A serpente e a estrela
32 Tal qual um libelú do deserto brilha no lodo
Notas iniciais
Tal qual um libelú do deserto brilha no lodo
Capítulo XXXI
A viagem era longa. As águas caudalosas e hostis. Vítima de uma tempestade, a barca que levava Ikki e seus companheiros ao Egito precisou ancorar antes da chegada a Lundi. O jovem tripulante árabe estava ansioso e andava de um lado a outro sob a chuva. Falava sozinho, ponderava o que deveria fazer quando pisasse o solo do Egito, pois disso ele não tinha dúvidas: pisaria a terra egípcia e recuperaria o que era seu.
De uma das cabines, protegidos da chuva, Kanon e Radamanthys o observavam, curiosos.
— Parece um homem louco — disse o general. — Por que o trouxe?
Kanon sorriu com o canto dos lábios.
— Esse rapaz é precioso. Não pode imaginar quantas terras ele atravessou para chegar até nós.
— Não entendo por que um mercenário árabe quisesse chegar a nós — Radamanthys continuou afastando-se da janela e pegando mais uma taça do vinho que já bebia com Kanon há algumas horas.
— Tudo a seu tempo, general — o príncipe retrucou. — Também tenho os meus mistérios, mas tenha certa das minhas palavras.
— Mistérios demais, alteza — resmungou o militar.
— É o que te atrai?
Radamanthys soltou um risinho debochado, deixando que a mão livre puxasse o príncipe pela cintura de encontro ao seu corpo.
— Não é o seu mistério que me atrai com certeza.
— E o que é então? — A voz de Kanon não era menos debochada.
— É apenas... — o general sussurrou, mordendo o queixo do príncipe. — Essa petulância... que me faz ter vontade de... fodê-lo... até que me implore por piedade...
Kanon soltou uma gargalhada, divertido.
— Isso é uma ameaça ou uma promessa, general? Piedade? Se me foder direito, sabe que a única coisa a qual pedirei é por mais, não é?
— Então comece a implorar —Radamanthys tomou os lábios do príncipe com ardor, guiando-o em direção ao leito.
Fora da cabine, raios e trovões tornavam a noite assustadora, mas Ikki não se assustava com eles, ao contrário, desafiava-os, indagando aos deuses os motivos dos seus infortúnios.
— Ikki!
A voz de Asmita pareceu baixa na tempestade. Ele estava parado no meio do convés. Ikki o encarou quando um trovão mais forte o tornou visível.
— Voltes para a tua cabine, feiticeiro! — ele ordenou, dando as costas ao outro. Mirar Asmita naquele momento era insuportável. Ikki sentia que alguma coisa estava acontecendo a Shaka, sentia que ele nunca esteve em tamanho perigo e essa angústia o enlouquecia.
— Voltarei assim que deixares esta tempestade. Queres a caso chegar doente ao Egito? Que auxílio poderias dar a Shaka, assim? — o zoroastro ralhou. — Peço mais uma vez, imploro, que não te entregues ao desespero. Estamos próximos, muito próximos.
— Eu sei. Mas será que estamos próximos a ponto de salvá-lo? Sinto-o envolvido por víboras.
— Eu também sinto — Asmita havia se aproximado mais e tocava agora o braço do árabe, arrastando-o para a cabine. Ikki não mostrou resistência. — No entanto, Shaka é forte, ele é a própria força. Ele saberá se proteger até que cheguemos. Até que o salvemos.
— Ele é tão inocente...
— Ikki — Asmita travou a porta da cabine depois que eles entraram e acendeu as lamparinas —, não esperes que Shaka seja aquele garoto inocente que conheceste em Najah. Ele já não será aquilo. Ele agora é um homem que tenta sobreviver do jeito que for preciso, e isso deixará marcas. Prepara-te para possíveis desencantos.
— Eu nunca desencantarei dele, Asmita. Já disse, se ele estiver quebrado, ferido, distorcido de tudo que um dia foi, eu irei consertá-lo. Posso consertá-lo durante todos os dias da minha existência sem cansar até que os olhos dele voltam a brilhar da mesma forma que brilhavam quando ele me encarou em Najah e disse as palavras mais corajosas que já ouvi em minha vida.
— Que palavras foram essas? — Asmita mostrou-se curioso.
— Sou um homem. Ele estava de frente a um assassino, a um homem que havia acabado de tomar o seu castelo e assassinar o seu pai. Ele sabia que a única salvação para ele era fingir que era uma mulher, mentir, tentar enganar. E ele não titubeou em nenhum momento. Eu sei, Asmita. Sei que ele não será o menino que conheci em Najah. Mas sei também que ainda haverá dentro dele algo da força daquele menino. Eu sei, e eu passarei minha vida para ver aquele menino novamente, nem que seja minutos, segundos, antes da minha própria morte.
— Não é essa a tua missão, Haruk. — O zoroastro mirou o fogo, ele via apenas uma mancha branca tremulando, mas sentia o calor e a energia das salamandras. — Amá-lo, sim, e apenas isso. Preparas tua alma.
Ikki mirou a chama e sorriu.
— Já viste uma libelú do deserto?
— Não posso ver, Ikki, esquece-te?
— Mas percebes a luz. É um inseto minúsculo que habita as regiões mais inóspitas, onde nada cresce. Um lugar feio e hostil. Um lugar de sofrimento e escassez. Mas ele continua brilhando e, à noite, guia os viajantes com suas luzes. Shaka é como um libelú do deserto, Asmita.
Asmita sorriu também diante de tamanha esperança. Isso o aliviava. Significava que por mais preocupado que estivesse, aquele ainda era Ikki Haruk Kadar. O homem que persegue estrelas.
—Nunca, nem mesmo entre os homens mais sábios, vi tanta fé e amor. — Asmita assentiu com a cabeça. — Sim, Ikki, ele é. Shaka é capaz de continuar brilhando no lodo. Eu acredito.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
A cabeça de Mu ainda doía muito quando ele despertou. Era a manhã do seu segundo dia de convalescença e ele já se sentia bem e pôde banhar-se e comer.
Shaka esteve com ele por todo o tempo. Cuidava-lhe, mesmo que sua mente ainda estivesse presa na surpreendente visita de Aspros. Não sabia o que fazer naquele momento e isso era de extrema angústia para alguém tão metódico como ele. Sua mente estava em um estado de caos que não lhe permitia analisar com lucidez os últimos acontecimentos. Era preciso que Mu estivesse completamente recuperado para que isso acontecesse.
— Venhas, precisas comer. — Ele guiou o príncipe pelo braço e o alojou entre as almofadas de frente à esteira onde o desjejum já descansava.
— Não sinto fome — Mu recusou sem encarar o outro.
— Mas precisas para te recuperares totalmente — Shaka insistiu.
Os olhos verdes do príncipe, tão iguais ao da pessoa que lhe salvara a vida tantas vezes — pensou Shaka — miraram-no, fazendo-o estremecer.
— O que fizeste comigo, Shaka? — Mu indagou, muito sério. Muito mais sério do que algum dia ele foi durante suas conversas.
Shaka sentou-se ao lado dele com as pernas cruzadas e a cabeça baixa, os fios loiros caindo por seu rosto. Ficou assim por um tempo e depois os olhos azuis encararam o olhar esverdeado do outro com a mesma segurança e seriedade de sempre.
— Eu o envenenei, alteza. Fui eu. — As palavras foram duras e diretas. — Sinto-me preparado para a punição que quiseres me dar, qualquer que seja.
Mu ficou parado, mirando-o da mesma maneira firme de antes.
— Por quê?
— Prometeram-me a liberdade se o fizesse.
— Quem?
— Não direi para a tua própria proteção.
— Shaka, isso é sério...
— Eu mais que ninguém sei a seriedade disso, alteza. Sei que não escaparei vivo de tudo isso, a morte chegue por tua ordem ou não. Creia que o que estou tentando fazer é protegeste de toda essa lama que tomou conta do império desde que teu pai morreu. — Shaka suspirou e ajeitou os cabelos. — Espero que ordenes a minha execução.
— Eu não farei isso — Mu disse, desviando o olhar, embora a mágoa estivesse bem visível em suas atitudes e semblante. — Sei que te arrependeste no último momento. Lembro-me um pouco do que ocorreu, mesmo que estivesse preso em uma teia de ilusões, ainda sei que foste tu a me tirar do jardim e das mãos daqueles homens. Mas preciso que me digas quem fez aquilo comigo.
— Não posso. É um segredo que levarei para o túmulo. Não posso arriscar-te a vida novamente.
— Shaka, em breve serei faraó. Ninguém poderá me alcançar. Deixe-me destruir os traidores.
Shaka sorriu levemente.
— Se eu te contar, sei como isso termina: será a palavra de um escravo estrangeiro contra um egípcio de nobre linhagem. Um escravo que confessou envenenar o príncipe e que o levou até violadores mercenários. Um escravo que tem todos os motivos do mundo para odiar, e odeia!, a família real. Achas mesmo que estarei protegido? A única pessoa que será destruída nisso tudo sou eu, alteza. Então, caso não aceites o meu silêncio, executas-me.
Mu mordeu os lábios, os olhos repletos de lágrimas de dor e decepção.
— Aiolia esteve aqui?
— Sim. Várias e várias vezes. Mas tu ainda dormias. Ele deve retornar em breve. — Shaka respondeu.
—Vá para os teus aposentos e não saias até que eu ordene.
Shaka ergueu-se com um meio sorriso triste. O tom de voz de Mu foi tão semelhante ao de Saga, que partiu o seu coração, embora ele soubesse que era merecedor da mágoa e desprezo do irmão. Irmão. Mu nunca saberia disso. Eles nunca seriam mais que rei e servo. E era irônico! Talvez se estivessem em Najah, talvez se toda a tragédia e destruição não houvessem se abatido sobre a casa de Sohan, fosse o extremo contrário: Mu seria o servo, o filho da concubina. Shaka seria o príncipe, etéreo e inalcançável.
Voltou para o seu quarto, mirando as nuvens rosadas pelas lindas arcadas do castelo. Nuvens que prometiam mais um dia ensolarado em Men-nefer e mais um dia sombrio em sua vida.
A penumbra ainda cobria o quarto quando ele sentiu uma mão em seu ombro e seu corpo foi de encontro a parede de pedra...
— Olá, pequena víbora ardilosa... — A voz de Hades sibilou em seu ouvido. — Pensavas mesmo que eu não me vingaria de ti? — Hades prende-o pelo pescoço com o rosto contra a parede. — Foste capaz de trair a única pessoa que o viu como algo mais que um objeto. Isso me leva a crer que não passas de um escravo imundo. Eu o superestimei, Presente do Oriente.
— Eu não o traí! — Shaka mentiu. Mentiria o quanto fosse preciso. — Sirius! Ele descobriu, eu só me protegi! Acredite! Não seria tolo de desafiá-lo, de traí-lo! — Ele moveu-se, tentando livrar-se dos braços daquele homem. — Ainda posso ser útil, se...
— Cala-te! Sei bem onde podes seres útil — Hades riu. — Lembra-te de um lugar interessante chamado Ilha Mathires? Soube que há alguns anos mandaste um desafeto para lá. Pois bem, eu darei um jeito para que o teu destino seja esse.
— Não podes fazer tal coisa! Eu pertenço ao faraó!
— Ao faraó? Ao faraó que envenenaste e tentaste assassinar?
Hades virou o corpo de Shaka para que ele o mirasse.
— Esta é a única história possível, durrdana. E todos saberão...
— Eu direi a verdade — Shaka murmurou. — Posso não os convencer, mas ainda assim nenhum deles jamais confiará em ti novamente!
O rosto de Hades mostrou-se ainda mais encolerizado e ele levou a mão ao pescoço de Shaka, apertando-o.
— Não se eu o matar agora...
Shaka lutou contra as mãos que o prendiam, fazendo de tudo para fugir daquele agarre. Não era fácil para Hades subjugá-lo, mas ele acabou conseguindo em algum momento. Quando o dançarino já estava quase sem ar e a ponto de perder os sentidos, uma trombeta foi ouvida. Sobressaltado, Hades relaxou o agarre. Naquele momento, Shaka estava de costas no chão e o governador sobre o seu corpo.
— O que está acontecendo? — Hades disse para si, saindo de cima do escravo ao escutar barulho e correria; era a guarda Medjai que se movia pelos corredores.
Shaka permaneceu no chão, tossindo, buscando ar. Conseguiu arrastar-se e erguer-se, apoiando-se numa pilastra. Hades já havia saído pelo corredor para saber o que acontecia.
— O faraó! O faraó! — alguém gritava com visível euforia.
— O que tem o jovem príncipe? — Hades indagou, confuso.
— Não o jovem príncipe, senhor. O faraó! Saga Hórus, o deus na terra está de volta! Está vivo!
Shaka escutou aquilo e seu coração disparou no peito. Seria possível? De toda forma, ele não estava em condições de pensar direito. Saiu do quarto. Hades já havia acompanhado a guarda. Pessoas já se amontoavam no grande salão. Shaka era alto e podia ver o que acontecia, mas não conseguia se aproximar. O primeiro que ele avistou foi Aioros, ele estava visivelmente mais magro, queimado de sol, mas ainda possuía o olhar forte, decidido e o talhe de dignidade e energia. Depois ele viu Defteros, que parecia ao mesmo tempo feliz e incomodado. Por último, seus olhos recaíram em Saga. O faraó parecia abatido e infeliz, mas havia certa impaciência decidida em seu semblante.
— O que estão esperando? Leve-os para serem tratados! — Shaka vociferou, sua voz altiva saindo rouca, sua garganta doendo pela agressão, mas ele precisava ser firme, pensar rápido e se fazer perceber. Ele precisava de toda a sua força agora, e só os deuses que ele havia renegado saberiam de onde ele a tirava, pois nem mesmo ele saberia.
A guarda medjai, os sacerdotes e os nobres presentes voltaram-se para ele com um misto de surpresa, desprezo e dúvida.
Saga também o mirou. O faraó desvencilhou-se das filhas, das mulheres, dos primos e tios, e o encarou, dando alguns passos em sua direção.
Um corredor se abria à medida que Saga avançava. Shaka continuou parado, mirando-o, o peito nu subindo e descendo com a respiração difícil. Ele também deu alguns passos em direção ao faraó.
— Shaka... — Saga sussurrou.
— Meu senhor... — Shaka inclinou-se num cumprimento respeitoso.
O faraó o tomou pela mão, atraindo-o para si. Segurou-o pelos lados do rosto e o beijou com todo carinho e emoção que poderia. Todo o carinho e emoção que ele merecia. E pela primeira vez, Shaka o beijou porque queria, porque sentia. Sentia total alívio com a presença do rei. Sentia que havia uma chance de sobreviver a tudo aquilo. Naquele momento, Shaka poderia dizer que amou Saga. Amava-o e viveria eternamente ao lado dele, porque ele o manteria a salvo, ele apagaria toda a angústia, medo e dor da sua alma.
Aioros mirou aquilo, sabendo exatamente o que significava. Ficou em silêncio, mirando aquela cena bonita, estranha e chocante. Os outros também permaneciam calados, mirando o faraó e seu belo amante.
O grão-vizir tentou evitar que seus sentimentos nebulosos se agitassem naquele momento. Desviou o olhar, escondeu uma lágrima e ordenou:
— Voltem aos afazeres. Anunciem ao povo que o deus na terra está de volta e que comemoraremos o seu retorno. Peçam que tragam oferendas de agradecimento ao grande templo e saúdem o renascimento daquele que Rá escolheu. — Sua voz era segura e imperiosa, mas logo foi ele a se recolher aos seus aposentos e chorar sozinho. Sabia o que aconteceria dali para frente. Ele conhecia Saga muito bem. Ele era o amor da sua vida, sua alma gêmea. Mas ele também era um homem arrogante e perturbado. Um homem que acreditava ser um deus e um deus não aceita a rejeição.
Aioros mirou a sua alcova de vizir. A toga de leopardo pendurada ao lado da mesa na antessala. Respirou fundo. Era preciso continuar, mesmo que seu peito sangrasse todos os dias, horas e minutos. Ele não podia amar Saga. Ele sabia disso desde sempre. Por que o amava então? Por que os deuses o puniam com aquele amor amaldiçoado? A herança infeliz de Leontópolis: amar a casa real. Jamais poder romper os votos de servidão de seus ancestrais.
Outra pessoa que se retirou assim que Saga beijou Shaka foi Hades. Ele sabia que aquilo derrubava todos os seus planos. Parecia que tudo ruía ao seu redor e ele não encontrava uma saída. Precisava pensar, e não era ali que conseguiria. Voltou para o seu castelo e encontrou Pandora sentada ao lado de Aspros no jardim. Assim que o viram, ambos se ergueram.
— Soubemos da volta de Saga — a mulher disse. — O que faremos agora?
— Eu ainda não sei. Preciso de tempo para pensar, pensar bem! Preciso ficar sozinho! — Hades disse, mais que irritado, e saiu do jardim. Iria para o subsolo, era ali que ele gostava de ficar para traçar seus planos.
Pandora e Aspros trocaram olhares cúmplices. O militar aproximou-se dela e a segurou pela cintura, acariciando de leve o ventre volumoso da mulher.
— Isso é inesperado realmente... Pensei que Hades houvesse conseguido livrar-se dele.
— Nunca quis a morte de nosso irmão. Não assim. Saga pode não ser a melhor das pessoas, mas é nosso sangue. Ele é sagrado.
— Isso não impediu que se calasse — Os olhos de Aspros brilharam em sarcasmo.
— E o que eu poderia fazer? Hades é meu esposo. Se ele quisesse, matar-me-ia.
— Eu não permitiria. Precisamos pensar bem em como prosseguiremos agora, Pandora. Saga voltando, não temos mais o persa para nos ajudar.
— Talvez não... Ou talvez só precisemos pensar em um segundo plano.
— Qual?
— Ao que parece, o dançarino não quer ficar. Hades me contou histórias sobre ele. Podemos usá-lo ainda, só precisamos esperar o momento certo.
— Ainda não entendo bem como pretendia usá-lo?
— Pretendia usar o acesso que ele tinha a Mu. Agora, com a volta de Saga, ele é inútil, porque Saga voltou com Aioros e Aioros sempre foi a grande montanha entre meu irmão e seus inimigos. Entretanto, podemos encontrar outro papel para o persa. Shaka é inteligente e astuto, mas não passa de um escravo. É fácil manipular alguém em uma posição inferior.
— O que pretende? Que ele envenene Saga?
— Nunca. O sangue dos deuses não deve ser derramado, já disse! O que quero fazer é muito mais sutil e inteligente. O que quero fazer, ao contrário de Hades, deixará todos felizes, até mesmo esse persa para o qual não dou a mínima.
— Pandora...
— Eu sei que estou fazendo, Aspros. Todos ganharão e verão o quanto serei benevolente com o meu povo.
Aspros entreabriu os lábios, encarando a mulher com horror.
— Seu povo?
— Sim. Serei a esposa do faraó em breve, garanto-lhe — Pandora enlaçou-o pelo pescoço. — O trono será do nosso filho. Ele, o único na linha de sucessão.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Um banho cuidado foi preparado para o faraó. A pele castigada pelo sol foi tratada com pomadas feitas de mel e sais e seu corpo lavado por óleos e água morna. Os cabelos longos também foram cuidados com os sucos dos mais perfumados dos frutos, e quem cuidava desse processo era Shaka. Com uma esponja macia, ele cuidava de Saga dentro da imensa tina d’água, acariciando a pele cansada do faraó, massageando os músculos, devolvendo ao soberano a boa aparência de antes, como um deus renascido.
Recostado na banheira, Saga mirava o dançarino com satisfação. Ele era tão lindo! Aquela pele clara era tão macia, as mãos tão delicadas.
“O Saga que conheci seria incapaz de escravizar um garoto para a satisfação de seus prazeres.”
Saga segurou os pulsos de Shaka interrompendo a sua tarefa. O dançarino o mirou, sobressaltado e confuso.
— Shaka, pare um pouco, por favor.
— Se assim desejas, meu soberano — o persa deixaria a banheira, mas o faraó o segurou mais forte pelos pulsos, mantendo-o no lugar.
— Não, não quero que saias. Quero que fiques aqui comigo, que aproveites o banho comigo, e não que me sirvas.
Shaka assentiu com a cabeça, ainda sem entender. Na verdade, sua mente borbulhava em indagações e medo.
— Shaka... — Saga murmurou. — Sinto que é um grande peso para ti estar comigo. Já não devo mantê-lo aqui.
O coração de Shaka soltou no peito.
— O que isso significa, meu soberano? — Ele indagou com delicadeza. —Já não o satisfaço?
— Não é isso. Apenas é errado que eu o escravize. Eu... Eu preciso pedir perdão por... por tudo. Pela surra, por... — Saga respirou fundo.
— O deus na terra não deve pedir desculpas a um escravo. — Shaka tornou, a voz fria, dona de uma ausência de tudo.
Saga o mirou nos olhos.
— Tu és... uma pessoa, Shaka. Antes de seres um escravo.
Aquela afirmação foi tão estarrecedora, que Shaka, sempre tão hábil em manipular, se viu sem voz. Desde quando escravos eram... pessoas? Havia tanto tempo que ele não era uma pessoa, embora sempre estivesse cônscio de que fosse, que jamais ele esperaria ouvir tal coisa.
“Não sou uma simples peça, eu sou o rei no tabuleiro”.
— Não sou digno de tal condescendência, meu soberano. A única coisa que peço é que me mantenhas ao teu lado, a salvo. Que nunca permitas que me machuquem novamente.
Saga franziu as sobrancelhas, confuso, e então seus olhos recaíram nas marcas no pescoço de Shaka, deixadas pelas mãos de Hades. O soberano levou os dedos ao local, examinando-o com delicadeza.
— Quem? — Ele exigiu saber.
— Muitos. Muitos em tua ausência quiseram tomar aquilo que era teu. — Shaka mentiu, recuperando a fleuma.
— Ninguém o protegeu?! Ninguém? Nem Mu?
— Não culpe o jovem príncipe. Ele tinha problemas demais. Ele também foi vítima de muita violência.
— Meu filho?! Atentaram contra o meu filho?! — Saga mostrava-se cada vez mais agitado. — Shaka, pelos deuses, conte-me tudo. O que houve em minha ausência?
Shaka respirou aliviado internamente. Estava trêmulo, ansioso, mas sabia que agora tinha uma chance.
— Contar-lhe-ei, meu soberano. Prestes muita atenção, pois o que direi é toda a verdade, mesmo que outros digam o contrário.
Saga assentiu com a cabeça e Shaka contou a sua versão dos fatos. Tudo que acontecera desde o desaparecimento de faraó e grão-vizir. Depois, eles terminaram o banho, vestiram-se em roupões macios e foram para a cama. Enquanto isso, uma grande pira no templo de Rá iluminava a noite e anunciava a bem-aventurança da volta do deus na terra.
Saga afagava os cabelos dourados do cortesão, pensativo. Havia muito a fazer, muitas decisões tomadas.
—Shaka... Eu pretendo lhe conceder algo especial. Tua liberdade...
Shaka ergueu os olhos para Saga.
— Minha liberdade?
— Sim — Saga sorriu, sentando-se para mirar o jovem persa. — Reunir-me-ei pela manhã com os conselheiros e comunicarei muitas decisões. Dentre elas, a de que o sacerdote de Háthor está livre para partir do Egito se assim o quiser. Ou ficar, se assim o quiser.
— Eu não o interesso mais? — Shaka murmurou. Durante anos quis a liberdade e faria tudo por ela. Mas agora... Agora ele sabia que estaria morto antes de conseguir entrar na balsa mais miserável que o levasse à Mesopotâmia. Seria questão de tempo até Hades lhe pôr as mãos. Não escaparia do Egito. Estava amaldiçoado para sempre.
— Pensei que quisesses a liberdade mais que tudo, Shaka.
Shaka respirou fundo, resignado, afastou-se de Saga.
— Se não me desejas mais por perto, que seja feita a tua vontade, meu soberano. Peço a tua licença.
Shaka deu as costas ao faraó. Seu peito subia e descia em comoção. Estaria sozinho, completamente vulnerável e lutando contra homens mais fortes que ele. Como poderia escapar de um destino cruel demais dentre tantas crueldades que o destino já lhe lançara?
— Shaka, espere! — Saga ergueu-se da cama, comovido. — Perdoe-me, pensei que fosse o teu desejo.
— Meu desejo sempre foi estar ao teu lado, meu soberano.
O rei ergueu-se e aproximou-se dele, afagando-o os braços.
Shaka o encarou e sorriu fraco. O que importava? Saga era a menor das coisas que o machucavam. A sua sina era o sofrer. Não haveria dias bons para ele nesta vida.
— Ficas ao meu lado, Shaka. Sejas meu consorte. Sejas meu companheiro, meu príncipe. E eu juro, nunca nada de mal acontecerá a ti. Nunca mais eu o machucarei. Ninguém o machucará, prometo! — Saga disse condoído, mirando o rosto lindo do persa e rezando aos deuses que estivesse fazendo o certo.
Shaka sentiu uma lágrima descer por seu rosto e segurou a angústia que apertava o seu coração. “Mas eu já sou...”, sua mente ensaiou uma afirmação que ele sabia ser mentirosa. Não havia mais tempo. Tudo foi uma ilusão...
“Sobreviva”. O que ele podia fazer? Estava em perigo, exposto mais uma vez a toda a violência de homens poderosos. O que diria? Se dissesse não, estaria vulnerável a Hades. Se dissesse sim, ficaria inalcançável a qualquer homem do mundo... Ninguém mais o machucaria. Nunca mais seria um brinquedo, um joguete de homens e deuses.
Hesitou, o seu coração duvidava mais do que cria. Encarou os olhos do faraó.
— Eu aceito. Eu aceito! Serei teu, Saga, eternamente! Faça de mim teu príncipe.
Saga sorriu entre as lágrimas que banhavam seu rosto e o beijou, jurando a si mesmo que o protegeria e o amaria para sempre. Seu coração também sangrava. De fato, não era a Shaka a quem pertencia aquele lugar, mas já não havia esperanças. Sua esperança era ser um homem e um rei melhor do que um dia foi.
Beijou mil vezes os lábios, os cabelos, a pele, daquele que agora era o seu noivo e que seria seu amor, seu companheiro, não importava nada. Ele era o deus na terra, ele faria as leis e as desfaria se assim o quisesse, e ele seria melhor, prometera ser melhor para o seu reino, sua família, seus súditos, para todos. Seria um homem melhor para Shaka.
Era muito tarde quando Shaka deixou o quarto do faraó. Aquela seria a última vez que ocuparia a sua alcova no jardim norte do palácio. Mudar-se-ia para outro quarto, maior, mais luxuoso e mais próximo ao de Saga, no dia seguinte.
Nuvens rosas eram iluminadas pelos primeiros raios do sol. Ele parou para olhá-la. Não havia sentimentos nele, havia um profundo vazio, um abismo que parecia puxá-lo para a lama, para uma vida de torpezas maiores do que todas as que ele já havia passado, já havia cometido. Não havia esperança. Era o que ele precisava fazer. Para se manter vivo. Para sobreviver, mesmo que já não cresse naquela promessa.
“Eu irei encontrá-lo, não importa o tempo que passe! Eu o acharei e ficaremos juntos!”
Shaka levou a mão ao peito e soltou um grito mudo de dor. Suas últimas lágrimas de desilusão caíram como estrelas sobre a luxuosa sacada de pedra polida. Os deuses mentiram para ambos. Não poderia haver felicidade para aqueles que eram diferentes de tudo, nada no mundo, singulares. Eles foram como um lago fresco e fértil no deserto do mundo. A maldade e ganância dos homens os destruíram.
Mirou a semiescuridão da grande cidade. Pequenos pontos de luz eram vistos e mesmo em meio a toda desgraça da sua existência, Shaka sorriu para os vagalumes errantes. Almas como a sua que insistiam em brilhar em meio ao charco. Um sorriso molhado de lágrimas amargas.
A luz... Havia uma luz tênue ainda. Muito pequenina e frágil.
Ele precisava manter uma vela acesa.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Fale com o autor