A serpente e a estrela
37 Maktub
Notas iniciais
Maktub
الثعبان والنجم
Capítulo XXXVI
Depois que Kanon saiu, Shaka bebeu um pouco de licor e ajeitou os cabelos. Sabia que Ikki chegaria a qualquer momento e não gostaria de demonstrar a profunda perturbação que sentia. Kanon saber de Asmita era uma insólita novidade. Deveria ter pensado nisso, afinal Ikki estava no camarote dele quando o vira pela primeira vez. Contudo, diante do frenesi dos últimos dias, ele não havia parado para pensar sobre isso. Esteve excitado demais, feliz demais e preocupado demais para indagar ao amado a forma como ele conseguira entrar no castelo, antes do contato de Mu. Não podia subestimar Kanon, ele era perigoso. Precisava conhecer o que o príncipe egípcio sabia e qual a sua relação com Asmita. Ao que parecia, ele não sabia de Ikki. Precisava de um plano. Por enquanto, Saga estava neutralizado. O soberano reatara com Aioros, alçara-o novamente a grão vizir e isso o tirava do seu caminho. Os apaixonados são sempre os mais descuidados. Shaka tentaria se lembrar disso e não cometer o mesmo erro. O desinteresse de Saga era um alívio. Mas Aioros estava constantemente com olhos e ouvidos sobre o consorte do rei. Inteligente e astuto, o grão vizir sabia que Shaka detestava faraó, embora o persa não detestasse Saga de fato, mas tudo que ele representava.
Não demorou muito, e Ikki saiu do meio dos arbustos do jardim, mas dessa vez ele estava sem Mu, acompanhado de outra pessoa que Shaka soube imediatamente quem era.
— Asmita! — ele exclamou e sorriu ao ver a figura envolta em negro.
Asmita deixou o capuz cair e aceitou o abraço afetuoso do irmão. Ambos riram e choraram.
Ikki afastou-se gentilmente, respeitando o momento dos dois. Ficou a dar voltas no jardim, observando as plantas e as esculturas de ouro. Nunca vira tanto ouro em um mesmo lugar, mesmo na melhor das pilhagem que fizera em seus tempos de serpente negra. Aquele reino se derramava em riqueza e luxo e, ao que parecia, o povo vivia relativamente bem, ao menos em suas andanças não vira peste ou fome. Entretanto, era um reino escravocrata como todos os outros e mesmo que os escravos ali vivessem melhor do que os escravos de outros lugares em que já passara, ainda eram o que eram: escravos. Ainda seriam tolhidos da liberdade e sujeitados aos desmandos dos senhores. Saber que Shaka fora escravo de cama de faraó durante tanto tempo e que ainda estava sujeito àquele homem deixava-o com vontade de mover o mundo para que aquele reino caísse em desgraça. Mas Ikki sabia que não tinha poderio para isso. Nem mesmo a grande Babilônia teria tal poder, era o que percebia.
Longe dos pensamentos do árabe, Shaka conduziu Asmita até um banco, não conseguindo parar de sorrir ao mirar o rosto do irmão.
— Pensei que estivesses morto... Naquela noite, Asmita, eu quis sair para ajudar... Eu chorei a tua morte...
— Eu sei, Shaka. Não te preocupes com isso. Deixa-me veste — Asmita falou, levando a mão ao rosto dele.
Só então Shaka percebeu que os olhos do irmão não brilhavam ou moviam-se nas órbitas.
— Asmita...
— Sou cego, Shaka. Meus olhos materiais não podem ver desde aquela noite. Caíram sob o veneno da serpente. Mas os meus olhos espirituais se abriram desde então. Fui salvo, renascido e me tornei um zoroastro. Desde então, vago pelo deserto como guia dos que têm olhos para ver, mas não enxergam. Sou um cego guia de homens mais cegos que eu. Não chores por meus olhos, irmão.
— Choro por Najah. Por nossos pais, nosso povo e por mim — Shaka confessou. — Sempre sonho com aquela noite. A noite em que perdi tudo, em que deixei de ser eu mesmo...
— Não deixaste de seres tu mesmo. Transformara-te no que tinhas de ser. Não te envergonhes do que és, Shaka. Estamos todos emaranhados nos fios do destino. Pensamos que podemos conduzi-los, mas isso apenas nos cega e torna a caminhada mais terrível...
— Fiz coisas terríveis, Asmita... Cometi erros imperdoáveis... — Shaka confessou, apertando as mãos do irmão. — Não sou mais o jovem-príncipe de Najah, a criança da casa de Sohan, há muito tempo.
— Todos nós fizemos. Mas agora estamos aqui para começar uma nova história. Tudo se fará novo, Shaka. Voltaremos para o nosso lar e cantaremos canções de paz e de regresso. Acenderemos fogueiras que serão faróis para viajantes e perdidos. — Segurou o lado do rosto do irmão. — Honraremos nossos ancestrais, fazendo da nossa terra algo único. Um lugar de paz e abrigo em meio ao caos do mundo.
Shaka balançou a cabeça e apertou as mãos de Asmita.
— Como sairemos daqui? Não consigo pensar em um jeito. Não para mim. Tenho medo que minha sina destrua as vossas vidas.
— Eu tenho uma ideia. Preciso que ouças com muita atenção tudo que falarei agora, Shaka. Nossas sinas estão seladas. Inseparáveis.
Shaka assentiu e ouviu o irmão. O plano de Asmita era audacioso e perigoso, mas não havia outra forma. Perigoso ou não, eles teriam que deixar o Egito.
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Pandora voltou tarde para casa e decidida a tomar algumas providências urgentes. Com isso, mandou um servo de confiança levar um recado e uma bolsa de ouro ao norceno. Aquele homem pavoroso deveria deixar o Egito. Ele já servira ao seu propósito, revelando o passado do dançarino. A vingança que queria, no entanto, não lhe seria dada. Pandora precisava de Shaka para outros propósitos e com isso, o tal Misty se tornava uma ameaça. Ele sabia demais.
— Escolte-o até o barco informado e o entregue ao capitão — ela ordenou. Hades encontraria outro brinquedo quando lhe fosse conveniente, não aquela pobre alma deformada.
Verificou que o marido ainda parecia dormir profundamente e pegou o papiro levado por Radamanthys, abrindo-o. Não entendia aquelas palavras, precisava de um leitor e só o encontraria em Men-Nenfer, mas estava tarde demais para isso. Precisaria esperar, pois aquela noite era crucial para os seus planos. Se Kanon não fosse estúpido e se ele realmente tivesse o pouco do controle que julgava ter, ambos conseguiriam o que queriam. Ele precisava controlar Saga, ela precisava livrar-se de Aioros e para isso precisava de Shaka. Uma aliança perigosa, que Hades tentara e falhara. Homens! Mas Pandora sabia exatamente como conquistar o dançarino para a sua causa. Seria Shaka quem tiraria Aioros do seu caminho e ela não precisaria sujar suas mãos. Será que o persa possuía o sangue frio que demonstrava? Teria alguma saída sem tanto derramamento de sangue? Tocou o ventre, preocupada, e dirigiu-se ao quarto do esposo, ele ainda dormia. O que faria com ele? Precisava matá-lo também. Morte e dor pareciam ser o seu destino. Não gostava da violência, mas a sabia necessária muitas vezes. Os homens não hesitavam em usá-la. Ela também não hesitaria.
Foi para o seu quarto, banhou-se e perfumou-se, vestindo uma de suas lindas camisas de dormir. Todavia, seus planos foram interrompidos quando o servo destinado a mandar Misty embora retornou informando que o norceno havia fugido antes de adentrar a barca que o levaria do Egito.
Procure-o e mate-o se for preciso, mas livra-te dele! Ordenou e tentou dormir, mas não conseguiu. Aquele homem não podia chegar a Men-Nenfer. Não podia falar com ninguém. Mesmo que ele comprometesse Hades e não ela, como esposa, seu nome ficaria manchado e desconfianças surgiriam. Precisava detê-lo ou... Talvez não. Talvez pudesse usar ainda aquela pobre alma.
Deixou o quarto e voltou a chamar os servos.
— Encontrem-no e tragam-no até mim. Não o machuquem. Encontrem-no até o amanhecer.
Os homens se retiraram e ela voltou para a sua alcova, conseguindo, finalmente, adormecer.
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— Amanhecerá... — Ikki lembrou aos irmãos que pareciam em um mundo à parte enquanto contavam um para o outro tudo que fizeram naqueles longos anos de distância. O árabe chegara a ficar um tanto enciumado, pois fora notoriamente ignorado pelo esposo durante o tempo em que este esteve conversando com o irmão. Contudo, a felicidade que estava estampada no rosto de Shaka apagava o seu ciúme egoísta e o tamudaei sentia uma felicidade crescente por ter, de certa forma, oportunizado aquele encontro. Sua promessa: viver para fazer feliz o príncipe de Najah, seu esposo.
— Precisamos ir, Shaka — Asmita disse. — Amanhã será o grande dia. Esteja preparado.
— Estarei — Shaka confirmou e antes que o irmão pudesse partir, ele lhe segurou o pulso. — Asmita..., Tem cuidado com Kanon. Ele é perigoso. Procuras conhecer o jogo dele.
— Não te preocupes, irmão. Sou igualmente perigoso. Kanon quer algo de mim e prometi lhe dar o que ele quer. Posso arcar com a minha parte do trato, se ele arcar com a dele e posso tê-lo na coleira, se ele falhar comigo.
— A que custo, Asmita? — Shaka mostrou-se preocupado.
— A um custo que eu posso pagar, Shaka. É tudo que precisas saber — Asmita sorriu e afagou o rosto do irmão.
Shaka assentiu, ergueu-se do banco, indo até Ikki. Tocou-o no rosto e beijou-o nos lábios, antes de abraçá-lo.
— Obrigado por trazer o meu irmão para mim.
Ikki sorriu e o apertou com força nos braços, respirando fundo.
— Virei amanhã novamente até que não precise vir mais.
— Até que estejamos longe.
— Na nossa cidade — Asmita ajuntou, recolocando o capuz.
O sorriso de Shaka morreu um pouco e seus olhos buscaram os de Ikki, que com um sinal, pediu para que ele se calasse. Não discutiria aquilo com Asmita. Não até que todos estivessem longe do Egito.
— Temos que ir — O árabe voltou a falar e afastou-se do persa.
Shaka abraçou Asmita também e os dois visitantes deixaram seus aposentos. Aldebaran estava sentado na entrada do túnel, quase adormecido quando eles apareceram com uma tocha.
— Temos que ser rápidos, se o sol nascer, as sentinelas perceberão nossa presença — ele advertiu.
— Sejamos rápidos — Asmita concordou, apagando a tocha, e eles seguiram para o local onde haviam deixado os cavalos.
Voltaram para a hospedaria ainda encobertos pelas sombras da noite. Aldebaran logo foi para os seus aposentos dormir, mas Ikki avivou o fogo da sala e sentou-se ao lado de Asmita.
— Qual é o teu plano? — Ele indagou ao mago. — Não vejo como voltarmos a Najah sem condená-la.
— Foi isso o que proibiste Shaka de me dizer hoje? Que tencionam fugir não apenas do Egito, mas de mim também? — O zoroastro mirou os pontos luminosos que eram as chamas da lareira.
— Não podemos perder tempo com uma discussão tão tola. — Ikki replicou, cansado. — Adoraria devolver Najah a Shaka, mas não posso. Quero ao menos lhe devolver a liberdade e a paz.
— Tens pouca fé, tamudaei. Pouca fé.
— Tenho fé em minha espada. Não entendo de tramites de poder, mas sei que o rei egípcio não o entregará. Seremos tolos se acreditarmos nisso.
— Conheço a tua história, meu amigo. Quanto a mim, fui educado pelos maiores professores e filósofos que o mundo já conheceu. Versado em todas as línguas conhecidas e em todas as armas retóricas que tu nem podes imaginar. Conseguirei encontrar uma saída para esse problema. Confias em mim.
Ikki mirou as chamas e mordeu os lábios. Confessar impotência nunca foi fácil para homens como ele. Saber-se incapaz de resolver aquilo o angustiava.
— Não é desconfiança — ele disse depois de breve silêncio. — Eu apenas... — respirou fundo. — Não podemos esperar muito. Corremos perigo a cada dia, Shaka mais que todos nós.
— Shaka se manteve vivo durante todos esses anos. Ele sobreviveu aos tamudaeis, aos babilônios e com certeza sobreviverá aos egípcios. É um homem forte, inteligente e astuto. Não deixe que o teu amor o subestime.
— Meu amor nunca seria capaz de subestimá-lo — Ikki falou, com um sorriso mínimo, quase triste. — Ele é tudo isso, sim, e posso citar outras cem qualidades mais do que as citadas por ti. Ainda assim, Shaka é um escravo nessas terras, e um escravo está sempre em perigo. Um escravo está sempre vulnerável. Havia escravos em Najah, Asmita?
— Não. Mas andei em terras em que a escravidão era brutal e vista como legítima. Compreendo-te, Ikki. Perdoe-me. Prometo que até o próximo morrer do sol, trarei esperança.
O mago ergueu-se e foi para a sua alcova. Ikki não conseguiu dormir, continuou a brincar com as chamas.
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O dia raiou sobre o grande castelo de Kemet, e Saga cumpriu o seu ritual de soberano, ao lado de Aioros. Depois do serviço aos deuses, seu compromisso seria receber Nerfertari com toda pompa. Um grande tapete púrpura seguia do grande salão do castelo até o carro de ouro, de onde a rainha sairia. Os pratos e tambores anunciaram o momento solene em que as sandálias de Nerfertari tocaram o tapete. Ela brilhava em dourado e vermelho. Os cabelos castanhos e cacheados cobertos por um lindo elmo de ouro, assim como eram de ouro os braceletes que enfeitavam os seus braços. Belíssima e divina como se esperava da rainha do Egito.
Um grupo de servas de todas as cores e traços a acompanhavam, segurando o manto do seu vestido, enquanto ela desfilava e seis soldados com saiotes vermelhos e peitoris e elmos resplandecentes a flanqueavam em ordem e proteção.
Nomarcas e escribas a saudaram quando a rainha finalmente adentrou o imenso salão e encarou Saga, que estava sentado ao trono, sério, com o seu terrível elmo de falcão, tendo Aioros à direita e Mu à esquerda, entre os tronos.
A rainha sorriu satisfeita. Ela precisava admitir que o garotinho com quem se cara tornara-se um homem belíssimo e que emanava poder e vigor. Digno era de ser o comandante do maior império de seu tempo. Saga Hórus era a reencarnação animada de Osíris.
Ao lado do trono da rainha, estavam Kanon, igualmente poderoso e belo, e Pandora, exibindo a terrível gravidez e suas formas rechonchudas de saúde e beleza, vestida em dourado, mostrando aqueles lindos fios negros e lisos, que Nerfertari sempre invejara. A princesa era a mais bela mulher do Egito, não havia dúvidas. Herdeira de Rá, filha de Bastet, Pandora era a personificação do poder da deusa gata e seu olhar felino raiava a ferocidade de uma guerreira implacável.
— Sejas bem-vinda, rainha do Egito — Saga falou de maneira rígida, sem nenhum calor. Nerfertari não era tola. Sabia o que acontecia no reino. Sabia que seu retorno era mais uma jogada política daquele reinado que desmoronava. Ela aceitara dançar com o rei, pois tinha coisas maiores a temer no momento. Suspeitou da ausência de Hades. Havia rumores de que o governador estava muito doente. Duvidava. Algo maior acontecia nas sombras e a rainha precisava saber.
— Seja bem-vinda, mãe. Sente-se, por favor — Mu falou, sua voz sem nenhuma emoção. O filho apenas cumpria o seu papel. Tal qual aconteceu contigo um dia, Mu odiava o Egito, odiava ser príncipe e odiava sobretudo os pais. Reconhecia e não se importava. O jovem najariano sempre foi uma arma, nunca um filho. Nunca chegou de fato a amá-lo, por mais que tenha tentado e ela realmente tentara. Tentara inclusive ser feliz, amar. Todavia, tais acontecimentos não se dão entre os poderosos. A vida era um gravame em que não se podia esperar satisfação.
O trono vazio ao lado do rei a esperava e Nerfertari sentou-se, suas servas posicionando-se ao lado, sentadas no chão, como cãezinhos obedientes.
— É bom estar de volta — sorriu com indubitável prazer. — Este é o meu lugar, meu senhor. Não te esqueças de tal fato nunca mais.
Saga sorriu de volta, sem nenhum prazer. Aioros assentiu com a cabeça, ajeitando o seu manto de pelo de leão. Naquela cerimônia em especial, queria estar na própria pele e não na pele do grão vizir.
— Preparamos uma festa em homenagem a vossa chegada, amada soberana. —O grão vizir fez um gesto de mão e um prato foi ouvido. Imediatamente um grupo de artistas entrou em uma bela e divertida coreografia. Duas núbias faziam a dança do fogo, homens do norte criavam pirâmides humanas em acrobacias incríveis, outros faziam malabarismo, acompanhados por uma doce música de flauta, sistros, crótalos e tambores.
Nerfertari sorriu. Era um lindo espetáculo e, ao que parecia, embora contrariado, Saga a quis agradar, pois Shaka não o acompanhava naquele dia. O persa deveria estar confinado em seus aposentos, amedrontado com a sua volta. Pobre garoto! Ele não era o culpado e ela nunca sentira raiva dele. Shaka era tão vítima quanto ela, e se os seus planos dessem certo, um dia o livraria do domínio de Saga. Ele seria seu e seria feliz.
A apresentação circense demorou-se por mais de meia hora até que um soar de pratos a encerrou. Os músicos, contudo, posicionaram-se ao lado do salão e iniciaram uma canção suave, uma combinação de flauta, alaúde e a percussão leve de tambores. Suave, sensual, quente.
A rainha sorriu, emocionada com as homenagens.
— O que teremos agora? — indagou ao filho, os olhos brilhando de alegria.
— A atração principal — Mu sorriu, e um soar mais alto de pratos aconteceu antes de Shaka adentrar pelo mesmo tapete púrpura, também cercado de servos e soldados.
O persa tinha o corpo coberto por um tecido fino branco e brilhante, que ele deixou cair apenas quando estava no centro do salão, de frente aos soberanos. Ele cruzou os braços sobre a cabeça, o pescoço virado para o lado, dando a dimensão de toda a beleza e esplendor que o consorte do rei possuía. Para aquela apresentação, vestimenta especial foi escolhida. A calça era feita do mesmo tecido de estrelas que o envolveu e, por cima desta, um cinto cravado de diamantes e cristais brilhava intensamente. Nos braços bem proporcionados do rapaz foram pintados em tinta marrom símbolos egípcios de fertilidade e um elmo de ouro cravejado de cristais e diamantes lhe enfeitava a cabeça.
Os movimentos sincrônicos de quadril e braços começaram, ondulantes e hipnotizantes como o movimento das águas de um rio calmo. Para os lados, enquanto a barriga lisa convulsionava lascivamente ao som da canção.
Shaka, quando dançava, era a personificação erótica do próprio Rá. Primordial, mantenedor da ordem e de todos os olhares que devoravam o seu voluntarioso quadril, a sua barriga lisa e ondulante, os seus pés de movimentos delicados, onde as tornozeleiras cheias de guizos de cristais faziam música com os guizos dos braceletes. A ondulação laterais dos braços, os jogos de pernas viris e empolgantes, a expressão fácil de felicidade e prazer, tudo isso fazia de Shaka uma aparição que hipnotizava. Exato: o dançarino persa era o vislumbre de algo místico, um deus primordial oculto que guiaria os destinos daqueles que ali estavam.
Presos pelos movimentos divinos de Shaka, nenhum olho se atentou para os visitantes que entravam no salão e escondiam-se entre a multidão de escribas, nomarcas e nobres diversos ali presentes. Envoltos em capas e escondidos pela luz tênue do ocaso, Asmita, Ikki e Aldebaran observavam tudo que acontecia com especial atenção. O momento havia chegado.
Nerfertari estava desagradada, mas nem mesmo ela conseguia tirar os olhos do persa. Ele brilhava como um deslumbre do futuro e foi realmente como se ela conseguisse enxergar o futuro por uma janela naquele momento. Como relâmpagos numa manhã de tempestade ela viu! Seu corpo ensanguentado! O corpo de Shaka sobre o mármore frio das tumbas de Anúbis, um homem moreno que era decapitado, Mu perdido no deserto... O leopardo e a Serpente, o falcão e o Crocodilo... O leão rosnando sobre todos com sua fúria maligna...
A música, a flauta, o tambor, o quadril de Shaka ondulando, a sua barriga convulsa, o rugido do leão, o sangue, a música, o tambor, os símbolos, a dança, o sexo, um deus, Rá... O sangue...
— Chega! — A rainha gritou, erguendo-se do trono, completamente transtornada.
Tudo silenciou. Os músicos pararam. Shaka parou os movimentos e a encarou, direcionando a ela os olhos azuis contornados pelo negro do kohl.
Nerfertari não sabia o que dizer. Seu coração batia tão forte e um medo tão caótico e brutal a invadia, que sua vontade foi correr de volta ao exílio e esconder-se nas catacumbas dos seus ancestrais. Que presságio terrível! Que os deuses tivessem piedade de todos.
— Trouxeste-o aqui para humilhar-me? — ela voltou-se para Saga em acusação, por não saber explicar a verdade do que havia feito.
Saga não respondeu, apenas endureceu ainda mais a feição e se ergueu também, fazendo que todos que ali estavam se ajoelhassem, exceto os que estavam ao seu lado e o dançarino no meio do salão.
Shaka, no entanto, antecipou-se a qualquer coisa que o rei fosse fazer e correu até a rainha, jogando-se aos seus pés.
— Minha senhora — ele disse com a voz mais suave e servil que possuía. — Vim para homenageá-la como a rainha-mãe e grande soberana do reino. Permita-me servi-la — ele ergueu-se, seu corpo muito perto da rainha, que ofegou, antes do dançarino beijar-lhe os lábios.
Nerfertari entreabriu os lábios, perdida. Seus olhos buscaram o azul do olhar do persa, aquele azul que sempre a encantou, que sempre lhe pareceu as lagoas inocentes e benéficas dos oásis.
— Shaka... — ela murmurou, antes de puxá-lo pelo queixo e beijá-lo com mais intensidade.
Aioros sorriu com o canto dos lábios e fez um gesto, ordenando que a banda voltasse a tocar e que os presentes voltassem a ficar de pé.
Shaka separou-se da rainha e voltou ao centro do salão para terminar a dança, com um olhar doce especialmente voltado para Nerfertari. Não permitiria que ela estragasse todos os seus planos com ciúmes infantis.
“Ele é perigos”, Pandora pensou, enquanto observava tudo aquilo, sentindo uma pontada desagradável no ventre e levando a mão à barriga. Se não o tivesse do seu lado, as coisas ficariam mais difíceis. Precisava tê-lo e já havia pensando numa boa estratégia para isso.
Passada a apresentação, Shaka voltou aos pés da rainha e do rei. Nerfertari sorriu e tomou-lhe a mão esquerda e Saga a direita e os três desfilaram pelo tapete púrpura em direção ao salão dos banquetes, seguidos por seus cortesãos e guardas.
Nomarcas, escribas, sacerdotes e todos os nobres e filhos de nobres que ali estavam mostravam-se satisfeito ao ver a rainha de volta e, acima disso, ao perceber que havia harmonia na casa real.
Percebendo que seu plano parecia funcionar, Aioros permitiu-se ficar para trás e ter alguns minutos com a família, já que sua mãe e Aiolia e a esposa estavam entre os nobres convidados.
Marin estava mais bela em sua gestação a cada dia e o irmão parecia feliz ao lado dela, embora houvesse aquela mesma sombra de preocupação em seu olhar. Já a matriarca de Mahees parecia satisfeita por voltar à corte e ter um filho grão vizir, mesmo que reprovasse os sentimentos que levaram Aioros de volta ao cargo.
— Tenho orgulho em veste em função tão importante, meu filho — ela disse. — Contudo, entristece-me os teus motivos para aceitá-la. Não me permito mentir. Bom que tenho Aiolia para que o sangue sagrado dos filhos de Sekhmet não desapareça nas areias de Kemet.
— Mãe... — Aiolia a advertiu, incomodado.
— Os filhos não merecem tamanha carga — Aioros falou, entristecido com as palavras dela. — É injusto que tenha que trocar a minha felicidade pela honra dos meus ancestrais.
— Felicidade? A pessoa que amas tem uma esposa e um consorte. Onde mesmo estás nisso, Aioros?
Não havia mesmo resposta, e Aioros não quis dá-la. Marin percebeu a tensão e convidou a sogra para beber uma taça de vinho em um dos jardins. Aiolia sorriu para o irmão.
— Não te incomodes com ela. Um dia nossa mãe entenderá.
— Quando definhar de tristeza com a tua partida? — Aioros indagou.
Aiolia foi tomado de surpresa.
— Como?...
— Eu te conheço, irmão. Sei que esse casamento foi um acordo e que planejas deixar o reino com o príncipe. Já tentaram uma vez e pelo que conheço de ti, não desistes de uma ideia. Nem sempre poderei evitar que cometas loucuras, então, conte-me, o que desejas fazer?
Aiolia baixou o olhar e encolheu os ombros.
— Não sei o que farei, Aioros. Amo Mu e quero que ele seja feliz. Ele odeia o Egito e a função que tem que desempenhar na casa real. Ele deseja a liberdade, mas eu... — os olhos verdes encararam o rosto do grão vizir. — Eu serei pai agora. Foi uma escolha infeliz e... Eu penso que gosto de Marin...
— Estás dividido... — Aioros suspirou. — É uma escolha difícil, irmão. Mas o que de fato é fácil neste mundo? Não te posso dizer o que deves fazer, mas posso te dizer que há uma grande responsabilidade em teus atos. Consulte os deuses e seja sábio. O que posso garantir é que no que depender de mim, Mu não deixará o Egito. Ele é o herdeiro do trono. Isso não acontecerá.
Aiolia calou-se. Pensava que era realmente uma missão impossível. Eles tentaram uma vez e falharam. Tentariam uma segunda vez? Seria justo ter esperanças em algo tão impossível?
— Não posso deixar de tentar, Aioros. Não posso decepcioná-lo.
— Cuidado para que isso não seja mais teimosia que de fato amor.
Aioros bateu no ombro do irmão e afastou-se. Aiolia era um homem e deveria resolver sozinho os seus problemas. Esperava realmente que eles fossem resolvidos sem mais um escândalo para a casa real. O ambiente no reino já estava por demais efervescente para que mais um problema viesse atrapalhar. De toda forma, não poderia permitir a fuga de Mu. Sentia por eles, mas era o seu dever proteger o Egito.
No salão de refeições, a nobreza esbaldava-se no luxo das iguarias raras e abundantes, assados, caldos, cerveja e vinho de todos os tipos, bolos e pães. A fartura das colheitas douradas da terra abençoada pelo grande rio estava ali. Shaka, contudo, nada aproveitava. Sentia-se sufocado. O elmo pesava sobre sua cabeça muito mais que o arco de ouro dos nemés da família real. Ele tomou uma taça de vinho verde, bebendo para combater o calor do fim do dia. A festa duraria toda noite, mas ele estava cansado pelas diversas noites mal dormidas. Seria uma penitência continuar naquele salão.
— Verás teu irmão hoje — Kanon sussurrou ao se aproximar dele disfarçadamente, também segurando uma taça. — Ele está aqui.
Shaka fingiu surpresa.
— Aqui? Isso é loucura! E se ele for visto?
— Asmita tem uma insígnia minha, quase um salvo conduto pelo reino. Nada acontecerá a ele. Reservei uma acomodação no castelo para ele e seus mercenários e em momento oportuno o levarei até lá. Temos um acordo, e pretendo cumprir a minha parte. Cumpra a tua.
— Ainda não entendi o que desejas de mim, Kanon.
— É simples. Serás minha distração quando me tornar faraó.
Shaka encarou os olhos escuros do nomarca.
— Acreditas que Asmita fará o que desejas tendo tais projetos? — Shaka riu.
— Não é um projeto, é um convite, meu belo dançarino. Desejo-te há muito tempo, sabes disso. Quando estiver no poder, o que o impediria de se tornar meu rei-consorte? Pensas, não um príncipe-consorte real à sombra da Grande-Esposa, mas Rei-consorte do Egito.
Shaka franziu a testa, confuso.
— Sabes que tudo que desejo é minha liberdade.
— E não entendo o motivo, Shaka. Teu reino foi destruído. Se partires, sereis apenas um homem errante pela Terra. O que te motiva?
— Nunca foste tolhido da liberdade, alteza. Não podes entender. Mas... — Shaka o encarou, percebendo uma sombra sobre o olhar sempre tão vivo do príncipe egípcio. — Não me parece que a ideia de me ter ao teu poder o excites como antes. Como disseste, é um projeto, entendo. Contudo, pareces triste e perdido.
Kanon desviou o olhar de Shaka com um meio sorriso constrangido.
— E és sempre o espertinho, não é? — falou como uma troça. — Creio que meus sentimentos não sejam o que de fato te interessa. Então não finjas que eles importam. Podemos tratar isto como um negócio.
— Não importam de fato e não desejo fazer esse tipo de negócio — Shaka respondeu com desdém. — Só desejo saber o que espera de mim e o que preciso fazer para comprar a minha partida com Asmita. Não serei teu rei-consorte, Kanon. Nunca. Não importa o que me ofereças. Eu só desejo deixar essa terra amaldiçoada e que todos vós afundeis nas areias do deserto!
Kanon riu numa exclamação divertida.
— Oh! Cuidado, meu belo passarinho, as garras de ave de rapina estão aparecendo. Saga pode vê-las ou até pior: Aioros pode vê-las e cortá-las sem qualquer piedade. Sabes bem a quem temer neste reino.
Shaka balançou a cabeça com um lamento irônico, o elmo pesando.
— Estás triste e amargo, alteza — sorriu de maneira fingida e inocente. — E como agora és meu irmão, perdoar-te-ei. Com a sua licença.
Ele afastou-se, tentando não parecer abalado com aquela ameaça, sorrindo para os que o cumprimentavam, mas chamando seus servos para junto de si e pedindo que eles fossem para o seu quarto e lhe preparassem a tina de banho. Ainda estava quente e ele daria um jeito de fugir daquela festa. Saga estava entretido com Aioros e os nomarcas suficientemente para que permitisse a sua partida.
As seis crianças saíram praticamente correndo. Elas sabiam que após preparar o banho, deveriam deixar os aposentos do príncipe e irem para os seus, que ficavam no subsolo, como os dos demais servos. Eram boas acomodações e Shaka também preparara uma saleta de descanso para eles, próximo ao seu quarto, mas não dentro dos seus aposentos, como a maioria dos nobres gostavam. O persa preferia a total privacidade e não confiava em ninguém.
Assim que foi possível, quando as sombras da noite já ganhavam o horizonte, Shaka deixou a festa, atravessando o corredor escurecido, pois os archotes ainda não haviam sido acesos em sua totalidade. Retirou o pesado elmo de cristal, arrastando os pés cansados para o quarto, quando uma mão o segurou pelo antebraço, fazendo-o sobressaltar-se.
— Sou eu! — Ikki retirou o capuz e o puxou para uma das escadarias que levavam ao subsolo. — Vi quando saíste e me pareceste estranho e assustado. Algo aconteceu?
Shaka soltou uma exclamação abafada e o abraçou.
— Assustado? Não! Cansado. Só queria descansar. Não sabia que estavam aqui, pensei que seria...
— Amanhã, eu sei. Mas Kanon convidou Asmita. Ele quer alguma coisa e temo que Asmita dará, por ti. Sei que será algo terrível, mas é preciso.
— Ele quer o trono — Shaka encarou Ikki. — Asmita... poderia dar isso a Kanon?
— Asmita tem mais poder do que jamais vi em outro ser humano. Tirar um homem do caminho será fácil...
Shaka arregalou os olhos horrorizado.
— Mas não se trata apenas de Saga. Há Mu! Não estamos falando da vida apenas de Saga, mas de Mu!
— Shaka, eu sei que é horrível, mas o destino do povo dessa terra não é nossa responsabilidade. Mu terá que cuidar dos próprios interesses — Ikki replicou veemente. —Temos que salvar a ti e apenas a ti...
— Não! — Shaka negou, afastando-se dele.
— Não? — Ikki interrogou, confuso.
— Tu não entendes, Mu é...
— O que ele é? — O árabe interrogou sério. — O que tem de tão especial nesse tal Mu para que queiras arriscar tudo para salvá-lo? Sei que são amigos e que ele te ajudou. Todavia, ele é adulto e deve cuidar de si mesmo...
— Ele é nosso irmão! Mu é nosso irmão, Ikki. Ele é o filho de Jamila, vendido por minha mãe para a rainha do Egito. Não posso deixar que Kanon o mate.
Ikki afastou-se, mirando-o profundamente com quase piedade.
— Shaka... Há uma semelhança sim, mas... Não é possível...
— Não? A rainha contou-me uma história idêntica a que me foi contada por Jamila. É ele! A idade, a aparência... É ele.
— Não pode ser! — Ikki esfregou o rosto como se assim seus pensamentos pudessem ser mais coerentes e respirou fundo. — Não é possível! Qual deus ou demônio construiria um jogo macabro desses? Não seria concebível que o destino o colocasse ao teu lado, Shaka! Seria... Impossível...
— Não, Ikki. Só está escrito. Lembra-te: está escrito.
O árabe segurou-o pelos lados do rosto.
— Não me importa o destino. Eu te levarei daqui. Então, se tens certeza que este egípcio é teu irmão, que ele esteja preparado.
— Não podes permitir que as ações de Asmita o coloque em risco. Preciso que fales com Asmita...
— É tarde. Ele já deve ter dado o que o príncipe Kanon tanto deseja.
— Tenta, por favor — Shaka apoiou a testa na dele. — Mesmo que Mu não fosse meu sangue, eu ainda o salvaria. Ele salvou a minha vida. Ele é meu amigo.
— Sim, sim, eu prometo tentar. Vamos salvá-lo.
Ikki afastou-se e beijou-o na testa, verificando o corredor para saber se era seguro.
— Vá, Shaka. Procurarei Asmita. Nossos planos começam hoje.
Shaka assentiu com a cabeça e caminhou a passos rápidos em direção ao seu quarto, vendo Ikki desaparecer na escuridão de uma escada. Tudo era penumbra. Parecia que devido à grande festividade, os servos haviam esquecido de acender os archotes da ala real e as primeiras sombras da noite projetavam-se nas paredes. Isso era bom, em parte, pois ficaria mais fácil para seus aliados transitarem entre os becos secretos que havia naquela imensa construção de pedra. Contudo, andar nas sombras nem sempre era pacífico e seguro. A fortaleza de Karna era sempre escura, e ele sempre tivera medo de andar por ela. A Babilônia era sempre iluminada e colorida, e ele nunca temeu. No Egito, tudo parecia resplandecer no ouro, e era amargo e terrível.
Adentrou o corredor real, pisando com suas sandálias as pedras brancas e douradas, passando pelas duas imensas estátuas de Osíris e Ísis e escapando para a pequena curva que marcava a entrada da sua alcova. Nesse momento, foi surpreendido. Um manto negro soltou à sua frente e uma mão esquelética ergueu um punhal que brilhou contra a luz de uma tocha.
Shaka não conseguiu gritar, somente esquivou-se e o punhal arranhou a pedra da pilastra. O manto avançou novamente com um grunhido, e seu cérebro finalmente saiu da reação automática. Shaka compreendeu que alguém queria matá-lo. A criatura avançou novamente e ele lhe segurou os pulsos. O punhal arranhou-o no braço, fazendo-o gemer. O chão aos seus pés foi pintado de vermelho e seu corpo foi jogado com toda fúria contra a parede.
— Eu esperei minha vida inteira para destruíste... — O manto disse, forçando o punhal em direção ao rosto do príncipe. — Minha vida inteira para devolver isso!
Misty deixou a capa cair, exibindo o rosto ainda mais desfigurado do que a cicatriz feita por Shaka. Deformado por anos de sofrimento e torturas.
— Olhas para mim, Presente do Oriente — o norceno disse. — Vejas o que fizeste comigo... Eu te odeio e amaldiçoo!
Shaka lutava contra as mãos dele que tentava subjugá-lo, desesperado.
— Não! — exclamou com o último fio de voz que tinha, empurrando Misty e conseguindo escapar para a parede oposta. Sua única arma foi o elmo de cristal que ele arremessou contra o assassino, mas este pouco efeito causou, espedaçando-se contra uma parede, os cristais e pedras rolando no chão como lágrimas.
— Tu escolheste isso, Misty! — Shaka falou, aterrorizado.
— Eu? Eu? Eu não quis a tua morte ou tua destruição! Eu só quis a vida! Esta vida que tens que era minha e tu roubaste!
— Eu nunca quis esta vida! — Shaka gritou. — Dar-te-ia tudo isto se eu pudesse, eu juro!
— Não importa! — Misty falou, erguendo o punhal novamente, ouvindo passos se aproximando. Precisava ser rápido, antes que a guarda real retornasse.
Mirou novamente na direção do dançarino e correu com todo o seu ímpeto furioso. Shaka, por mais ágil que fosse não conseguiria escapar.
O persa soltou um gemido fraco quando o sangue esguichou pintando seu rosto e tórax com a violência do golpe certeiro no pescoço. Ele apoiou-se na parede e dobrou os joelhos, o coração disparado no peito, as pernas perdendo as forças, o sangue se espalhando aos seus pés.
Misty cambaleou, deixando o punhal cair, seu corpo tombando também. Os olhos azuis do persa finalmente entenderam o que havia acontecido ao ver a saif ensanguentada nas mãos de Ikki, que o observava em comoção.
— Shaka! Shaka! Estás ferido? — ele deixou a espada cair também, segurando os braços do amado, percebendo o corte de defesa. — Meu amor, eu senti que estavas em perigo, eu senti! — segurou-o pelos lados do rosto. — Shaka, fales comigo, por favor!
Shaka finalmente pareceu sair da sua perplexidade. Abraçou o esposo soltando um soluço de alívio.
— Ikki, ele tentou me matar... — seu coração ainda batia loucamente no peito e ambos tinham o corpo respingado pelo sangue norceno.
— Está tudo bem. Estou aqui — Ikki sussurrou, apertando-o nos braços.
Em meio à comoção daquele momento, eles não perceberam os passos, o tilintar das lanças e escudos e a ameaça que se aproximava: uma guarnição real, liderada pelo general Sirius escoltava rei, rainha, príncipes e vizir de volta aos seus aposentos na ala mais nobre do castelo. Eles eram acompanhados pelos midjais que gradativamente acendiam as tochas do longo corredor. Quando enfim eles perceberam, era tarde demais. A tropa abriu-se para que Saga e Aioros parassem de frente ao dois homens abraçados sobre uma poça de sangue e um corpo.
Uma serva da rainha gritou e cobriu os lábios. Shaka ergueu a cabeça até então escondida no peito de Ikki para entender o que acontecia.
Pandora apareceu em seguida, uma expressão de horror em seu rosto ao ver o corpo de Misty no chão sobre a poça de sangue.
Aioros deu um passo à frente, tão chocado quanto terrível. Observou o consorte real nos braços daquele homem desconhecido e tentou entender o que acontecia.
— Traição — a voz do vizir reverberou e os guardas bateram as lanças no chão e apontaram-nas para os dois em seguida.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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