A serpente e a estrela
36 Tradições e maldições
Notas iniciais
Tradições e maldições
XXXV
— O dia está nascendo — Kanon falou para o homem adormecido ao seu lado.
Radamanthys abriu os olhos dourados lentamente, depois bocejou e espreguiçou-se, sentando na cama baixa com colchão de penas íbis. Com certeza era a cama mais confortável em que já havia dormido e ele se recordou de que era um filho de escravos que, agora, dormia com príncipes. Isso, todavia, não diminuía a sensação de deslocamento que possuía quanto ao mundo. Não era filho de nada e nem de lugar algum.
— Preciso me lavar — falou, erguendo-se da cama, completamente nu e buscando as próprias roupas pelo chão.
— O quarto de banho é por ali, general — Kanon falou, ainda deitado na cama, com os braços cruzados atrás da cabeça apoiada em um grande e confortável travesseiro.
Radamanthys deixou o quarto. Quando retornou já estava banhado e vestido em sua roupa negra, dentro do peitoral de couro fervido. Já algum tempo que o império copiava as roupas de outros povos para vestir seu exército. No passado, os soldados do Egito lutavam praticamente nus, agora usavam um saiote com a proteção de um cinturão de couro, uma conquilha também de couro protegia as partes íntimas e um peitoril protegia o torso. Este poderia como o de Radamanthys cobrir todo o peito ou apenas a parte do coração, dependeria do quão quente estaria o dia de batalha.
Kanon o mirou agora, completamente vestido no saiote, sandálias e peitoril de couro. Sua expressão era zombeteira e intrigada enquanto mirava-o.
— Por que vieste, general? Não que eu pense que sou um mau amante, mas sei que homens da tua espécie são facilmente seduzidos por uma boa foda.
Radamanthys riu.
— Tens razão. Na verdade, eu vim espioná-lo.
— A mando de Hades, suponho.
— Hades não está em condições de espionar ninguém — a boca do jovem general se torceu de desgosto. — Quero saber o que o feiticeiro persa faz aqui? Acaso te apoias nele para um golpe?
O príncipe sorriu mais abertamente, os olhos brilhando de algo que o general não entendia muito bem.
— Quanta imaginação... — Kanon sibilou sem demonstrar nenhum abalo. — Talvez eu só o considere bonito e o queira como amante também. O Egito inteiro conhece meus apetites.
— Não seria tão tolo em acreditar nisso. Há um plano maior para o garoto persa. Um homem que cura feridas... Imagino o que mais ele é capaz de fazer...
— Se estiveres tão interessado, posso trazê-lo aqui, numa das tuas visitas...
Radamanthys franziu a testa, sem entender.
— O que isso significa?
— Significa exatamente isso. Se estás tão curioso, posso trazê-lo aqui para ti.
O general encarou a face zombeteira do príncipe e resolveu não responder. Haveria tempo para aquilo.
— Talvez não saibas o que faz, alteza. Estás lidando com pessoas perigosas.
— Falas da minha amável irmã ou do seu esposo?
— Falo de todo Egito. As coisas estão agitadas. Há muita insatisfação e dizem que faraó está louco. Não é um bom momento para conspirações.
— Falou o homem que veio à minha casa para espionar-me.
— Eu não estou brincando! — Radamanthys se alterou. — Eu espionar-te é o menor dos teus problemas, alteza! Sei que almejas o trono como cada um dos teus parentes, só advirto que há pessoas perigosas que também anseiam por aquela cadeira e não hesitarão em passar por cima de ti e do teu irmão para isso!
Radamanthys disse tudo num impulso e só depois percebeu que havia falado demais. A expressão de Kanon continuava debochada, mas agora havia um leve franzir de testa nele. O príncipe se ergueu da cama e puxou um robe de tecido escuro, cobrindo a própria nudez.
— Estás preocupado comigo? Que amável — Ele falou, aproximando-se e tocando o rosto do general. — Isso toca meu coração, mas não apaga o fato de teres me roubado. Onde está o meu papiro, general?
Radamanthys engoliu em seco e deu um passo para trás.
— Eu não...
— Sei que foste tu.
Kanon suspirou e afastou-se dele.
— Uma pena. És realmente uma boa foda...
— Kanon... — Radamanthys diria, mas o príncipe tocou uma sineta e imediatamente dois guardas adentraram o quarto.
— Prendam o general Radamanthys por alta traição — encarou o amante nos olhos. — Ele deve ficar nas masmorras de Men-Nenfer e só falar comigo. Levem-no.
— Kanon! — Radamanthys ainda tentou falar, mas foi imobilizado e arrastado pelos guardas. Kanon fechou os olhos com força. Estava irado e também magoado, por mais ridículo que se sentisse com isso. Será que nunca teria alguém em sua vida que não tivesse segundas intenções? Era o fardo da realeza, era a maldição do sangue de Rá. Não. Negou as próprias afirmações. Não era verdade. Rá tinha os filhos de Maahes. Os leões. Saga sempre teria Aioros. Mu tinha Aiolia. No sangue de Leontópolis eles podiam confiar, mas não sobrara ninguém em Leontópolis para ele. Quando eram jovens, ele teve Aioros. Um dia foram amigos de aventuras e Aioros confiara nele, poderia dizer até que o amara. Mas nunca como amara Saga. Pensava que tivera Aioros nos braços até primeiro que o irmão, mais por oportunidade que por vontade do filho de Sekhmet. Beijara-o primeiro e entre eles não havia culpa e nem obrigações. Ele apaixonara-se por Aioros, mas o coração de Aioros sempre fora de Saga e tal situação causou uma mágoa tão grande no coração de Kanon, que ele havia se afastado dos dois. Ele fora rejeitado por toda a vida. Pelos pais, pelos amigos e até por seu amor. Radamanthys dissera que ele queria Shaka porque o dançarino pertencia a Saga e talvez fosse verdade. Seu coração estava aberto ao desejo, mas não ao afeto. Contudo, ser usado por um general qualquer e roubado por ele depois de ter sexo mexia com o seu orgulho e ele não deixaria isso passar em branco. Ao contrário do que muitos achavam, ele era astuto e vingativo e muito mais inteligente que seu irmão. Ele teria Shaka, se ainda quisesse, e teria o trono, porque o queria.
“Um já foi, faltam dois...”, Kanon pensou, indo assobiando para a sala de banhos.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Aioros chegou cedo ao templo de Rá e deixou a sua oferenda, ajoelhando-se e orando a Maahes por proteção e juízo. Ao deixar a sala de Saga no dia anterior, ele já tinha uma decisão tomada, mas de praxe precisava pedir aos deuses por discernimento e também a benção de sua mãe, e isso sim seria difícil.
Terminou as orações e tomou seu carro de volta ao castelo de Maahes. Observou a sua cidade, cercada de monumentos aos deuses felinos. Era estranho que ali, ele não se sentisse em casa. Passara praticamente toda a sua vida em Men-Nenfer, ao lado do pai, sendo talhado para ser o grão-vizir. Seu pai fora o melhor amigo de faraó, assim como ele fora o melhor amigo de Saga. Mas ele e Saga eram mais que amigos, eram amantes desde que se entendiam como homens. Essa era a sua realidade, e Aioros aceitara aquilo como uma flecha da qual não se pode desviar. Ideias não mudam fatos, seu avô dizia. Ele apenas resolveu assumir isso.
Mirou novamente a rua calçada de pedras e as grandes construções como uma despedida. Partiria para Men-Nenfer e não pretendia voltar ao castelo dos Maahes. Não seria mais o senhor de Leontópolis, ou melhor, seria, oficialmente, mas suas visitas ficariam ainda mais escassas.
Soltou do carro, e um pequeno servo foi recebê-lo com um cálice de água fresca e um leque de palha para abaná-lo, embora fosse muito cedo e ainda não fizesse tanto calor. Aioros dispensou o menino, pois não sentia calor, usava uma túnica curta de tecido leve, decorada por um cinto dourado e sandálias de papiro. Aceitou apenas a água e foi para a sala de refeições onde sabia que encontraria a mãe. Aiolia deveria ter saído muito cedo para o quartel. Quando ele chegou, apenas as duas mulheres, sua mãe e Marin, encontravam-se conversando enquanto comiam. Geralmente, eles não faziam as refeições juntos, ele e Aiolia sempre comiam primeiro e as mulheres só depois de se pentearem e perfumarem por horas. De toda forma, na mesa tinha pães, bolos, pedaço de galináceos salgados e assados, cerveja de frutas e vinho. As mulheres sentavam-se em suas almofadas e quando o viu, Marin se ergueu e o cumprimentou com um aceno, deixando-os a sós.
— Ela está muito feliz com a gravidez — A mãe lhe disse, mirando-o de forma arguta.
— A senhora também.
— Sim. Serei avó e o clã do meu amado esposo não desaparecerá. Sinto-me satisfeita.
— Isso é bom, mãe, porque...
— Tu vais definitivamente para Men-Nenfer. Sentar-te-á ao lado do rei e sujar-te-á na cama dele à noite. Meu coração já sabia disso, meu filho.
Aioros calou-se diante daquelas palavras. A mulher riu levemente e continuou.
— Se veio pedir minha bênção...
— Não vim pedir nada — ele a interrompeu. — Espero que saibas que mesmo lá, ainda sou o senhor desta casa. Realmente eu gostaria que me abençoasse, mãe. Mas mesmo que não o faça, eu irei.
A mulher suspirou e assentiu com a cabeça.
— Eu sempre soube que esse dia chegaria, Aioros. Não entendo então por que deixaste que todo esse espetáculo acontecesse.
— Espetáculo?
— O casamento de faraó. O sacerdote é lindo, mas ele não o ama. Não acredito que ele se arrisca a perder o reino apenas para provocaste.
— Não foi para provocar-me. Não tenho nada a ver com isso.
— É muito óbvio que tens. Foi essa a chantagem que ele fez para que decidisses partir de vez para Men-Nenfer?
— Esta é uma decisão minha.
— Tens certeza disso? Aquele homem te manipula como sempre fez. Teu pai teria vergonha...
— Não fale de meu pai! — Aioros explodiu. — Eu abdiquei da minha vida por um projeto dele! Eu fui infeliz durante todos esses anos para não o decepcionar, eu estive disposto a me casar apenas pelo nome dele, então não diga tal coisa! Estou cansado! E não deixarei mais que tradições e maldições guiem a minha vida!
— Deves estar louco! Tao louco quanto teu rei que se casou com um eunuco estrangeiro, cuspindo nos deuses! Esquecia-me que também estiveste naquele deserto com ele. O djin que o enfeitiçou, deve ter feito o mesmo a ti.
Aioros riu, nervoso e amargo.
— Estou louco sim, mãe. Sempre estive louco. Louco de amor. Contudo, mais louco fui por me negar a felicidade ao lado de Saga durante tanto tempo.
— Não finjas que fizeste isso por teu pai!
— Fiz por mim mesmo. Por medo e insegurança, mas... — Aioros sorriu com incredulidade, como se só naquele momento ele conseguisse enxergar algo profundo e importante. — Eu sempre estive ao lado dele. Nunca o deixei. Embora a minha razão quisesse, meu coração nunca permitiu que o abandonasse. Eu só mentia para mim e para todos. Sempre estive acorrentado a Saga e, se ele cair, eu cairei junto com ele.
— Eu lamentarei e chorarei em teu túmulo, meu filho — A mulher disse, implacável.
Aioros não respondeu. Deixou a mãe sozinha e foi para o quarto. Seus baús já estavam prontos e a antessala de faraó, também.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Aiolia cumpria seu papel de forma impecável, treinando com os demais militares a arte da lança e do combate. Aspros e Sirius comandavam a tropa com olhos sagazes. O jovem irmão bastardo de faraó parecia uma estátua bélica em suas ações. Era um estrategista fantástico, e Aiolia o admirava muito, assim como ao seu irmão, o escriba Defteros. Defteros era tutor de Mu e por isso não tivera um posto no exército, como o irmão, mas a sua função era igualmente importante, embora Mu não parecesse ter nenhuma aptidão para as armas. Aiolia sempre se perguntava os motivos dos dois não fazerem, de certa forma, parte da corte do faraó Saga-Hórus. Eles eram tão parecidos com faraó e seu gêmeo, que assustava. Era como se os deuses os fizessem na mesma forma para exibir a semente de Rá pela terra. Aiolia nunca vira os cabelos de faraó, mas imaginava que fossem escuros e longos como os dos irmãos, que não usavam nemés, eram bastardos e por isso não precisavam utilizar aquele ornamento. Era curiosa e fascinante a semelhança entre eles, todavia, o que levava Aiolia a fazer todas aquelas observações era reconhecer que Mu, ao contrário de todos os membros da família real, não herdara nenhuma daquelas características. Os olhos claros dos filhos de Rá variavam entre o castanho claro, o azul e o verde-escuro. Os olhos de Mu eram de um verde tão claro que confundia. Os cabelos de toda a descendência de Rá eram negros como a noite ou castanhos muito escuros, os cabelos de Mu eram claros, com aquela cor mística e esquisita. Ele sabia também que as ditas filhas de Saga, algo que ele soubera do próprio Mu, não eram filhas de seu pai. Saga nunca tocara em nenhuma das concubinas. Elas estavam ali servindo a um papel exigido, mas não para diversão de faraó. Na verdade, faraó mal tocara a esposa, ele não gostava de mulheres. Faraó tinha apenas dois homens em sua vida: o eunuco Shaka na cama, e o grão-vizir Aioros, no coração.
Ao contrário dele, Aiolia gostava de mulheres. Mesmo seu coração pertencendo a Mu desde sempre, ele tivera a sua porção de flertes e namoradinhas na adolescência e não fora nenhum sacrifício fazer um filho em Marin. Marin. Pensar nela lhe causava uma sensação esquisita e um sentimento que ele não sabia explicar muito bem. Ela era linda, inteligente e leal. A esposa que sempre sonhou, se um dia sonhara com esposas. Talvez se não houvesse Mu, ele conseguisse se manter ao lado dela e seria feliz, coisa que Aioros nunca conseguiria com mulher alguma. Às vezes se apiedava do irmão. Percebia o sofrimento dele e ao mesmo tempo que o admirava sobre todos os outros, sentia dó dele. Era horrível não poder estar ao lado de quem se ama.
— Aiolia, formação! — A voz forte de Sirius o despertou dos pensamentos e ele percebeu que não seguia o batalhão na formação da lança. Posicionou-se imediatamente. Ele nunca seria do grupo de lanceiros, destinado aos homens de baixo nascimento, mas Sirius e Aspros faziam questão que todos os oficiais fossem treinados em diversas modalidades.
O treino terminou e Aiolia resolveu tomar um refrescante banho no rio antes de cavalgar para casa. Era dia de ir para casa. Não era uma viagem longa de Men-Nenfer para Leontópolis, mas também não era curta. Ele só estaria em casa à noite. Quando chegou, coberto de poeira, dirigiu-se diretamente à sala de banhos da sua alcova. Não deveria ter feito, Marin estava lá. Sentada à beira da piscina, completamente nua, ela afagava o ventre onde a gravidez já começava a arredondar a pele. Os cabelos vermelhos estavam soltos e caíam sobre as costas e seios dela. A mulher brincava de chutar a água e cantarolava baixinho.
Aiolia ficou estático, mirando-a como hipnotizado. Demorou alguns minutos para que a mulher se desse conta da sua presença e quando fez, ela sorriu e ergueu-se, aproximando-se dele.
— Não te vi entrar — Marin disse. — Estava conversando com o nosso filho. Consigo senti-lo dentro de mim, mesmo que ainda esteja tão pequeno, vejas, toque-o — segurou a mão dele e levou até o próprio ventre. — Estava cantando para ele.
Aiolia afagou a barriga dela, sentindo-se emocionado. Era seu filho. Ainda se recordava do pai. Era muito jovem quando ele morreu, mas ainda se recordava. Sísifo era amável e forte e o ensinou muitas coisas. Pensou como seria a sua infância se ela fosse sem ele e seu coração apertou-se. Seria correto condenar seu filho a crescer sem um pai?
— Algum problema, Aiolia? — Marin pareceu sentir a angústia que havia nele.
— Não. Está tudo bem — ele sorriu. — Estava com saudades, Marin.
— Eu também estava — ela correspondeu ao sorriso dele. — Meus dias são sempre mais felizes quando estás em casa. Tua mãe é boa e generosa, mas não gosta muito de conversar. Sentirei muita falta tua quando partires.
Aiolia sorriu e levou a mão ao rosto da esposa, afastando a franja vermelha que ocultava seus olhos.
— Sentirei muito a tua falta também. És a mulher mais especial que conheci em minha vida. Nunca poderei esqueceste.
Marin baixou o olhar e uma insinuação de lágrima brilhou em seus cílios longos. Mas não passou disso, de uma insinuação. Logo ela ergueu os olhos, sorrindo.
— Seria difícil para mim esqueceste, já que estarás permanentemente no meu sangue — levou a mão novamente ao ventre desnudo. — Ele sentirá tua falta pelo resto da vida. Mas falaremos agora da tua viagem. Como estão os preparativos?
Aiolia hesitou. Aquelas palavras o afetaram de uma forma que Marin não compreenderia.
— Estamos... Eu estou... — Respirou fundo. — Será em breve.
— Compreendo — Marin pigarreou. — Terminarei o banho. Tua mãe nos espera na sala de refeições.
— Sim. Banhar-me-ei também e encontro-as em breve — Aiolia inclinou-se, beijando os cabelos cheirosos da esposa e então deixou a sala. Banhou-se e vestiu-se com uma túnica vermelha de um leve tecido do oriente e dirigiu-se à sala de refeições. Nedis já estava sentada sobre suas almofadas, de frente à mesa baixa de junco, uma novidade deixada por uma comitiva oriental que os visitaram.
— Sente-se, Aiolia. Marin não deve demorar — ela disse.
Ele beijou as mãos da mãe e se sentou.
— Pensei que Aioros...
— Aioros moveu-se definitivamente para Men-Nenfer. Está louco e temo por sua vida.
— Como assim?
— Não ouves o que se comenta no reino, Aiolia? Dizem que algum espírito perverso domina a mente de faraó. Ele se uniu a um eunuco estrangeiro, reformou ritos e leis de impostos, mudou marcações de terra, está louco! O que pensas que dizem do teu irmão também? Afinal, ele esteve naquele deserto também.
— Isso é tolice.
— Não importa se é verdade ou não. As pessoas falam.
— Elas não devem faltar com respeito ao grão vizir do reino, isso pode levá-las à prisão ou multa e sabem disso. Ademais, eu confio nas escolhas de Aioros. Ele é sábio.
— Ele é um bobo apaixonado — a mulher retorquiu. — Pergunto-me o que ele fará com o eunuco...
— Nada. O estrangeiro é sagrado para o povo, sua dança traz chuva.
— Isso não significa que faraó pode cuspir nas tradições.
— Faraó pode fazer o que quiser, mãe.
— Sim e até por isso precisamos proteger Leontópolis. Conversarei com Aioros, pedirei que ele abdique da liderança do clã a seu favor, Aiolia.
— Como?
— Serás a cabeça do leão. Aioros escolheu ser grão vizir de maneira vitalícia ao que parece...
— Ele deixará o cargo no momento em que Saga deixar de ser faraó, não creio que...
— Acaso pensas que Saga morrerá cedo? Mimado e protegido como ele é por seu irmão, viverá até cem anos! Não. Já tens dezenove anos, uma esposa e brevemente um filho. Não há na família quem possa considerá-lo inapto. És a melhor opção para Leontópolis.
Aiolia calou-se. As obrigações pesavam em seus ombros como os gigantescos blocos das pirâmides.
— Preciso que escrevas sobre tal pretensão aos anciões de Maahes, Aiolia. Preciso que faça isso o mais breve possível. Falarei com Aioros.
— Ele esteve aqui, por que não fez isso logo?
— Tomei essa decisão depois de conversar com ele. Teu irmão foi possuído pelo mesmo gênio da loucura que faraó. Não deixarei que tal desgraça caia sobre minha casa. Agora a responsabilidade é tua, Aiolia.
Aiolia calou-se mais uma vez e assim terminou a refeição. Seus pensamentos eram carregados por presságios e um sentimento sufocante tomava-lhe o peito. Teria uma difícil decisão a tomar e independente do que fizesse, alguém seria profundamente magoado e sua vida nunca mais seria a mesma.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Fez-se mais uma manhã no Egito. Shaka mal dormira, pois Ikki deixara o seu quarto na luz da aurora, e ele sabia se não comparecesse ao templo por mais uma manhã geraria comentários. Ele agora não era mais um escravo estrangeiro elevado a posição de sacerdote de Háthor, ele era consorte do soberano e precisava seguir os ritos da nobreza e os protocolos do palácio. Assim, banhou-se e vestiu-se adequadamente em um saiote negro, sandálias trançadas e um véu também negro que lhe cobria os cabelos e enrolava-se em seu pescoço, protegido pelo grande colar de ouro. Demorou-se algum tempo enquanto as servas pintavam o olho de Hórus em seus olhos e ele estava pronto. Shaka ganhara quatro novos servos desde que se tornara consorte de Saga. Duas novas moças e dois rapazes uniram-se às suas duas servas anteriores que eram um tanto mais velhas. Segundo as tradições, eles deveriam fazer companhia ao príncipe durante todo o tempo, mas o persa nunca permitia que os servos dormissem em sua alcova. Quebrara o protocolo e reservara para eles um quarto na ala oeste da grande casa, um quarto de hóspedes. Quando um dos mordomos do castelo o questionou respeitosamente o porquê disso, Shaka explicou que não precisava dos serviços à noite e que não era um costume do seu povo. O homem não pareceu dar muita atenção a isso e o dançarino ficou livre para receber o árabe todas as noites desde então.
Dirigiu-se ao templo para as suas orações e oferendas, que eram carregadas pelos servos. Faraó geralmente era o primeiro a chegar ao templo com a sua comitiva de escribas e escravos e muitos dos nobres o seguiam, reverenciando-o. Shaka não queria segui-lo e nem o reverenciar, no entanto. Por isso fez as suas oferendas rapidamente. Ajoelhou-se e rezou em silêncio para os seus próprios deuses, mas rezou a Háthor também, pedindo a proteção da deusa para que seus planos dessem certo. Jogou a mirra na pira ardente e encerrou as preces. Deixava o templo quando cruzou com Aioros que chegava para o mesmo ritual.
Shaka percebeu que os cabelos do grão vizir estavam úmidos e que um leve odor de sabão de rosas desprendia-se de sua pele, denunciando o banho recém tomado. Aioros, muito sério, fez uma reverência respeitosa.
— Bom dia, meu príncipe — ele disse e Shaka tentou perceber se havia alguma zombaria na sua voz, mas não a detectou.
— Bom dia, Vizir. Chegaste cedo.
— Creio que venho rezar para os mesmos deuses que o senhor, pela proteção do reino.
“Senhor”, tal alcunha lhe era estranha há tanto tempo, que Shaka pensava apenas em pilhéria. Em Najah chamavam-no de jovem-alteza, pois existia Asmita, ou príncipe, jovem-príncipe. No Egito, todavia, parecia que tal título era uma zombaria.
— Decerto orei para o mesmo fim — ele respondeu também muito sério.
— Tenho certeza — os olhos escuros de Aioros examinava profundamente o rosto de Shaka. — Hoje o senhor parece brilhar ainda mais. O reino regozija-se com a tua felicidade.
Ele sabe. Shaka pensou, estremecendo, mas disfarçou como pôde.
— Minha felicidade é a felicidade de faraó. Sinto-me honrado de ser uma só alma com o sagrado.
— Eternamente — Aioros replicou com um sorriso raso.
— Eternamente? — Shaka sentiu-se mal com aquela afirmação. Sabia que ouviria um mal presságio.
— Significa permanentemente — Aioros pensou ser uma questão de semântica, já que o jovem era estrangeiro. — Não pode ser desfeito. Se alguém tinha dúvidas de tua lealdade, elas findaram, meu príncipe.
— Creio que eras o único a duvidar de minha lealdade, grão vizir.
— Verdade. Pensei durante muito tempo que conspiravas uma fuga. Entretanto, quem deseja liberdade não se torna consorte do rei. Uma fuga seria alta traição porque agora és um homem egípcio e membro da família real, sangue de Rá.
— Por que me dizes tal coisa, Aioros? — A civilidade o abandonou e ele usou o nome íntimo do vizir, encarando-o com certa irritação. — Tuas palavras parecem maldições.
Aioros riu e balançou a cabeça.
— De forma alguma, meu príncipe. Só penso que não sabias de todas as implicações do teu ato. Não creio que desejes permanecer ao lado de faraó até o fim dos teus dias. Não creio que o ame.
— Amo faraó de todo o meu coração e o reverencio — Shaka afirmou a mentira com toda a sua convicção. — Estás apenas com ciúmes.
O sorriso de Aioros tornou-se um entortar de lábios.
— Certamente. Que os deuses façam verdadeiras as tuas palavras, criança — Aioros foi sincero. — Farei minhas orações agora.
O grão vizir seguiu e Shaka deixou o templo para ir encontrar o soberano e toda a corte na imensa sala de refeições. Sentou-se ao lado de Saga, depois de reverenciá-lo e tentou comer, mas as palavras de Aioros ecoavam em sua mente. Enfim, ele sabia que o seu plano era perigoso, mas insistiria. Se já pensava em fuga antes de saber que Ikki estava vivo, agora era crucial que fugisse.
Quando a refeição terminou, após a higiene, faraó e seu amante encaminharam-se para a sala privada, próxima ao salão, onde passariam algum tempo antes de Saga receber os mensageiros e governadores.
Shaka livrou-se do véu e sentou-se aos pés do trono onde Saga repousava. Faraó parecia pensativo e estava mais calado do que geralmente era. Seja manso e gentil. Shaka disse a si mesmo e começou a acariciar a perna musculosa do faraó, trabalhada no treinamento físico contínuo de todos os dias.
— Meu senhor...
— Fale, Shaka. Algo o incomoda?
— Nada muito importante, apenas não imaginei que as questões do império te ocupariam tanto como nos últimos dias. Parece-me cansado.
Saga sorriu com os lábios fechados e levou a mão aos cabelos dele.
— Sou um rei. Esta é a minha vida, deves te acostumar. Incomoda-te que não tenha visitado teu quarto?
— Não, meu soberano. Estou a teus serviços e não questiono tuas ações. Vivo para o meu faraó.
— Shaka, infelizmente não sou apenas o teu faraó — Saga sorriu e puxou-o pelo braço para que o dançarino sentasse em sua perna, o que Shaka fez. — Seria mais fácil se assim fosse, mas há um mundo de questões entre nós.
— Compreendo. Quanto a isso... É que tenho pensado sobre o que sou agora.
— Tu és um príncipe agora, Shaka. Não é mais um escravo e tens se portado como um príncipe antes mesmo de o ser. És perfeito e lindo aos olhos do Egito.
— E tal título me restitui a liberdade? — Os olhos claros do estrangeiro buscaram o olhar do rei.
Saga segurou-lhe as mãos com um sorriso complacente.
— Depende. Não és mais um escravo, decerto, mas me consideras livre?
— És o grande senhor do Egito.
— Sim, e esta é a minha prisão, Shaka. Sou escravo do meu sangue e dos meus deveres como rei. E agora tu és escravo dos teus deveres de príncipe e consorte real.
— Quais são esses deveres, meu soberano?
— Amar-me, estar ao meu lado até o fim da vida e apoiar as minhas decisões.
— Sim, mas o que eu gostaria de saber é...
— Se terás mais liberdade que antes? — Saga indagou. — Sim e não. Terás que exercer teu papel. Liberdade é para homens comuns, Shaka, não para homens como nós.
— Posso percorrer o reino? Sair do castelo e conhecer a cidade?
— Então essa é a questão? — Saga riu novamente e afagou os ombros do dançarino como faria a uma criança. — Claro que sim. Deves sempre estar acompanhado por teus servos, quatro guardas e algum sacerdote, de preferência. Um príncipe precisa de proteção.
— Compreendo. — Por que tanta gente? Shaka indagou-se aflito. Como conseguiria fugir assim?
Os pratos soaram algum tempo depois, e Saga foi conduzido para o salão de audiências. Shaka foi para o grande jardim de cerimônia e pediu que um servo lhe trouxesse Mu. O filho de Jamila o encontrou sentado em um banco de madeira, mirando a tarde quente da mata que cercava o grande rio.
— Mu! — ele exclamou ao vê-lo e convidou-o a sentar-se ao seu lado, dispensando os servos em seguida. — Precisamos falar baixo, há ouvidos em todos os lugares agora.
— O que houve? — Mu estava curioso.
— Preciso fugir, Mu. Preciso encontrar uma maneira de fugir do Egito. Não sou mais um escravo e nunca estive tão aprisionado. Saga nunca permitirá minha partida, nunca! Ikki está aqui e eu... Eu fiz a coisa mais imbecil que poderia ter feito!
— Não tinhas como saber que ele estava vivo. Estavas desesperado!
— Eu me vendi a Saga. Eu me vendi. Pela segunda vez, fui estúpido! — Falava baixo, mas agitado. — Prometi nunca mais ser estúpido e deixei o medo me cegar...
— Para sobreviver. — Retorquiu Mu.
— Fui estúpido... E agora o que faço?
— Pensaremos numa forma, Shaka. Eu também deixarei o Egito. Fugirei com Aiolia dessa terra e suas tradições cruéis. Podemos fugir juntos e dessa vez dará certo. Só precisamos pensar. Também não tenho a liberdade ideal, mas podemos fazer isso juntos.
— Não posso expor Ikki e Asmita ao perigo. Preciso ver o meu irmão, ele me ajudará a pensar em algo.
— Ele virá na hora certa.
— Preciso que leve um recado a Ikki, Mu. Preciso que ele traga Asmita, precisamos pensar juntos e eu preciso muito ver o meu irmão.
— Darei um jeito — Mu afirmou. — Prometa-me que me levará contigo na fuga.
— Eu prometo.
Mu o deixou. Shaka chamou os servos e voltou para o seu quarto. O dia seguiu como todos os outros e a noite chegou. Mais uma vez Saga não o visitou e ele soube que o rei se reunia com o recém restituído grão vizir. Saga não fez questão de explicar a Shaka os motivos de ter trazido Aioros de volta, mas também não foi questionado. Shaka tinha coisas muito mais importantes para pensar e ter Aioros por perto distraia faraó, ou seja, era tudo que ele precisava naquele momento.
Mu, como geralmente fazia, desceu as câmaras subterrâneas do castelo até chegar à pequena escada que levava ao fosse seco, local por onde ele introduzia os mercenários no castelo em segredo. Poucos conheciam aqueles lugares e graças a isso não havia vistorias. Ikki chegou algum tempo depois, acompanhado pelo saubeu, como sempre e com outro homem que o príncipe pensou ser Asmita, o irmão de Shaka, embora ele estivesse completamente coberto de negro, inclusive o rosto.
— Que bom que ele veio, Shaka me pedira para trazê-lo.
Asmita adiantou-se, seus olhos opacos sendo iluminados pelas chamas das tochas.
— Não podemos perder tempo, a noite é curta.
— Venha comigo — Mu os conduziu.
Shaka vestia um robe azul apenas e andava aflito sob a luminosidade das tochas quando ouviu barulho no salão principal. Estranhara que Ikki não chegou pelo jardim, mas abriu a porta ansioso para quase se bater com um guarda medjai.
— Sua alteza o nomarca Kanon deseja falar-te, alteza — o imenso homem anunciou, mas antes que Shaka permitisse, Kanon o empurrou e entrou no quarto.
— Sem paciência para protocolos — Kanon disse e fechou a porta de madeira pesada entre ele e o medjai.
— O que deseja, nomarca? Advirto que a hora e o local são inadequados. — Shaka disse e olhou aflito para o jardim, pensando que Ikki poderia surgir de entre as palmeiras a qualquer momento.
— Eu vim em paz, Shaka — Kanon sorriu, examinando-o com lúbrica atenção. — Somos parentes agora, não somos?
— Sim. Dize o que deseja.
Os olhos de Kanon examinaram a antessala luxuosa e depois recaiu nas cortinas coloridas que levavam à alcova de dormir.
— Sabes o que sempre desejei.
— Isso é sério? — Shaka riu. — Pensei que já tinhas se livrado dessa obsessão infantil pelos brinquedos do teu irmão.
— Tu não és mais um brinquedo dele — Kanon se aproximou do dançarino que não se moveu. — Subiste de posto. Mas... — estendeu a mão e tocou o rosto de Shaka com suavidade. — Ainda te quero e posso te dar algo que queres.
— O que?
— Teu irmão está no Egito e deseja levar-te daqui. Posso ajudar.
Shaka engoliu em seco e tentou demonstrar surpresa.
— Meu irmão? Meu irmão está morto.
— Não está. Posso providenciar um encontro e verás com teus próprios olhos.
— E o que desejas em troca disso? — O persa deu um passo para trás, mas Kanon avançou novamente e o segurou pela cintura, mantendo-o no lugar.
— Que não em rejeites mais. Disserte que no dia que eu tivesse mais poder que meu irmão serias meu. Pois bem, em breve isso acontecerá e agora somente eu tenho o poder de ajudaste a fugir com teu irmão. O que me dizes?
Shaka umedeceu os lábios e sorriu com malícia. Precisava fazer Kanon ir embora. Levou as mãos aos ombros dele e olhou-o dentro dos olhos.
— Ajude-me e terás o que desejas.
Kanon sorriu com malícia também, as mãos apertaram a pele firme da cintura do dançarino e ele tomou-lhe a boca em um beijo cheio de luxúria. O corpo forte do egípcio empurrou Shaka em direção ao quarto e derrubou-o na cama.
— O meu desejo é urgente, Shaka... Quero agora...
— Não! Agora não, Kanon! — Shaka se debateu, tentando livrar-se dele. — Solta-me!
Kanon segurou os braços dele sobre a cabeça e riu de leve.
— Sei quem tu és, Shaka. Sei que me trairás na primeira oportunidade. O que quero de ti não é teu corpo, não só ele, eu quero que tenhamos uma parceria produtiva para ambos, mas se me traíres, eu te mato e mato teu irmão!
Shaka arregalou os olhos e assentiu com a cabeça.
— Está bem, está bem! — concordou. — Mas aqui não! Por favor, Saga pode vir a qualquer momento, arrisca-te em vão!
Kanon soltou-lhe os braços e se afastou com um sorriso satisfeito nos lábios.
— Que bom que chegamos a um acordo. Realizarei um jantar em meu palácio, claro que darei um jeito de faraó não poder ir. Tu dançarás para mim nesse jantar e depois... Depois veremos...
O príncipe egípcio caminhou em direção à saída. Seu sangue fervia, mas estranhamente não era de desejo. Estava com raiva, furioso com todos que o desprezavam, que o julgavam inferior, tolo e digno de piedade. Todos aqueles que o subestimaram pagariam.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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