A serpente e a estrela
33 O mais vil dos prostitutos
Notas iniciais
O mais vil dos prostitutos
XXXII capítulo
Na manhã seguinte, as trombetas soaram, e o faraó desfilou para o salão real onde ouviria os vizires, governadores e escribas. Sem a presença de Aioros, ele fez a primeira reunião com os servidores do reino após o seu retorno. Todos tinham muito a falar, mas Saga os deixou sem voz ao comunicar uma série de mudanças na administração do império. Sem pedir conselhos ou aceitar a interferência de sacerdotes, o faraó listou tudo que precisaria ser mudado dali em diante, determinou a reforma do palácio em Assuã, para onde deveria ir a sua família, exceto Mu, que permaneceria ao seu lado em Men-nefer, e fez a comunicação mais escandalosa: Shaka seria o seu consorte e ocuparia o lugar da grande esposa no palácio. Nerfertari partiria para Assuã com as demais mulheres, os homens da família permaneceriam em Men-nefer para cuidar da administração do reino.
— Meu soberano, isso é... Perdoe-me, mas... Os deuses não ficarão contentes com isso! — o sumo sacerdote dos hem-netjer ergueu-se, mas sob um olhar de Saga e um sutil movimento da guarda medjai voltou a cair de joelho. — Meu soberano, por favor, escute-me, as tradições...
— Falas de tradições comigo, velho? Eu que possuo o sangue das estrelas? O sangue primordial dos deuses? Algum de vós ousas desafiar os desígnios de faraó? Aquilo que ele ouviu do próprio Rá em sonho? Aquele que fala diretamente com a pira incandescente de Hórus? Aquele que recebeu o seu nome? — Saga ergueu-se e, do jeito que estava, trajado no manto de penas e nemés de cabeça de falcão, ele parecia o próprio Hórus e causava terror. — Quem aqui há de contrariar a vontade do deus na terra?
Todos os presentes levaram a testa ao solo em silenciosa submissão.
— Está feito.
O deus deixou o salão. Algumas horas depois, a trombeta convidava o povo para os novos informes.
Hades recebeu as novidades dias depois, quando o reino já se preparava para a grande festa. Sorriu, mesmo que aquela informação o incomodasse. Caso Shaka resolvesse dizer ao agora consorte o que tramara, sabia que seria executado. Todavia, o dançarino era muito cauteloso. Ele poderia ter dito ao príncipe a verdade. Não o fez. Com certeza tinha fortes razões para isso. Hades sabia que de alguma forma, Shaka o temia, e isso era muito importante nas novas conjecturas daquele reino. Ele tinha um poderoso trunfo contra o novo príncipe do Egito.
Com tais pensamentos fervendo em seus nervos, o governador foi ao encontro de alguém que há muito não visitava.
A grande esposa estava em seu quarto e resmungava, e maldizia a própria sorte, andando de um lado a outro, nervosa.
— Hades? O que fazes aqui? Vieste tripudiar da minha sina? Esperava isso da tua esposa, mas não de ti!
— Posso garantir que Pandora está tão chocada quanto eu mesmo, minha senhora, e que ambos queremos é prestar-te apoio e condolências.
Nerfertari respirou fundo.
— Saga voltou louco do deserto. O sol deve ter-lhe queimado a razão. Onde já se viu declarar um escravo estrangeiro como consorte? Não basta lhe ter chamado sagrado, vaso de Háthor e tantas outras alcunhas simplesmente inventadas para que ele pudesse foder um eunuco?! Mas os deuses hão de testemunhar tamanha ofensa! Eles hão de testemunhar a meu favor! Tanto fiz por esta casa, agora estou assim! Expulsa!
— Sim, minha senhora, os deuses não são cegos, e temo por faraó.
— Por faraó? Deverias temer por mim, pelo Egito! Faraó está louco!
— Não digas tal coisa, minha senhora. Não ofendas o deus. Lembra-te também que cometeste tuas falhas e que talvez pagues agora o mal do passado.
Os olhos claros de Nerfertari voltaram-se para o homem, assustada.
—Não houve falha em meu passado, governador. Se voltares a repetir tal coisa...
— Jamais repetirei, minha senhora. Mas peço que perdoes a falha de faraó, já que ninguém que anda pela terra é infalível, nem os deuses.
— O que vieste fazer aqui, Hades? — a voz da mulher tornou-se fria e cortante. — Não ouses pensar que acredito nessa história de condolências.
— Vim dizer que estou ao teu lado, minha senhora. Para o que for necessário. Para tudo o que for necessário.
— Não me envolverei em nenhuma tentativa de insurgência contra Saga, se é isso que pensavas. O que tinha que ser feito já foi feito.
— Não pretendo nenhuma insurgência, minha rainha. Apenas teu apoio no momento certo, afinal, eu a apoiei quando precisaste de mim.
Nerfertari calou-se, ciente da derrota.
— Apoio para o quê?
— Nada posso contra Saga, deus na terra. Quem desejo é o eunuco.
— Shaka? — Nerfertari surpreendeu-se. — O que um jovem escravo estrangeiro pode te interessar, Hades?
— Ele deve-me algo.
Nerfertari lambeu os lábios. Talvez, se conseguisse a companhia de Shaka, Assuã não se tornasse tão tediosa. Sabia que Saga não abriria mão dele, mas poderia tentar algo com o auxílio de Hades.
— Posso ajudaste, se me prometeres algo.
— O que desejas, minha senhora?
— Não quero que toques na vida de Shaka. Caso o retires do lado de Saga, entregue-o a mim.
— Será feito — Hades sorriu com maldade, consciente de que mentia.
—Estarei no palácio de Assuã. — Ela disse resignada e adentrou os seus aposentos.
O governador seguiu satisfeito. Ainda havia esperança. Ele ainda poderia vencer.
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الثعبان والنجم
Aioros chegou cedo ao seu gabinete. Estava cansado e por isso não usou o manto de pele de leopardo, apenas sentou-se na sua cadeira de pedra e respirou fundo, observando os papiros que foram deixados em um cesto, um em especial, no qual havia o selo do faraó. Passara o dia anterior descansado, recuperando as forças e pedira para que ninguém o perturbasse. Parecia que Saga havia concordado com isso. O que acontecia era que o grão-vizir estava completamente alheio às novas decisões do seu soberano e foi com grande espanto que ele leu o que continha naquele papiro: sua dispensa. Aioros havia sido sumariamente deposto do cargo de grão-vizir do reino. Ele estava perplexo.
Ergueu-se da sua confortável poltrona forrada por plumas de íbis e marchou até a sala de trabalho do faraó. Um suntuoso cômodo que antecedia os seus aposentos.
Aioros parou à porta e foi interpelado pelo general Sirius que o mirou respeitosamente como sempre, mas com certo pesar.
— O que está acontecendo? Deixe-me passar, Sirius — Aioros falou, nervoso.
— Ninguém pode falar com faraó em seu cômodo sem uma solicitação formal e antecipada, gr-... Digo, Aioros de Leontópolis.
Aioros deu um passo para trás. Sirius e todos os outros já sabiam da sua condição. Todos sabiam antes dele. O jovem vizir já esperava por algo, mas não esperava um golpe tão duro, tão radical.
— Dizes a faraó que eu exijo falar-lhe. Diga-lhe que por a grande Sekhmet, se ele não me atender agora, que nunca mais lembre meu nome sem que uma maldição caia sobre toda a sua casa!
Sirius e os guardas mostraram-se assustados. Nunca viram qualquer destempero de Aioros até aquele momento. Contudo, eles não tiveram muito tempo para pensar no que fazer, violentamente, o próprio faraó abriu a grande porta.
— O que está acontecendo aqui? Por que gritas, Aioros?
Aioros encarou Saga. Faraó nunca vira tanta mágoa e raiva no olhar do amigo.
— Deixem que entre, Sirius — Saga disse, dando as costas e voltando para o seu escritório.
Aioros o seguiu.
— Vingança? É assim que começas o teu novo reinado?
Saga o encarou muito sério.
— Vingança foi a última coisa na qual pensei, Aioros.
— Destituiu-me do cargo! O que pode ser mais humilhante a um vizir? — os olhos verdes de Aioros brilhavam de mágoa e raiva. —Como foste capaz de tal vileza, deus na terra?
O semblante de Saga não mudou, continuou sério e tranquilo.
— Tens a tua liberdade. Podes fazer o que desejares. Não estás mais preso a uma promessa e mais nenhum dever o prende a mim, meu amigo. Eu te restituo a liberdade. — Saga deu-lhe as costas, era difícil manter a fleuma ao mirar os olhos de Aioros. — Agora podes casaste, ter uma família, prosseguir com a linhagem de Leontópolis sem que meus ciúmes e egoísmos interfiram. Quero que sejas feliz. De toda a minha alma, Aioros, quero que sejas o mais feliz que qualquer homem pode ser nesta vida. Eu o liberto.
Aioros ficou sem palavras por um tempo, preso à própria dor e mágoa. Seus olhos marejaram e ele lutou ao máximo para não chorar.
— O que farás sem mim? Sabes que tens um reinado cercado de inimigos e sempre fui eu quem estive entre ti e eles.
Saga voltou a encará-lo, um sorriso amargo no canto dos lábios.
— Agora és tu quem estás sendo arrogante. Pensas que não sou capaz de seguir meu próprio destino, mas sou. Não preciso de ti como escudo, Aioros. Eu o queria comigo porque o amava, não por necessidade.
Aioros evitou que uma lágrima corresse por sua face e riu, incrédulo.
— O que significa isso, Saga? O que significa tudo isso?! Não acredito que estejas usando esse reino como um brinquedo de tabuleiro, eu não...!
— Shaka será meu consorte.
Um silêncio ensurdecedor caiu sobre os dois por um período longo demais. Aioros não conseguiu entender de imediato o que o outro declarou.
— Como?
— Eu lhe ofereci a liberdade, ele preferiu continuar ao meu lado. Mostrou-se digno de ser o meu príncipe e não meu escravo.
— Isso não é possível... — Aioros murmurou perplexo.
— Por que, Aioros? Será que sou tão repulsivo assim? — A mágoa foi coberta por um riso de sarcasmo.
— Shaka é um escravo, todo escravo quer a liberdade. Engana-te, Saga. Ele o trairá!
— Ele não me trairá. Ele preferiu a mim. E não posso ficar com ele em outros termos que não seja tornando-o como uma das minhas esposas. Não em meu novo reinado, como tu bem lembraste. Faremos a corrida matrimonial amanhã. Faremos uma grande festa e ele dançará e encantará todo o reino. Isso mostrará ao povo que a escolha do faraó foi divina e perfeita.
— Exibirás o persa como um troféu, um presente! Como a primeira vez que ele pisou em Kemet! O que há de nobre nisso? Shaka ainda é para ti um animal exótico, nada mais!
— Estás enganado. Eu exibi-lo-ei como o novo príncipe do grande império egípcio, como o príncipe que de fato ele é. E o povo o amará como eu o amo! O povo o amará porque ele me ama!
Aioros assentiu com a cabeça, derrotado. Seu peito doía como nunca doeu na vida, nem mesmo quando Saga desposou Nerfertari. Naquela época, aquilo foi feito pelo bem do Egito. Agora, não haveria nenhum bem naquela decisão. Agora, Aioros só conseguia enxergar desmandos de um homem egoísta. Contudo, o ex-grão-vizir calou-se e sorriu com sarcasmo; era a única coisa que lhe restava.
—Salve o novo rei — Aioros disse e então deu as costas e saiu do gabinete do faraó.
Saga respirou fundo, passou as mãos no rosto, retirou o nemés, jogando-o em algum canto e voltou para o quarto. Shaka o esperava. Ele sorriu ao ver o dançarino. Shaka usava uma calça verde e uma joia sobre os cabelos. Jovem, lindo, inteligente. Era tudo que Saga precisava para seguir em frente, para ser um homem e um rei melhor. Seu peito sangrava por um amor impossível e nunca realizado, mas ele tinha esperanças de que os dias vindouros fossem melhores.
— Ele já se foi? — o jovem persa perguntou.
O rei aproximou-se dele e tomou-lhe o rosto entre as mãos, beijando-o delicadamente.
— Sim. Ele se foi. Ele se foi.
Shaka sorriu e o beijou profundamente, abraçando o corpo forte do seu rei. Saga agora era tudo que queria, tudo que precisava e tudo que amava.
Saga o ergueu pelas pernas, levando-o de volta ao leito para finalmente amá-lo de todas as formas que Shaka merecia. O faraó queria do fundo do seu coração começar uma nova história. Uma história sincera, limpa, onde somente reinassem a justiça e o amor, afinal, ele era Hórus na terra, ele era o senhor do sol e da lua e mantenedor do universo. Ele podia aspirar a felicidade. Ele merecia.
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الثعبان والنجم
Mu cansou de ficar recluso em seu quarto. Com a volta de Saga, sabia não correr mais grandes perigos e por isso chamou a sua guarda particular, liderada por Defteros e resolveu deixar o castelo. Precisava de ar, de ver o sol e de pensar um pouco no que estava acontecendo no reino. Ao contrário dos outros, não achava que o pai enlouqueceu. Na verdade, pensava que Saga nunca esteve tão lúcido. Entretanto, sabia que o rei tinha o coração partido. Mu imaginava o quanto afastar Aioros tenha sido difícil para Saga, afinal, o leonense era o amor da vida do faraó. Todavia existia Shaka, e Mu estava magoado com o amigo, ainda assim preocupava-se com ele e também com o seu pai.
O jovem príncipe havia tomado decisões sérias, e essas decisões eram parte do que faria naquele momento, naquele passeio por aquela manhã ensolarada. E assim, sua comitiva chegou à vila cujo portão exibia uma estátua da deusa Sekhmet em uma posição selvagem de batalha, tendo o disco lunar sobre a cabeça.
— Deem água aos cavalos, eu entrarei sozinho — Mu falou, apeando do cavalo e indo até a porta da casa principal, que mais parecia um castelo, a casa dos senhores de Leontópolis em Men-nefer.
A porta foi aberta por uma serva que se inclinou respeitosamente e correu para chamar a dona da casa. Sania, a mãe de Aiolia, apareceu com a sua expressão severa e fez uma reverência ao príncipe, convidando-o a entrar.
— A que vieste, alteza? Há tanto tempo não o vejo, cresceste tanto — ela comentou, guiando Mu para o jardim do pôr-do-sol, lugar fresco e verdejante dentro da casa.
— Não saio muito do castelo. Sinto não ter vindo ao casamento de Aiolia. Por falar nisso, ele está?
— Aiolia está com o exército para a solenidade de hoje à noite. Estamos apenas eu e Marin em casa.
— Aioros?
— Meu filho saiu desde cedo. Parece que a dispensa dos seus serviços como grão-vizir foi um duro golpe, mas me sinto muito feliz com isso.
— Feliz? — Mu estranhou.
— É o fim de um elo de eras. Saga acaba de quebrar a aliança com o clã dos leões e nada nos obriga a lhe ser fiel...
— A não ser o fato de ele ser o teu rei, o faraó, o deus na terra — Mu estreitou os olhos, interrogando a mulher, atento.
Sania umedeceu os lábios com a língua e sorriu de forma polida.
— Mandarei preparar um licor de tâmaras para ti, alteza.
— Não é preciso. Marin está? Trouxe, enfim, o meu presente de casamento e gostaria de entregar a ela.
— Eu posso...
— Pessoalmente — a voz de Mu foi firme e seu olhar incisivo, não deixando espaço para questionamentos.
— Claro. Mandarei chamá-la.
A mulher saiu e Mu ergueu-se, nervoso. Nervosismo que até então preferiu não demonstrar. Marin chegou ao jardim alguns minutos depois. Ela vestia um vestido vermelho e seus cabelos estavam presos no alto da cabeça, ornados por fios de ouro.
— Alteza — ela fez uma reverência.
Mu sorriu.
— Olá, Marin, eu trouxe um presente — o príncipe pegou o baú que carregava e entregou à mulher.
Marin abriu com delicadeza e observou a linda tiara de ouro incrustrada de rubis e diamantes.
— É um presente de casamento — Mu explicou. — Perdoe-me não ter vindo antes.
— Não há por que te desculpares, alteza — os olhos castanhos da mulher fitaram os verdes do príncipe. — Eu entendo os teus motivos. Peço que me perdoe pelo sofrimento que causei.
Mu a encarou como se visse um fantasma, completamente decomposto.
— Como?
— Sei do teu amor por Aiolia. E do amor de Aiolia por ti. — Marin foi direta. — Mas eu precisava me casar com ele e fugir do domínio opressor de meu pai. Eu precisava. Deves saber que em nosso reino não existem casamentos guiados por sentimentos. Ou não existiam. No momento, admiro muito o que faz faraó. Ele está dando a muitos a chance de sonhar.
Mu não soube o que dizer. Não esperava por aquilo. Na verdade, esperava alguma espécie de hostilidade e não aquilo.
— Muitos não veem com bons olhos o que meu pai faz. E não precisas te desculpares. Tu és a esposa de Aiolia, e também é minha obrigação amá-la e respeitá-la. E eu sempre farei isso. Não te sintas culpada de nada, as coisas foram como tiveram de ser.
Marin aproximou-se um pouco do príncipe, olhando para os lados como se temesse que alguém a escutasse.
— Não precisam ser assim — ela sussurrou. — Eu já tenho o que preciso para nunca mais voltar ao meu clã. — Ela tomou a mão de Mu e levou ao próprio ventre. — Estou grávida, eu sinto. Se minhas suspeitas se confirmarem, Aiolia estará livre...
— Nunca estaremos livres, Marin — Mu sorriu triste. — Saga e Aioros acaso estão livres? Não. É uma maldição familiar. A lenda diz que o sangue de Leontópolis deve proteger o sangue de Rá. Estamos conectados, mas... ao nos amarmos, de alguma forma, contrariamos os deuses.
— Não acredites nisso. Não existe maldição maior que o amor. — Marin riu. —Eu amo esta criança que repousa em meu ventre. Ela é a minha liberdade, minha luz. Não quero que ela seja a prisão do pai dela. Aiolia ama-te, príncipe Mu. É contigo que ele deve estar.
— E como faríamos isso? Meu pai nunca permitiria.
— Creio que depois de hoje, teu pai não poderá censuraste por isso.
— Há uma maldição. Todos sempre me disseram isso.
Marin suspirou e pousou a caixa do presente sobre a tampa de um grande cesto que havia no salão.
— Sobre essa tal maldição, Mu. O que sabes dela?
— A maldição? Aioros e meu pai devem saber melhor que eu. Ela foi predita há muitos anos. Dizia que os sangues das nossas linhagens não deveriam se misturar, dizia que o guardião não pode tirar proveito da função que tem e que dor e morte recairia sobre Leontópolis se houvesse amor entre nossas casas.
— Quem previu?
— Os sacerdotes, óbvio — Mu franziu o cenho, confuso.
— Os sacerdotes pertencem geralmente a outros clãs. Clãs que talvez temessem Leontópolis e sua influência junto à casa de Rá. Bem conveniente que tais linhagens não se unissem ou outros poderiam perder a influência que possuíam. Leontópolis sempre foi um clã poderoso demais. Caso se unisse aos filhos de Rá...
— Blasfemas! — Mu exclamou, agoniado com aquelas palavras.
— Não. Eu apenas observo. E observo muito. — Marin sorriu.
— Independente de podermos ou não confiar nos ditos dos sacerdotes, não podemos desfazer o que está feito. Ninguém entenderia. — Mu suspirou, derrotado.
— Não. Não podemos. Mas tu e Aiolia podem pensar em fugir daqui, como pensaram um dia.
— E o que ganharás com isso?
— Nada. Mas estarei livre para me unir em matrimônio a outro que me queira e ao meu filho. Sem o peso de um marido infeliz e rancoroso. Estou fazendo um bom negócio, Mu.
O príncipe estava estupefato. Não sabia o que dizer àquela pessoa. Marin era muito jovem e bonita, mas naquele momento parecia uma das velhas sacerdotisas do templo de Rá, cheia de ideias e razões sombrias.
— És astuta demais para uma mulher, Marin.
— Creio que conheças poucas mulheres, jovem-faraó. Mulheres em nosso mundo não são nada mais que mercadoria dos homens. Precisamos aprender a ser astutas e inteligentes cedo ou nos tornamos mercadorias de pouco valor. Pense no que disse. Podemos nos ajudar mutuamente.
Mu assentiu com a cabeça e, desconfortável, deixou a propriedade dos Leões. Não sabia o que pensar sobre Marin. Não sabia se poderia confiar no que ela dizia e não tinha como ver Aiolia antes do anoitecer, e ao anoitecer começaria a grande festa do reino. O que fazer para escapar daquela situação? Em algo aquela mulher estava certa: o Egito tornou-se perigoso demais para eles. Não seriam felizes se ali permanecessem.
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A comitiva de Kanon desembarcou no Egito junto com diversas outras barcas de reinos vizinhos, cujos embaixadores foram convidados para a grande festa que comemorava a união do deus na terra ao vaso de Háthor, como assim ele o declarou. Uma grande pira brilhava no templo de Hórus e iluminava a noite egípcia, havia música e festejo em todos os cantos.
— O que está acontecendo aqui? — Kanon indagou a si mesmo, mirando no horizonte e vendo a grande pira arder. Sabia que algo importante acontecia. Havia muito tempo desde que saiu de sua pátria, deveria esperar por mudanças, mas algo o deixava intrigado.
Radamanthys também observava a pira intrigado.
— Algo importante aconteceu em nossa ausência. Preciso ir me reportar ao meu comandante, pedirei que meus homens o escoltem até o castelo, alteza.
Kanon assentiu com a cabeça, mas estava preocupado. Os presságios que tivera na Babilônia ainda eram fortes e ele temia por Saga. Voltou-se para Asmita e os seus.
— Não seria bom que viesses agora ao castelo. Preciso saber o que acontece antes.
— Parece-me haver uma festa — Ikki observou.
— Sim. Uma festa solene. Algo importante acontece hoje. A grande praça do castelo está aberta ao povo e há muitas barcas — Kanon observou. — Um lacaio os levará até uma praça pertencente a mim ao sul do castelo, descansem até que eu os mande buscar. Príncipe Asmita, preciso que uses a capa, não seria bom se todos soubessem de quem és irmão.
— Decerto, alteza — Asmita concordou, cobrindo a cabeça com o capuz negro.
Kanon chamou o lacaio que os guiou para o local indicado, enquanto ele próprio era conduzido para o castelo. Precisava entregar o papiro ao irmão e saber o que acontecia no reino.
— Levem-me ao aposento real — Ele disse aos guardas que ocupavam a antessala do faraó.
— Alteza — os homens fizeram uma reverência. — O deus na terra não está em seus aposentos, hoje é dia da corrida nupcial e ele está na carruagem, irá percorrer a cidade e terminará a noite com apresentação no grande teatro.
Kanon arregalou os olhos abismado.
— Corrida nupcial? Quem o faraó desposa?
— O sacerdote, o dançarino, o persa! — O homem se atrapalhou, constrangido, e Kanon apoiou-se na parede completamente pasmado. Correu dali, em seguida, atravessando todo o castelo em direção ao grande anfiteatro, mas o castelo era quase uma cidade inteira. Nesse processo, foi interpelado por Pandora. A irmã estava belíssima em seu vestido dourado. Seu ventre já dava sinais da gravidez, o que fez Kanon ficar surpreso.
— Grávida?
— Sim, não é maravilhoso? Logo a casa real terá novo herdeiro. — Ela falou depois de abraçar e beijar o irmão.
— Mais um para a linha de sucessão — Amon desconfiou.
— Obviamente. É uma pena ter nascido Mu, ao contrário o próximo faraó serias tu, meu irmão.
— Saga precisaria estar morto para isso, e eu não o desejo...
Os olhos violáceos da mulher brilharam.
— E o que desejas?
— O que sempre desejei, um reinado gêmeo. Tao gêmeo como nós. Mas os sacerdotes me negaram isso.
— Bem... Saga agora faz loucuras. É bom momento para questionar a sua soberania, e creio que apenas tu podes fazer tal coisa, irmão. Mas não tratemos de tais assuntos nesta noite de festa. Vá banhar-te e descansar da longa viagem, depois iremos assistir a corrida nupcial do nosso amado irmão.
— Preciso ter com Saga antes dessa loucura...
— Não se atreva a interferir na felicidade de faraó! — As palavras de pandora foram ferinas. — Saga casa-se com aquele que ama, não tens o direito de intervir nisso!
— Saga ama Aioros, sabes bem disto! — Kanon revoltou-se. — Ele está apenas se condenando!
— Aioros não mais existe. Estiveste muito tempo longe do reino, irmão. Vá, banhe-te e conversaremos. Faça isso e deixe faraó em paz por hora.
Confuso, Kanon não viu alternativas, fez o que a irmã propôs. Não conseguiria alcançar Saga de todo jeito. Ele já devia estar a caminho da carruagem de ouro que o levaria pela cidade. Não sabia como Asmita reagiria àquilo. Talvez Shaka não quisesse ser salvo. Por que ele aceitaria ser consorte de Saga? Kanon sofria de dúvida, de raiva e de orgulho ferido. Não amava Shaka. Nunca amou. Era uma questão de vaidade, mas ele prezava demais a própria vaidade. Esperava ser o salvador do persa, aquele que o arrancaria das garras do irmão e assim ter a sua recompensa. Qual recompensa? Shaka não era homem de ficar agradecido, nem sequer sabia se Shaka era homem, meio-homem, homem-fêmea, estrela-caída ou víbora. Shaka era uma incógnita. Talvez o que sentisse fosse curiosidade, ganância e inveja. Sim, o dançarino era belo e desejável, e havia o mistério instigante de sua origem. Entretanto, Kanon reconhecia o único motivo que o fazia tão importante para si: Shaka pertencia a Saga. Pertencia a Saga, assim como o império. Pertencia a Saga, assim como o amor dos pais, dos irmãos, de Aioros, do povo. Shaka pertencia a Saga, assim como tudo que ele desejava.
Kanon suspirou cansado. As coisas estavam confusas em sua mente e em seu coração. Descansaria. Faria como Pandora pedira, teria paciência para esperar o dia seguinte.
Já Ikki, Asmita e Aldebaran, foram alojados em uma bela casa nos arredores da cidade. Eles observavam a noite de festa. Pessoas passavam com cântaros de vinhos e roupas coloridas, entoavam cantos e bendiziam o faraó. O cheiro de essências raras, vinho verde e cerveja quente dominava as ruas e todos pareciam felizes.
— Não estou gostando disso — Asmita resmungou, passando a mão no queixo.
Aldebaran serviu-se de água fresca em um cálice de barro.
— Com certeza é uma grande festa.
— Devemos acompanhá-la. É a nossa chance de conhecer a cidade sem sermos notados em meio a essa multidão — Ikki sugeriu, já envolvendo-se em seu capuz.
— Sim, mas ainda devemos ser cautelosos. Somos convidados do príncipe Kanon, não faremos nada que possa comprometer a sua hospitalidade.
— Não farei, mas procurarei as saídas e entradas da cidade. Já precisamos pensar em uma rota de fuga. — Retorquiu o tamudaei.
— Façam isso, eu verificarei o castelo e o que está acontecendo — Asmita pôs a capa. — Voltamos a nos encontrar aqui em uma metade de hora.
— Sim.
Eles saíram. Asmita se guiava pelos vultos, pela energia das pessoas e seguiam com elas em direção ao castelo.
— Perdoe-me, senhora — Ele interpelou uma mulher. — Acabo de chegar ao reino, o que está acontecendo?
— Faraó casar-se-á. Com um homem! — E a mulher riu gostosamente, como se aquilo fosse uma grande piada. — Dizem ser o homem mais bonito do mundo, mas ainda é um homem, que Ísis nos proteja! Enfim, é o que deseja o deus na terra e temos que louvá-lo, mesmo ele gostando de pau!
Asmita sentiu o sangue gelar nas veias.
— Homem? Quem é esse homem?
— Nunca o vi, poucos o viram, mas é o sacerdote de Háthor, chamam-no também de Presente do Oriente.
— Shaka... — Asmita murmurou e levou a mão ao peito condoído. Não acreditava que o irmão faria aquilo. Ele estaria condenado.
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الثعبان والنجم
Mu havia visitado a pai logo após voltar da vila de Sekhmet e comemorado com ele a sua volta. Beberam vinho e cerveja e conversaram como nunca antes. Ele nunca fora próximo dos pais. Fora criado pelos servos de confianças, professores e Defteros, seu principal preceptor. Saga era quase um estranho para ele. Mas naquela noite sem-par, eles finalmente se conheceram, e Mu percebeu que embora austero e conflitante, Saga era um homem bom e amável. O príncipe disse ao pai que estava feliz com a sua volta e que o estimava. Foi por Saga também que soubera da união para a qual agora estava preparado, vestido no saiote branco decorado com barras negras bordada a fios de ouro, tendo os cabelos longos cobertos pelo nemés-menor e os olhos pintados com o símbolo da casa real, o olho de Hórus.
Quando Saga declarou que se uniria a alguém, Mu pensou que finalmente fosse Aioros a escolha, descobrir ser Shaka o novo consorte real o deixou estupefato. Shaka era um escravo estrangeiro, e Mu sabia que o pai amava Aioros. Ao interpelá-lo, Saga penas sorriu e disse: Não é possível.
Mu sentiu-se miserável. Se não era possível que o homem mais poderoso do mundo escolhesse quem deveria estar ao seu lado, o que lhe restava? Tais palavras feriram profundamente o seu coração e lhe deu a certeza que havia apenas uma decisão a tomar. Marin estava certa, eles precisavam fugir dali.
Ouviu as trombetas, a corrida começaria. Adiantou-se para o grande salão de onde os noivos partiriam. Saga foi o primeiro a sair, vestido ricamente com o elmo de ouro que era a cabeça de Hórus e envolto no longo manto vermelho e dourado que era erguido por servas pintadas de ouro também. Um pesado colar ornava-o o pescoço e a calça branca exibia um cinto incrustrado de diamantes. Ele seguiu o cortejo em direção à carruagem, mas por alguns segundos seus olhos pintados também com o olho de Hórus miraram o filho, e o grande faraó sorriu, prosseguindo.
Mu sabia que tinha pouco tempo, por isso invadiu o salão, encontrando Shaka também cercado de servas, prontos para seguir o seu consorte sagrado.
O dançarino estava ainda mais belo do que o costumeiro. Usava uma calça vermelha e um fino lenço negro coberto de pedras azuis cobria-lhe as coxas e amarrava-se a sua cintura. O peito nu exibia o menat de Háthor, colar de turquesas que simbolizava a alegria e seu manto era carmesim como a calça.
— O que fazes aqui, Mu? — Shaka indagou, enquanto as servas terminavam as várias tranças que faziam nos cabelos dele, prendendo as pontas com pequenos aros de ouro. a pintura nos olhos do persa era maior, quase formando uma máscara negra em seu rosto e ressaltando os olhos de extremo azul.
— Deixem-nos — Mu ordenou às servas, que saíram sem questionar.
— Não tenho tempo para conversar agora — Shaka disse, ajeitando o manto.
— Deverias ter, já que posso revelar ao faraó o que fizeste e por um fim neste espetáculo deprimente.
Shaka o mirou com a mesma calma de sempre e um leve divertimento.
— Creio que já terias feito isso se quisesses.
— Por que estás fazendo isso, Shaka? Pretendes matar o meu pai? Pretendes fazer a ele o que não conseguiste fazer a mim?
— Eu nunca quis feriste, Mu. Queria apenas... minha liberdade — Shaka suspirou. — Espero que um dia possas me perdoar.
— Liberdade? Liberdade não parece tão importante a ti agora, já que aceitaste ser o escravo coroado de meu pai!
— Eu não tenho escolha! Estou tentando sobreviver! — Shaka disse mais exaltado.
— Como assim? Meu pai te protegeria de qualquer jeito, te protegeria sem a necessidade deste espetáculo de tolos!
— Teu pai se livraria de mim — Shaka falou mais calmo, mirando os olhos verdes do outro. — Ele quis me dar a liberdade e eu a rejeitei.
O semblante de Mu mostrou confusão.
— Por quê?
— O homem do qual me tornei inimigo ao desistir de desonraste é muito poderoso. Quando o faraó me desse o papiro com a minha liberdade significaria que também estaria sem a sua proteção. Para ter a proteção de faraó até deixar o Egito, eu precisaria confessar a minha traição, e seria executado por teu pai. — Shaka suspirou, tentando manter as emoções sobre controle. — Não desisti da minha liberdade, Mu, eu só estou tentando mais uma vez sobreviver.
— Eu não o entendo, Shaka! Eu te protegeria!
— Não me protegeste disto... — Shaka inclinou o pescoço para que Mu visse as marcas roxas que as mãos de Hades haviam deixado em seu pescoço. — Ele está com raiva e ele tentou me matar. Eu preciso sobreviver, Mu. Como consorte de faraó e príncipe do Egito, ele não poderá me alcançar, ninguém poderá...
— Sim, ninguém — Mu o mirou com tristeza. — Nem mesmo o teu árabe...
Aquelas palavras doeram tanto que Shaka curvou levemente o torso, respirando todo o ar que podia.
— Ele está morto —disse o que nem ele mesmo era capaz de conceber. — Eu estou sozinho, Mu. Preciso sobreviver sozinho.
— Eu o conheço, Shaka, eu o conheço! Não me escondas nada, sabes que não o trairei... Fala-me o que posso fazer para ajudaste?
— Eu... — Shaka aproximou-se de Mu, falando muito baixo — Eu fugirei assim que possível...
— Como?
— Um presente. Um presente não me será negado por Saga, uma viagem à Babilônia...
— Acaso pensas que será fácil fugir na Babilônia cercado por uma escolta egípcia e a guarda do rei? Shaka, não percebes que agora és mais valioso que já foste em qualquer outro momento da tua vida?
— Tenho amigos em Babilônia e agora sou um príncipe e posso ir e vir quando quiser. É mais fácil fugir um príncipe que um escravo.
— Nenhum amigo que tenhas naquelas terras ariscar-se-á a desafiar os dois homens mais poderosos da Terra.
— Conheço alguém que fará.
— Teu árabe?
— Meu árabe está morto, Mu. Já não tenho nenhum propósito e nem esperanças.
— Então por que não ficas aqui, Shaka? Chegaste onde nenhum escravo jamais esteve. Tornou-te consorte do rei, senhor de um império. Saga pode não o amar, mas o estima! É tão ruim estar ao lado de meu pai que tu preferes vagar errante por desertos solitários?
Shaka sorriu com melancolia e ouviu a primeira trombeta. Saga havia terminando as suas orações e estava indo para o carro. Ele deveria seguir, mas não deixaria aquela curiosidade indignada brilhando nos olhos de Mu.
— Todas as vezes que estou nos braços de faraó, fecho meus olhos e penso na pessoa que amo. Não houve um único momento em que isso não aconteceu desde que ele me tomou pela primeira vez. Hoje, sinto como se o estivesse traindo e me sinto o mais vil e desgraçado dos prostitutos. — Os olhos marejaram e ele lutou para não chorar e destruir a pintura. — Cada vez que chamo a teu pai de meu amado, sinto-me desonrado, o ser mais infeliz sobre a terra. Sim, eu prefiro o deserto solitário, Mu.
A segunda trombeta tocou e Shaka pegou o elmo branco de cabeça de vaca, cujos olhos eram dois enormes rubis e o disco solar entre os chifres era incrustado de exemplares pequenos desta mesma pedra.
— Preciso ir — Shaka tocou uma sineta e as servas retornaram ao salão. Cada uma delas pôs um longo bracelete de ouro em cada braço de Shaka e outras duas seguraram seu manto, enquanto a outra lhe entregava o cetro de papiro. Ele começou a caminhada em direção à carruagem.
Mu nada disse, ele também precisava adiantar-se para o camarote do pai no gigantesco anfiteatro. Uma grande festa que duraria sete dias estava preparada com várias apresentações e naquela noite o sacerdote de Háthor dançaria para nobres e plebeus. Era o espetáculo de uma desgraça anunciada, ele sabia.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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