A serpente e a estrela
4 Promessa às estrelas
Notas iniciais
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...
Céu de Santo Amaro – Caetano Veloso
Promessa às estrelas
Capítulo 4
Kanon retirou o nemés ao adentrar seu quarto no palácio do irmão. Não vira Saga o dia inteiro e como estava muito entediado, resolveu voltar para Nekhen por algumas horas. Com tais pensamentos, o príncipe tomou um cavalo e voltou ao seu nomo. Em Men-Nenfer, ele não precisava de escolta, podia ir e vir sem problemas, pois era irmão do deus, e ai daquele que ousasse lhe desmerecer ou mesmo tocar-lhe à pele.
Kanon retornou a Assuã pelas suntuosas estradas de pedra que cobriam todo o Egito. Era reverenciado por todos os servos que encontrava no caminho e respondia aos cumprimentos com um acenar suave de mão. Assim que seus pés calçados em sandálias de tiras de papiros pisaram o pátio do grande palácio, o príncipe viu seu antigo preceptor à porta, encarando-o com olhos reprovatórios.
— Por que retornaste tão cedo, Kanon? — indagou Hades. — Eu o orientei a se reaproximar do teu irmão, não foi? Andas muito distante de Saga. Isso não é bom.
— Tu me aconselhaste, mas faço o que quero. Lembre-te que há muito não és mais meu tutor, Hades Miquerinos! — replicou com toda sua inata rebeldia.
— Ah, desculpe-me por isto, alteza. Creio que meus serviços já não são necessários! — fez uma mesura irônica o administrador, seguindo o príncipe para dentro do castelo.
— Em vez de fazer piadas, deverias encontrar uma forma de me livrar do vizir. É ele quem me impede de ser o braço direito de Saga, não Shaka, como pensas! — resmungou o mais jovem.
Hades suspirou cansado daquela ladainha irritante.
— Meu temor ao dançarino deve-se à tua obsessão por ele. Kanon, será que não aprendes que os sentimentos servem apenas para nos desviar dos nossos objetivos? — continuou Hades enquanto seguia o príncipe até à cozinha. Kanon pegou uma fruta e a mordeu, antes de falar sorrindo:
— Eu quero Shaka e eu o terei... Se não por bem... — mordeu a fruta, não completando a frase.
Hades sorriu: Kanon não passava de um menino tolo. Ele acreditava mesmo que o Egito seria dele? Pobre rapaz! Os planos do administrador iam muito além de usurpar o trono do faraó. Ele, Hades, teria sua vingança e queria que, de preferência, ela fizesse sofrer toda a casa real e a casa de Maahes, desde sempre, protetora do faraó.
— Sim, alteza. E eu, teu fiel servo, estou aqui para ajudá-lo com o que precisar.
Kanon sorriu também, de lado. Não confiava plenamente em Hades. Sabia que o escriba era astuto, ambicioso e cruel, mas precisava dele e era, de certa forma, fruto dele. Fora Hades a inquirir em Kanon o orgulho e a vontade de sobrepujar Saga e tomar tudo que fosse do irmão. O gêmeo do faraó devia ao mestre sua ambição pelo trono. Hades transformou o menino assustado do passado no homem forte e ardiloso do presente e, provavelemtne, no rei do futuro. Então, o príncipe só tinha que agradecer-lhe.
— Kanon...
Uma voz suave, mas grave, chamou-lhe o nome, e Kanon se voltou para o jovem, sorrindo.
— Aspros! — ele exclamou, caminhando até o rapaz e o abraçando.
Aspros era integrante do exército do Egito e raramente era visto no castelo. Kanon segurou o rosto do jovem que nascera quando ele possuía apenas seis anos e que era filho de seu pai e de uma concubina, mas que, ainda assim, ele considerava um irmão.
— Por que não me disseste que viria? Eu teria feito um jantar em tua honra! — exclamou o príncipe, realmente feliz com a visita do meio-irmão. Mesmo Aspros sendo filho ilegítimo do antigo faraó e não podendo carregar a alcunha de príncipe, ele era muito querido por Kanon.
— Não me demoro. Vim apenas vê-lo rapidamente. Logo estarei navegando com o exército — explicou o jovem general.
— Sim, sim, e como andas tua mãe?
— Bem. Defteros cuida muito bem dela — falou Aspro com sua seriedade característica. — Tenho de ir, irmão. Só vim vê-lo e mais nada — o mais jovem disse, lançando um olhar furtivo a Hades, que sorriu de canto de lábios, retribuindo.
— Tudo está bem, muito bem, Aspros. Parta em paz e que Rá o proteja. — Kanon beijou o rosto do irmão com carinho.
O general fez uma reverência ao príncipe e saiu, trocando outro olhar licencioso com Hades, que pensou: Esse sim seria um grande faraó.
Depois que Aspros deixou o castelo do nomarca de Assuã, Miquerinos separou-se de Kanon e foi cuidar dos seus afazeres. Sozinho no palácio, o príncipe observou as montanhas e o horizonte claro. Recordou-se do tempo em que ele e Saga brincavam na foz do Nilo e sorriu saudoso. Entretanto, deveria se lembrar que agora eles estavam em lados opostos e que, para conseguir tudo que queria, precisava terminantemente, odiar seu irmão, por mais que tal ideia lhe fosse desagradável.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
Hades desceu ao subsolo do castelo com uma tocha em mãos. Observou as inscrições nas paredes, os símbolos sagrados do altar de Bés, o grande deus fecundo com cabeça de babuíno. Ali, ele guardava sua real origem dos olhos curiosos e desvendava o futuro através dos seus oráculos.
O subsolo do castelo de Nekhen era formado por um conjunto de galerias estreitas que davam num grande salão: o templo para Bés, o deus fecundo, aquele que cuidava da fertilidade feminina.
Uma grande estátua do deus anão ocupava o centro do local. Era uma entidade poderosa que possuía um falo gigantesco e ereto, simbolizando seu poder, agressividade e potência sexual.
Mulheres que queriam engravidar eram levadas ao templo de Bés em Sakaha, também conhecida como a cidade dos mortos, para passar algumas noites e assim conseguirem seu intento. Mas Hades possuía um tempo privado, dentro do próprio palácio de Nekhen. Um templo oculto, que nem mesmo Kanon tinha conhecimento. Local onde, há 17 anos, ele levara a rainha para que ela gerasse um filho: o futuro faraó.
Agora, tantos anos depois, a mulher estava novamente ali, naquele palco sombrio, esperando-o com visível impaciência.
— Majestade — Hades se inclinou respeitosamente. — Obrigado por atender ao meu chamado.
— O que desejas, senhor? — ela indagou nervosa. Não gostava daquele lugar. As lembranças do que fizera no passado ainda a assombravam. A câmara subterrânea do castelo de Nekhen era funesta e possuía um calor abafado, como se o próprio Bés estivesse ali, soprando a nuca dos invasores.
— Quero que cumpras o nosso acordo, senhora. Dezessete anos já se passaram desde que eu a ajudei a obter o que querias. Agora chegou a hora de me ajudares em meu intento.
A rainha franziu a testa. Era sabido por Hades e por todo o Egito que seu casamento com Saga acontecera apenas por um motivo: para que o Egito ganhasse um herdeiro. O faraó nunca escondeu o seu desejo por jovens cortesões. A figura da grande esposa era meramente decorativa, e isso não era mal visto pela sociedade egípcia.
A ambição de Nefertari a levara até Hades para que o escriba versado na magia e na necromancia a ajudasse a conceber. Agora, após dezessete anos, o administrador exigia o pagamento. A bela mulher casara-se com Saga aos 12 anos, logo após as primeiras regras. O faraó tinha a mesma idade — eles eram primos; crianças que foram forçadas a copular como animais com o intuito de trazer um novo faraó ao mundo. Mas meses se passaram até que, com a ajuda de Hades, ela conseguisse apresentar uma gravidez ao soberano.
— O que desejas de mim, meu senhor? — a rainha perguntou, tentando esconder o nervosismo. — Peça-me e eu, com a ajuda dos deuses, o farei.
— Algo muito simples para alguém com vossa beleza, minha querida senhora. Hades tomou a bela mão da mulher, mirando o rosto bonito e jovem de Nefertari. — Nada mais que um punhado de sedução.
A grande esposa sorriu aliviada, embora não de todo. Miquerinos era um grande aliado, e ela poderia precisar dele outras vezes. Melhor servi-lo no que ele queria. Quando a rainha saiu por uma das passagens secretas, outra pessoa entrou, e seu porte atlético fez brotar sombras gigantescas nas paredes de pedra calcária.
— Estou aqui como tu pediste, meu senhor — falou o jovem general de forma obediente.
— Sim, Aspros, querido filho, de ti só possuo orgulho — sorriu Hades. — Fizeste o que mandei?
— Sim. Já preparei para que o faraó descubra a traição da rainha. Só devemos esperar até que tudo ocorra.
— Encarregaste quem de envenenar o vinho do vizir?
— Ninguém, meu senhor. Eu mesmo estarei lá.
— Ótimo! — Hades sorriu. — Aspros, tens notícias do teu irmão?
— Ele continua como fiel cão de faraó, meu senhor — sorriu o jovem com maldade.
— Ele seria um empecilho?
— O único empecilho que Defteros pode causar será eu ter que sujar minha lança com o sangue dele, meu senhor.
Hades e Aspros trocaram sorrisos cruéis e, então, o administrador autorizou o militar a sair. O necromante se esgueirou de volta ao castelo e mirou o sol no horizonte: haveria muito que acontecer até a próxima noite de grande lua.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
Kanon retornou a Men-Nenfer já ao cair da noite. Havia se informado com seus generais sobre tudo que precisava até a chegada do exército estrangeiro que viria ao Egito para apoiá-lo. Sentia-se excitado com a possibilidade de finalmente conseguir seu intento de vida.
Aquele foi um dia agitado, e ele sabia que, provavelmente, Shaka ficaria no quarto à espera do seu irmão, que saíra à caça e só retornaria ao crepúsculo. O príncipe mirou ao redor, verificando se havia algum guarda no palácio, e como encontrou o caminho livre, correu para a alcova do cortesão.
Ele parou assim que atravessou as cortinas de tecido fino e deparou-se com a visão do jovem da Ária ressonando na imensa cama, o peito subindo e descendo suavemente, a barriga lisa e perfeita, adornada por um umbigo que era um primor, desnuda. Shaka vestia apenas uma calça fina de linho real branquíssimo, presa à cintura por um cinto em nó do mesmo material. Os cabelos longos estavam espalhados sobre a cama formando um manto de luz.
“Sacerdote de Hárthor, templo de Hórus, matriz sagrada que gera o sol e derrama nos corações dos homens o desejo...”
Kanon recitou as palavras proféticas ditas pelo sumo sacerdote do Egito quando viu o loiro pela primeira vez. O príncipe não conseguiu conter-se e engatinhou sobre a cama, beijando o pé macio e subindo os lábios pelas coxas firmes até chegar à barriga do dançarino, onde brincou com a língua em seu umbigo. Continuou a trilha de beijos e chegaria aos lábios do ariano, mas quando ergueu a cabeça, surpreendeu-se ao ter um punhal pressionado contra seu pescoço.
O egípcio riu divertido ao perceber o olhar irônico e diabólico do cortesão sobre si.
— Afasta-te, alteza, ou serei obrigado a cortar tua garganta — Shaka falou pacientemente. O nomarca de Nekhen se afastou, erguendo as mãos, como quem se rendia.
— Não sabia que tu eras bom com um punhal — disse o príncipe egípcio, sem jeito — O que mais eu não sei, Shaka?
— Sabes apenas o que deves saber sobre mim, Kanon Amon — volveu o loiro, pondo-se de pé em um movimento ágil e gracioso, ajeitando os longos cabelos em seguida. — O que queres aqui? Já disse para deixar-me em paz.
— Por que não me dás uma chance? Só um momento — sussurrou Kanon, aproximando-se — Um único momento e eu prometo que o cobrirei de ouro e diamantes ainda mais belos que teus olhos. O levarei para Dendera e farei de ti meu sumo sacerdote.
Shaka sorriu com ironia, erguendo o queixo para mirar Kanon nos olhos.
— Não preciso de ouro, Kanon. Preciso da minha liberdade e se não podes me dar isto, eu prefiro ficar ao lado de Saga.
— E se eu disser que em breve, muito breve... Eu poderei conseguir o que tu mais desejas? — o mais velho perguntou. — Tu me apoiarias?
Shaka piscou os longos cílios, hesitante, e fitou o nomarca desconfiado.
— Não brinque comigo, Kanon Amon. Não sabes do que sou capaz por minha liberdade — advertiu.
— E por que queres tanto ser livre, Shaka Devraj? — indagou de forma provocativa — Achas que em qualquer lugar do mundo terás o que tens aqui no seio da família real do Egito?
— Desejas mesmo conhecer minha história, alteza? — desafiou o loiro, estreitando os olhos — Acaso achas que alguém como eu nasce escravo? Sou um príncipe da Ária, tão ou mais nobre que qualquer faraó do Egito e muito mais instruído que o maior dos teus escribas! Então não me tomes por tolo! Se tiveres algo para me oferecer, entraremos em acordo, se não, desapareça daqui!
Kanon sorriu. Era exatamente o que ele queria: ouvir algo “positivo” de Shaka. Precisava de uma brecha que lhe propiciasse vencer as defesas do belo dançarino. Aproximou-se do loiro e segurou-lhe o queixo delicado, mirando-o dentro dos olhos.
— Ótimo, durrdana. É assim que eu gosto. Em breve, eu direi o que quero de ti...
Shaka se afastou dele, rindo sarcástico.
— Que patético, alteza! Estás fingindo que tens algum plano contra Saga apenas para me levar à caça? Tu és ridículo!...
A mão poderosa do egípcio segurou o cortesão pelo pulso e a outra foi espalmar as nádegas firmes de Shaka, puxando-o para si.
— Cuidado, estrangeiro. — Kanon murmurou de forma perigosa — Caso eu queira, acabo contigo e com esse teu nariz petulante. Aqui, não passas de um escravo, príncipe da Ária, e não pense que Saga deixará de me apoiar para apoiar-te. Até hoje, permiti que desdenhasses de mim, mas para tudo há um limite e o meu chegou neste momento.
— Solte-me, não tenho medo de ti... — grunhiu Shaka. — Já disse que no dia que conseguires me dar o que quero, eu serei teu, mas só nesse dia! Não me peça ajuda para teus planos inúteis porque enquanto Saga possuir maior poder, eu serei dele e apenas dele!
Empurrou o peito do nomarca, que foi obrigado a se afastar.
— Eu ainda...
Kanon interrompeu-se ao perceber que alguém se aproximava. Com certeza eram um dos nobres que voltava da caçada. Um homem entrou no quarto, e o dançarino se afastou ainda mais do gêmeo do faraó. O grão vizir examinou os dois com olhar surpreso.
— Kanon, o que fazes aqui? — indagou Aioros, intrigado. — Somente eu, Saga e alguns servos devem vir a este quarto. Estás contrariando uma ordem expressa do teu irmão.
— Eu sou o culpado, Aioros — Shaka se voltou para o vizir, deixando Kanon atônito. Afinal por qual motivo o loiro o defenderia? — Eu...machuquei meu tornozelo enquanto dançava e... não consegui andar adiante. Quando cheguei ao salão, encontrei o príncipe e pedi que ele me ajudasse a voltar aos meus aposentos. Perdoe-me, agora percebo o quanto minha solicitação foi inadequada.
Aioros examinou os dois homens por um tempo em silêncio.
— Percebo que teu pé está bem melhor agora, não é verdade? — indagou, desconfiado.
— Na verdade, foi apenas uma torção que resolvi com uma boa massagem — retorquiu Kanon — O treinamento médico serviu para algo, não, Aioros? — perguntou com cinismo.
— Claro — respondeu o grão vizir de forma neutra, ainda analisando os dois —, mas agora que Shaka está bem, deves sair — ordenou ele ao príncipe e mirou o cortesão .— Logo o faraó mandará buscá-lo.
Shaka assentiu com a cabeça, e Kanon também. O ariano só respirou com tranquilidade depois que os dois homens deixaram o seu quarto.
“Deuses, esse parvo ainda me colocará em apuros!”, pensou o loiro, angustiado, e mirou o pôr-do-sol pela imensa janela. “Por que não vem logo me buscar, meu amor?”
Murmurou e tocou o bracelete negro com carinho.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
Ikki e Zahid cavalgavam em direção ao Oasis de Al-Hasa, lugar onde conseguiriam suprimentos, o primeiro para sua viagem, e o segundo para sua tenda no deserto.
O por do sol alaranjava a areia escaldante da Arábia e anunciava a noite fria e perigosa, cheia de escorpiões e serpentes à procura de alimento. Não era bom passar a noite fora dos Oasis, e Ikki tentava convencer o amigo a ficar com ele até o amanhecer.
— Um velho como eu já conhece os caminhos do deserto como poucos — argumentou Zahid.
— La, és um homem velho e teimoso, isso sim — reclamou Ikki. — Fique, e contarei o final da minha história com A estrela.
O beduíno mirou-o de soslaio, impressionado.
— Aprendeste rápido a arte mercenária. Estás me seduzindo para conseguir o que desejas.
O mais jovem riu.
— A arte mercenária não é feita através de sedução e sim de barganha. Mas então, tu ficas?
— Sim, sim, vamos lá! Conte-me tua história apaixonante, rapaz. Eu adorarei escutá-la mais um pouco.
— Então eu contarei sobre um episódio bastante interessante que vivemos...
Alguns meses se passaram e então Jamila deu a Omã à notícia que alegraria o clã das Serpentes negras: a mulher estava grávida de uma prole do líder, então, logo passava à posição de esposa.
Omã possuía oito filhos, mas apenas Ikki era filho de uma mulher que foi a grande esposa, os demais eram bastados, filho de rameiras e concubinas públicas e não possuíam muita importância, embora também carregassem a marca do clã, a cobra negra tatuada no braço direito. Agora, separado da grande esposa, O chacal poderia colocar Jamila em seu lugar, com a desculpa de que depois de quinze anos, finalmente ele possuía um filho de uma concubina exclusiva, o que tornava o menino um filho legítimo, mesmo não sendo filho de um casamento legítimo.
Quanto a Shaka e Ikki, eles haviam sido instruídos pela mulher fenícia a representarem fielmente seus papéis de senhor e escravo na presença de Omã e a sempre observar quando a vela estivesse apagada e ficassem atentos.
Longe das vistas d’O chacal, eles tornavam-se cada vez mais amigos, experimentando de uma intimidade tão profunda que um sabia reconhecer cada expressão do outro. Mas, até então, eram crianças inocentes que, embora sentissem um genuíno carinho um pelo outro, não reconheciam nenhuma malícia em quaisquer que fossem suas atitudes.
Isso mudaria, em parte, a partir de certa manhã em que os dois saíram para treinar nas montanhas além da fortaleza. O príncipe de Najah tanto aborreceu o árabe com a idéia de ensinar-lhe a manusear a saif, que Ikki se viu obrigado a fazê-lo. Contudo, tal aula precisava ser ministrada muito além das fronteiras que as vistas de Omã alcançavam.
— Eu estou cansado! — reclamou Shaka enquanto eles subiam o morro íngreme.
— Quer desistir? — provocou o moreno.
— Não! Eu suporto — murmurou o loirinho, enxugando o suor da testa.
Ikki deu-lhe a mão, ajudando-o a subir a última pedra e a alcançar o topo do morro. Eles descansaram por um tempo, ofegantes, e então caminharam de mãos dadas até próximo a uma gruta onde havia um córrego. Era um local que Ikki conhecia bem e gostava porque, ao contrário de toda Karna, ali soprava um vento fresco e a água era limpa e boa, não com aquele gosto salobro dos poços da cidade.
Eles caminharam em direção à gruta e foi nesse momento que começaram a ouvir alguns sons estranhos, ao que parecia, vindos de dentro da caverna. O moreno logo puxou a espada e, mandando Shaka ficar atrás de si, foi se aproximando lentamente. Mas quem disse que Shaka aceitaria ficar para trás? Quando Ikki deu o primeiro passo, o persa já estava colado ao seu corpo, no mesmo ritmo. O moreno resmungou um palavrão que o loiro ignorou. Eles chegaram à entrada da gruta e se protegeram atrás de uma pedra. Ficaram observando. Havia dois guerreiros tamudaeis ali, reconhecidos por causa da marca da serpente nos braços. Inicialmente, os dois pensaram que eles estivessem treinando, era natural que alguns guerreiros se isolassem para treinar novas técnicas. Todavia, logo os dois perceberam que aquilo não era um treinamento de luta corpo a corpo.
Os garotos ficaram por um tempo mirando o ato, estáticos e com olhos arregalados. Os homens gemiam forte e diziam palavras licenciosas um para o outro. O som do baque dos corpos, os múrmuros ofegantes e os gemidos contavam a Ikki o que eles estavam fazendo: fodendo. Mas como? Dois homens? Não era possível!
Já Shaka, que nem sabia o que era sexo direito, ficou apenas tentando entender o que acontecia. Por um momento, ele se recordou das coisas que viu quando os tamudaeis saquearam sua cidade e estremeceu, apertando mais forte o braço definido do moreno.
— Ikki, o que eles estão fazendo? — o loiro sussurrou, e o moreno pediu silêncio, continuando a observar, muito interessado, o que acontecia dentro da gruta.
Shaka odiava se sentir ignorado e então cravou as unhas no braço do amigo em um beliscão que o obrigou a olhá-lo.
— O que eles estão fazendo? — repetiu baixo, mas exasperado.
Mas o tamudaei estava envergonhado demais para falar qualquer coisa. Seu rosto estava enrubescido, o que não ocorria com o de Shaka por pura ignorância.
— E-Eles estão... E-Eles... — Ikki mexeu os ombros, sem saber como dizer aquilo.
— Eles estão o quê?! — irritou-se Shaka e acabou falando mais alto do que deveria.
— Q-Quem está aí?! — indagou um dos homens dentro da caverna com a voz visivelmente amedrontada e ofegante.
Os amantes se vestiram rapidamente, pegando suas armas e saindo à procura dos invasores, encontrando os meninos do lado de fora.
— Merda, é o príncipe, Ágora... — resmungou um dos jovens soldados do clã. Ikki o conhecia, seu nome era Shiva,e ele não possuía mais que 16 anos.
O príncipe tamudaei deu um passo à frente, puxando sua espada e protegendo Shaka atrás de si.
— O que faremos agora? — Shiva passava as mãos nervosamente pelos cabelos. — Se... se o clã souber, eles... Estamos mortos!
— Eu não contarei nada — falou Ikki. — Vão embora.
— Alteza, o que viu... — Ágora, que era mais velho que Shiva, tentou explicar, mas Ikki o interrompeu com um olhar sério e incisivo.
— Eu sei o que vi e estou dando minha palavra de que não contarei nada a ninguém — volveu o príncipe árabe com uma firmeza que não deixava dúvida. — Agora sumam daqui! Este é o meu local de treinamento e não quero vê-los aqui nunca mais.
Os dois homens pareceram acreditar no garoto e, recolhendo suas coisas, saíram dali, envergonhados, mas um tanto aliviados.Shaka se sentou no chão com as pernas cruzadas, havia desistido das aulas de espada, agora estava pensativo e curioso.
Ikki se estendeu na grama seca da montanha ao seu lado, com um olhar distante. Na verdade, ele estava tentando se livrar da perturbação que a cena entre os dois homens lhe causara. Durante longos minutos, os dois não falaram nada, até que Shaka mirou o moreno e depois apoiou o queixo com as mãos.
— Não vai me dizer o que eles faziam? — indagou.
— Não — rebateu Ikki. — Esquece isso!
— Tudo bem, eu já sei — o loirinho moveu os ombros com desdém.
— O que sabe? — riu o moreno, descrente.
— Foder. Aquilo é foder, não é? Por isso, você não queria me dizer, porque é errado e por isso eles faziam escondidos aqui em cima.
Ikki riu de leve.
— Shaka, não diga o que viu aqui a ninguém, nem mesmo a Jamila, ou aqueles dois serão mortos.
— Por quê?
— Porque o que eles faziam é errado.
— Por que errado? Não era o que... — Shaka se calou e baixou o olhar abraçando os próprios joelhos. — Eles pareciam gostar do que faziam.
— Ah é? E como você sabe? — riu Ikki provocador.
— Não sou um asno igual a você e por isso percebo as coisas! — falou o loirinho, jogando um punhado de areia no moreno e saindo correndo em seguida.
— Ah, quando eu te pegar...! — riu Ikki, largando as espadas e correndo atrás do amigo.
Shaka entrou na gruta e se jogou dentro do lago de águas transparentes, mergulhando. Ikki foi atrás dele e o segurou pelo pé, travando uma luta para segurá-lo. Os dois emergiram, rindo muito, e tanto, que as maçãs dos rostos de ambos ficaram ruborizadas. Seus olhos se encontraram, mas logo Shaka protegeu os diamantes com a mão, pois um raio buliçoso de sol insistia em incomodá-los por uma fresta na parede negra.
— Acho melhor irmos embora — disse o moreno, mirando ao redor. — Não quero mais ficar aqui depois... depois do que aqueles dois fizeram aqui dentro! — falou com uma expressão de asco.
— É tão errado assim? — Shaka interrogou, cravando os grandes olhos no moreno — Eles pareciam gostar e... se eles gostavam, por que é errado?
— Eles são homens! — Ikki exclamou como se dissesse algo muito óbvio.
— Nós também somos — Shaka moveu os ombros como se falasse algo sem importância. — Eles devem se amar, como eu te amo também!
— Shaka, isso não pode ser, entendeu?— o árabe explicou, ainda que gostasse de ouvir o loirinho dizer que o amava.
— Por quê? — o ariano não se deu por vencido.
— Porque... Ora, cale essa boca e vamos embora! — grunhiu o garoto moreno, coçando os cabelos. Aquilo o havia perturbado e o levava a pensar sobre coisas que não entendia e não queria. Ainda havia Shaka para questionar tudo que ele dizia e isso o deixava irritado.
— Não posso voltar assim, estou molhado! — reclamou o loiro, tratando de sair do lago, retirar a túnica e a torcer. — Colocarei lá fora, sobre as pedras para secar. — Disse, encerrando a conversa. Não queria deixar Ikki nervoso, e ele parecia nervoso.
— Espere! — Ikki interrompeu o percurso do amigo — Não pode sair assim?
— Assim como? — Shaka não entendeu.
— Sem roupa! Se alguém o vir, descobrirá que tu és um menino, parvo!
— Ninguém vem aqui, Ikki! — Shaka revirou os olhos. — Aqueles dois estavam escondidos para foder e foram embora! — explicou como se falasse com uma criança.
— Fique aqui, deixe-me fazer isso! — o moreno tirou a peça de roupas da mão do loiro e a levou para fora da gruta. Shaka aproveitou para se livrar da calça que vestia, ficando somente com a peça de baixo que era uma calça mais curta e mais fina. Torceu a peça e saiu da caverna para entregá-la , mas foi surpreendido por alguém que o puxou pelo braço e encostou uma saif em seu pescoço.
— Shaka!
Ikki, que lutava com Ágora, viu Shiva prender o loiro.
— Sinto muito, menina, mas não podemos deixá-los vivos para revelar nosso segredo! — falou o rapaz mais novo, trêmulo.
Ágora mirou de Ikki para Shiva e depois para Shaka. Arregalou os olhos nesse momento e ficou encarando o loiro de forma curiosa e pasmada. Então baixou a espada e fez sinal para que Shiva fizesse o mesmo.
— Vamos embora, Shiva. O príncipe não contará nosso segredo, ou contaremos o dele — declarou o homem mais velho, ainda olhando para Shaka com extrema curiosidade. Por ele, teriam ido embora e confiado na palavra do príncipe, mas Shiva estava apavorado e falava em fugir, então Ágora, como tamudaei, pensou que a solução mais fácil seria matar Ikki e a “menina”. Assim tranquilizaria o jovem amante.
Shiva ficou um tempo parado sem entender a decisão do homem de cabelos avermelhados, então olhou Shaka com atenção, tal qual fazia o amante, e arregalou os olhos, soltando-o de imediato.
— Você é um menino! — Exclamou surpreso.
— Sim, ele é. — Declarou Ikki, empurrando o jovem militar e puxando Shaka para si — Agora desapareçam daqui, seus covardes inúteis! — encarou Shiva com um olhar demoníaco — Se você encostar nele novamente, eu mesmo arrancarei seus olhos e darei aos abutres de Medina!
Shiva ainda estava um pouco atordoado com a descoberta. Ágora logo chamou o amante e começou a se afastar com ele; antes, lançando um último olhar aos dois meninos.
— Lembre-se, alteza: não conte o meu segredo e eu não contarei o seu.
— Vai se ferrar, filho de uma charmuta! — grunhiu Ikki entre dentes.
Os dois guerreiros mais velhos deixam o local, e Shaka mordeu o lábio inferior com uma careta engraçada de quem percebe estar em grandes apuros.
— Eu estou sempre nos metendo em encrenca, não é? — reconheceu, e recebeu o olhar enfezado do árabe.
— Vamos voltar para a caverna e deixar que nossas roupas sequem — disse o moreno, puxando-o pelo braço. Shaka se deixou levar. Eles se deitara sobre uma pedra e logo adormeceram, sem mais tocar naquele assunto.
Quando voltaram a Karna, já estava escuro, e Jamila muito preocupada.
— Onde se meteram? — ralhou a fenícia.
— Estávamos nas montanhas — explicou Shaka. — Ikki me ensinaria a manusear a saif, mas...
— Resolvemos nadar e não tivemos tempo! — O árabe o interrompeu, mentindo. O loiro olhou para ele com uma expressão confusa. Não podiam mentir para Jamila! Por que Ikki fazia aquilo? — Shaka fica comigo essa noite, Jamila. Assim tu podes descansar melhor.
O príncipe moreno mirou o ventre da mulher com carinho. Em breve, ele teria mais um irmão.
— Eu estou bem — sorriu Jamila, enrubescida, tocando o ainda pouco volumoso ventre. — Mas agora é hora de dormir. Vão os dois, tomem um banho e descansem.
Os dois garotos a obedeceram e saíram andando pelo corredor escuro. A fenícia ainda os ouviu comentar:
“A Jamila parece uma mãe, não é?”
“Sim. Ela tem cara de mãe. Deve ser por causa do bebê...”
“Ikki, como o bebê foi parar dentro da barriga dela?”
“Você é mesmo um asno, Shaka!”
“Não me chama de asno!”
“Ai, não me belisca, seu parvo!”
A cortesã riu e balançou a cabeça, mas um suspiro triste acabou escapando dos seus lábios. Seus olhos acastanhados miraram o horizonte escuro.
“Onde você estará, meu filho?”, indagou num murmúrio, sentindo as lágrimas inundarem seus olhos. “Como uma mulher pode tirar o filho dos braços de outra? Como pode deixar um seio cheio sem uma cria para se alimentar? Maldita seja, Surya, em todas as suas vidas!”.
— Praguejando contra quem, concubina?
A voz da grande esposa se fez ouvir e, imediatamente, Jamila fez uma reverência a ela.
— Minha senhora... — murmurou com respeito.
— Erga-se. Tu não estás em condições de fazer flexões. — a mulher falou, e Jamila encarou seus olhos escuros como a noite e buliçosos de maldade. A mão suave, mas exageradamente grande para uma mulher, tocou a barriga nua da fenícia e a fez estremecer — Está cedo. Serão cinco luas novas até que a criança nasça. Lembre-te que é um filho de tamudaei e deve nascer no altar da pedra negra. Eu mesma conduzirei o parto.
Jamila tremeu. Não gostava daquela mulher, ela cheirava a maldade e inveja. Zahira sabia que era uma mulher estigmatizada eternamente por seu “útero seco”. Contudo, ela sabia também o quanto Omã estava enfeitiçado pela beleza da jovem concubina e não ousaria tocá-la. Qualquer falha e acabaria morta, afinal, era uma rainha marcada pela vergonha de não conceber e para que aquele povo de cultura primitiva considerasse isso mau agouro, e exigisse seu sacrifício, não precisaria muito. Então, o melhor agora, era conquistar Omã, enchendo de cuidados sua cortesã favorita, e armar o bote da serpente às escondidas.
Jamila deu um passo para trás e pôs instintivamente a mão no ventre, como se precisasse protegê-lo. Nunca deixaria aquela mulher tocar em seu filho. Nunca mais permitiria que uma rainha ciumenta usasse sua cria para feri-la, nem que para isso, precisasse matar Zahira.
— Eu preciso dormir agora, minha senhora — disse, mirando os olhos negros da mulher.
— Sim, descanse. Amanhã, mandarei que minha melhor serva, curandeira e parteira venha a esse lado do castelo para acompanhá-la no tempo que falta até que conceba. Deves saber que os ritos de Nakgrott são daqui a dois dias e que nessas celebrações, grávidas e mulheres com fluxo devem ficar confinadas. Não deves saber, mas Nakgrott é um espírito que adora sangue e devora fetos e crianças.
— E por que há ritos para uma criatura tão cruel? — indagou Jamila, estarrecida.
— Quando lhe damos uma oferenda, ele se acalma e fica no deserto sem nos incomodar. Essa é a tradição. Alguns dos nossos sacerdotes acabam sendo possuídos por um Ghoul. Nessas horas, não é bom para uma mulher que espera estar por perto.
— Obrigada por me avisar — Jamila estreitou os olhos. — Omã já retornou?
— Amanhã, ele estará aqui — a mulher disse e se afastou pelo corredor escuro.
Jamila sentia o peito bater forte. As palavras de Zahira soaram como perigoso agouro, e a fenícia sabia que precisava se proteger e ao bebê. Ainda havia Shaka, mas esse estava protegido por enquanto, pelo príncipe Tamudaei.
No quarto de Ikki, após tomarem banhos e vestirem roupas limpas, os dois garotos conversavam abraçados na cama.
“Sempre ficávamos hora abraçados, falando bobagens. Shaka gostava de falar sobre as estrelas, sobre os livros que lia e a vida em Najah. Eu não gostava de falar muito, mas sabia escutar como ninguém, e sempre soltava comentários que eram rebatidos por meu amigo... Muitas vezes, discutíamos seriamente e dormíamos brigados, mas isso nunca ficava assim por muito tempo. Confesso que mais por ele que por mim. Sempre fui irascível e orgulhoso demais. Ele, apesar de petulante, era mais doce...”
— Você deveria acreditar no que eu digo. Um dia o senhor das estrelas virá buscar a todos nós — dizia o ariano. — E nesse dia, os incrédulos só herdarão a aridez do deserto. O senhor Brahmán não se apiedará dos descrentes.
— Hum... Então tu irias e me deixarias aqui? Sob o sol escaldante, morrendo de sede e fome? — perguntou com um leve sorriso provocador.
Shaka se inclinou, seus braços estavam um ao redor do pescoço de Ikki e o outro pousado em seu ombro, e deu um beijo no rosto do moreno.
— Não. Eu não o deixaria. — falou mirando os olhos do moreno.
— E o que farias? Convencerias o senhor do universo a me levar? Eu sou incrédulo, lembre-se — provocou, e sentiu o hálito morno do loiro tocar seu ouvido. Shaka tinha adquirido aquela mania de soprar ar quente em seu ouvido, o que fazia a pele de Ikki arrepiar-se em resposta — Pare, loiro, responda! — riu o garoto moreno, fugindo da sensação que era ao mesmo tempo gostosa e incômoda.
— Eu tentaria... — respondeu Shaka, continuando a provocação.
— E se ele dissesse não? — ponderou o tamudaei.
O loiro puxou-lhe o rosto para mirar mais profundamente dentro dos olhos do moreno.
— Aí eu preferiria ficar no deserto contigo.
Os olhos deles não se deixaram e um sorriso bobo caiu sobre os lábios de Ikki.
— Tem certeza?
O ariano assentiu com a cabeça.
— Um céu sem amor é estéril, Ikki. Mas um sentimento verdadeiro é capaz de tornar o pior dos desertos, fecundo. E eu te amo, meu amigo.
O moreno sentiu o coração bater forte, então puxou o amigo mais para perto do seu corpo e deslizou o nariz pelo rosto macio dele, sentindo-lhe o cheiro.
— Eu também te amo, meu amigo. Muito.
...
Zahid soltou a fumaça do seu cachimbo e a observou dançar no ar e subir em direção ao céu estrelado como uma entidade, ao mesmo tempo que observava uma lágrima, coisa mais rara de se ver, descer pelo rosto do jovem mercenário.
Ikki afastou rapidamente a lágrima do rosto e virou a caneca de chá fumegante nos lábios. Era sua última noite em Al-Hasa. No dia seguinte, sua busca reiniciaria.
Mirou uma estrela que brilhava mais intensa que as outras no céu e reafirmou sua promessa.
Do jardim iluminado e luxuoso do castelo do faraó, Shaka repetia o mesmo gesto e levava a mão ao bracelete em formato de serpente que tinha no braço.
“Eu irei reencontrá-lo, meu amor...” O vento ouviu ambos murmurar na noite do mundo antigo como uma promessa às estrelas.
A força desse amor nos invadiu...
Então veio a certeza de amar você...
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
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