A serpente e a estrela

34 Reluzem na aurora como encantadas


Notas iniciais
Obrigada a Shyna pelo comentário no último capítulo postado. Um comentário incentiva muito o escritor a continuar, ele sabe que não está sozinho :) Shyna esse capítulo é teu! Boa leitura!

Eu não sei o que me domina
E mesmo assim não penso em me livrar
Num fascínio de alma gêmea
Você em mim constrói o seu lugar

Reluzem na aurora como encantadas

Capítulo XXXIII

Pandora acomodou-se em seu camarote no local mais alto do grande anfiteatro. Mais abaixo estava a plebe, as pessoas do povo autorizadas a acompanhar as festividades ali. De frente ao seu camarote, o clã de Leontópolis mostrava a sua imponência nas vestes vermelhas e douradas, símbolo da casa. Ela sorriu ao mirar Aioros. Pensara que ele não teria coragem de testemunhar a união do seu grande amor a um escravo estrangeiro, mas ao que parecia, o líder dos valentes filhos de Sekhmet tinha mais força de caráter do que ela imaginara.

“É uma pena que tua linhagem acabe, Ilias...”, Pandora pensou. Leontópolis sempre foi uma grande força aliada da sua casa e a bela princesa não queria abrir mão deles. Contudo, as novas atitudes de Saga haviam plantado o rancor entre os clãs. Sabia que os filhos de Sísifo, por honra, nunca virariam as costas à família real, mas agora não haveria mais a devoção apaixonada que seria conveniente. Seu filho, futuro rei, merecia ter um vizir de Sekhmet; merecia um Aioros de Leontópolis.

Pandora acariciou o ventre já um tanto volumoso e sorriu, imaginando o seu pequeno faraó correndo pelo castelo.

— No que estás pensando?

Aspros estava sentando ao seu lado esquerdo, enquanto Hades, do lado direito, conversava baixo com o general Radamanthys. A música alta do espetáculo evitava que ela escutasse o que eles diziam, embora bem lhe interessasse.

— Que Hades não deveria ter permitido a vinda dele — Pandora apontou com o queixo para a última cadeira do camarote onde Misty se encontrava. O estranho homem estava envolto em uma capa branca, uma mecha clara de cabelo caía por um lado de sua face e dela via-se apenas o olho claro, mal iluminados pelos grandes archotes.

— É um aliado. — Aspros rebateu.

— Contra o persa, esse mesmo que agora é príncipe. Se perdermos o controle sobre ele, será perigoso.

— E como isso aconteceria? — Aspros riu. — Ele cairia com uma lança medjai nas costas antes de conseguir tocar o manto de faraó.

— Não subestimes os sobreviventes, Aspros.

— Preocupa-te demais. É natural das mulheres. Garanto que o norceno é inofensivo.

Pandora empertigou-se e direcionou seus olhos ao palco onde acontecia uma apresentação de dança do fogo. Homens! Sempre prepotentes. Por isso tantos caiam por mulheres como ela. Não seria diferente com a sua linhagem.

No centro do grande camarote, estava a ala do faraó e sua família. Saga naquele momento fazia a corrida pela cidade. O exército o acompanhava a pé e armado. No camarote estavam Mu, as ditas irmãs, filhas das concubinas de Saga, Defteros e a rainha. Pandora procurou por Kanon, mas ele ainda não havia chegado, esperava que o irmão não fizesse nenhuma tolice. Ela precisava que tudo fosse perfeito naquela noite.

— Não conseguiste convencer Defteros a aliar-se pelo visto — Ela lamentou.

Aspros soltou um muxoxo.

— Ele é um ingênuo, mas não é perigoso, não precisas preocupar-te com ele.

— Espero que não. Desejo a harmonia da casa real, Aspros. Desejo todos os meus irmãos bem e felizes por mais que pareça o contrário. Não ergueria a mão contra o meu sangue.

— E quanto a Mu?

— Já disse... Ele não é meu sangue.

— Deveras séria tal acusação, princesa.

— Não acuso nada e nem a ninguém. É apenas um trunfo que usarei no momento correto.

— Por que não me explicas de uma vez por todas qual o teu plano, minha irmã? Ainda não entendi muito bem.

— Porque és um tolo. O único que preciso tirar do meu caminho para que meu filho seja o próximo na linha de sucessão é Mu. Tenho certeza que Saga não fará mais nenhum macho.

— Há Kanon...

— Sim, há Kanon. Ainda não sei o que farei dele, mas garantirei que meu filho não seja um mero governador. Ele será rei.

— E quanto ao teu marido? As ambições dele não têm fim. Ele anseia o trono tanto quanto anseias.

— Hades terá o que merece a seu tempo. A seu tempo, sua crueldade terá fim.

— Tu me intrigas, Pandora...

— Está tudo muito bem planejado em minha mente, Aspros, e se me ajudares, tudo dará certo. — Ela sorriu e aceitou o cálice de vinho que uma escreva lhe ofereceu.

Aspros sorriu, trocou um olhar com Hades, que parecia ansioso, e também provou o licor do seu cálice.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Kanon não estava no camarote por um único motivo, fora advertir Asmita dos recentes acontecidos no reino. O persa estava sozinho quando ele retornou.

— Nem uma palavra sobre isso com os mercenários — Asmita o advertiu.

— Tu não entendes. Agora é impossível qualquer negociação. Ele é um príncipe do Egito, nada fará Saga abrir mão dele, pouco importa o que pensam mercenários!

— Shaka é um príncipe de Najah e nada mudará isso. Precisamos apenas pensar com calma. Não desistirei do meu irmão. —Asmita foi firme.

Kanon respirou fundo e moveu os ombros.

— Não farei mais nada para ajudaste. Quando o trouxe aqui foi para que me desses o que me prometeste.

— Eu prometi ajudá-lo a conquistar o trono e posso fazer isso.

— Como? Estou cansado de apenas palavras, feiticeiro! Não é porque curas feridas que...

— Um elixir tão poderoso que fará com que tenhas controle total sobre o teu irmão. Sobre qualquer pessoa!

Kanon o encarou com atenção.

— Tal coisa existe?

— Pela minha vida que sim.

O príncipe estendeu a mão.

— Aceito, mas lembra-te persa: um trato é um trato. Ele não poderá ser desfeito.

— É um bom trato, egípcio. Terei o meu irmão e tu o teu reino. — Asmita apertou-lhe a mão. — Estaremos ambos satisfeitos.

— Sim. Venhas comigo. Temos festa no anfiteatro do castelo, teu irmão dançará.

— Por quê?

— Saga deseja que ele seduza o Egito mais uma vez e que isso abafe o escândalo de sua união a um eunuco. Shaka é bonito e dança como Háthor, mas ficou por anos confinado no castelo. Saga deseja que todos lembrem o motivo de ele ser sagrado, de ser o presente do Oriente para Kemet.

— Como isso aconteceu? Como um escravo chegou a tal posto? — Asmita estava deveras curioso com a história do irmão, e aflito também.

— Quando ele chegou, Saga pensou que o apresentando ao povo seria importante para que os sacerdotes perdoassem a presença de um escravo estrangeiro no castelo. Desculpe-me, mas o Egito é um lugar de extrema xenofobia e saber que faraó se deita com meninos estrangeiros não agradava aos grandes sacerdotes de Rá.

— Sei disso, mas como escravo, isso não seria algo impensável. Teu irmão, como deus na terra, poderia ter o escravo que quisesse, não se justifica toda essa encenação.

— Não sei bem os motivos do meu irmão, talvez quisesse acalmar a rainha, que ficara extremamente irritada com a chegada do eunuco estrangeiro. Sei que uma grande festa foi organizada e, como hoje, usando um elmo de Háthor, Shaka dançou e seduziu o povo. Isso seria suficiente para que sua presença fosse perdoada. Contudo, algo mais aconteceu; enquanto teu irmão dançava como a mais sedutora das serpentes, uma chuva torrencial intensa começou a cair, depois de uma seca de dois anos. As moções finalmente vieram e encheu o Egito de vida. Shaka tornou-se o sacerdote de Háthor, deusa da fecundidade e do amor. Shaka trouxe as moções de volta.

— Ele não trouxe nada, foi uma infeliz coincidência! — Asmita exasperou-se.

— Explique isso à plebe ignorante e supersticiosa. De escravo estrangeiro, seu irmão ascendeu à posição de sacerdote de Háthor, e a vida dele jamais o pertencerá novamente. Nunca. A não ser que Saga não seja mais o faraó.

Asmita assentiu e depois passou a mão na testa pensativo.

— Tudo isso é apenas por poder, príncipe Kanon?

— Quero aquilo que me foi negado desde o meu nascimento! Não desejo mais ser o oculto, quero estar à luz como Saga, quero justiça!

— Quando o conheci, parecia-me que querias Shaka.

— Ainda o quero, mas o trono é mais importante. Se Shaka for o preço da minha ascensão, eu o entregarei de bom grado.

Nesse momento, Ikki e Aldebaran retornaram. Ambos miraram Kanon, desconfiados e alertas.

— Parece que grande festa acontece no império — Ikki observou com a mão na saif. — O príncipe não participas?

— Participará, sim, mercenário. Na verdade, vim convidar o príncipe para me acompanhar — ele estendeu a mão a Asmita.

— Sim. Todos fomos convidados — Asmita disse com um meio sorriso.

— Ficarão no meu camarote — Kanon disse, segurando a mão de Asmita. — Serás o meu convidado de honra.

— Fico grato, alteza, mas sou um viajante e como tal não tenho trajes para...

— Não te preocupes, mandarei trajes adequados a todos. — Kanon sorriu e lançou um olhar malicioso a Ikki e Aldebaran. — Para os dois também. Eu os espero.

Ele saiu e tempos depois, três servos apareciam com roupas. Kanon tivera a gentileza de enviar roupas diferentes das que geralmente eram utilizadas no quente Egito, ou seja, pouca roupa. Asmita vestiu-se em calça, sandálias e um gibão verde, bordado com linha de ouro, além de uma capa com capuz da mesma cor, só um pouco mais clara. As roupas de Ikki e Aldebaran eram semelhantes, mas menos luxuosas, eram trajes negros.

— Está um tanto justo — reclamou Aldebaran. — Creio que posso seguir com as minhas próprias vestes.

— O egípcio quer que nos misturemos aos convidados estrangeiros e não chamemos atenção — Ikki concluiu, ajeitando a capa. — Melhor que façamos conforme ele queira.

Asmita que desde a saída de Kanon estava calado, voltou-se para o tamudaei.

— Ikki, preciso dizer-te algo antes que cheguemos ao castelo de faraó.

O jovem mercenário mirou o príncipe com atenção.

— Esta festa... — Ele riu. — Chegamos na noite em que Shaka se une a faraó como seu consorte real.

Se isso causou alguma comoção no árabe, seu rosto não demonstrou.

— Não importa, Asmita. O plano continua o mesmo.

— Ikki, ouviste o que Asmita disse? — Aldebaran tentou chamá-lo à razão.

— Ouvi muito bem, meu amigo. E repito que devemos seguir o plano. Não pensam acaso que Shaka se une a este homem de boa vontade, pensam?

— Não sabemos, Ikki. Quanto um homem pode mudar quando é exposto ao pior da vida? — Aldebaran disse e Asmita assentiu.

— Não há garantias de que Shaka queira nos acompanhar, ainda mais agora, com o status de príncipe do Egito. Entretanto, temos que saber por ele. Precisamos alcançá-lo.

— Pelo que vejo, conheces bem pouco o teu irmão — Ikki resmungou entredentes e cobriu-se com o capuz. — Podemos ir?

Asmita e Aldebaran concordaram. Kanon mandara uma liteira para levá-los ao grande anfiteatro. Ikki seguia quieto e introspectivo como sempre. As palavras dos amigos martelavam sua mente e seu peito doía, mas ele se recusava a não acreditar na promessa feita, no amor sentido, na esperança que carregava no peito. Shaka o estava esperando. Talvez esperasse há tanto tempo que houvesse perdido um pouco da razão e por isso participava daquele espetáculo patético. Unia-se a um homem que nunca amaria. O mercenário acreditava, contudo, que era apenas o tempo do amado saber que ele estava ali, que ele o encontrara como o prometido. Isso mudaria tudo. Ele era o seu amor, o seu escolhido, o seu esposo. Shaka era a sua alma, e Ikki não tinha dúvidas de que também fosse a alma dele.

Eles chegaram ao imenso teatro decorado com cortinas púrpuras ricamente bordadas com imagens da história dos deuses. A grande contenda, a batalha entre Set e Hórus, a criação da noite e das estrelas, a lenda de Kemet. No palco, espetáculo de dança e fogo, tudo era iluminado pela magia da piromancia dos magos vindos do Oriente.

Asmita e seus supostos mercenários foram guiados até o grande e luxuoso camarote do príncipe. O camarote de Kanon ficava ao lado do de Hades, separados pelo camarote do faraó. Era um espetáculo de opulência, decorado por tecidos bordado de pedras preciosas e corais, tendo uma farta mesa com oferta de todas as delícias daquela terra: cerveja amarga e cerveja verde, vinho de uvas negras e de uvas brancas, pães de todos os tipos e peixes recheados com cogumelos e especiarias, carne de adax assada em óleo de flor, patos e gazelas tostados ao molho de leite de cabra, lampreias recheadas, dentre outras iguarias.

O cheiro da comida deixaria qualquer um com fome, mas os três visitantes do príncipe estavam preocupados com outras demandas naquele momento. Sentaram-se nos locais indicados e direcionaram os olhos ao camarote real ao lado, que até aquele momento só era ocupado por seis guardas medjais. Nenhum deles aceitaram bebida alcoólica, pois necessitavam de todas as faculdades intactas aquela noite.

— Faraó chegará logo — Kanon, que estava sentado em um trono ao centro, disse como se percebesse a inquietação dos convidados. — A corrida pela cidade está chegando ao fim. Saberão quando escutarem os pratos e trombetas.

Como mágica, assim que o príncipe se calou, o primeiro prato estridente de prata foi ouvido. Todos se ergueram das cadeiras e um grande silêncio se fez no imenso anfiteatro quando a carruagem dourada apareceu, cortando a areia do centro da arena, executando uma volta em grande velocidade. Um homem preto vestido de púrpura chicoteava cavalos brancos, e então parou de frente a uma entrada circular feita de ouro. Um tapete foi aberto e seis sacerdotes vestidos de branco linho aproximaram-se, três a cada lado do carro. Faraó foi o primeiro a descer, sendo abençoado por uma mistura de sálvia, mirra e flores que os sacerdotes levavam em uma cuia. Shaka desceu em seguida.

De onde estava, o coração de Ikki deu um pulo doloroso ao reconhecê-lo mesmo de longe. Percebeu, inclusive, que ele estava mais alto, muito mais alto do que se lembrava, mas ainda era esguio, branco e parecia macio como o pelo de um gato-das-areias recém-nascido, embora agora houve certa definição nos músculos dos braços e peito. Ikki riu para si mesmo, uma emoção tão grande o tomando, que ele teve medo de deixar a personagem do mercenário indiferente cair. Passou a mão nos cabelos negros, afastando o capuz, e respirou fundo, mas ele inteiro tremia.

Asmita segurou-lhe o braço.

— O que acontece? — ele perguntou baixo.

— Eles chegaram... Shaka chegou. — Sussurrou para o cego.

— Por favor, contenha-te. — Asmita sussurrou de volta.

Impressionante era o modo como Asmita conseguia captar a mais sutil mudança nas emoções das pessoas. Ele sabia que se Ikki não controlasse suas emoções poderia pôr tudo a perder. Por sorte, Kanon parecia bastante ocupado em observar o irmão e seu brinquedo, que desfilavam como entidades mágicas diante do povo.

— Está tudo sob controle, Asmita — Ikki garantiu. Controle. Aprendera com Zahid a controlar a serpente agressiva dentro de si. Não se perderia agora.

Faraó e seu amante foram direcionados por uma escada circular em direção ao camarote onde o rei falaria para um povo silencioso:

Povo do grande Egito, recebam Shaka, ânfora sagrada de Háthor como seu novo príncipe. Prometam ao deus na terra, amá-lo como ele é amado por mim. Os deuses o fizeram sagrado, testifiquem tal feito nos templos. Amanhã ofereça incensos e sacrifícios em homenagem a nossa união.

Ele segurou a mão de Shaka, erguendo-a enquanto o povo saudava-os com louvores e palmas. Se havia protestos, estes foram abafados por aqueles que seguiriam cegamente qualquer atitude do deus Saga-Hórus.

Shaka mirou a multidão de forma altiva, e depois baixou a cabeça e o corpo em uma saudação muda. Ele queria sair dali, queria dançar, porque dançando, esqueceria todas as suas dores. Esqueceria as palavras de Mu, esqueceria que embora estivesse ali, coberto de joias, sentia-se a criatura mais desgraçada do mundo.

A multidão parecia fascinada, e gritava, e louvava, e exultavam com a imagem divina que eram faraó e seu consorte. Shaka seguiu o rei pela longa escadaria em direção ao camarote suntuoso todo decorado em ouro. Saga era muito alto, bem acima da média de um egípcio. Vestido como estava, ele era mesmo a representação de uma divindade altiva e poderosa, e quando faraó abriu os braços e saudou o povo, todos se calaram, observando-o maravilhados. Saga prosseguiu com o seu discurso, falando sobre um novo tempo para o Egito de paz, justiça e prosperidade. Um éon que, segundo ele, perduraria por séculos. Ao que parecia, o povo acreditava naquilo cegamente.

De onde estava, Ikki conseguia ver o perfil de Shaka ao lado de Saga. Mais alto e corpulento, o faraó quase o cobria. O mercenário esticava o pescoço para mirá-lo, ainda assim. Naquele momento, o tamudaei não sabia o que estava sentindo, só conseguia perceber o coração batendo desesperadamente no peito, o estômago se contorcendo tanto que lhe causava dor e as emoções como um raio. Ao mesmo tempo, um calor sem igual de alegria o inundava ao mirar o persa. Todavia, Shaka não podia vê-lo de onde estava e separados por várias cadeiras, tecidos e pessoas. Ele nunca o perceberia.

Depois do pronunciamento do faraó, o Presente do Oriente desapareceu pelas sombras do camarote. Minutos depois, tambores começaram a rufar como se algo grandioso se aproximasse. Os piromantes deixaram a arena ainda fazendo coreografia e lançando arcos de fogo no céu para delírio de adultos e crianças.

— Meu irmão sempre amou a pompa — Kanon comentou com Asmita. — Deslumbrem-se com o poder do Egito! — Ironizou e mirou o camarote à frente. Ninguém menos que Aioros ocupava o trono de Leontópolis, ao lado da mãe, da cunhada, do irmão e outros parentes. Ele estava distante demais para que Kanon lhe dedicasse um cumprimento. Entretanto, pela postura do ex-grão-vizir, Amon percebia o peso que as decisões do faraó lhe causavam. Pobre Aioros, pensava Kanon, sempre tão devoto, abnegado e fiel. Saga não o merecia.

O solo da arena abriu-se com um gemido agonizante de correntes, e piras acenderam-se como mágica, causando exclamações de surpresas. Os músicos surgiram sobre um palco de pedra negra, que era alçado por um complexo sistema de correntes e manivelas no subsolo, comandados por uma massa de escravos. Três grandes pedras negras surgiriam na arena, alçadas pelo mesmo mecanismo, duas para a banda e uma central, para a atração.

O primeiro acorde foi o das flautas delicadas como assovios de pássaros no orvalho da manhã. As pedras agora subiam silenciosas e as pessoas prendiam a respiração, ansiosas.

Foi repentino, das trevas reluzentes do palco de pedra, surgiu o Presente do Oriente. O elmo branco de Háthor contrastava com o manto que ele abandonou ao solo. Shaka agora trajava uma calça negra, aberta nas laterais, de um tecido que se assemelhava a um céu estrelado, e um cinto que era uma combinação de correntes de topázios e moedas de ouro, descendo em colares até o alto das coxas, braceletes semelhantes decoravam os braços graciosos e quando ele começou a dançar, manteve de forma equilibrada, o elmo sobre a cabeça, projetando a franja farte de forma que era impossível ver seus olhos.

Shaka moveu os pés e o tempo pareceu parar, a arena quedou silenciosa e apenas os instrumentos que tocavam a música enérgica e sensual eram ouvidos.

Um pé a frente, outro pé, um jogar do quadril, um lado e outro, os braços cruzados acima da cabeça, o abdômen contorcendo-se para em seguida o quadril voltar a ser balançado de um lado a outro, os braços que vão a frente, cruzam-se e abraçam-se como cobras, enquanto o corpo reboleia e desce, dobrando o joelho, para novamente subir com total equilíbrio, jogar o pé a frente, voltar a fazer tudo novamente e então rodar pelo palco e finalmente se ver livre do elmo, depositado em uma encenação de reverência sobre o manto negro. Agora os fios dourados estavam livres para acompanhar o bailado do corpo. Pé a frente, contração de abdômen, mão ao peito, numa sensual reverência ao faraó, e novamente. Plateia maravilhada.

Saga sorria encantado a cada olhar que recebia do consorte. Agora a pedra estava alta o bastante para que ele visse Shaka com extrema clareza e baixa o suficiente para que o povo se deliciasse também com o espetáculo. Mas Shaka dançava para o faraó naquele momento, para o seu salvador e amigo. O faraó estava plenamente satisfeito. A graça como Shaka dançava era divina, seus passos airosos como os de uma gazela, ligeiros como um beija-flor, e naquele momento, a beleza do persa era inda mais estonteante. O Egito quedava embasbacado, era exatamente o que ele esperava. O que ele queria.

Os olhos de Ikki faiscavam, pareciam tocar em cada parte do corpo do dançarino. Ele conhecia ainda cada curva, cada poro daquela pele. Conhecia a maciez e a rigidez dela. Ele era o amor, o esposo. A ele aquele homem pertencia e não ao faraó, não ao Egito.

E Shaka dançava como um deus, uma força cósmica que reduzia tudo. O sol sumia aos seus pés e uma manhã de estrelas nascia. O teatro escureceu e a tênue luz do fogo pairou sobre o dançarino, tremulando com os seus movimentos sensuais.

— Ele dança como uma sedutora deusa serpente, não é? — Kanon dirigiu-se diretamente a Ikki, já que Asmita não podia ver o que se passava.

O mercenário não respondeu, seus olhos estavam escurecidos pela mesma paixão que o fez poupar um garoto estrangeiro vestido de menina, e tal paixão pulsava por todas as suas artérias, das raízes aos frutos. Ikki não era capaz de pensar, apenas sentia a alegre agonia de estar tão perto dele e ainda não poder tocá-lo.

O belo persa mexia o quadril de um lado a outro e jogava os cabelos para trás, sorrindo de volta para o faraó, bailando braços e pernas com sedutora precisão. Faraó parecia sob encanto.

Ikki assistia a tudo aquilo, os olhares, os sorrisos, e sentia o sangue ferver, mas não era o ciúme o seu maior sentimento naquele instante. Ele precisava que Shaka o olhasse. Seus olhos exigiam isso.

“Olhe para mim, Shaka... Vamos, olhe para mim”, ele murmurava como um encantamento. Impaciente, deu um passo à frente e afastou o tecido que lhe cobria o rosto, tendo a face iluminada pela luz dos archotes que crepitavam por todo o teatro. Nesse momento, Shaka voltou-se em sua direção e tudo pareceu parar.

— Abismos! — ele riu, segurando o rosto moreno entre as mãos delicadas. — Como abismos! Abismos profundos e perigosos!

— Quê? — Ikki riu, continuando com a carícia do polegar na pele corada, ainda afogueada pelo calor e o prazer recém sentido. — Do que falas, menino louco?

— Teus olhos escuros... — Shaka murmurou. — São abismos. Sinto-me tragado por eles o tempo inteiro, mesmo quando não posso vê-los...Eu consigo sentir quando me olhas, sempre o surpreendo porque teus olhos me tragam mesmo quando não posso vê-los.

Ikki riu.

— Tragam?

— Como não apenas cair no abismo, mas ser atraído por ele... Porque sei que dentro dele e somente dentro dele cresce a flor mais bela de todas.

— Tu dizes coisas absurdas, olhos de estrela. Um abismo é algo escuro e feio. Prefiro um céu estrelado — Ikki brincou de afagar a sobrancelha dele.

— Não sabemos o que há nos abismos, por isso eles nos assustam. Mas eu conheço esses aqui — tocou as pálpebras do árabe. — Escuros como uma noite sem lua ou um mar de tempestade. Mas não os temo porque sei que dentro dele nasce a mais bela flor do mundo. É um abismo que caio, me perco e me encontro... — Shaka sussurrou com um sorriso, antes de beijar os lábios dele.

Ikki o beijou de volta, saboreando o doce dos lábios do outro e depois voltando a mirar os olhos de estrelas dele.

— Então quando me olhas, derramas estrelas no abismo...

— Sim — Shaka riu, tocando o rosto dele. — As estrelas que derramo no abismo são as sementes das flores raras que nascem nele... As estrelas caem no abismo...

E tudo se deu num lapso de segundo, um segundo paralisante. Não conseguia parar de olhá-lo, não conseguia pressentir o perigo, não conseguia se mover. Estava imóvel, caindo no abismo.

Caiu de joelhos, o tremor das pernas venceu. Por algum tempo, a música continuou, a orquestra não se deu conta do que acontecia. Saga franziu a testa, Kanon mirou do árabe para o dançarino. Era tudo tão visível: o choque, o amor, o desespero. E para eles nada importava.

Um som alto de tambor se fez ouvir, despertando Shaka para a apresentação, mas ele estava desnorteado demais, parecia aquecido pelas chamas dos archotes ao redor do palco, pelo calor da multidão que esperava o grande final e ignorava o bater louco do seu coração, o tremor de suas pernas, as lágrimas incontroláveis em seus olhos.

— Shaka! — Saga exclamou ao ver os joelhos do consorte tombar sobre a pedra negra. Ikki deu um passo à frente como se pudesse ampará-lo, e imediatamente Hades deu ordens para que a pedra descesse ao solo. Faraó e seus ministros deixaram o camarote para verificarem se algo havia acontecido ao dançarino, mas antes que a pedra chegasse ao chão, Shaka ergueu-se, pediu que a orquestra voltasse a tocar e recomeçou a dançar, sendo aplaudido pela multidão.

Utilizando toda a força do seu espírito, ele continuou a dançar, morrendo por dentro a cada segundo, mas finalizando o espetáculo graciosamente como o esperado. Sob aplausos, gritos e chuva de flores, ele desceu a escada e desapareceu pelo portal de ouro.

Ikki permaneceu com os olhos nele e um sorriso emocionado no rosto. “Ele me viu, ele me viu!”, dizia a si mesmo, o coração batendo com força única no peito.

— Como ele está? — Asmita tocou-o no braço e perguntou num sussurro emocionado. O toque no mercenário, levando-o a compartilhar os sentimentos dele, o que o deixava ainda mais comovido.

Ikki não conseguia tirar os olhos de Shaka e não conseguia disfarçar o que sentia. Cobriu o rosto novamente, no intuito de disfarçar seus sentimentos.

— Lindo. Ainda mais que em minhas lembranças.

— Meu pobre irmão... — Asmita deixou que lágrimas escapassem dos seus olhos mortos, o urro da multidão era como ferrões venenosos, porque ele sabia quais dores os esperavam. Lembrava-o que havia falhado como filho, irmão, príncipe e guerreiro defensor de sua cidade. Tudo que acontecera a Shaka a partir da queda de Najah era sua responsabilidade. Ele falhara como homem e agora falharia como Zoroastro.

Ikki o mirou condoído e limpou a lágrima que desceu pelo rosto claro do Zoroastro.

— Vamos levá-lo daqui eu prometo.

— Essa promessa também é minha, Ikki. É a minha dívida para com ele e comigo. Mesmo que minha vida dependa disso, eu devolverei a vida que foi tirada de meu irmão.

Shaka foi coberto por um manto negro e correu para a saleta abaixo dos túneis, logo após a rampa que levava de volta ao palácio. Seu coração batia tão forte que ele sentia náusea e parecia que morreria. Não estava enganado, era ele! Mais velho, mais cansado, mas ele nunca se confundiria, era ele!

Deixou-se cair num canapé ricamente decorado com sedas do Oriente e apoiou a cabeça com as mãos trêmulas. Estaria louco? Seria o fantasma de Ikki que estava ali para puni-lo pela traição vil? Não! Vira-o! Não era um fantasma, era carne! Ele finalmente chegara.

— Shaka! — Saga apareceu depois de um tempo, parecia preocupado. — O que aconteceu? Por um momento, achei que houvesses caído no palco.

— Estou bem! Estou bem! — Shaka exclamou, erguendo-se em um pulo e afastando-se antes que Saga o tocasse. — Sinto-me fatigado apenas... Foram grandes emoções. Preciso ficar um pouco sozinho, só isso.

Saga assentiu com a cabeça, mas não saiu do lugar.

— Preocupa-me deixaste só se o percebo tão nervo.

Shaka sorriu, tentando disfarçar a comoção que vivia.

— Saga, meu querido, meu sol — Aproximou-se do consorte e segurou-lhe as mãos para beijá-las em seguida. — Tu és o soberano. Precisas voltar à festa, o povo precisa veste. Quanto a mim, já desempenhei o meu papel. Posso ficar um pouco só, mas se estás tão preocupado, por favor, peça que Mu venha ter comigo.

Saga o mirou preocupado. Em verdade, sempre tivera algum ciúme da relação dos dois. Contudo, naquele momento não faria objeções, já que outras preocupações lhe ocupavam a mente.

— Encontra-te comigo no grande salão para o baquete daqui a um terço de hora, então.

— Estarei lá — Shaka falou com um menear humilde de cabeça.

Saga sorriu e beijou-o nas mãos.

— Há um presente.

— Presente? — Ele riu. — Já não tenho o maior presente do mundo?

— Mandei fazer quando retornei há algumas luas. O Egito saberá da minha devoção por ti.

— Logo estarei contigo — Shaka disse suavemente, mas havia uma impaciência sutil em sua voz. Gostaria de ficar sozinho de uma vez por todas.

Saga beijou-o, agora nos cabelos, e saiu, a guarda que o esperava atrás do arco, o acompanhou.

Shaka respirou fundo. O nervosismo era imenso. O coração parecia que sairia peito a fora e se estilhaçaria no ar. Era uma euforia tão intensa que não era alegria, era dor e desespero. Ele não tinha ideia do que fazer.

— Elin — Chamou uma das escravas que estavam, a partir daquele momento, sob o seu julgo. — Busque-me o príncipe Mu. Diga-lhe que venha com urgência.

A garota saiu e não demorou a retornar com o jovem-faraó. Mu estava confuso, parecia que havia se passado muito tempo desde que ele e Shaka foram amigos. Não confiava mais no persa e achava que ele também não lhe tinha confiança. Contudo, ali estava ao ser chamado. Nem mesmo entendia seus motivos para ainda se preocupar com ele.

O jovem príncipe ficou ainda mais confuso quando Shaka tomou-lhe as mãos e ele percebeu que o persa tremia.

— O que houve? — Mu indagou, preocupado. — Meu pai fez algo...?

— Ele está aqui! Está aqui! — Shaka disse nervoso, não permitindo que Mu completasse as ideias.

Mu não precisava de mais palavras para entender. Mesmo que aquela história estivesse distante em sua mente. Seria possível? Alguém atravessaria anos e desertos para encontrar outra pessoa?

— Ele? Teu príncipe? Tens certeza, Shaka?

— Eu nunca esqueceria aqueles olhos, Mu! Nunca! Ele estava no camarote de Kanon! Eu o vi! Ele está aqui!

— Kanon? — Mu balançou a cabeça, como se precisasse de um tempo para entender o que acontecia. O tio havia acabado de retornar da Babilônia... Seria possível e por quê? — Se for realmente ele, descobrirei. Mas precisas ter calma. Há um banquete te esperando. Não podes desaparecer da festa sem despertar suspeitas. Precisas continuar ao lado de Saga.

— Não posso! Não consigo! — Shaka levou as mãos aos cabelos, em desespero.

— Tu precisas! — Mu foi firme. — És a força dos ventos, o vaso de Háthor! Consegues.

— Sim. — Shaka tentou controlar-se. — Tentarei. Tentarei.

— Shaka, e como o reconhecerei? Como saberei se é a pessoa certa? Pode ser perigoso perguntar, ainda mais se for para uma cria de Kanon. Não consigo confiar em meu tio, nunca confiei. Como posso saber, Shaka?

Shaka segurou a mão de Mu e o guiou para mais perto de um archote.

— Isso — Shaka mostrou para Mu a serpente ondulante em tinta negra que tinha no pulso. — Ele terá uma igual. Só ele terá uma idêntica a essa. É a aliança de união dos tamudaeis.

Mu examinou bem o desenho.

— Certo. Retornarei assim que souber de alguma coisa. Mas por favor, controle-se — Partiu.

Shaka respirou fundo mais uma vez, e outra, e outra. Sentia-se gelado e não era pelo vento desértico da noite. Todavia, não dar-se-ia o luxo de ficar doente. Não agora. Puxou de um trilho um manto púrpura cravejado de pérolas e um gibão da mesma cor em linho cozido, o que tornava o tecido leve e brilhante. Pediu forças a Brahmán, algo que não fazia há muitos anos.

Deixou o camarim escoltado pela guarda de Sirius e caminhou para o grande salão. Saga o recebeu com um olhar afetuoso e com a cortesia desmedida que passara a lhe dedicar. Contudo, o olhar o rei era triste e distante. Felicidade não fazia parte da vida de homens como ele.

Faraó já havia bebido vários cálices de cerveja verde, vinho da lua e licor de damasco. Mais do que o recomendado, ele sabia. Seus olhos não paravam de procurar Aioros. O amigo, se é que ainda podia chamá-lo assim, parecia bem. Na verdade, ele parecia bastante recuperado do rompimento. Saga percebia também que muitos escribas e governadores cumprimentavam-no. Entendia que a maioria deles considerava ele, Saga, louco. Havia rumores de que o deserto o enlouquecera e até de que não fosse o faraó de fato, mas um demônio do deserto que lhe tomara a forma. O mais irônico era pensar que eles achavam que o deserto o havia enlouquecido, mas não a Aioros. Por que consideravam Aioros forte e ele não? Precisava destruir tal pensamento, refazer a sua imagem junto ao povo, ser um novo homem. Nunca fora uma sombra, um fantoche, mas parecia que por muito tempo era essa a imagem que se tinha dele. Não. Mudaria o Egito. Seria um novo e bom rei.

Seus olhos miravam Aioros com uma fome silenciosa e por um momento, Aioros o mirou também, e Saga enxergou aquela mesma fome. Mas isso se deu de forma tão furtiva, que logo ambos voltavam a esvaziar os seus cálices.

Shaka, por sua vez, não parava de procurar com os olhos. Kanon conversava com alguns nobres, mas estava só. Não! Não havia alucinado! Tinha certeza, Ikki estava ali em algum lugar e ele precisava encontrá-lo.

A multidão rejubilou-se quando a grande cortina negra foi ao chão, revelando um imenso mural de mosaico em que a figura do dançarino aparecia: lindo, etéreo, divino. Exclamações de êxtase e aplausos encheram o imenso salão do castelo. Shaka estava imortalizado naquele imenso painel. O belo presente que Saga lhe prometera. Contudo, a mente do dançarino não se envaidecia. Ele pensava em coisas completamente diferentes. Onde estaria Mu? Teria ele conseguido alguma informação? Mas Shaka sabia que interpelar Kanon era arriscado demais, precisaria confiar em Mu, era a única pessoa que não lhe faria mal ali, ele pensava. Precisava acreditar que apesar de toda a vileza com a qual agiu, o tênue elo de sangue que havia entre os dois faria o jovem-faraó ajudá-lo.

Mas Mu naquele momento estava nos braços de Aiolia. Longe do salão, eles trocavam beijos e carícias carregadas de saudade e desejo. Havia meses que não se tocavam, meses que decidiram esquecer o amor que palpitava o peito. Contudo, agora, com o apoio e consentimento de Marin, eles voltavam a acontecer, e o desejo e a felicidade que sentiam fizeram o príncipe esquecer-se do prometido ao amigo.

— Fugiremos — Aiolia disse ofegante, num dos momentos que a sua boca se separou da boca de Mu.

— Como? Como conseguiremos?

— Marin é engenhosa, ela pensará em algo que ainda não conseguimos pensar.

— Aiolia, tens certeza de que ela é sincera? — Mu duvidou. As atitudes daquela mulher o intrigavam.

— Não tenho dúvidas. Dessa vez conseguiremos.

Mu suspirou e espalmou as mãos no peito do amante.

— Quero acreditar, quero muito ir embora daqui contigo. — Abraçou o amado e a conversa o fez lembra-se subitamente de Shaka. — Preciso ir! — Afastou-se de Aiolia. — Preciso ir agora, Aiolia.

— Por quê? Mu, temos que aproveitar a festa e que não há ninguém nos vigiando! — volveu o soldado, decepcionado.

— Voltarei logo, prometo! Espera-me em meu quarto. Tenho algo importante a resolver, depois conversaremos. — Beijou-o intensamente, antes de deixar o jardim, apressado.

Mu voltou para o salão e procurou o tio. Kanon bebia de forma lenta e medida. Parecia extremamente pensativo e analítico, como se participasse de uma grande encenação. Mu sentiu-se nervoso. Na infância, tivera uma relação terna e cortês com o tio, mas depois de adulto, havia perdido o carinho e a intimidade com ele. Kanon havia mudado, entrado nos jogos de poder de seu pai e não era mais o mesmo. Ainda assim, o jovem príncipe tentaria utilizar-se da amizade de outrora para descobrir se havia realmente um homem árabe entre os seus convidados.

— Kanon — Ele se aproximou sorrindo.

— Oi, Mu — Kanon disso sem muito interesse. — Como estás crescido.

— Sim, já sou um adulto agora.

— Percebe-se — total desinteresse.

— Então, como foi a viagem à Babilônia? Espero que o tratado de paz continue intacto.

— Sim, está. A Babilônia nada teve a ver com o ocorrido, o que já foi informado, a faraó.

— Sinto-me aliviado com isso — Mu mordeu os lábios, tentando pensar em como chegar ao ponto que queria. — Bem, parece-me que fizeste amigos na Mesopotâmia. Vi algumas figuras estranhas em teu camarote, quem são?

Kanon encarou-o pela primeira vez e franziu a testa, desconfiado.

— Não são ninguém. Uma escolta mercenária que paguei para me acompanhar, afinal, também fomos atacados, duas vezes. Parece que há muito interesse em eliminar o sangue de Rá.

— Decerto. Fizeste bem. Eu mesmo fui atacado na ausência de meu pai. Creio ser muito importante termos cuidado. Mas, conta-me, como foste atacado?

Uma coisa que Kanon não tinha nenhuma paciência era para contar histórias, ainda mais tendo a mente fervilhando em indagações como naquele momento. Ainda assim, começou a narrar de forma mecânica o ocorrido na Babilônia.

— Então, os meus mercenários me salvaram — finalizou.

— Que sorte! — Mu disse, atônito. — Kanon, eu... — Mu hesitou, e Kanon novamente franziu o cenho, esperando, impaciente.

— Eu poderia conhecer teus mercenários? Não me sinto seguro e para ser sincero, não confio mais nos guardas do palácio. Talvez uma bolsa de ouro seja o melhor para garantir a minha segurança, que o amor desses homens ao deus na terra.

— Não penso que Saga aprovaria — Kanon tornou com um suspiro enfadado. — E como disse, os mercenários estão a meu serviço. Creio que devas encontrar os teus.

— Eu cuido de meu pai. Mas eu preciso muito me sentir mais seguro. Nem mesmo tenho conseguido dormir. — Mu nunca pensara que fosse tão bom ator. — Sei que estão aos teus serviços, mas eles devem conhecer outros, não? Só precisarei de alguns minutos com eles, por favor, Kanon.

O príncipe mais velho observou o sobrinho por um tempo. Em seus olhos brilhava certa malícia inteligente.

— Certo, certo! — Kanon fez um gesto impaciente com a mão. — Talvez seja melhor pensarmos em estrangeiros para nos proteger, já que nem na guarda Medjai podemos confiar mais.

— Onde eles estão?

— Nesse momento, em algum lugar do anfiteatro com o povo na grande festa. Não achei de bom tom que ficassem no salão real.

Por algum motivo, Kanon estava curioso sobre aquele súbito interesse de Mu. Asmita já estava bem guardado na casa do cais, e os outros dois não seriam nada mais que dois estrangeiros entre tantos outros que visitavam o Egito, se é que eles fossem realmente apenas isso... Todavia, qual era o real interesse de Mu? Kanon tinha muitos defeitos, tolice não era um deles e, há algumas horas, seus pensamentos já eram inquietos e desconfiados. Aquele súbito interesse do sobrinho servia para despertar ainda mais a sua engenhosidade.

— Gostaria de conhecê-los, por favor.

— Claro — Kanon disse, finalizando seu cálice de vinho verde. — Posso fazer isso agora se desejares.

— Eu desejo — Mu sorriu mais uma vez. E Kanon abriu um sorriso completo.

Ikki e Aldebaran realmente estavam misturados na multidão. Ambos pensavam na mesma coisa, embora não conversassem a respeito: como Ikki conseguiria chegar a Shaka se havia um muro Medjai entre eles. Se havia o homem mais poderoso do mundo entre eles. Se havia tantos entre eles. Apesar disso, entretanto, Ikki não se sentia tão feliz e esperançoso há anos. Há anos que seu coração havia morrido. Um único olhar foi capaz de fazê-lo renascer, porque, sim, ele tinha certeza que Shaka o vira e o reconhecera. Ele sabia, ele o esteve esperando por todos aqueles anos.

Mas como chegar a ele? Como? Não podia abusar da boa vontade do príncipe. Ikki não sabia muito bem qual fora o acordo que Asmita fizera com aquele homem, mas sabia que não podia levantar suspeitas sobre quem era. Não. Ele precisava fazer o papel de mercenário. Asmita era um irmão. Um irmão era menos ameaçador que um esposo ou amante. Asmita era um nobre persa, ele seria ouvido e respeitado. Um árabe amante de um eunuco, como eles classificavam homens como Shaka, não seria ninguém naquele país estranho.

— Mercenários árabes!

Uma voz grave e profunda elevou-se entre a música e o barulho da multidão. Ikki e Aldebaran voltaram-se para ela. Dois guardas que deveriam medir em torno de dois metros e que portavam lanças aproximaram-se.

— O príncipe Kanon-Amon exige a presença dos dois no castelo. Acompanhem-nos.

Ikki os obedeceu. Se ele não sabia como entraria no castelo, agora precisava acreditar em golpes cortantes e irônicos da própria deusa sorte.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Saga e Shaka permaneceram lado a lado por uma hora inteira, recebendo presentes e saudações de mensageiro de reinos vizinhos. Nenhum dos dois, todavia, estava feliz naquele momento. O coração de ambos ardia em angústia e eles apenas pediam aos deuses que aquela noite terminasse.

Depois do que era esperado pelo rígido protocolo, o vizir interino, o escriba jazeu, informou que o deus e seu consorte deveriam se recolher para descansar, pois no dia seguinte ainda teria comemoração.

Saga e Shaka seguiram para as suas alcovas com uma comitiva de escravos. Agora, o dançarino ocupava o quarto ao lado do rei, uma suntuosa alcova que pertencera à rainha, um dia, elada ao quarto do monarca por um longo túnel e portas de cipreste, altas, reforçadas com ferro. Chegaram ao centro do corredor que se dividia para dois lados.

Os dois se olharam por um momento e Saga dispensou os escravos com um gesto de mão.

— Sinto-me solitário e angustiado essa noite. Dorme comigo — pediu o rei.

Shaka fechou os olhos por um momento e conteve a respiração, deu um passo à frente e abraçou o faraó.

— Também me sinto angustiado. Creio que o longo da noite me fez louco — A sinceridade das palavras dançou no ar. Louco. Era isso. Ikki nunca esteve ali, nunca. Ele estava enlouquecendo. A traição o estava enlouquecendo. Havia traído seus votos sagrados e por isso o fantasma do amor da sua vida o perseguia. Sim. Ikki estava morto, e Shaka para sempre desonrado, moralmente morto. — Por favor, meu querido, não creio que hoje sejamos boa companhia um para o outro. Devemos nos recolher e descansar — Shaka sorriu e acariciou o rosto de Saga. — Amanhã seremos pessoas melhores.

— Tens razão — Saga segurou-o nas mãos e as beijou. — Boa noite, meu querido.

Shaka assentiu com a cabeça e caminhou para o seu quarto. Saga fez o mesmo. Ambos não conseguiram dormir por horas.

Saga continuou a beber em seu quarto, completamente perturbado diante de todo o novo. Estava amanhecendo quando ele tocou o sino e de imediato seu servo de confiança adentrou o quarto.

— Traga-me Aioros, não importa onde ele esteja, traga-o até mim.

O homem não questionou como sempre, saiu de imediato e mandou que um dos guardas trouxesse o antigo vizir aos aposentos do faraó. Isso se deu em um tempo excepcionalmente curto. Aioros foi guiado até o quarto de Saga com uma expressão surpresa e cansada. Ele não esperava por aquilo, não esperava que Saga estivesse sozinho naquela noite.

O rei vestia apenas um roupão azul-noite e seus cabelos negros e longos caíam por seus ombros. O rubor da face, provocado pelo excesso de vinho, destacava incrivelmente seus olhos verdes. Era belo como uma figura trágica.

Saga aproximou-se de Aioros e eles ficaram um tempo sem nada dizer. Então, o soberano ajoelhou-se e abraçou as pernas do amigo com um suspiro sofrido.

— Não és mais grão-vizir. E eu não sou nada nesta noite.

Indeciso, Aioros levou a mão aos cabelos dele numa carícia insegura.

— Erga-te, meu soberano...

— Não! Não me chames assim! Hoje não, Aioros. Hoje não quero ser isso para ti. Hoje não! Não sou soberano, sou apenas a pessoa que te ama, Aioros...

— Se me amas... Então por quê?...

Saga ergueu-se e tomou o rosto de Aioros entre as mãos.

— Sabes o porquê. Não tive escolha, tu me pediste...

— Eu pedi? — os olhos de Aioros eram pura angústia que logo se derramaria. — Nunca! Eu nunca suportei vê-lo contigo como escravo, como aceitaria que o tivesses como esposo?!

— Aioros... — Saga aproximou-se dele, olhando no fundo dos olhos do vizir. — Tu és o meu grande amor, sempre foste e sempre serás... Shaka é...

— Não diz o nome dele — Aioros disse entre dentes, demonstrando uma ira que jamais pareceu sentir. — Eu o odeio...

— Aioros...

— Vou-me embora...

— Não esta noite.

— Saga... — Aioros não mais foi capaz de falar porque os lábios sequiosos do soberano cobriram os seus. Era impossível não se entregar. Amava-o, queria-o, sentia saudade das noites em que dormiram abraçados sob a lua e o vento, naquele tempo quando não eram ninguém e não havia nada no mundo que não fosse o amor que sentiam. Logo estavam despidos sobre a cama de lençóis escovados, gozando do amor e do desejo que sempre estiveram com eles.

A noite no Egito era quente e prometia cálidos momentos.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Mu estava agitado, há muito esperava no jardim do quarto de Kanon. O que ele estava fazendo? Não podia confiar no tio, e se ele desconfiasse? Talvez estivesse sido afoito demais e, sem querer, houvesse revelado mais do que deveria. Se Kanon descobrisse que o homem que levara ao reino era o amor de Shaka... O que ele faria? Entregá-lo-ia a Saga? E como poderia ter certeza de que era ele realmente? E se Shaka houvesse tido uma visão? Uma ilusão causada pelo excesso de estrangeiros que circulavam naquela noite pelo palácio e sua vontade insana de rever o homem que amava? Por que confiara tão prontamente no que o dançarino lhe falara? E se fosse mais uma armadilha? Shaka confessara que lhe quisera fazer mal, por que ainda se importava com ele?

Respirou fundo. Não seria de bom tom se o vissem saindo dali tarde da noite. Não depois de todos os rumores sobre o ataque que sofrera, mas precisava esperar e dar uma resposta a Shaka.

Ele ouviu passos rápidos e decididos no corredor e logo em seguida dois homens entraram no jardim. Vestidos demais para o costume do quente Egito, os dois posicionaram-se eretos de frente a Mu, os rostos envoltos em tecido negro, iluminados pelos archotes flamejantes.

Ikki deu um passo a frente, a mão na saif como o de costume, mas estancou e tirou o tecido do rosto, os olhos fitos no jovem príncipe egípcio.

— Jamila... — ele sussurrou estarrecido.

— Quem? — Mu franziu as sobrancelhas e aproximou-se dele, revelando-se melhor à luz do archote. — Falas a minha língua?

— Sim — Ikki saiu do transe e utilizou a língua dos egípcios. — Eu só... o confundi com outra pessoa...

— Sou Mu, filho do faraó Saga Hórus e futuro faraó do Egito. E tu, quem és?

— Não interessa o nome dele — Kanon, que entrara atrás dos mercenários e apenas esperava, os interrompeu. — São mercenários a meu serviço. Não é isso, rapazes? — Lançou um olhar significativo para os dois estrangeiros.

Mu mirou o tio com altivez.

— Claro que interessa, Kanon. Ainda são pessoas — ele insistiu.

— Horuk — Ikki disse.

— Aldebaran — falou o saubeu.

— Mu — ele disse e fingindo um cumprimento, segurou o pulso de Ikki, para espanto de todos. — Preciso de alguns conselhos sobre segurança, já que ajudaste meu tio em Babilônia — ele falou, sem jeito, numa tentativa de justificar o contato, enquanto, ao mesmo tempo, voltava a palma da mão de Ikki para cima, à procura da serpente negra. Seus olhos voltaram-se rapidamente para o rosto do mercenário quando a encontrou.

— Perdoe-me, alteza — Ikki puxou o braço, incomodado. — Somos mercenários e já estamos sendo pagos pelo príncipe de...

— Por mim — Kanon interrompeu-o mais uma vez, aproximando-se de Mu. — Espero que tenhas matado a tua curiosidade sobre estrangeiros, Mu, ou há algo mais?

— Por favor, tio, dei-me um pouco de liberdade. Prometo devolvê-los em alguns minutos. Não há nada a temer a não ser a minha capacidade de fazer uma proposta melhor que a tua.

— Creio que tenho a melhor proposta, sobrinho — Kanon coçou o queixo. — Mas... Sim. Permitirei que converses com eles, estarei na antessala.

— Agradeço — Mu fez uma mesura.

— Não agradeça, Mu — Kanon lhe lançou um olhar de advertência. — Cobrarei o favor. — Retirou-se.

De imediato, o semblante de Mu mudou e ele voltou a segurar o pulso de Ikki, guiando-o até a luz do archote e examinando o desenho idêntico ao de Shaka.

— És tu — ele murmurou, olhando chocado para o árabe. — Realmente existes, Ikki Horuk Kadar.

Ikki o mirou chocado.

— Conhece-me?

— Mais do que poderias imaginar. Conheço-te pelos lábios de Shaka.

Ikki sentiu o coração falhar. Agora foi ele a segurar as mãos do jovem egípcio.

— És amigo dele? Ele sabe que estou aqui?

— Sabe! Ele pediu-me que viesse até ti. Ele anseia este momento há muito tempo.

— Eu preciso encontrá-lo — Ikki murmurou, o coração doendo de ansiedade e alegria. — Ele me reconheceu! Eu sabia que reconheceria...

— Sim, mas ninguém pode desconfiar que tu existes, Horuk! — Mu sussurrou aflito. — Se isso acontecer, ambos, tu e ele, correm perigo. Por favor, deixe-me ajudá-los. Kanon não pode saber, ninguém pode.

— Tens como me levar até ele? — A apreensão do árabe era sentida por todos naquele jardim.

— Sim — Mu observou se Kanon estava mesmo distante e sussurrou. — No lado sul do castelo existe um velho fosso. Há uma porta velha de madeira, espera-me próximo a ela quando o tempo dormir.

— Esperarei — Ikki confirmou, esperançoso.

— Preciso ir agora — Mu disse, caminhando para a saída do jardim e encontrando Kanon na antessala.

O gêmeo de faraó estava recostado a uma janela, com os braços cruzados e uma expressão maliciosa no rosto.

— Pensas mesmo que não sei o que vieste fazer aqui, Mu?

O mais jovem franziu a testa, mas sentiu o coração gelar.

— Claro que sabes, eu queria conhecer os mercenários — Falou, irrequieto.

— Há mercenários demais no reino para que te preocupasses com esses em especial. Digas-me, permaneces ainda amigo de Shaka?

O gelar do coração chegou à face de Mu.

— Shaka? O que tem ele com isso? — tentou dissimular.

— Creio que ele tem tudo com isso — Kanon aproximou-se do sobrinho. — Creio que ele sabe quem veio comigo, ele sabe que alguém o procura...

— Kanon...

— Pare de mentir para mim ou eu delato-os todos a Saga! Não me tomes por tolo! Nunca fomos amigos, Mu, nem mesmo próximos! Nunca vieste aos meus aposentos e não viria por mercenários qualquer.

Mu desviou o olhar, o coração batendo forte. Shaka estava perdido.

— Tens razão. Estou aqui por ele. E se tu sabes, por que me permitiu?

— Precisava ter certeza de que ele realmente viu Asmita em meu camarote...

Mu franziu a testa.

— Quem?

Foi a vez de Kanon franzir a testa, confuso.

— De quem mais poderíamos estar falando? Asmita, rei de Najah, irmão mais velho do novo consorte de teu pai.

Mu engoliu em seco, mirando Kanon, assombrado.

— Sim, óbvio! E onde ele está agora? Os mercenários não quiseram me dizer.

— Seguro — Kanon ainda o mirava desconfiado.

— Sabes que preciso encontrá-lo. Shaka...

— Shaka negociará comigo — Kanon o cortou. — A partir daqui, eu o quero fora do meu caminho, Mu. Já que Shaka sabe da presença do irmão, serei direto sobre o que espero dele.

— E o que esperas?

— Logo saberás. Agora vais e avise ao teu amigo que amanhã teremos uma audiência.

Mu não questionou, deixou os aposentos do tio com aquela nova informação ressoando dentro da sua mente. Irmão? Asmita? Eram coisas demais para absorver e se Shaka reencontraria o esposo, o verdadeiro, naquela noite, era melhor que ainda não soubesse do irmão ou talvez o seu coração transbordasse.

Kanon estava cada vez mais intrigado. Chamou os mercenários e resolveu ir com eles até Asmita. Precisava de um plano para ter o que queria e teria tudo que queria e merecia, custasse o que custasse. Entretanto, estava confuso com os últimos acontecimentos e precisava de tempo para pensar. Não. Não era bom ter aquela audiência com a mente perturbada pelo álcool como estava. Estancou os passos, já próximo a uma das saídas do palácio.

— Pensei melhor. — Declarou. — Digam a Asmita que amanhã, logo cedo, estarei com ele, peçam para que me espere para o desjejum.

— Como desejar, alteza — Aldabaran disse, pousando a mão no ombro de Ikki, sentindo o amigo trêmulo. — Como deixamos o palácio?

— Pedirei para que meu lacaio os direcione pela saída dos criados. Estarão em segurança.

Aldebaran deixou escapar um sorriso irônico, vendo o príncipe egípcio afastar-se.

— Ele deveria pensar na segurança dos guardas que tentassem nos impedir — comentou. — Vamos.

Ikki encarou o amigo.

— Tu voltas. Eu preciso esperar o príncipe Mu no local combinado. É hoje, Aldebaran. Hoje reencontrarei a minha estrela.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Muito tarde, a alvorada quase despontava, mas Shaka mantivera os archotes acesos. Não conseguia dormir, não depois do que vira, e tinha certeza do que vira. Sentia-se febril, intensamente febril, como aquela noite escaldante, e ao mesmo tempo gelado como a brisa fria que vinha do deserto.

Os archotes e a luminosidade dos primeiros raios da aurora deixavam uma atmosfera mística no quarto. Shaka estava sentado na beira da cama, mirando a escuridão pela janela, o céu negro pontilhado pelo amarelo dos primeiros raios.

— Shaka... — A voz meiga de Mu fez com que ele pulasse da cama e desse um passo a frente. Ainda vestia a calça negra salpicada de estrelas, mas apenas isso e a maquiagem que ainda brilhava em seu rosto, a qual tentara limpar as partes manchadas pelas lágrimas aflitas. O persa esperou que o irmão saísse das sombras com alguma novidade, algo que confirmasse que não estava louco ou assombrado; algo que confirmasse que realmente vira o que vira. Mas, para a sua surpresa, não foi Mu quem saiu das sombras...

Ikki parou na entrada da alcova, mirando-o, estarrecido e em êxtase como se visse a anunciação de um milagre.

A aurora iluminava o céu em cores vivas e disputava com estrelas que pareciam chover sobre eles, misto de luz e trevas cuja força derramava uma nova e renascida era.

Uma lágrima banhou em simultâneo o rosto de ambos e os lábios riram, um riso de jubilo e medo. Horror e esperança. Desespero e amor.

Eles encurtaram a distância e ergueram mãos abertas como no passado. Fecharam os olhos quando as palmas se uniram e as serpentes ondulantes que havia em seus pulsos se tocaram e formaram o desenho perfeito da corrente infinita e reluziram na luz do alvorecer como encantadas.

As testas se tocaram como as palmas e depois os dedos se entrelaçaram. Uma paixão silenciosa, e o grito dos corações machucados, ansiosos que finalmente, ali, sob a luz de manhã e estrelas, se reencontravam.

O amor se fez me levando além onde ninguém mais
Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais
Lendo a rota das estrelas

Jorge Vercilo

https://www.letras.mus.br/jorge-vercillo/126913/

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

­

Notas finais
POSTADO EM 14/06/2019