desalmado que tenho sido até hoje?!

— Não é tão simples.

— Nunca me deste uma explicação plausível para isso. Teu pai pediu no leito de morte. Certo, mas por que ele pediria isso? Por que pediria para ficar longe de mim?

—A linhagem. A profecia sobre o meu clã...

— Isso não é justificativa! E mesmo que a preocupação fosse a linhagem, tens um irmão.

Aioros riu.

— Um irmão que ama teu filho, Saga. Parece que o sangue dos deuses é a maldição da minha família.

— Cuidado com as palavras, vizir.

— Ah, pensei que aqui não fossemos vizir e faraó! — Aioros replicou com ironia.

Saga respirou fundo, tentando acalmar-se.

— Eu não o impediria de ter tua prole. Tive as minhas.

— Mas tu me impediste.

— Quando desejou de fato casar-te, Aioros? — Saga o encarou, irritado. — Chega de mentiras entre nós. Eu preciso de ti, não sei mais viver sem ti. Já disse, se for para viver aquela mentira, desisto de voltar, dou-me como morto, é o mesmo! Acusas-me por ter trazido Shaka, mas eu sei o que fizeste, Aioros, sei o que fazes na escuridão da noite.

Aioros empalideceu.

— Do que estás falando?

— Sei das tuas visitas as casas de prazeres. Não adiantou tua discrição, Aioros. Nada escapa aos olhos do faraó. Não és tão santo quanto tentas aparentar.

— Mandaste me espionar?! — Aioros o encarou, revoltado.

— Era o rei, tenho esse direito.

— Ainda és o rei!

— Eu não quero ser o rei! Não quero ser o monstro! Cometer as monstruosidades das quais me acusas!

Aioros respirou fundo, afastando-se de Saga e andando um pouco à sua frente pensando. Depois voltou a se aproximar dele.

— Saga — Aioros segurou o rosto do outro entre as mãos. — Como podes ser tão egoísta?! Eu nada sou diante da tua grandeza, será que não compreendes isso?! Eu nasci para servi-lo, não o contrário. Tu não podes ter o homem que ama e ser o deus na terra ao mesmo tempo. Mas nasceste deus na terra, renegar isso é renegar o que és.

—Eu renegaria até a última gota de sangue divino por ti, Aioros. Apenas diga que podemos. Deve haver uma possibilidade.

— Eu não posso dizer isso. Nosso destino está traçado, Saga.

Saga deixou que toda a dor e decepção se estampasse em seus olhos verdes.

— Estás convicto disso? Aioros, pelos deuses, é a última vez que irei implorar por teu amor, a última! Não sou o monstro e nem o ser imoral do qual falas. Shaka foi um presente ao Egito, bens sabes disso. Mas reconheço que meu envolvimento com um escravo não é digno de quem sou, por mais sagrado que seja tal escravo. Eu o deixarei. Deixarei que ele vá. Basta que me dês uma única palavra. Basta que me dês o teu consentimento.

Aioros estremeceu. Queria gritar que o amava, que o amava tão loucamente que precisava fazer aquilo. Ele gostaria de desdenhar dos deuses e profecias, mas não podia. Não podia arriscar que tudo ruísse.

— Saga..., quando da tua ascensão, algo terrível me foi profetizado. Não posso ser a queda da minha casa. Por Rá, entenda. Há interesses políticos e vinganças pessoais envolvidas nisso. Não poderia ocupar a tua cama e a toga de grão-vizir ao mesmo tempo.

—E viverás temeroso de uma profecia?

— A profecia foi interpretada pelo melhor dos sacerdotes. Não há dúvidas... E há o compromisso. Do compromisso não posso fugir.

Saga calou-se. Percebia que nunca conseguiria vencer o medo de Aioros. Contudo, as acusações do vizir e amigo lhe causavam grande comoção. Saga estava voltando para o Egito, mas não pretendia ser o antigo faraó. Não pretendia ser uma criança, um garoto mimado, um fantoche das tradições. Já que ele era o deus na terra, ele faria as coisas diferentes dali em diante.

— Venceste, Aioros — declarou, encarando o outro. — Não insistirei mais. Voltarei a Men-nefer e serei o soberano que o Egito merece. Eu prometo. Nunca mais dar-te-ei a chance de te envergonhares dos meus atos, meu amigo.

Aioros sentiu um frio na espinha com aquela declaração. De certa forma, conhecendo bem o faraó, ele sabia que a partir dali, Saga deixaria para trás tudo que de algum jeito o impediu de ser o grande soberano que o Egito merecia. O amigo estava mudando durante aquela aventura de quase-morte. Saga parecia ver o mundo de forma totalmente distinta agora, o que era positivo e ao mesmo tempo assustador. Há muito tempo Aioros gostaria de ver tal mudança operar no amigo. Embora a própria vida de faraó a negasse. O egolatrismo da função não permitia que Saga visse o mundo com olhos que não fossem de um deus, mas agora, naqueles dias que passaram como pessoas comuns, não existia mais o deus na terra, só um rei querendo o melhor para o seu povo.

Mudanças viriam, mudanças profundas no Egito. Aioros o conhecia muito bem. Esperava apenas que suas decisões não impactassem de maneira negativa na vida de seu povo.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Shaka não dormiu. Mu tinha febre, e ele não confiou seus cuidados a um servo. O remorso martelava em seu coração, mas ainda assim, ele pensava que havia perdido sua única oportunidade devido aos seus sentimentos. Entretanto, Shaka agora se perguntava se Hades, que foi capaz de um plano tão vil para ter o trono, cumpriria mesmo com a palavra de libertá-lo. Se ele, como faraó, arriscar-se-ia às maldições dos sacerdotes ao livrar-se do Presente do Oriente, do homem que trouxe de volta às moções do Nilo e a chuva. Talvez, ter chegado ao Egito naquele momento crucial e infeliz tenha selado o seu destino para sempre. Shaka, Saga, Hades, sabiam que a chuva não chegou por causa de um escravo ganhado de presente do rei da Babilônia, mas isso pouco importava para um povo ignorante que acreditava em presságios e milagres. De todo modo, Shaka sabia que era sua culpa, unicamente sua culpa, estar ali, aprisionado. Culpa por ter cedido aos sentimentos de ódio e vingança...

Apenas três dias após o enterro de Krishna, a Babilônia viveria a grande festa de Ishtar. A tapeçaria estava pronta, todo um cenário grandioso com cores e fogo, pronto para impressionar o faraó.

Shaka dançou para ele. Ele havia pensado e se preparado durante três dias. Três dias para se tornar o ser mais sedutor, manipulador e cobiçado da Babilônia. Não foi difícil. Alimentado pela sede de vingança, ele praticou todas as lições com afinco.

Shaka dançou de uma forma que deixou o faraó completamente apaixonado. Seu corpo era como uma serpente que hipnotizava. Ishtar dançou em sua cintura, quadril e braços. A deusa deu a sua benção.

A festa continuava no grande salão real quando Shaka foi conduzido pelos guardas de Hamurabi para a praça superior do castelo, mais exatamente para o aposento de honra em que estava o grande faraó. Era um local magnífico que possuía uma grande piscina, chão de pedra polida e branca e várias árvores e plantas decorativas. Um dos jardins mais belo do palácio.

O assinu foi deixado no meio do cômodo e a guarda saiu fechando o grande portão. Shaka estava visivelmente nervoso, mas resoluto. Nunca permitiria que Misty, depois do que fez, fosse para o Egito e desfrutasse das mordomias de um deus, como lhe dissera Afrodite. Não. Misty pagaria pelo que fez, pagaria da forma mais abjeta que Shaka pudesse pensar, e ele pensava em várias. Uma única noite foi capaz de transformar o menino de Najah mais profundamente que três longos anos. A morte de Krishna foi capaz de destruir todas as suas ilusões, sua fé e sua pureza.

Naquele momento, Shaka usava apenas a calça folgada branca, cinto ritualístico púrpura, incrustrado de joias. O rosto exibia pinturas negras, símbolos da deusa, um desenho de coruja sobre os olhos que formava uma máscara negra e salientava todo o azul do olhar de Shaka. Os braços também estavam pintados, delicadamente desenhados. Seus cabelos estavam soltos e despenteados devido aos movimentos da dança e a pintura que usava nos olhos um tanto borrada. Mas ainda assim, Saga o achou muito mais lindo que no salão real. Muito mais lindo que todos os outros que dançaram aquela noite, e muito mais belo que todos e todas do Egito.

O faraó estava sentando sob a imensa cama com dossel colorido que ficava atrás da grande piscina de pedra e mirava-o atentamente. Percebeu que ele era muito jovem. Saga não gostava dos tão jovens, era verdade, mas aquele menino tinha algo especial, especial demais, e era um presente. Não se recusa um presente.

— Aproxima-te. — Faraó ordenou, e Shaka foi até ele de forma lenta e segura. — Despe-te. — Ordenou novamente, e Shaka começou a desfazer os nós que prendiam a calça e o cinto em seu corpo até que ela caiu por inteira o desnudando.

— Não és um eunuco — Saga pareceu estranhar isso. A castração de escravos para as funções dos templos era recorrente tanto na Babilônia quanto no Egito. Contudo, ele sabia que dependendo da idade, alguns sacerdotes evitavam tal ato, preferindo outros recursos para tornar os prostitutos rituais mais atrativos, a pouca idade era um desses recursos.

— Isso importa? — Shaka indagou, altivo, tentando não se mostrar envergonhado por estar nu diante daquele homem. Ele chorava por dentro, gritava, mas a sua expressão era inabalável e calma. Precisava de todo o seu autocontrole, de toda a sua inteligência, de toda a sua fé.

O faraó examinava o rapaz, focando-se em sua genitália. Não estava acostumado a se deitar com “homens inteiros”. Fizera isso na juventude, na verdade, com a única pessoa que amou. Mas agora, ele era o faraó e seu desejo, o desejo que sentia e não podia expressar, derramava-se em corpos menos dignos, em corpos que eram meros instrumentos de prazer. Ele percebia que o corpo do jovem assinu era delgado e delicado, mas não objetivamente feminil. De certa forma, aquilo tornava aquele escravo ainda mais fascinante.

— Venhas até mim. — Faraó exigiu, e Shaka se aproximou mais com as mãos cruzadas de frente ao corpo nu numa atitude de defesa.

O faraó mirava-o sério e altivo e ele sentiu medo. Possuía muito medo, embora não demonstrasse. Ainda doía a violência com que fora tratado pelo maedita, ele ainda tinha pesadelos com aquilo e não queria ser violado novamente. Todavia, Shaka tinha um propósito.

O corpo do persa estremeceu quando os dedos frios do faraó lhe tocaram a barriga firme.

— És virgem? — Saga indagou, deslizando os dígitos sobre a pele quente e macia.

— Não — respondeu Shaka e fechou os olhos com força.

Saga desceu os dedos até a virilha aureolada por macios e parcos fios loiros.

— Não possuis muitos pelos... Como remove-os para que a pele fique tão lisa? — Faraó parecia curioso como alguém examinando um animal raro.

— Máscara de leite e mel quente... — murmurou Shaka sem olhar para o homem que o tocava. Sentia-se tentado a correr dali.

— Tu és lindo, menino. Nem mesmo os deuses possuem tamanha beleza. — Saga se ergueu e deixou o longo manto negro que usava cair, revelando seu corpo másculo completamente nu.

Shaka estremeceu quando os dedos do faraó puxaram seu rosto para cima e seus olhos se encontraram. Foi a primeira vez que ele recebeu aquele olhar. Os olhos verdes e intensos de Saga Hórus lhe pareceram ter um quê de loucura e dor. Contudo, Shaka estava muito assustado para analisar isso naquele dia. Ele só queria que acabasse logo.

— O senhor irá me machucar? — A pergunta foi u murmúrio apavorado e trêmulo.

— Não... — Saga murmurou de volta e desceu os lábios sobre a pele macia do rosto do jovem, deslizando-os por suas pálpebras, nariz e bochechas. — Se me for fiel, eu o cobrirei de ouro e honras...

Shaka ainda não entendia muito bem o que significava aquela fidelidade, mas fez o que Afrodite mandou.

— Prometo ser um fiel servo, grande faraó — ele repetiu mecanicamente.

Saga sorriu e o puxou para si num ímpeto, fazendo o corpo alvo e firme se chocar contra seus músculos. A boca do faraó encaixou-se no pescoço delgado do assinu, sugando a pele macia, vendo logo surgir manchas avermelhadas. Shaka jogou a cabeça para o lado e gemeu, mesmo sem vontade, como Afrodite lhe ensinara. O faraó lhe afagava o corpo delicadamente, enquanto o puxava para a cama.

Não houve atenções, mas Saga sabia ser delicado. Shaka foi virado de bruços na cama e seus quadris foram erguidos pela mão forte de Saga. Ele molhou os dedos na pasta perfumada que estava ao lado da cama e enfiou um de cada vez dentro do jovem sacerdote. Shaka estremeceu e mordeu os lábios sentindo um leve incomodo. Mas o calor do óleo e o vaivém dos dedos do faraó que iam fundo em si começou a excitá-lo. Sentiu-se envergonhado e cobriu a boca com a mão para evitar gemidos e soluços. Não choraria. Não mais choraria. Ele prometera. Seu corpo era um traidor. Foi o que Shaka pensou por estar sentindo prazer com aquilo, mas resolveu seguir o que Afrodite dissera. Moveu o quadril ao ritmo dos dígitos do outro. Se tinha que fazer aquilo, que fosse indolor, que fosse prazeroso. Mas o prazer do corpo não apagava a dor da alma.

O faraó sentiu-se inflamar e inclinou-se sobre ele, lambendo e mordiscando as nádegas, lambendo o vão entre elas, retirando os dedos.

— Vira-te — ordenou, e Shaka o obedeceu.

Saga gemeu só ao mirar a face e os lábios rubros do jovem loiro. Lindo! Perfeitamente, lindo!

— Chupe — voltou a demandar ficando de joelhos na cama.

Shaka sentiu-se enjoado, mas não era o momento de retroceder. Ele respirou fundo e se inclinou, levando a boca pequena até o grande e duro sexo do faraó. O faraó gemeu e segurou-lhe os cabelos forçando-o e o empurrando contra sua dolorida ereção. A garganta de Shaka se fechou em reclamação quando o membro inteiro entrou por seus lábios e a agrediu. Saga o empurrava com força. Lágrimas de esforço escaparam pelos olhos de Shaka e ele quis fugir, mas não pôde. O faraó só o soltou quando quis, quando estava à beira do orgasmo. Não havia preocupações e nem piedade.

— Vira-te... — murmurou Saga, ofegante, e mais uma vez Shaka o obedeceu, pondo-se de bruços e tentando esconder as lágrimas de ultraje. Ele prometeu que não choraria mais, contudo estava doendo muito. Aquele momento doía em sua alma.

Apesar da preparação, ele gemeu quando o sexo do rei entrou em seu corpo. A dor era física e emocional. Ele tentava conter todas as dores. Pensar que aquilo tinha um objetivo. Mordia tanto os lábios que eles sangravam.

Shaka respirou fundo, ofegou e controlou-se. Precisava daquilo, aquilo era um meio. Lembrou-se do que Afrodite lhe disse antes daquele encontro; “Voe. Liberte sua mente. Leve-a para outro lugar”. Ele então pensou em Ikki. Pensou nos momentos que passou com ele e que passariam juntos quando voltassem a se encontrar.

“Quando nos encontrarmos novamente, vamos morar num palácio próximo ao mar... Eu, tu, Jamila e nosso irmãozinho. Teremos milho e damasco em nossas plantações... E sairemos pela manhã para colher tâmaras das palmeiras do Oásis... E faremos amor todos os dias sob a luz da lua... Como na noite de nossa fuga... Eu te amo tanto. Eu sei que estaremos juntos novamente. Eu vou sobreviver porque te prometi...”

As lágrimas caíam à medida que seu corpo ia para frente e para trás com o impacto das estocadas do faraó. Até que o soberano do Egito chegou ao cume do seu prazer, enchendo-o com o seu sêmen. Shaka estremeceu e deixou-se cair na cama perfumada, tendo Saga que respirava ofegante às suas costas.

Permaneceram em silêncio até a respiração se normalizar. Quando Saga rolou para o lado, Shaka tratou de se erguer e tentar alcançar sua calça, mas o soberano segurou-lhe o braço.

— Para aonde vais? — Ele indagou confuso.

— Não posso sair? — O assinu perguntou, enxugando o rosto.

— Se o machuquei, sinto muito — Saga falou e havia certa tristeza em sua voz.

— Não, senhor — Shaka murmurou, mas os soluços rompiam seu peito. Ele tentava controlar-se ao máximo. Ele precisava.

Insolitamente, o faraó o puxou para os braços e o confortou. Shaka percebeu que ele também se sentia triste e confuso, embora não entendesse o motivo; embora não se importasse.

— Posso ir? — Shaka insistiu. Não queria ficar com ele. Sentia-se triste, ultrajado, enojado.

— Para aonde vais? — insistiu o faraó.

— Para os meus aposent...

— Teus aposentos agora são os meus. Foste dado a mim por Hamurabi. Não precisas voltar mais para o templo, partirás comigo para o Egito. Eu o quero, jovem.

Shaka já sabia daquilo, mas não esperava que o grande rei o quisesse com ele àquela noite.

— Sim, senhor — Ele apenas respondeu e deitou a cabeça no ombro do faraó. Shaka mordia o punho fechado para que nenhum soluço escapasse da sua garganta. Ele precisava ser forte. Ser forte mais uma vez.

— Qual o teu nome, menino? — Indagou o faraó tocando-lhe os cabelos.

— Shaka... — ele murmurou.

— Pois bem, Shaka. Peças-me o que quiser essa noite e eu te darei. Foste dado a mim como um presente. Mas hoje, por teres dançado de maneira tão bela e por me proporcionar uma noite de prazer depois de tanto tempo e tantas dores, o que pedires será teu.

Shaka afastou-se abruptamente para encarar os olhos verdes do homem mais poderoso do mundo. Seus olhos azuis eram joias que brilhavam de ansiedade.

O faraó sorriu complacente, realmente estava encantando pela aquela criança.

— Peças.

E foi ali que tempos depois, Shaka reconheceria que havia desgraçado o que restara da sua vida. Tendo a chance de pedir por sua liberdade, ele foi vencido pelo ódio e a cegueira da vingança e fez o pedido errado.

— Quero que o senhor solicite a Hamurabi que venda Misty, um assinu do templo, para o prostíbulo mais vil, degradado e violento, no lugar mais seco e remoto da terra! Eu quero que ele sofra como nenhum outro homem sofreu nessa vida!

Saga surpreendeu-se com uma sentença tão perversa vindo de lábios tão doces.

— O que fez ele?

— Ele matou meu melhor amigo. Alguém que era como um pai para mim.

— Hamurabi sabe disso?

— Não. O sumo sacerdote não deixou que eu contasse a verdade ao rei. — Naquele momento, Shaka não pensou que poderia estar prejudicando Afrodite. Ele não pensou em nada e nem em ninguém, ele apenas queria se vingar de Misty, queria que ele sofresse mais ainda do que ele sofria.

Saga suspirou. Não gostava de colaborar com vinganças, mas a palavra de um faraó jamais voltaria atrás e ele considerava aquela uma vingança justa.

— Será feito.

Na manhã seguinte, Shaka deixou os aposentos do faraó e voltou para os seus no templo de Ishtar onde tomou um banho demorado, cuidado e satisfeito. Vestiu-se com suas vestes mais belas, uma longa túnica e uma calças negra, decoradas com fios de ouro, um presente de Hamurabi para o presente do faraó. Depois disso, Shaka arrumou suas poucas coisas e pegou o punhal que lhe fora dado de presente por Krishna. Ele mirou o objeto por um tempo, vendo as inscrições que havia no cabo, numa linguagem antiga. “Mais forte que a espada é o coração...”

“Agora estás com os teus ancestrais. E com a tua filha, meu amigo. Obrigado por tudo, senhor Krishna”. Shaka pensou e deixou o quarto com o punhal em mãos, indo para o grande salão onde os assinus reuniam-se pela manhã.

Assim que entrou, ele foi aplaudido pelos companheiros, mas Shaka não estava preocupado com isso, procurou Misty com os olhos e encontrou o garoto visivelmente abatido e com uma cara de quem havia chorado muito, sentado próximo a estátua da deusa.

— O que tu queres?! — indagou Misty quando Shaka se aproximou. — Foste tu o escolhido, deixa-me em paz! Desejo que todas as maldições recaiam sobre ti no Egito!

Shaka percebeu que ele já havia sido punido por Afrodite. Mesmo vestido na túnica branca, era possível ver marcas de açoite nos ombros do jovem. Contudo, aquelas marcas passariam...

— Não há perdão para o que fizeste, Misty — os olhos de Shaka brilhavam com uma crueldade nunca antes vista ou sentida. — E eu não o perdoarei.

— O que farás? Se me matas, serás morto em seguida. Ninguém pode matar um animal pertencente a Hamurabi. No mais é isso que somos, Shaka, tu e eu! Meros animais de estimação para entreter e ser fodidos! Apenas isso! Não és melhor que eu, príncipe de Najah!

— Eu sei disso. Concordo. Somos meros pertences. Fui dado de presente ao faraó, Misty. Eu não queria isso. Eu daria sem sombra de dúvida esse direito a ti se assim eu o pudesse. Mas isso foi antes do que fizeste. Para o que fizeste não há perdão...

— E o que quer então? Espezinhar-me? Divertir-te com a minha desgraça?! — As lágrimas banhavam os olhos de Misty. — Que as almas penadas o guiem, Shaka, por zombar de mim!

— Misty, hoje eu ouvi falar da Ilha Mathires, lugar de agonia na terra. Dizem que lá só existem minas e arenas de luta em que homens se matam como animais. — Shaka falava muito suavemente. — É para lá que serás enviado. Eu pedi pessoalmente a faraó que fizesse isso. Ele o comprou de Hamurabi só para realizar o meu desejo. Eu irei para a riqueza do Egito com aquele homem bonito e poderoso. Tu irás para o pior lugar do mundo. E tudo isso é culpa sua.

— Maldito! Eu o matarei! — Misty se ergueu, mas Shaka foi mais rápido. Segurou o belo rapaz pelo pescoço e o empurrou contra uma parede, sufocando-o.

— Eu não o matarei, Misty, porque teu castigo será pior que a morte —Shaka continuou com a mesma suavidade na voz, sussurrando muito próximo ao rosto do rapaz. — Mas deixarei algo que sempre o lembrará do que me fizeste e de quem eu sou. Se a beleza é nossa maldição, eu o libertarei dela. — Nisso, Shaka puxou o punhal e cortou profundamente o rosto de Misty desde a fronte até o queixo, sob os gritos desesperado do rapaz. O sangue rapidamente cobriu o rosto do belo assinu e suas vestes, respingando no ariano quando ele finalmente soltou Misty, que caiu ao chão gritando com o rosto ensanguentado. — Caso nos encontremos novamente nessa vida, saiba que eu o matarei sem nenhuma piedade. — Shaka completou, afastando-se.

Assinus e assinatus corriam e gritavam para ajudar Misty que gemia e chorava com a mão no rosto.

— O que fizeste? — Afrodite acabava de entrar no salão e interpelava Shaka.

— Fiz o que tu me ensinaste, mestre. Direcionei a minha raiva para coisas úteis.

Shaka limpou o punhal no lenço que puxou dos ombros do sumo sacerdote, jogando o tecido no chão em seguida. Passou por Afrodite e seguiu o seu caminho em direção aos aposentos do faraó.

No dia seguinte, o pedido de Shaka seria realizado. Ele seguiu para o Egito envolto em uma capa incrustrada de todos os tipos de pedras preciosas, e Misty desapareceria para sempre. No momento que o navio real chegou ao porto do grande reino, a chuva desabou sobre a terra do Nilo e trouxe as moções tão necessárias. Aquilo selou o seu destino.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

— Defteros... Defteros...

A voz suave o chamou e ele abriu os olhos sonolentos. Piscou confuso, reconhecendo aquele rosto, mesmo que ele estivesse envolto nas trevas. Ele ainda estava no deserto. Dentro da tenda utilizada para passar a noite enquanto vagava. Ainda não sabia para onde iria, qual o caminho a tomar, queria apenas fugir da sua vida, esquecer-se de tudo e de si mesmo. Mas agora alguém o chamava com uma voz muito suave e conhecida.

— Quem és tu? ... — Defteros perguntou na quase total escuridão, erguendo a mão para tocar o rosto macio da pessoa a sua frente.

Ele só conseguia ver a silhueta.

— Precisas voltar, Defteros. Teu destino não é por esse caminho. O teu destino está chegando. Não fujas dele...

— Quem és tu, como me encontraste?

— Eu sempre o encontro. Não importa quanto tempo passe. Eu sempre o encontro.

O coração do jovem egípcio bateu forte no peito, era uma sensação de dor e reconhecimento. Ele conseguia ver os momentos, as lutas, sentir acontecimentos antigos como se eles estivessem ali.

— Venhas me encontrar...

— Quem és?! Quem és?!

— Venhas me encontrar...

Estava escuro quando ele abriu os olhos. Escuro demais. Não conseguia ver nenhuma silhueta. Não conseguia ver nada. Tudo era muito escuro ali. A fogueira do lado de fora da tenda mostrava chamas tímidas e por isso ele saiu e as atiçou. Cobria-se por uma pesada manta, pois o frio era intenso.

O vento soprava a areia com fúria. O camelo cochilava ao lado da tenda, exausto. A solidão era grandiosa e necessária para ele. Estava cansado do próprio sangue. Do próprio estigma. Só queria ser outra pessoa. Não o irmão bastardo do faraó. Precisava ser Defteros.

Uma luz fraca brilhou na escuridão do deserto e ele apurou a visão. Era um ponto vermelho perdido num vendaval de areia. Defteros pegou um pedaço de madeira incandescente e fez sinal, acenando. Poderia ser viajantes perdidos, pessoas feridas, e seu bom coração falou mais alto naquele momento. Estava a ponto de acordar o camelo para seguir o ponto de luz quando percebeu que ele estava se aproximando. Não estava tão longe, a chama que alguém erguia é que estava se extinguindo.

Os viajantes tentaram andar com todas as forças das suas pernas, mas depois de um dia de caminhada, as forças que tinham eram poucas. Chegaram a pensar que aquele seria o fim, perdidos no deserto, até ver aquela chama se movimentando adiante. Estavam com tanto frio, que tremiam, o que dificultava a caminhada.

Defteros foi até os homens quando percebeu que eles se movimentavam com dificuldade. Ajudou-os, levando-os até perto da fogueira e cedendo a sua manta, não se importando com o frio que fazia. Pegou um bule com chá e o segurou com um graveto sobre o fogo para que o líquido aquecesse um pouco, depois encheu uma cuia, oferecendo o líquido quente aos viajantes.

— Obrigado. Obrigado.

Um dos homens disse, bebendo o líquido e passando para o outro. Defteros conhecia aquela voz. Pegou novamente a madeira feita de archote e direcionou suas chamas, clareando o rosto dos homens à sua frente. Era visível que eles estavam debilitados, queimados de sol, mas eram eles.

— Aioros? Saga?! — Ele exclamou, chocado. Caiu de joelho diante deles, rindo, perplexo e emocionado. — Estão vivos! Pelos deuses!

— Defteros?! — Saga chocou-se, mas abraçou o meio-irmão. — O que faz aqui, no deserto? Não responda! Os deuses devem tê-lo enviado, meu irmão!

Defteros não respondeu. Abraçou-o de volta. O sonho então seria aquilo? Ele teria que retornar a Men-nefer? Quem ele deveria encontrar? Saga e Aioros? Não. Sabia que não. Havia alguém mais. Alguém mais. Seu coração sentia que esse encontro seria breve.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Já era quase dia quando Mu finalmente abriu os olhos. Ainda estava febril, mas com certeza livre da poção. Seu corpo inteiro doía e ele sentia uma náusea insuportável, mas estava lúcido.

— Shaka? O que aconteceu? — O príncipe murmurou, confuso.

— Foste envenenado. Mas vais ficar bem — Shaka disse, sentando a beira do leito do mais jovem. — Não te preocupes com nada, apenas descansa.

Mu voltou a fechar os olhos. Shaka beijou-o na testa e se ergueu. Deu algumas instruções para os servos e deixou o quarto. Estava exausto.

O corredor estava escurecido. Já era muito tarde e por isso alguns escravos apagaram a maior parte dos archotes, deixando apenas alguns poucos acesos. Shaka andava devagar, observando com atenção o ambiente. Pressentia o perigo, era como se pudesse pisar em serpentes a qualquer momento. Tentava ser o mesmo homem destemido de sempre, mas não conseguia. Suspirou. O sol sempre nascia. Havia sempre uma possibilidade, embora Shaka ficasse cada vez mais vazio e desesperançado, ele tentava pensar que haveria uma saída. O sol sempre nascia.

Adentrou os seus aposentos e mirou o dia que clareava. Pedia aos deuses que o protegessem, que lhe dessem um futuro.

— Presente do Oriente...

Ele ouviu a voz grave e zombeteira e virou-se, sobressaltado. Saído das sombras, um homem com vestes de general aproximou-se dele.

Shaka o reconheceu e deu um passo para trás. Pensava em um único motivo para aquele homem está ali: Hades o enviara para matá-lo.

— Não precisas gritar. Não vim matá-lo — Aspros pareceu ler os pensamentos dele. — Hades me pediu para te perguntar o que houve, já que seria suspeito se ele viesse ter contigo, depois de tudo que aconteceu ao jovem-faraó.

— Eu não sei o que deu errado. Creio que o general Sirius...

— Não. O general Sirius chegou ao jardim bem depois. Quando os mercenários já fugiam. Alguém deu o alarme. Tu.

Shaka não soube o que responder. Suava frio e seus olhos recaíam na espada que Aspros levava ao lado do corpo. Ele não conseguiria lutar com um general bem treinado.

— Seria fácil matá-lo agora e dizer que descobrimos que foste tu quem introduziste os criminosos no castelo. Um escravo é sempre suspeito. Eles sempre odeiam seus senhores...

— Não fiz isso e sabes muito bem. Se queres me matar, faça logo — Shaka disse, resignado. Não tinha mais forças para lutar. Não tinha mais vontade de permanecer vivo. Parecia que finalmente estava derrotado.

Aspros riu.

— Já disse que não vim fazer isso. Eu até o admiro. Mostras muita coragem e esperteza. Conseguiste enganar Hades...

— Eu não o enganei.

— Podes dizer o que quiser. O que sei, é que Hades está muito irritado contigo. A partir daqui, Presente do Oriente, acho melhor escolher novos aliados.

— Pensei que fosses aliado dele — Shaka franziu a testa, confuso.

— Eu faço o melhor papel, mas na verdade sou aliado de mim mesmo e de mais ninguém. Serias um aliado valoroso, mesmo que eu não possa confiar em ti.

— O que queres dizer?

— Graças a ti, Mu ascenderá ao trono. Pretendo garantir que ele não deixe uma prole, assim, o filho de Pandora entrará na linha de sucessão. Não creio que o meu amado sobrinho terá um reinado longo, tu o protejas ou não.

Shaka arrepiou-se, sentindo algo gelado no peito.

— Derramarias o sangue...

Aspros deixou escapar um riso desdenhoso.

— Acreditas mesmo nessas coisas de poder dos deuses, deus na terra e sangue sagrado? Diga-me, em tua terra também não eras considerado sagrado? Príncipe da degradada Najah, senhores da Ária, deuses? Sim, pequena pérola do Oriente, eu sei tudo que preciso sobre ti. E sei que teu sangue, sagrado para o teu povo, não impediu que hoje estivesses aqui, como um mero escravo prostituído por homens mais fortes do que és. Isso não me alegra, creia. Vivi vendo minha mãe ser execrada por egípcios e não carrego nenhum amor ao sangue de faraó que tenho nas veias. O que quero de verdade? Vingança. Quero que o Egito reconheça que eu e meu irmão, filhos da velha puta do faraó, são os únicos dignos de prosseguir a linhagem.

— Tu falaste do filho de Pandora... — Shaka principiava a entender tudo.

Aspros sorriu.

— Tu és inteligente.

Ele passou por Shaka, caminhando para a saída da alcova.

— Se me ajudares, garanto que sairás daqui sem nenhum arranhão. Se me atrapalhares, estarás por tua conta, contra Hades.

Aspros deixou os aposentos do escravo. Respirou fundo, sabendo quão arriscado era aquele jogo engendrado por ele e Pandora. Contudo, precisava de aliados. O escravo era um grande aliado contra Hades, e Shaka estava apavorado, o que era ótimo dentro das circunstâncias.

Deixou o castelo pelas câmaras subterrânea, chegando algum tempo depois ao palacete de Hades, entrando pelo subterrâneo deste em direção à alcova do hóspede do governador. Fora muito importante descobri-lo. Fora muito importante tê-lo como aliado.

Aspros entrou no quarto, o homem muito magro e com uma aparência doentia o mirou. Tudo nele cheirava a degradação e doença, mas os olhos brilhavam com intensidade por trás do lenço que lhe cobria o resto do rosto.

— Conseguiste convencê-lo? — Ele indagou, ansioso.

— Ele está pensando sobre isso. Duvido que consiga dormir.

— Temos um acordo, general. Quando tiveres o que queres, ele será meu. Apenas eu poderei pôr as mãos nele.

— Sempre cumpro os meus acordos. As tuas informações sobre o escravo foram muito valiosas. Não te preocupes.

O homem agitou-se, ajeitou o capuz sobre os cabelos claros e descuidados.

— Preciso sair desse subsolo. Coloque-me em lugar melhor. Lugar que seja mais fácil restabelecer a minha saúde. Preciso de sol, boa comida e cuidados.

— Hades desconfiaria.

— Não me importa. Eu não interesso mais a Hades. Leve-me se quiser o meu auxílio. Chame-me médicos ou não suportarei.

— Será feito. Tenho um bom lugar onde podes ficar e ser cuidado. Hades não saberá onde estarás. Dar-te-ei roupas novas e uma peruca.

— Nenhuma peruca esconderá isso... — o homem afastou o lenço, mostrando o rosto desfigurado por uma enorme cicatriz.

Aspros sorriu, dando de ombro.

— Uma máscara de ouro?

— Providencie.

— Certo. Vamos. — Ele pediu que o homem o acompanhasse para fora das masmorras secretas de Hades. — A propósito, qual o teu nome?

— No passado, no passado, quando fui tão belo quanto as estrelas no céu, chamavam-me de Misty. Mas hoje, chame-me apenas de Lagarto.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Notas finais
Preciso esclarecer que a demora do reencontro entre os protagonistas segue a trama. Preciso organizar alguns acontecimentos antes disso acontecer, mas vai acontecer hahahaha, não temam! Beijos a todos e obrigada sempre pelo carinho!