A serpente e a estrela
35 Perseguindo estrelas no deserto
Notas iniciais
Perseguindo estrelas no deserto
Capítulo XXXIV
A aurora rompia, as mãos ainda juntas, entrelaçadas, como se pudessem evitar a fuga. Os olhos falavam tanto. Os lábios, nada. Ficaram assim por momentos infinitos, até que, desejosos, os corpos se enlaçaram num abraço profundo e as palavras finalmente romperam, desesperadas e arfantes.
— Eu sabia... Nunca desisti, sabia que te encontraria — Ikki murmurou, apertando-o nos braços como se assim pudesse apagar os anos de distâncias e as inúmeras cicatrizes do corpo e da alma. — Sabia que esperavas por mim... — Beijou-o nos cabelos cheirosos, aspirando seu odor como um asfixiado que busca o ar com toda a fome de suas vontades. Não era mais o mesmo cheiro, não o cheiro das especiarias de Najah, tão exótico e doce. A fragrância dos cabelos dele ainda era doce, mas havia algo que sensual e ardente, diferente do que existia quando o levara cativo de sua cidade. Não importava, contudo. Shaka ainda era ele, a pessoa que amava, a estrela que o guiou para fora da brutalidade e da ignorância da areia vermelha de Karna. Ele sempre seria a sua estrela.
— Eu sempre esperei por ti — Shaka murmurou e afastou-se para olhá-lo. Tocou-o no rosto como se toca em algo precioso e raro. — És real. Realmente chegaste para me salvar. Ikki... Ikki... — Repetiu o nome como se isso o concretizasse.
A salvação da qual Shaka falava não era a física. Não tinha esperanças de que Ikki o livrasse de faraó e do Egito. Há muito tempo, ele sabia que tal salvação apenas lhe pertencia. Ele mesmo teria que se salvar. A salvação, a qual Ikki trazia, era diferente e muito mais funda. Era a salvação de sua alma, a salvação de Shaka Devraj como homem, pois ele havia se perdido como ser humano. Ele deixara de ser o príncipe e se tornara um animal ferido que a tudo odiava. Ikki era como as águas límpidas de uma tempestade que lavava a lama do seu corpo e sua alma.
— Temo deixar de tocar em ti e veste desaparecer como a noite cede ao dia — Shaka confessou, acariciando a pele morena suavemente, como quem toca o ouro puro. Ele estava diferente, mais velho, mais forte. Era um homem feito, mas aquele olhar... A forma como o abismo se derramava sobre as estrelas era a mesma de antes.
— Estou aqui, Shaka. E não partirei sem ti, nunca mais. Nunca mais estaremos separados — Ikki sorriu e então o beijou.
Ambos estremeceram com o toquei. Os lábios e os olhares se uniram e a respiração ficou suspensa por um tempo. O real beijo demorou a acontecer. Durante longos minutos, eles sentiram o calor, a textura. Era como um mergulho em água fresca, depois de anos de deserto e lágrimas. E quando o beijo aconteceu, foi sem dúvida o beijo mais delicioso de suas vidas. O gosto ainda era o mesmo, doce, ardente. A mesma malícia infantil, embora estivessem longe de ser crianças ingênuas como um dia foram. Lábios e línguas buscaram-se como no passado, descobrindo, amando. Era um intrépido mergulho como o fora da primeira vez e agora havia o tremor de uma emoção ainda mais profunda. A emoção do reencontro.
Afastaram lábios e língua, derramando no ar a respiração quente e alterada. Estrelas e abismos se encontraram mais uma vez e sorriram inebriados de alegria.
— Vim para levaste. Tenho tanto para te dizer, Shaka. Vivi no deserto mais árido do mundo sem ti. Perdi-me, mas sei que contigo posso me reencontrar.
— Tu não sabes dos infernos que andei — Shaka murmurou, segurando-lhe as mãos. — Mas os esqueceremos, meu amor. Esqueceremos tudo isso e seremos felizes como um dia fomos.
— Eu sei, meu amor, eu sei...
Shaka riu, mirando o rosto amado com o coração aos pulos.
— Não falemos agora, haverá tempo! — o persa tocou o árabe no rosto mais uma vez, e novamente recebeu um beijo. — Quero sentiste... Tua pele, tua boca, teus olhos...
Ikki sorriu, permitindo que as mãos macias do dançarino percorressem o seu rosto. Voltou a beijá-lo tempo depois. As emoções gritavam. A euforia era mágica. Era como se seu corpo se regozijasse na presença de Shaka. Era como se após tantos longos anos, ele estivesse vivo novamente. Vivo! Renascia finalmente após ser sepultado e execrado nas areias vermelhas de Quim’ziq por seu próprio povo. Suspirou com as lembranças, o que Shaka pareceu ler em seus olhos.
— Não pensaremos em tristezas hoje. Hoje preciso apenas sentiste aqui, real. Ter a certeza de que os deuses o trouxeram para mim. Eles me ouviram as preces.
— Levar-te-ei daqui. Temos um lugar, Shaka. Um lugar para vivermos juntos e em paz. Eu o reconstruí para nós dois. Por nós dois.
— Sim, mas não esta noite — segurou o rosto dele entre as mãos. — Esta noite apenas me beije e prove-me que este não é mais um sonho. Depois me conte tudo, mas amanhã. Hoje só me sinta.
— Sonhei todas as noites contigo. E todas as noites vi teu rosto em cada estrela no deserto.
— E eu disse a mim mesmo que nos encontraríamos. Que tu me encontrarias seguindo as estrelas até mim.
Eles riram.
— Segui estrelas e pérolas vermelhas.
— Deixei uma em cada lugar que passei, com esperanças.
Abraçaram-se novamente, como se quisessem fundirem-se como uno. O encontro. Abismo e estrela.
Mu adentrou silenciosamente a alcova do amigo.
— Precisamos ir agora. Está ficando claro. Não é seguro. — Avisou.
— Não — Shaka apertou Ikki nos braços com mais força.
— Eu voltarei, prometo — Ikki não queria ir, não queria sair dali sem ele, mas sabia que precisava. — Prometo que voltarei amanhã e todas as noites até que possamos partir.
— Retorne à noite ou morrerei. — Shaka implorou.
— Prometo. — Beijou-o, um beijo mais longo e intenso agora. Abraçaram-se, as mãos demorando a se separar. Shaka esticou os dedos até o momento em que Ikki desapareceu por completo na escuridão do jardim. Ele ainda sussurrava “eu prometo” enquanto era guiado por Mu para as sombras. Quando não mais pôde vê-lo, o dançarino deixou-se cair no leito de plumas, sentindo como se novamente perdesse uma parte de si. Tinha medo de fechar os olhos e, avesso, despertar daquele sonho maravilhoso. Ikki chegara! Chegara para salvá-lo! Talvez... Talvez pudesse ser salvo ainda. Talvez... Talvez pudesse ser limpo de toda a sujeira na qual esteve mergulhado durante todo aquele tempo. Havia perdido as esperanças, eis a verdade. Perdera as esperanças e mergulhara na vileza. Agora era o momento de tomar o caminho de volta. Mas o que faria? Seria possível pedir sua liberdade, agora que era um príncipe novamente? Saga, quiçá o concedesse a liberdade. Ele agora era um homem mudado que queria fazer o certo. Sim, ele lhe concederia partir em paz.
Dentro dos seus pensamentos, entretanto, Shaka dizia que para si as coisas nunca foram simples e fáceis. Não depois dos 13 anos. Najah parecia uma estância mágica esquecida há muito tempo. Distante demais para que a alegria e a paz que sentia naqueles tempos ainda o habitassem. Era um sonho infantil. Contudo, precisava ter esperanças. Ikki estava vivo e não desistira dele, estava ali por ele. Persistiria até o seu último suspiro. Apenas precisava pensar como. Como poderia salvá-lo e se salvar?
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Aioros mirava o mosaico no teto. Colorido, ele contava mais uma história dos deuses, o nascimento de Hórus. Saga dormia com a cabeça em seu peito, os espessos fios negros espalhados sobre o rosto claro, o que fazia um contraste bonita contra a sua pele acobreada. O senhor de Leontópolis não se sentia arrependido. Jamais se arrependeria de uma noite em que o tivera nos braços. Amava-o e agora não era mais grão-vizir do Egito, e o clã de Leontópolis teria um herdeiro. Nada o impediria de ser feliz se quisesse. Queria? Confiaria em Saga depois de ele o ter traído pela segunda vez? Aioros entendia. Ele sempre entendia os motivos de faraó. Ainda assim, havia a dor, e agora... Agora Saga dera um passo irresolvível.
Pensava tanto, os deuses sabiam o quanto ele pensava, e tinha consciência de que necessitava achar uma solução porque amava aquele homem que dormia sobre o seu ombro. Mas como solucionar todas as maldições jogadas sobre aquele amor? Como superar a desconfiança?
Tocou os cabelos sedosos do amante, deixando-os escorrer por entre os seus dedos. Havia nele um sutil e sombrio reconhecimento de que fosse o principal culpado de tudo aquilo. Fora covarde e negara-se a Saga por tantas vezes, que ele havia desistido. Deveria ter-se rendido como se rendera naquela noite. Deveria ter aceitado ser amante de faraó e ter evitado que Saga tomasse um consorte, algo tão negativo politicamente. Shaka agora era um problema e apenas a morte do persa resolveria as coisas. Talvez fosse o que os escribas e nomarcas estivessem tramando naquele exato momento. Mas ele, Aioros, jamais seria capaz de compactuar com assassinatos, ainda mais o assassinato de um garoto que não tinha culpa de sua condição. Shaka era o consorte real. Sim, um eunuco estrangeiro, um dançarino e prostituto, era esposo do deus-na-terra e assim deveria continuar. Todavia, como se esconder? Vilipendiar-se, anular-se à sombra de um escravo estrangeiro? Será que não havia um único resquício do sangue selvagem de Leontópolis em si? Aceitaria aquela humilhação?
“Será que não há orgulho em ti, meu filho? Tu és um leão, um filho de Sekhmet e não um escravo de cama!”. As palavras do pai depois de tê-los surpreendido juntos ainda martelavam a sua mente. “Não desonres o teu clã!”.
Ele era o senhor de Leontópolis, filho de leões, linhagem tão antiga quando a linhagem de Rá. Seu pai fora general, seu avô grão-vizir, e o pai desse antes dele. Aioros não poderia ser homem visitado, amante, puto. Nem mesmo do deus-na-terra.
Mirou novamente o rosto de Saga. A baixa luminosidade das chamas e do dia que clareava formava sombras sobre a pele alva dele. Saga, moldado para ser faraó, ficava confinado no castelo, enquanto ele e Kanon corriam sob o sol escaldante e tinham a cor do verão. Aioros tocara a pele de ambos, beijara ambos, mas amara apenas Saga. Kanon sabia. Tais coisas aconteceram quando eles eram novos demais até mesmo para entender sentimentos, mas as lembranças da amizade antiga lhe fizeram pensar em uma saída para todos os impasses que os envolviam. Talvez Kanon pudesse ajudar de alguma forma. Não sabia, todavia, se ele quereria ajudar.
Tocou os lábios quentes do grande rei. Deuses, como o amava! Apertou-o nos braços. Saga não acordou, mas o apertou de volta, aconchegando-se contra o seu corpo. Era o que Aioros queria para sempre. Todavia, ali não era o seu lugar. Não ainda, e ele escorregou da cama, depois de um tempo, procurando por suas vestes e saindo antes que o dia clareasse de vez.
Os medjais na porta sequer o olharam, eram treinados para ver apenas o que faraó desejava que eles vissem, e o ex-grão-vizir seguiu pelo corredor silencioso e introspectivo. Foi quando percebeu vultos à sua frente. Pessoas saíam sorrateiramente de um dos corredores laterais. Corredores que ele sabia fazer parte das câmaras e antessalas que se ligavam ao quarto do monarca e seu consorte.
Aioros acelerou o passo para tentar alcançar quem quer que fosse, mas os perdeu em alguma das passagens. Intrigou-se. Não havia mais quartos naquela ala do castelo, quem poderia...?
Voltou-se em direção à grande porta de pau-ferro que protegia a alcova do novo príncipe. Poderia dar a volta e entrar pelo jardim, o que o deixaria de frente ao quarto, mas por algum motivo não quis assim.
— Deixem-me passar. — Ordenou aos guardas que, talvez por instinto, já que durante tanto tempo ele foi autoridade; talvez por tê-lo visto sair do quarto do rei, não demonstraram resistência, abrindo a grande porta e deixando-o entrar no luxuoso aposente.
Aioros parou no salão principal. A alcova era tão luxuosa quanto o quarto de faraó, com uma gigantesca tapeçaria estendida, cercada por almofadas coloridas e vasos de ouro. Dois imponentes tronos em forma de serpente decoravam o local, assim como uma mesa de ônix e marfim e archotes cujos suportes eram chifres de mamutes gigantescos, lixados e encrustados de joias. Ao lado do salão estava o suntuoso jardim, cheio de palmeiras e plantas exóticas. Aioros sabia que ali havia uma passagem secreta que levaria o príncipe e o rei para um dos subterrâneos em direção ao Nilo, no caso de uma invasão. Caminhou a passos apressados até ela e verificou que, como sempre, estava fechada em grossas toras. Havia ainda outra saída, por uma passagem no chão, uma escada que os levaria em segurança até a estrada do rei, próxima à floresta de espinhos. Aioros sabia de tudo. Ele era um dos poucos que sabia de tudo aquilo. Do que desconfiava? O que seu coração lhe avisava?
Caminhou a passos apressados até o repousário, chegando à porta e sondando. Afastou a cortina levemente. Shaka estava na cama, parecia dormir tranquilamente. Um anjo de face corada e quase sorridente. Como ele podia dormir tão tranquilamente depois de tudo? Aioros quase sentiu inveja da serenidade que transparecia naquele jovem e belo rosto sob as primeiras luzes da manhã. Shaka dormia numa cama oriental com dossel colorido, como ele sempre exigira, ignorando as tradições egípcias. Saga também havia aderido àquilo, na verdade todos eles acharam uma construção interessante que os protegia das intempéries da noite à margem do Nilo.
“Durma tranquilo, meu príncipe. As moções ainda estão por vir.” Aioros pensou e resolveu deixar os aposentos do estrangeiro. Talvez o velho dever ainda estivesse o sacudindo. Talvez as sombras estivessem em sua cabeça apenas.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Já Hades, não dormia direito há vários dias. Não sabia o que estava acontecendo, já que havia se medicado com todas as ervas existentes para resolver tal problema. Temia, e esse temor tornava-se cada vez mais sombrio. Caso Shaka contasse a faraó o que havia feito, todas as tramas... Arriscara-se demais ao confiar no estrangeiro, ao pensar que ele teria frieza e vontade de liberdade suficientes para não sucumbir a uma amizade imbecil. Agora, estava inseguro, vendo sombras em todos os cantos e ainda havia o hóspede. Aquele homem hediondo e degradado. O que faria dele? Ele era um trunfo contra o persa. Um trunfo que agora não fazia diferença. Fosse o que Misty pudesse revelar, não havia valor no momento. Shaka se tornou intocável e tão sagrado quanto faraó.
Estava perdido! Perdido! Precisava encontrar um novo plano, mas como faria isso se sua cabeça doía e seus ossos reclamavam o tempo todo? Acabava sempre preso à cama. Vários dias de vômito e enxaquecas terríveis. Pandora o visitava, cuidava dele e depois desaparecia. A barriga da esposa estava enorme, seu herdeiro não demoraria a nascer e ele seria o único que teria um filho de sangue real de verdade. Esse ainda era o seu grande trunfo. No momento certo, revelaria a mentira de Nerfertari, e ela não teria como provar que a ideia fora dele, que ele arquitetara o plano, depois de não conseguir engravidá-la no templo do subsolo. Saga era infértil. Nenhuma das filhas das concubinas eram dele, e o rei era tolo o suficiente para não perceber isso. Filhas de soldados medjais com peles tão escuras quantos os pais e os olhos de safiras, esmeraldas e opalas das mães. Nenhuma possuía os olhos verdes de faraó, nem os cabelos escuros, nem a pele clara. Como um tolo tão grande podia ocupar o trono? Saga não passava de um menino mimado e alheio à realidade do seu império, alheio à própria grandeza. Ele, Hades, nascera para reinar. Ele, o filho preferido de Sobek, não poderia terminar a vida como um simples nomarca. Havia prometido a seu pai. Havia prometido ser grande e infalível.
Mas a sua cabeça doía e ele vomitava sem parar. A saúde lhe faltava, era um velho e se tornava mais velho a cada dia.
Tocou a sineta e um escravo entrou apressado.
— Chama-me um médico, que morro! — pediu fraco.
— Senhor, a senhora disse...
— Busca-me um médico agora! — ele gritou e depois gemeu, voltando a cair sobre o leito.
O escravo saiu, e Pandora entrou calmamente tempos depois. Ela trazia uma bacia com água e um vaso com um elixir calmante que sempre o ajudava.
— Já pedi que chamassem o curandeiro, mas beba isso — ela lhe entregou uma cuia com um líquido amargo e escuro. — Já disse que o que o adoece são os nervos e não o corpo.
Hades ajeitou-se na cama e engoliu o líquido que tinha um estranho poder de acalmar as dores e a mente.
— O que é isso?
— Selza. Sabes que sou versada nas ervas. As estudei por muito tempo. Precisas apenas de repouso, sono e minhas ervas para te curares. É sério, meu senhor. Caso continues tão agitado, tua saúde não suportará.
— Não posso ficar na cama... — Hades já sentia o sono tomá-lo. As ervas de Pandora sempre o acalmavam. — Preciso... Nossos planos...
— Nossos planos estão acontecendo, meu senhor. Estou cuidando de tudo, não te preocupes.
Não demorou muito para que tudo escurecesse e ele fosse tragado pelo mundo dos sonhos. Mas seus sonhos eram sempre tenebrosos e vis. Viu-se correndo novamente de crocodilos, dentro de um labirinto, tendo água até os joelhos. Ele gritava por ajuda, mas na penumbra, via Shaka dançando sobre um altar, tendo uma tênue luz incidindo sobre sua cabeça. O rosto do persa não era o mesmo, era a cabeça de Háthor, a vaca branca e seus olhos eram negros como ônix. Do outro lado, Saga com a cabeça de falcão também o mirava. Ele o julgava, e Shaka-Háthor dançava sem música.
Pandora deixou o quarto do esposo e ordenou aos servos que não o incomodassem e que também não o deixassem receber visitas. Ela mesma foi ao salão principal do castelo receber o homem nervoso que aguardava por Hades.
— General Radamanthys, é uma honra recebeste — cumprimentou-o.
— A honra é minha, princesa. Preciso falar com urgência com o meu senhor.
— Infelizmente o meu esposo não anda muito bem de saúde. Ele pede para que todos os assuntos sejam tratados comigo.
Radamanthys franziu as sobrancelhas, incerto.
— O que tenho é confidencial, senhora.
— Não há segredos entre mim e Hades. Confias. Logo meu marido se reestabelecerá e poderá ele mesmo confirmar o que digo. Agora falas, general.
Radamanthys ainda pareceu suspeitoso, mas retirou um pergaminho de dentro do colete negro que usava sobre o gibão da mesma cor e o estendeu à princesa.
— O príncipe trouxe essa carta da Babilônia. Ele deveria entregá-la a faraó, mas eu pensei que o meu senhor se interessaria em sabê-la.
Pandora pegou o pergaminho e quebrou o selo. Examinou o que havia escrito com total impessoalidade.
— Não tiveste a curiosidade de romper o selo e saber do que se trata? — Ela estranhou.
— Não sei ler a escrita dos babilônios, princesa. Deveria?
— Não. Não é nada de importante, mas fizeste bem em trazê-la a Hades. Meu esposo é o escudo desse império. Sem ele, já teríamos caído. Meu irmão é uma criança. Fizeste bem, general. Assim que possível, entregarei a carta a Hades.
— Senhora — Radamanthys fez uma reverência e deixou o castelo.
Pandora mordeu os lábios. Então havia um irmão ávido em busca do novo consorte do rei... Aquilo era interessante e poderia ser útil a ela. Muito mais a ela que a Hades. Quem imaginaria que ela, moldada para ser apenas uma peça decorativa, seria quem conduziria os fios do destino do grande império egípcio? Tudo estava em suas mãos e sairia como queria. Pequenos percalços não a impediriam.
Pediu que um servo preparasse o seu carro. Faria uma visita ao irmão. Ao irmão que mais lhe interessava naquele momento. Pandora tocou o ventre volumoso, mais duas luas e seria mãe. E seria um menino, porque era de um menino que precisava. E o amaria, sim, o amaria como a própria mãe nunca a amou. Seria uma boa mãe. A rainha-mãe conselheira e amável que na verdade conduziria o reino. Esse era o seu destino. Esse seria o seu legado. Todavia, Pandora sabia que havia pedras em seu caminho, duas especificamente, das quais teria que se livrar. De Hades já estava cuidando, ele estava em suas mãos. Suspirou. Odiara-o por tantos anos... Agora nem sabia o que sentia de fato pelo marido. Quando fora obrigada a se casar com ele, contava apenas 13 anos. A noite de núpcia ainda a atormentava, mas ninguém a ouviu chorar, porque princesas não choram nem de mágoa e nem de dor. E mesmo que chorasse, ninguém teria se importado consigo. Ela era uma peça decorativa, uma peça política. A família precisava fazer as pazes com Hades, e ela lhe foi dada como consolo. Seus desejos e sonhos de menina não importavam.
Seguiu para o castelo em seu carro de passeio, feito em ouro e madeira, puxados por cavalos imponentes. Era um dia quente como a maioria dos dias no Egito e as pessoas transitavam pelas ruas, comprando e vendendo. Militares passeavam despreocupados com as suas longas lanças, mulheres se vendiam nas portas dos bordéis como em toda a história da humanidade. Ponderou que necessitava pensar sobre Aspros. Desse, ela ainda não sabia o que faria.
O senhor do castelo a recebeu no grande salão. Grande e majestoso como os salões de Men-Nenfer. Pandora sorriu, era a primeira vez que visitava o irmão fora do palácio real, longe da corte, conselheiros e todos os espiões do marido.
— Pensei que ficarias em Men-Nenfer até o fim do ciclo de festividades.
Kanon mirou a irmã com uma ruga de desconfiança na testa.
— Para mim aquele espetáculo foi exagerado — ele respondeu. — Inclusive, tenho me reunido com o conselho sobre Saga. Para alguns, ele não parece muito sadio da cabeça.
Pandora riu.
— É uma ótima oportunidade para que O oculto saia das sombras. Creio que essa é a grande oportunidade.
Kanon riu, dissimulado, e convidou a irmã para que sentassem em bancos decorado na bela sacada do castelo. A vista do vale era esplendorosa.
— Fale-me a que veio, Pandora. Sem subterfúgios. — Ele perguntou enquanto badalava um sino por duas vezes, o que era suficiente para que um servo lhe levasse um jarro com cerveja de frutas e os servissem.
— De todos os meus irmãos sempre foste o meu favorito — ela sorriu. — Confesso que desejo o mesmo que desejas, Kanon: o trono.
O gêmeo de faraó não conseguiu evitar a gargalhada, mas Pandora não se mostrou ofendida. Deixou que o servo a servisse e continuou a mirar a vista do vale.
— Não foi uma piada? — Kanon a encarou, confuso.
— Nunca tive o teu bom humor, irmão.
— Uma mulher no trono? Nunca seria permitido! Sem contar que aquele trono é meu, Pandora. Quando Saga se for, eu ocuparei o trono. Não desgastas tua beleza com tais sonhos de menina.
— Não me oponho que sejas faraó. Embora eu deva lembraste que há alguém na tua frente na linha de sucessão. Alguém que devemos eliminar.
— Sei disso, mas então?...
— Não me oponho que tenhas o trono — Pandora disse tranquilamente. — Contanto que depois de ti, seja ele — pôs a mão sobre o ventre volumoso — a ocupar tal cadeira.
— Um filho de Hades? — Kanon torceu os lábios. — Nunca! Não o sangue daquela víbora traiçoeira! Prefiro Mu como meu herdeiro.
— Havia um tempo em que Hades era teu aliado.
— Sim, até que ele me abandonou e me traiu. O que eu queria era simples, ele jurou me ajudou e simplesmente foi cuidar dos próprios projetos. Ele prometeu que me faria grão-vizir e simplesmente esqueceu disso.
— Tu também pareceste esquecer. Algo te distraíste, Kanon.
— Algo?
— Shaka.
— Não importa. Mu será o meu herdeiro. Uma cria de Hades, não.
— Não seria possível, infelizmente. Além do mais, o meu filho é de Aspros, ou Defteros, não sei bem. Eu jamais geraria de Hades. O que pensas? Acreditas mesmo que durante todos esses anos não gerei por incapacidade? Cada vez que ele me tomou na esperança de ter uma prole, eu me lavei com siphium e vinagre amargo. Jamais conceberia de alguém que odeio. Já Saga... — Pandora sorriu com a dúvida nos olhos de Kanon. — Saga é estéril. Mu não é filho dele.
— Como tens tanta certeza disso?
— A febre de Miákkan faz isso com os homens. A mesma febre que acometeu Saga, deves se lembrar. Lembro-me de os curandeiros dizerem que era uma doença perigosa para a fertilidade dos meninos e proibir a ti e a Aioros de ficarem ao lado dele.
— Não me lembro de nada disso...
— Homens têm péssima memória. Não importa, o importante é que sei que meu filho não é de Hades e que Mu não é filho de Saga.
Kanon ergueu uma sobrancelha com uma expressão irônica e curiosa.
— E por qual motivo tu me contarias algo tão precioso, irmã?
— Ora, sei que preciso da verdade para convenceste. Aspros pensa que a criança é dele e talvez seja. Ainda assim, não é de Aspros que preciso, é de ti, o irmão de Saga, aquele que também tem direito ao trono.
— E o que farás de Aspros? Ao que parece, andaste o enganando.
— Qualquer nomo é suficiente para quem a nada tem direito. Serei generosa, pretendo mandá-lo e a chorosa Nájila para uma bela cidade com um belo castelo. Arranjo-lhe um pomposo casamento e eles viverão em luxo. Só preciso de Aspros longe daqui e que não me atrapalhe.
— Usaste-o e agora o descartas...
— Somos usados e descartados o tempo todo, irmão. — A princesa novamente experimentou sua cerveja. — Eu apenas cansei disso. Mas Aspros me tem muita serventia ainda. Inclusive, ele é o meu porta-voz junto a alguém muito importante em tudo isso.
— Quem?
— O nosso mais novo irmão.
— Shaka?
— Precisamos dele como aliado. Hades o apavorou e por isso ele aceitou essa união, mas tenho certeza de que o belo rapaz odeia faraó, odeia o Egito e deseja ir para casa.
— Apavorou-o? Como?
Pandora revirou os olhos. Aquela história bizarra de corromper Mu e ocupar o trono foi desastrosa e ela sabia que seria desastrosa, mas incentivou cada passo do esposo e torceu por seu desastre.
— Teremos tempo para falar sobre isso. Tenho informações importantes que colocarão o dançarino em minhas mãos e talvez viemos a precisar dele.
Kanon mirava a irmã com divertida curiosidade. Será que ela realmente acreditava que tudo seria tão simplório? A ingenuidade de Pandora o fascinava e divertia. Ele tinha os seus próprios planos, mas deixaria que a pretensiosa irmã mais nova o considerasse o parvo que sempre considerou.
— Digamos que concorde com teus termos. Como pensas em tirar Saga do caminho?
Pandora sorriu com os lábios fechados e provou do seu cálice.
— Tal plano já parecia ser teu, irmão, muito antes de eu chegar aqui. Conte-me.
Kanon riu abertamente e inclinou-se sobre Pandora, segurando-lhe o pulso e a mirando nos olhos.
— Ninguém põe a mão em Saga. — Suas palavras foram lentas e secas. — Ninguém.
Pandora não se abalou, puxou o pulso e encarou o irmão.
— Tu disseste: quando Saga se for. O que isso significa de fato?
Kanon deslizou os dedos pelos cabelos longos, massageando a nuca.
— Significa que eu sei o que farei para ter o trono. Deixe isso comigo e apenas comigo. Ninguém toca em meu irmão a não ser eu.
— Posso mesmo confiar em ti, Kanon? — A mulher ergueu-se. — Se me traíres...
— Serei faraó e teu filho será o meu sucessor. Esse é o acordo. Mas não te esqueças nunca de quem será faraó, pequena irmã. Não me tomes por tolo e tuas ambições estão garantidas, tentes me manipular e terás um destino pior do que o que imaginas para o teu pobre esposo.
Pandora calou-se. Naquele momento, Kanon assemelhava-se a um deus implacável, mirando-a com aqueles olhos verdes terríveis.
— Não esquecerei, irmão. — Ela ergueu-se. — Perdoe-me. Preciso ir, ainda tenho uma visita para fazer antes de tomar a cabeceira do meu marido enfermo, como a boa esposa que sou.
Kanon assentiu com a cabeça e ela saiu. O gêmeo do rei coçou o queixo, vislumbrando o futuro, que era nebuloso e estranho, mas convidativo. Não ficaria na retaguarda enquanto Pandora arquitetava seus planos de poder. Ele também precisava mover-se. Era o momento do persa lhe entregar aquilo que tanto queria. Precisava neutralizar Saga, antes que o irmão despedaçasse o reino por causa de um rabo qualquer. Sim, por mais irresponsável que fosse, o que acontecia preocupava Kanon. Conselheiros e nomarcas já se organizavam contra o irmão e se os sacerdotes aderissem à ideia de que Saga estava louco, ou enfeitiçado, não demoraria muito para que um deles quisessem tutelá-lo. Não. O irmão teria um único tutor, seu irmão gêmeo.
Tomou de um cavalo e encoberto por um manto negro com capuz, o príncipe saiu à luz do dia em direção à estância onde havia hospedado Asmita. Encontrou o persa no salão comum da casa, ao que parecia, rezando silenciosamente.
— Príncipe Kanon — Asmita disse, ainda com os olhos fechados e sem se mover. — Eu te esperava.
— Vim buscar o que me prometeste. — Kanon declarou. — Assim que Saga estiver sob o meu poder, eu o farei libertar Shaka e poderão partir. Tens a minha palavra.
— Sim. É a palavra de um príncipe para outro príncipe, não é mesmo? — O sorriso de canto de lábios de Asmita foi enigmático. — Dei-me duas noites e o elixir estará pronto.
— Duas noites... — Kanon concordou, mesmo que desconfiado e intrigado. — Nada mais que isso.
— Terás a minha palavra.
Kanon pensou em interrogá-lo mais a respeito daquele plano. Era estranho que Asmita nem mesmo pedira uma audiência com o irmão. Aquilo o deixava desconfiado, mas ele era astuto suficiente para esperar e observar. Havia certa desconfiança em seus pensamentos e o príncipe egípcio tentava fazer as ligações necessárias para entendê-las.
— Esperarei. Mas na manhã seguinte, cobrarei a tua dívida.
— E eu a pagarei — Asmita falou, sem se mover do tapete onde meditava.
Kanon deixou a casa e foi buscar o seu cavalo. Um servo lhe entregou as rédeas do belo animal de pelo marrom e o príncipe observou os mercenários que estavam próximos aos estábulos. O tal Horuk alimentava o seu magnífico alazão negro de patas peludas. Um cavalo digno de um príncipe...
— Príncipe... — Subitamente, Kanon pensou que havia um sério problema nos planos de Pandora e nos seus: Mu. Ele ainda não havia pensado no que faria do verdadeiro herdeiro do trono se realmente conseguisse controlar Saga. Precisavam pensar com cuidado e astúcia, ou estaria tudo perdido. Mu poderia se opor ao que ele queria e muitos poderiam apoiá-lo. Precisaria neutralizá-lo, e sabia como. Como Saga, ele o neutralizaria pelo coração. Seria melhor que um escândalo de contestação de paternidade. Pandora discorria que tinha todos nas mãos. Ela não tinha.
Kanon montou em seu cavalo e partiu. Não percebeu, contudo, que estava sendo seguido. Radamanthys havia seguido Pandora até a casa do príncipe, esperara a mulher partir e resolveu seguir os caminhos de Kanon. Pensava que ele fosse um inimigo mais perigoso que a esposa de Hades. O general indagava-se sobre o que o nomarca estaria fazendo naquela casa suntuosa, próxima ao porto, e surpreendeu-se ao notar que fora ali que ele hospedara a comitiva persa que levara ao Egito. Seria aquilo algum tipo de golpe? Não era possível. Não com apenas três homens. Desde a Babilônia, as constantes conversas aos sussurros entre o príncipe persa e o egípcio o intrigara. Agora, Radamanthys estava mais intrigado que nunca. O que o homem cego que curava queria no Egito e por que o príncipe o escondia?
O general pensava que aquelas informações seriam tão importantes para Hades quanto o pergaminho que havia roubado de Kanon. E pensar no pergaminho e no posterior encontro de Pandora com o príncipe dava-lhe a impressão de que havia cometido um grave erro em confiar na mulher, e Radamanthys detestava errar. Precisava falar com seu mestre o mais breve possível e, de preferência, sem Pandora por perto.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
A tarde já alaranjava no horizonte quando Aioros adentrou o suntuoso gabinete do faraó. Saga como sempre não estava sozinho, mas ergueu-se do trono e dispensou nomarcas e escribas, pedindo aos soldados que não deixassem que fossem interrompidos.
Aioros já esperava por aquilo. Na verdade, se surpreendeu por Saga ter esperado até o final do dia, já que raramente ele não fosse impulsivo.
— Esperei que ficasses ao menos para o desjejum — faraó disse, tirando o nemés da cabeça, sem paciência. — E esperei o dia todo que voltasses.
— Pensei ser melhor não causar tal escândalo no dia do teu casamento, meu soberano — a voz foi sarcástica, por mais que ele não quisesse.
— Casamento! — Saga riu, amargo. — Minha última tentativa de fazer o certo.
— Exilar a grande-esposa e colocar um dançarino estrangeiro na alcova dela não é fazer o certo, é ser caprichoso.
— Os deuses sabem que não foi um capricho — Saga suspirou. — Queria que ao menos tu entendesses isso...
Aioros passou os dedos nos cabelos escuros e seu semblante sério mirou faraó.
— Por que me chamaste?
— Sabes por que.
— Saga, sobre ontem... Não foi certo. Estávamos...
— Bêbados? — Saga riu. — Certamente. Mas também era tudo que queríamos. Aioros, eu quero devolver a tua toga de vizir e colocaste na antessala do meu quarto novamente para ser os meus olhos e ouvidos. Foi uma tolice mandaste embora. Mais uma das várias tolices que sempre faço.
— Não, Saga — Aioros riu. — Pensei que havia amadurecido o mínimo, mas essa proposta! Durmo contigo e no dia seguinte tenho um cargo? Não estou à venda, faraó. Não quero retornar à toga de vizir somente deixei que me fodesse na noite passada.
Saga arregalou os olhos com aquelas palavras. Aioros era sempre tão calmo e bem-humorado, nunca usava palavras agressivas ou vulgares. Com certeza o irritara bastante.
— Não é por ontem... — o rei murmurou e encarou os olhos do amigo. — Foi um erro afastar a única pessoa em quem posso confiar em todo reino. Não sou tolo, Aioros. Sei que há conspirações entre escribas, sacerdotes e nomarcas. Alguns julgam-me louco pelas reformas e por Shaka, e creia, as reformas são muito mais importantes para eles do que Shaka.
— Shaka também é um problema. E é um problema do qual não podes te livrares — Aioros falou, rendendo-se e assumindo o papel de grão-vizir. — Há, contudo, algo que podes fazer para amenizar a polêmica.
— O quê?
— Traga a grande-esposa de volta. Faça o povo pensar que a tua união ao escravo foi apenas algo ritual exigido pelos deuses, mas que não há encontro carnal. Use tua divindade a teu favor ao menos uma vez na vida.
— Não quero Nerfertari aqui, ela trama contra mim! — Saga irritou-se. — Shaka me advertiu sobre ela...
— Confias tanto assim nele?
— Não como confio em ti.
— Saga, entendas que nenhum dos sacerdotes e nomarcas preocupam-se com o que fazes na cama. Mas o rei unir-se a um homem, por mais belo e delicado que seja este homem, diz a outros homens que eles podem fazer o mesmo. O reino precisa de nascimentos, os clãs precisam de filhos. Filhos só nascem da união entre homem e mulher. Shaka pode não ser um problema tão grande quanto as reformas, mas é um problema.
— E o que queres que eu faça? Não posso voltar atrás. Um rei não volta atrás.
— Traga Nerfertari de volta e faça-a desfilar numa carruagem dourada por toda Men-Nenfer.
— E depois?
— Faça outro filho nela. — As palavras eram como facas no coração de Aioros, mas naquele momento, ele era o grão-vizir do Egito e não o homem que amava faraó. Ele aprendeu desde cedo que o dever com o império vinha antes dos seus sentimentos.
Saga fez uma careta de asco.
— Não! Um filho! Um é suficiente! — Ele disse. — Não me deitarei com ela nunca mais, Aioros, isso não!
Aioros sabia quão traumática foram as noites que Saga passara ao lado da esposa. Ambos foram tratados como animais, forçados a copular e eram quase crianças. Depois daquilo, Saga tomara horror à rainha. Mas era preciso. Encarou-o com reprovação.
— Eu sempre disse que deverias ter mais filhos. Uma única prole é frágil. Nunca imaginou que algo poderia acontecer a Mu e...
— Kanon seria meu sucessor. Não é uma ideia ruim.
— É uma ideia ruim quando sabes que Kanon sempre quis ser faraó. Não confio nele.
Saga deixou-se cair no trono e chamou Aioros para que ele se sentasse também. Agora que, aparentava, Aioros havia reassumido seu posto de vizir, eles precisavam ter aquele tipo de conversa formal, mesmo que Saga só pensasse em abraça-lo e beijá-lo o tempo todo.
— Às vezes penso que foi uma decisão errada dos sacerdotes...
— Como assim? — Aioros franziu a testa.
— Deveríamos reinar juntos. Nascemos no mesmo dia, na mesma lua, e idênticos. Os deuses tentaram nos dizer algo e não foram ouvidos...
— Saga...
— Se reinássemos juntos, teríamos prole maior e talvez eu pudesse governar melhor. Kanon sempre foi divertido e admirado...
— Kanon cumpre bem o papel diplomático dele. Cumpriu bem na Babilônia e continuará cumprindo como príncipe do Egito. Tu és o faraó.
Saga sorriu e tocou um dos cachos marrons dos cabelos de Aioros com carinho.
—Sempre farás tudo para me proteger, não é mesmo?
— Protejo o Egito — Aioros afastou a mão dele, mas não se afastou. Nem mesmo quando Saga se inclinou, segurando-o pelos lados do rosto.
— Eu te amo...
— Saga...
— Eu te amo muito, Aioros — beijou-o.
Aioros permitiu-se. Desde a noite anterior ele decidiu não resistir mais. Estava cansado de lutar contra o que queria, mas questionava se não fazia aquilo unicamente por ciúmes. Será que se não houvesse Shaka e aquele ridículo casamento, ele aceitaria o amor de Saga? Sentia-se ferido ainda. Muito ferido. E talvez aquela condescendência fosse de alguma forma vingança. Uma distorcida vingança. Caso Saga quisesse manter uma relação verdadeira e pura, como ele dissera, com Shaka, teria de abrir mão dele definitivamente.
Talvez fosse maldade depois de simplesmente ter-lhe dito que era impossível ficarem juntos. Aioros pensava. Mas pela primeira vez era o seu coração que falava. O dia anterior fora cheio de medo, lágrimas e agonia. Aioros tentara resistir e não conseguira. Não pensava que fosse doer tanto e ainda doía. Ainda era confuso. Por isso tudo, Aioros não respondia, mas beijava Saga com a mesma intensidade que faraó o beijava. Estavam sozinhos e ninguém entraria naquela sala, nem mesmo a razão.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
— Deixe-me entrar — Radamanthys afastou os criados e adentrou a alcova de Hades. Surpreendeu-se com o estado do mestre. — O que há contigo, meu senhor?
Hades lançou a ele um olhar moribundo.
— Creio que esteja morrendo, meu filho...
Radamanthys mirou as garrafas e vasilhas com emplastos e poções ao lado da cama.
— Chamaste os curandeiros?
— Pandora cuida de mim...
— Não, meu senhor, ela conspira contra ti.
—Como ousas?
— Meu senhor, escuta-me. Hoje, entreguei a tua esposa um papiro que veio de Babilônia com informações importantes, o qual roubei do príncipe Kanon. Considerei as atitudes dela suspeitas então a seguir, e qual não foi a minha surpresa quando ela foi se encontrar com o próprio príncipe Kanon. Preciso dizer também que este voltou da Babilônia com uma comitiva persa que ocupa uma estância sua próxima ao porto. Um homem persa capaz de curar feridas e dois mercenários árabes.
— Disseste persa? — Hades pareceu tornar-se mais vivo naquele momento. Persa, tal palavra o lembrava Shaka, e ele ainda não havia esquecido o dançarino. Ainda tinha planos de vinganças para ele.
— Sim. Um homem cego com estranhos poderes.
— Kanon sempre foi cheio de surpresas. Mas o considero inofensivo. Já Pandora... Preciso saber o que minha esperta abelhinha anda fazendo...
— Precisas parar de tomar essas poções. Não podes confiar nela — Radamanthys o advertiu.
— Não te preocupes, meu filho. Fizeste um bom trabalho vindo até mim. Tranquiliza-te e mantenha-te atento a tudo. Quero saber de cada novidade, cada nova rota de Pandora e Kanon e cada movimento desse persa. Logo estarei recuperado, até lá serás os meus olhos e ouvidos pelo Egito. — Hades riu. — Serás o meu grão-vizir, Radamanthys, e quando eu for faraó poderás manter esse cargo, se mereceres.
— Sim, mestre — Radamanthys o reverenciou.
— Agora podes ir — Hades o dispensou, e quando o general saiu, ele derrubou as bandejas com as poções com toda a sua fúria. Pandora, sangue de Rá, traiçoeira como todos da sua linhagem! Se fosse verdade, ela pagaria com a vida pela traição.
Radamanthys deixou a casa do mestre e voltou a montar em seu cavalo. Seu coração estava confuso, mas sua mente dizia que ele fez o certo. Hades era o único ao qual devia obediência. Fora o único que vira potencial em um filho de estrangeiro como ele. Nunca poderia trair àquele que o acolhera e dera instrução. Aquele que fez de um rato, um homem.
“Nasceste entre ratos e lama, mas não precisas terminar com eles.” Hades lhe dissera quando o levou da casa de sua mãe aos oito anos. Ele fora criado então no alojamento militar de Men-Nenfer. Forjado para ser um guerreiro. Jamais esqueceria disso. Todavia, seus pensamentos estavam em Kanon, no maldito príncipe que perturbava a sua cabeça desde a viagem à Babilônia. Radamanthys não queria admitir, mas estava preocupado com ele. Preocupado com o que Hades poderia fazer a ele. Conhecia o mestre há tempo suficiente para saber o quanto ele era perigoso.
Não soube muito bem como acabou ali. As sombras da noite começavam a cobrir o Egito quando ele adentrou o salão comum do nomo do príncipe, que não ficava muito distante do nomo de Hades, ao sul da capital.
Kanon saiu do seu quarto, usando um saiote branco e sem o nemés, o que deixava seus cabelos escuros e longos escorrerem pelo corpo bronzeado e perfeito.
—A que devo a honra, general? —O príncipe indagou entre o irônico e o surpreso.
Radamanthys não respondeu, mas caminhou a passos nervosos até quase encostar o corpo vestido em couro negro no outro. Podia sentir a respiração quente dele.
Kanon encarou os olhos dourados com a típica malícia e divertimento que possuía.
— Ah... Parece que alguém sentiu saudades...
— Cala a boca — Radamanthys grunhiu, antes de tomar os lábios dele e ser puxado sem delicadeza para o quarto.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Aquele quarto era tão perfumado, que Ikki sentia como se estivesse em uma perfumaria de Makkah. Era extremamente luxuoso também. A cama de dossel de Shaka era inigualável e lhe lembrava da cama decorada por rubis que o persa deixara em Najah. Aquele luxo fazia parte da vida do dançarino, mas não da sua. Ele nunca precisou daquilo e se perguntava se Shaka sentiria falta quando o levasse dali.
O persa, no entanto, não parecia notar nada daquilo, seus olhos brilhavam enquanto miravam o árabe, sentado na cama com o torso nu. Shaka tocava delicadamente os músculos dos braços de Ikki, como se quisesse desenhá-los com as pontas dos dedos. Percebia as reentrâncias e as cicatrizes que ele tinha pelo corpo. Cicatrizes que ele conhecia e outras tantas novas, mas que formavam o conjunto harmônico que era aquele corpo jovem e vigoroso. Mais forte do que se lembrava, com a total definição de um corpo de guerreiro. A infância completamente abandonada.
Já Ikki examinava a maciez da pele dele e percebia que ela parecia ainda mais macia do que na época em que estavam em Najah. Ele tinha pouquíssimos pelos, ainda menos do que aos quinze anos. Todavia, o corpo estava bem diferente, continuava esguio e altivo, mas com contornos bem mais definidos, talvez pelo tempo de dança. O rosto também mudara um pouco, tornara-se levemente mais masculino do que se recordava, mas ainda igualmente belo, talvez apenas a perda da inocência. Mas do que se recordava? A última vez que estiveram juntos tinham 15 anos e já havia se passado cinco anos desde então.
Não teriam muito tempo, Mu advertira, e daquela vez eles queriam mais do que apenas se contemplarem. Eles desejavam sentir a pele, o calor, a vida que pulsava no corpo do outro. E por isso, Ikki afastou o robe transparente que Shaka vestia, deixando-o nu para poder beijar e lamber todo o corpo delgado e macio do persa.
Shaka deixou-se deitar sobre a cama e sentir o peso do corpo do esposo. Os beijos sucediam-se, assim como as peles se friccionavam, arrancando gemidos e ofegos. Os lábios encontravam-se derramando desejo e saliva por lábios e pele. Era tão quente e maravilhoso. Ele sentia os dedos do amado marcando-o, tomando-o com todo amor e vontade que ele sentia, e isso fazia com que se sentisse cada vez mais afogueado e vivo.
Ikki o puxou para cima, para que ele se encaixasse em seu quadril, afundando as mãos nos cabelos fartos, mordendo-o na boca e no pescoço.
— Nunca esqueci teu cheiro — ele murmurou. — Sempre esteve gravado em mim... — Arremeteu-se para dentro dele, de maneira intensa e ao mesmo tempo cuidada.
Shaka sorriu, abraçando-se a ele e permitindo que o amado lhe invadisse o corpo. Ambos gemeram alto e ficaram com a respiração suspensa, tremendo com aquele contato quente, intenso, esperado e prazeroso.
— Meu amor... — Shaka sussurrou ao ouvido dele, a respiração quente fazendo a pele morena arrepiar-se. — Sonhei tantas vezes contigo... Assim... Dentro de mim... — Moveu o quadril, arrancando um gemido abafado do amante. — Sou teu... Sempre fui teu... Arrebata-me...
Ikki segurou-o pelas coxas com força, arremetendo-se para dentro dele em lentos e fundos movimentos de vaivém, até que já não conseguir mais manter o ritmo, que aumentou. Perderam o controle, começando uma dança intensa, insana, os olhos presos um no outro até que não suportaram mais e gemeram mais alto, fechando-os, e derramando-se em prazer. Os corpos tremiam, molhados de suor e gozo. Shaka chupou e mordeu o queixo de Ikki e depois procurou-lhe os lábios, dando-lhe beijinhos molhados e travessos. Eles deixaram-se cair abraçados na cama, o coração ainda batendo forte.
Ikki beijou os cabelos cheirosos do amado, ainda sentindo a força do prazer no corpo, os olhos fechados, a respiração irregular. Era tão intenso! Ele jamais poderia esquecer a intensidade daqueles momentos. Shaka estava mais velho, mais sensual, mas ainda o amava com toda a entrega e paixão do passado. Ele ainda era seu, não havia se enganado. Sabia das coisas que o amado fora obrigado a fazer. Sabia das escolhas difíceis e que ele havia passado pela cama de muitos homens contra a vontade. Mas sabia também que não importava o que o corpo fosse obrigado a fazer, a alma de Shaka era a mesma alma pura e corajosa do menino de Najah. E sabia que ele o amava.
Ficaram um longo tempo calados, apenas trocando olhares, como se buscassem algo belo e inexplorado nos olhos do outro. Quando alguém falou, foi Ikki. Pensou que fosse o momento.
— Shaka, preciso te dizer algo importante.
— Nada me importaria nesse momento, apenas Ikki Horuk Kadar — Shaka murmurou e Ikki riu, beijando-o novamente, agora na testa.
— É importante.
— Certo. Então permito que fales...
— Não deixaste de ser metido...
— Estive dormindo durante todo esse tempo e só despertei agora, então sou exatamente a mesma pessoa que deixaste em Karna... — Shaka falou, mas aquela lembrança o deixou triste. Havia muitas lembranças bonitas de Karna e muitas terríveis.
Ikki afagou-o no rosto com o polegar, percebendo a mudança no olhar do esposo.
— Sei que são lembranças dolorosas, meu amor. Mas precisaremos falar sobre isso. Sobre tudo que aconteceu nesse tempo que estivemos separados...
— Sim, mas não agora. Não hoje, quando temos tão pouco tempo. Falaremos quando estivermos longe daqui.
— Concordo — Ikki continuava a afagar o rosto dele com o polegar, olhando-o nos olhos como se visse a coisa mais importante e perfeita do mundo. — O que tenho a dizer é algo bom e importante.
— Aceito.
— Teu irmão. Asmita está vivo e veio para o Egito comigo, para buscaste.
Shaka não reagiu por um tempo, como se aquela informação fosse incompreensível.
— Asmita morreu no cerco de Najah — ele murmurou.
— Não. Ele não morreu, Shaka. Ele está aqui e deseja muito te encontrar. Os deuses nos uniram para que pudéssemos salvaste.
Os olhos de Shaka marejaram e com isso brilharam ainda mais intensamente. Quando a lágrima caiu, foi uma cascata de estrelas.
— Trouxeste meu irmão para mim! — Abraçou o esposo com toda a força da sua emoção. — Eu que pensei que havia perdido os dois! Os deuses são bons!
Ikki sorriu e o apertou nos braços.
— Creio que foi ele quem me trouxe para ti. O destino fez com que nos encontrássemos para que chegássemos até aqui. Não teria conseguido sem ele.
Shaka riu de felicidade e emoção. O destino o estava presenteando pela primeira vez. Sentia-se forte e disposto como se só precisasse de uma palavra ao vento para que tudo desse certo.
Ele sentou-se na cama e Ikki fez o mesmo para mirá-lo com adoração.
— Preciso vê-lo.
— Verás. Amanhã. Quando eu vier, trarei Asmita comigo, prometo.
— Sim, traga-o! eu preciso abraçá-lo!
Nesse momento, Shaka ouviu passos no corredor que separava seu quarto do quarto do faraó, atrás da imensa porta.
— Alguém se aproxima — ele murmurou. — Precisas partir!
— Não...
— Ikki, por favor. Somente faraó atravessaria esse corredor, vá! — o dançarino pediu aflito, vestindo o robe vermelho e ajudando o amado a se vestir, rapidamente.
Ikki foi empurrado para o jardim externo, mas não partiu. Terminou de se vestir, escondido nas sombras como a mais astuta das serpentes negras e esperou.
Saga irrompeu pela porta de pau-ferro que separava os aposentos de ambos, alguns minutos depois. Shaka ajeitou os cabelos e deixou a cama, parando no meio do quarto, vestido apenas no robe transparente que o cobria até os pés.
— Meu soberano. — Ele fez uma reverência, tentando esconder o nervosismo. Devia ter imaginado que cedo ou tarde Saga o procuraria. Fora tolo e imprudente.
— Shaka — Saga sorriu e tomou-lhe as mãos, beijando-as. — Desculpe a minha ausência durante todo o dia. Nem sequer te dei atenção depois da cerimônia.
— Tens muitos compromissos. Quando aceitei estar ao teu lado, eu sabia disso. Estamos em comum acordo.
Saga o encarou, parecia hesitante e triste depois daquela declaração. Ele ensaiou dizer alguma coisa, mas desistiu ao que parecia, tomou o rosto de Shaka entre as mãos e o beijou na testa.
Shaka estremeceu de angústia com aquele simples gesto e afastou-o delicadamente.
— Também foram dias difíceis para mim. Sinto-me muito cansado — Declarou, fugindo das mãos do rei. — Claro que estou aqui para serviste, meu soberano. Jamais me negaria a ti...
Saga sorriu, as palavras parecendo tirar todo o peso do mundo dos seus ombros.
— Quero que descanses. Agora és um príncipe, não precisas te preocupares em me servir. Também me sinto cansado. Deixarei que durmas.
— Obrigado — Shaka tomou as mãos dele e as beijou com toda reverência.
Saga beijou-o novamente na testa e desapareceu pela porta conjugada. Shaka correu e travou a porta. A regra era que aquela porta nunca estivesse trancada, mas ele não se preocupou com as regras naquele momento. Trancou a porta e deixou-se cair sentado na cama.
— Se ele te houvesse tocado... Eu o mataria.
A voz grave de Ikki fez com que ele erguesse a cabeça e desse um pulo da cama, indo até o esposo e o abraçando.
— Se fizesses tal coisa, estaríamos mortos. Ele nunca mais me tocará, eu prometo.
— Como podes prometer? Se continuares aqui, cedo ou tarde terás que se submeter aos desmandos desse homem! Submeter teu corpo a ele!
— Não! Não mais! Pensarei em algo — Shaka falou, angustiado.
— Precisamos deixar o Egito, Shaka.
— Sim, mas precisamos de um plano, de um barco.
— Cuidarei disso — Ikki beijou os cabelos loiros do amado e respirou fundo para conter os sentimentos violentos. — Diga-me... Essa cerimônia de união... Ele te obrigou? Ele obrigou que te casasses com ele?
Shaka afastou-se e mirou os olhos de Ikki que estavam ainda mais escuros e revoltos. Nunca poderia mentir para ele.
— Não.
— Não? Isso significa...
— Eu escolhi me unir a Saga. Queria sobreviver, como me pediste que fizesse. Eu pensei que... que estivesses morto e que jamais me encontrarias. Eu havia perdido as esperanças...
Ikki afastou-se dele ainda mais. Havia certa decepção em seus olhos, o que foi um golpe no coração de Shaka.
— Ikki, eu não te traí. Nunca trairia os votos que fizemos. Não foi por amor, eu nunca o amei...
— Um casamento é um casamento, Shaka. Agora tens dois esposos.
— Eu tenho apenas um esposo! Não digas tolices, por favor.
O árabe levou as mãos aos cabelos escuros.
— Sabes que isso muda tudo, não é?
— O que muda, Ikki?
— Não nós dois — Ikki falou. Estava mais ferido em seu orgulho que chateado com Shaka. Sabia que não era culpa dele. A culpa era sua. Havia demorado demais. — Mas... Não podemos ir para o nosso lugar. Najah está perdida para nós...
— Najah? — o persa surpreendeu-se.
— Sim. Eu a reconstruí pensando em devolveste o teu lar. Agora, contudo, não podemos voltar.
Shaka entendeu e assentiu com a cabeça. Entendia que quando Saga soubesse da sua fuga, reviraria o mundo até encontrá-lo e levá-lo de volta ao Egito. Ir para Najah significava colocar todos que lá estavam em risco. Significava uma nova destruição para o pequeno reino de Asmita.
— Contigo, eu irei para qualquer lugar, Ikki.
— Então te preparas. Partiremos na próxima lua minguante.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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