A serpente e a estrela

6 O labirinto das emoções


Notas iniciais
Gente, eu peço desculpas. Mais cedo tentei postar, mas houve um problema com a configuração e eu tive que excluir. Desculpem-me por isso. Obrigada a todos que continuam por aqui acompanhando e torcendo. Beijos a todos, muito obrigada pelo carinho. Imagens editadas pelo doce da Álefe, aliás, eu preciso agradecer a ela e a Mililika pelas imagens bonitas que constam na fic. Mais uma vez, informo que as imagens não me pertencem e sim a talentosos fanartistas e as espalham pela internet. Boa leitura a todos e obrigada pelo carinho.

Eu não acreditava porque não podia ver

Embora tu viesses a mim pela noite

Quando o amanhecer pareceu perdido para sempre

Mostraste-me o teu amor na luz das estrelas

Dante's Prayer – Loreena McKennitt

O Labirinto das emoções

Capítulo 6

A noite caiu na Arábia. Ikki atravessou o deserto até o litoral. Esperava que seu amigo não se atrasasse. O jovem tamudaei chegou ao primeiro porto antes do estreito, a cidade de Jedda. Ali os bandidos, mercenários e mercadores, faziam morada, e ele não era mais do que um deles naquele momento.

— Estás atrasado, Horuk — a voz jovial e despachada do saubeu o espantou e antes que Ikki percebesse sua aproximação já havia uma espada curta e afiada pressionada em suas costas.

Aquele era Aldebaran, o saubeu, o homem que andava descalço nas dunas do Saara, ou simplesmente O Touro, por seu tamanho e força descomunais.

— Andas por demais distraído. — O gigante sussurrou-lhe. — Por onde passeiam teus pensamentos, tamudaei?

O mais jovem sorriu.

— É o máximo que posso esperar de ti: ser apunhalado pelas costas – revidou divertido.

— O que esperava de um saubeu? — o outro perguntou, afastando-se e guardando a espada. — Consigo farejar este teu cheiro de mirra há duas milhas de distância, Tamudaei. Vieste de Al-Hasa, não é verdade?

— Sim, lá estive — falou Ikki sem se incomodar, começando a andar ao lado do homem mais alto.

Aldebaran trajava-se como um típico soldado mercenário. Usava roupas justas: uma calça negra de couro curtido, ornada por um cinto e várias bolsas de couro amarradas nas pernas e que guardavam facas letais. Ao cinto que rodeava seu quadril estreito estavam presas duas espadas, uma longa e uma curta. O peito era parcamente coberto por um peitoral de couro, duas tiras negras que formavam um X e se amarravam às costas, evidenciando a curva marcante dos músculos peitorais e que pouco protegia. Contudo, poucos homens se arriscariam a tentar feri-lo.

—Hum... Eu andei em uma nova batalha, mas não esqueci dia e hora que marquei contigo, não esqueceria também, caso estivesse gozando dos prazeres de um Oásis.

— Não estava gozando dos prazeres de Al-Hasa e sim descansando de mais alguns meses de busca, deverias saber.

— Claro que sei, onde está teu senso de humor? — reclamou O touro. — O exército está reunido do outro lado do estreito. Eles levantarão acampamento em direção a Arábia. Quando estarás com ele?

— Espero chegar à Babilônia o mais rápido possível — volveu o tamudaei com frieza. — E aquele não é meu exército, eles são mercenários, só isso. Deixe se espalhem.

— Podemos voltar a precisar deles — falou O touro, movendo os ombros.

— Então pagaremos novamente. Meus homens estão em Najah. Em segurança.

— Ah, Najah, tua segura cidade. Venha, o balseiro nos espera — Aldebaran o guiou por um beco estreito que possuía um cheiro acre que era uma mistura do odor de várias secreções humanas e inumanas. Uma fumaça se erguia no ambiente, tornando-o turvo e abafado, enquanto os dois guerreiros seguiam silenciosos como os gatos.

Aquela era a cidade portuária mais violenta da Arábia. Era preciso cuidado e atenção a qualquer movimento.

— Estou com fome, preciso comer alguma coisa — falou o saubeu, vendo uma porta de onde saía uma densa luz – Vamos entrar. — Ainda falta uma hora.

— Não temos tempo — resmungou Ikki, mas ponderou que deveria buscar provisões imediatas e acabou seguindo O Touro.

O lugar era uma taberna apinhada de marujos bêbados e prostitutas. O saubeu escolheu uma mesa afastada do aglomerado vil e pediu cerveja e carne assada. Ikki se sentou ao seu lado e mexeu displicentemente no lenço que cobria seus cabelos.

— Precisamos de um guia. — O homem de cabelos claros falou.

— Pensei que fosses um — o tamudaei franziu a testa.

— Nunca experimentei as delícias da Babilônia, mas dizem que é um lugar maravilhoso e que lá tu podes escolher qualquer mulher na rua e possuí-la, mas se, para azar teu, ela for casada, tu serás morto. Dizem também que lá tem os mais belos eunucos que o mundo já viu, e todos ávidos de desejo.

— Que disparate — murmurou o árabe enquanto era servido por uma mulher gorda que colocou sobre a mesa duas canecas de madeira cheias de cerveja e uma bandeja com carne assada e especiarias.

— Eu não bebo — O moreno falou e fez um gesto para que ela levasse a cerveja de volta. O saubeu franziu as sobrancelhas espessas e bem feitas.

— O que vais beber? leite? — debochou.

— É uma boa ideia, mas só desejo água por enquanto — Ikki mirou a mulher: — Necessito de água e provisões para uma longa viagem e também um guia.

Ela coçou os cabelos avermelhados e curtos por um tempo.

— Há um armazém que estará aberto quando nascer o sol. Quanto a um guia, aquele homem parece ser a melhor pessoa para guiá-lo por mar ou deserto. Dizem que seus olhos são espirituais e que ele vê além da escuridão, mas dizem também que ele é um amaldiçoado.

Ikki deixou escapar um sorriso desdenhoso e inclinou quase imperceptivelmente a cabeça para mirar na direção que a mulher apontava. Havia um homem nos fundos da taverna, coberto da cabeça aos pés por uma túnica longa com capuz, semelhante as personificações da morte. Não era possível ver-lhe o rosto, mas o olhar astuto do tamudaei percebeu que ele tinha mãos delicadas e brancas que seguravam uma caneca e que bebia algo quente.

— Qual o nome dele? — indagou à mulher, retirando do alforje uma moeda de prata e pondo em sua mão.

— Ele não tem nome. Vaga como uma sombra no deserto. Dizem que ele já enfrentou as fúrias de um Ghoul e sobreviveu.

— Ah, então é de um homem desses que precisamos para chegar à Babilônia — envolveu-se na conversa Aldebaran, terminando a primeira caneca de cerveja e já pegando a dispensada por Ikki.

— Não sei, meu senhor. Dizem que ele é um amaldiçoado. Dizem que seu dom é também sua maldição.

— Conheci muitos homens amaldiçoados. Eu mesmo sou um deles, minha bela — murmurou o tamudaei e se ergueu, indo em direção ao dito guia.

Algumas cabeças se viraram para olhar o homem que andava em direção à última mesa, até porque, por superstição, nenhum deles possuía coragem de abordar o homem do capuz. Assim, toda atenção da taverna se voltou para Ikki.

Quando estava bastante perto da última mesa, sem esperar que o homem o olhasse, declarou:

— Preciso de um guia que me leve pelas colinas de Mustaf até o estreito de Persépolis e de lá à Babilônia.

Persépolis é deveras perigosa para estrangeiros. Por que desejas ir àquelas terras?

Ikki sentiu algo vibrar dentro de si ao escutar a voz do estranho. Era um timbre familiar, embora nunca a tenha ouvido.

— Eu preciso ir. Procuro por alguém.

— Há alguns dias, houve uma tentativa de golpe de Estado na Babilônia. O reino está em guerra. Hamurabi caça os rebeldes como se caçasse ratos. Desejas mesmo ir ao Grande reino agora?

— Eu apenas preciso. — Ikki foi veemente.

— Cinquenta moedas de prata. — Falou o estranho. — Por esse preço, eu o deixarei em Persépolis, o restante é por tua conta.

— É um preço por demais elevado. — O árabe franziu as sobrancelhas.

— É um preço justo pelo perigo que espreita viajantes naquelas terras. — Respondeu o homem encapuzado.

— Trinta moedas — volveu o árabe.

— Cinquenta.

— Quarenta e mais nada.

— Procure outro guia — o homem disse tranquilamente voltando a beber sua bebida esfumaçada.

O príncipe bufou. Odiava perder uma discussão ou uma negociação, mas percebeu que não conseguiria dobrar a determinação daquele homem.

— Feito. Espero que valha muito a pena.

— Valerá. Ninguém conhece a Mesopotâmia como eu. Sou a única forma de tu chegares seguros à Babilônia.

— Espero que sim, ou terei de matá-lo — advertiu Ikki e tentou ver o rosto do homem, mas não conseguia, a sombra do capuz o envolvia inteiro. — Qual o teu nome?

— Chamam-me de Senhor do deserto. Apenas esse nome basta. Partimos antes do amanhecer, é o melhor horário para se caminhar nas areias.

— Iremos a cavalos. — Ikki jogou uma bolsa de moedas ao homem. — Contém parte do teu pagamento. Compre um cavalo, terás o restante quando chegarmos a Persépolis.

O tamudaei se ergueu e voltou para a mesa em que estava o amigo.

— E então?

— Temos um guia.

— Ótimo, e por que ele não está aqui conosco?

— Porque é um homem estranho, mas estou atento, fique também.

— Eu estou sempre atento – o mais velho sorriu para uma bela mulher que num vestido vermelho dançava e se insinuava para os clientes da casa.

— Não é hora para isso – reclamou o tamudaei.

— Ah, garoto, sempre é hora para isso – disse o outro e foi em direção à mulher, começando a dançar com ela. Mais mulheres cercaram o saubeu. Aldebaran devia ter em torno de 26 anos. Era um homem que sempre fazia muito sucesso com as mulheres por seu porte físico invejável e sua estatura, mas também pelos traços másculos de ângulos harmoniosos e os cabelos loiros, sempre presos por uma trança longa emaranhada em fita vermelha, os olhos eram de um castanho tão claros quanto seus cabelos.

Ikki permaneceu sentado, os pensamentos distantes do ambiente daquela taverna. A mulher que servia as mesas voltou com uma caneca de chá e lhe entregou, lançando a ele um olhar lânguido. O moreno apenas assentiu com a cabeça, agradecendo. Ela sorriu e se inclinou sobre a mesa, deixando seus seios generosos quase que totalmente à mostra.

— Eu estarei livre à meia-noite.

— Não adianta, Rebecca — falou Aldebaran ao se aproximar e dar uma generosa palmada nas nádegas fartas da ruiva. — Estás falando com um celibatário. O homem que busca uma estrela!

— Como assim? — As palavras românticas pareceram despertar a curiosidade da moça.

— Isso significa que tu não vais conseguir foder com ele. — Riu o gigante. — Mas pode visitar meu quarto mais tarde, se eu estiver sozinho, o que duvido muito, podemos nos divertir por algumas horas.

A mulher sorriu insinuante, não achando nada ruim trocar o moreno imberbe por um loiro visivelmente mais experiente. Ela serviu Aldebaran novamente e se afastou. O gigante deixou-se cair na cadeira pesadamente.

— Já pedi dois quartos, se tu quiseres te recolher. — Informou solícito.

— Eu agradeço. Precisamos seguir viagem com os primeiros raios de sol, meu amigo.

— Sim, eu sei. Enfrentaremos mares e terras hostis, e tudo pela esperança de encontrar uma estrela — o mais velho sorriu com seu jeito carinhoso. — Mas o que seria da vida sem o amor, não é, meu jovem amigo?

Ikki não respondeu, levou a caneca com chá aos lábios somente.

O que seria da vida sem amor? Alguém já lhe fizera tal pergunta. Há muito tempo. Muito tempo mesmo. Zahid; quando o salvara de ser morto, tragado pelas areias do deserto. Foi o que ouviu quando explicara que fora banido e praticamente condenado à morte por amor.

O que seria da vida sem amor?

Shaka estava no jardim do seu quarto e mirava os preparativos do grande banquete. Havia dois dias que não encontrava o faraó e agradecia por isso. Recolhido em sua solidão, ele traçava planos e imaginava ações futuras. Sabia que algo importante estava tramado para aquela noite e engendrava seu plano de ação.

Ele não dançaria no banquete. Saga reservava essa honra apenas a grandes reis aliados. Aquele seria um jantar doméstico: para o faraó e sua família, vizires e nomarcas. Não era uma ocasião digna da dança do sacerdote de Háthor. Pensar-se como um sacerdote, o lembrou que há muito não visitava o templo de Dendera. Sorriu consigo mesmo. Um título para justificar suas regalias, mas na verdade não passada de um escravo, ‘um eunuco bonitinho’ como a rainha o chamou com desdém certa vez, embora ele não fosse eunuco. Ele era Homem, na inteireza da palavra Homem, mesmo que a designação eunuco fosse dada a qualquer um da sua estirpe.

“Minha estirpe! Eu sou um príncipe!” Renegou os próprios pensamentos depreciativos.

Não que ser eunuco constituísse para ele uma forma de vida inferior. Muitos homens acabavam naquela condição contra a vontade; outros por opção de vida. Ele fora poupado, sim, poupado, mas isso não o impediu de ser tratado da mesma forma que os eunucos: cobiçado por sua beleza, maltratado por homens mais fortes, usado por poderosos.

Shaka afastou-se do alpendre do seu recanto e mirou-se na grande e lisa pedra que lhe refletia as feições. O que viu foi a imagem do passado, a mão que segurou seu punho quando ele, armado de um punhal, tentou desfigurar o próprio rosto.

— O que estás fazendo, menino? — O grande mouro gritou enquanto o adolescente forçava a mão para se libertar. — Não podes macular algo que pertence ao Grande rei!

— Solte-me, senhor, solte-me! Por favor, deixe-me! Se eu não for bonito, o faraó não me quererá, ele não!

Afastou-se do espelho como se assim pudesse livrar-se das sombras do passado. Precisava se cuidar. Precisava estar lindo naquela noite. Noite que exigiria grandes e importantes ações.

“Eunuco, eu?” Riu com o canto dos lábios, indo até o seu “recanto secreto”, uma área do grande quarto, em que ele usava os símbolos egípcios para escrever sobre sua vida. Ninguém conhecia aquele pequeno recanto, escondido atrás de cortinas e móveis, mas era ali que ele se recordava do passado, ironizava o presente, e esperava um futuro melhor. Era ali também que as lembranças o tolhiam e esperançavam seu coração.

Havia-se passado alguns dias após o ocorrido na caverna. Foi logo após a volta de Ikki da última viagem. A gravidez de Jamila era comentada e Omã parecia muito satisfeito. Nova leva de escravos foi apresentada à grande cidade cinza e o comércio estava próspero, os celeiros cheios. Logo chegaria o inverno, e o inverno era frio; com temperaturas que poderiam chegar a zero grau.

Faltavam alguns dias para a festa de Okru. Sacrifícios humanos seriam oferecidos à besta, no deserto de Karna, lugar rochoso e habitado por Ifrits, segundo diziam os ‘sábios’.

O clã da serpente negra saía para novas pilhagens, mas nunca demorava muito, e Shaka aproveitava seus dias lendo e escrevendo. Em Karna não havia tinta e nem pincel como na Mesopotâmia, ele precisava improvisar, e o carvão que sobrava dos fogões eram bons aliados. O ariano fazia um desenho, sentando no chão do pátio de uma das varandas do castelo, quando alguém se aproximou, olhando por cima do seu ombro.

— Está ficando bonito — disse a voz grave, mas suave e ainda adolescente.

Shaka não se voltou. O príncipe ariano possuía uma capacidade surpreendente de lembrar-se e distinguir vozes, mesmo no meio de uma multidão.

— Por que estás aqui? — indagou ao jovem soldado de forma tranquila.

— Eu preciso fazer-te algumas perguntas.

— Shiva é o teu nome, não é? — tornou Shaka calmamente ainda desenhando.

— Sim.

— E o que queres saber, Shiva?

— Poderias me olhar antes que eu pergunte? — indagou o jovem, irritado com a permanência de Shaka no chão, desenhando.

— Não. Melhor não. Ikki ficaria zangado. — Respondeu da mesma forma serena. — Ele sempre fica zangado quando algum soldado fala comigo. Ele não deseja que eu fale com outras pessoas, só com ele e Jamila. — Explicou com boa vontade infantil.

O soldado bufou e coçou os cabelos cacheados.

— Tu e o príncipe são amantes? — perguntou de uma vez.

— Sim. — Respondeu Shaka, pintando de negro parte do desenho que fazia. — Nós nos amamos.

Shiva arregalou um pouco os olhos castanhos confuso.

— E não têm medo de-... Fodem debaixo do nariz do Emir, isso é suicídio!

Shaka arregalou os olhos.

— C-Como assim? — o loiro voltou os olhos para ele. — Quer dizer fazer aquilo que tu e aquele homem faziam lá nas montanhas?

— Ora, não te faças de tolo! — Shiva coçou os cabelos nervosos. — Tu vieste de um harém, sabes muito bem do que estou falando.

— Eu não sei. Nunca fizemos. — Confessou Shaka. — Mas me digas, é bom? Pareciam gostar. — Sorriu com malícia.

Shiva empalideceu e avermelhou ao mesmo tempo. Encarou aqueles olhos incrivelmente claros e sinceros. Aquele garoto não estava mentindo.

— Tu és virgem? — Indagou um pouco chocado.

— Sou. Ikki também é. — Falou sem rodeios. — Não deveríamos. Quando tomaram minha cidade, disseram a ele que me deveria ‘possuir’, mas sou um menino, ele não pôde, então ele continua virgem e eu também. Isso não é ruim, é?

O jovem guerreiro estava confuso e com medo. Medo que a ingenuidade daquele garoto, que falava de tudo de modo tão natural e sem amarras, acabasse o condenado e a Ágora.

— E vós queres? — perguntou o guerreiro curioso.

Shaka moveu os ombros de forma pueril. — Podemos?

— Podem, é só querer e ter cuidado para ninguém descobrir que tu és um garoto. Por que não voltam àquela colina e tentam?

Shiva sabia que estava jogando. Nada melhor para manter algo escondido do que tornar cúmplices seus possíveis delatores.

— Não, nós na- — a frase de Shaka foi interrompida pela chegada de Ikki que com a saif em punho se precipitou contra Shiva, jogando o garoto mais velho violentamente contra uma parede.

— O que fazes aqui, desgraçado?! — bradou e o atirou longe sem dar chance ao rapaz de se defender. Shiva chocou-se contra uma parede e gemeu, sentindo o ombro, mas foi ágil o bastante para desviar da espada do príncipe, ou perderia o pescoço.

— Eu não fiz nada! — gritava o rapaz desesperado.

— Vais morrer!

Os dentes de Ikki rangiam e seus olhos brilhavam com uma fúria assassina. Ele golpeou Shiva no rosto e o soldado caiu, mas quando sua mão desceria a espada sobre o pescoço do adolescente mais velho, as mãos de Shaka seguraram seu braço, impedindo-o com todo o esforço do seu corpo magro.

O príncipe tamudaei mirou o príncipe de Najah com a mesma raiva com que mirava o soldado.

— Solte-me — ele grunhiu entre dentes.

Shaka fez que não com a cabeça. — Ikki, por favor, ele não fez nada, só estava curioso. Por favor, não o mates, não mates mais ninguém...

Lentamente, a fúria dentro do príncipe moreno foi arrefecendo até que ele baixou a espada e então, puxou Shiva pela túnica e o empurrou em direção à saída.

— Se eu o vir por aqui novamente, tu és um homem morto, desgraçado! — declarou, cheio de raiva.

O soldado tratou de sair correndo, prontamente, dali. O jovem moreno respirou fundo. A respiração ainda estava descompassada pela fúria. Shaka continuava agarrado ao seu braço.

— Não deverias tê-lo deixado entrar, Shaka... — a voz saiu baixa, mas não escondia a irritação.

— Como impediria? — indagou o loiro.

Ikki bufou irritado. — Vamos para meus aposentos, preciso de um banho! — Ordenou. Quando estava aborrecido, ele gostava de lembrar ao ariano quem mandava ali. — Prepares um banho para mim!

— Que prepares tu mesmo! — resmungou o loiro, empinando o nariz e passando por ele — Vou para o harém.

— Tu não vais a lugar algum! — irritou-se Ikki.

— Impeça-me se for...

Shaka não terminou a frase, porque o moreno o pegou pelo braço e o jogou no ombro, levando-o em direção ao quarto.

— Ikki, isso não tem graça! — reclamou.

— Obedeça-me, insolente.

— Coloque-me no chão e eu obedeço. Eu prometo — falou Shaka, rindo, a irritação indo completamente embora com aquilo.

Ikki o colocou no chão e, ruborizado pelo riso, o loiro seguiu na frente do príncipe moreno, de maneira comportada o que fez Ikki sorrir. O árabe ficou estudando detalhadamente os contornos esguios do corpo do amigo, a suave curva da coluna e das nádegas que se moviam sob a túnica longa. Não era um olhar de malícia e sim de admiração e ternura. Ele considerava Shaka tão perfeito, tão lindo e elegante, e tão puro, que era difícil parar de admirá-lo. Os sentimentos se misturavam sem que ele conseguisse entender todos eles.

— Pares de me olhar! — reclamou o persa sem, contudo, se voltar para o outro.

— Como sabes que estou te olhando?

— Eu sinto. E estás olhando para o meu traseiro! — respondeu, divertido.

— Não estou! — Negou Ikki, ruborizando.

— Estás sim, eu sinto teu olhar, já disse.

— Não sentiu quando estavas conversando com Shiva. — Resmungou, enciumado.

Shaka parou e se voltou para o moreno, mirando os olhos escuros dele.

— Ikki, o Shiva disse que nós dois éramos amantes e que fodiámos debaixo dos olhos de Omã.

O príncipe árabe teve vontade de ir imediatamente procurar o soldado e decapitá-lo pela insolência.

— Ele é um verme idiota que eu farei questão de arrancar a cabeça quando o encontrar novamente. Venhas, não dês ouvidos a ele.

Shaka deu de ombros e acompanhou o garoto árabe até a sala de banhos. Eles encheram uma grande banheira de pedra, usando a água de um tanque que havia no local. Apesar da ferocidade, os tamudaeis prezavam muito a boa higiene e tomavam ao menos dois banhos por dia: um antes da segunda refeição, depois dos treinamentos da manhã, e outro antes da terceira refeição, quando voltavam aos seus lares à noite.

O guerreiro despiu-se e mergulhou na água, soltando um suspiro queixoso ao sentir o líquido frio e revigorante sobre a pele suada. Shaka se sentou no beiral de pedra ao lado da tina e com uma cuia de barro ficou brincando de jogar água sobre os ombros tensos do amigo.

— Ikki... — começou, cuidadoso, mirando o dia que ia embora pela janela.

— O que foi?

— Shiva disse que somos amantes — insistiu.

— Esqueces o que ele disse — murmurou o moreno, sem jeito.

— Não quero esquecer, quero entender.

— Por quê?

— Porque estou curioso – confessou como se falasse de algo banal. – Eu também quero foder. Quero saber como é. Tu me ensinas?

O moreno se voltou para olhar nos olhos do loiro incrédulo e horrorizado.

— Shaka, cala essa boca, tu não sabes do que estás falando!

— Claro que sei. Sabes, eu já vi... Lá no harém... — Falou em tom de confissão.

— E daí? — Resmungou o moreno.

— É engraçado — riu o loiro, ruborizado. — Eles gemem como se doesse...

— E como sabes que não dói? — O moreno indagou. Agora estava interessado, porque sempre quis saber sobre aquelas coisas, mas nunca teve com quem conversar.

— Porque eles sorriem também e dizem coisas de amor. — Moveu os ombros. — Eu também quero experimentar.

— Como? — a voz de Ikki estava estridente e trêmula. — Se tu deixares qualquer um te tocares, Shaka, eu juro que... Juro que... Tu não serás mais meu amigo! — Regougou e cruzou os braços dentro da água, desviando o olhar. Sentiu-se terrivelmente irritado com aquela declaração do loiro. Aquilo significava que Shaka queria... Como ele era capaz?

— Bobo! Eu nunca deixaria qualquer um deles me tocar, muito menos seu pai! – respondeu enojado. – Eu quero a ti. Quero como o Shiva disse que podemos, como vimos que podemos. Quero que tu me ensines, se eu não gostar, não faço mais, simples!

— Ah, eu vou matar aquele Shiva! – grunhiu Ikki, voltando o olhar envergonhado para a água. Até porque, seu corpo já começava a reagir de forma ‘estranha’ àquela conversa tola, embora ele tenha respirado aliviado por saber que Shaka não pensava em “outros”.

O loiro mordeu o lábio inferior e franziu a testa. As mulheres no harém falavam muitas coisas e ele ouvia. Inclusive, havia algumas concubinas que se relacionavam entre si. Talvez aquilo não fosse errado como Ikki dizia e, se não era, por que o amigo mentia para ele?

— No que estás pensando? — o árabe estranhou o silêncio circunspecto do ariano.

— Nada. Vamos esquecer isso. Eu também quero me banhar — ele falou e retirou a longa túnica, livrando-se logo depois da roupa de baixo e entrando no grande tanque de pedra.

Tomaram banho em silêncio a partir dali. Shaka parecia profundamente mergulhado em seu mundo interior. Ikki sentia medo, mesmo que não admitisse, quando o amigo ficava daquele jeito. Parecia que sua alma cavalgava para lugares longínquos e de barreiras intransponíveis, deixando apenas o corpo inerte dentro do mundo dos homens. Shaka lhe dissera, tempos depois, que meditava nessas horas. Ele não sabia o que era meditar, então achava apenas que era mais um dos hábitos estranhos do povo da Ária.

Algum tempo depois, já limpos, eles deixaram o banho. Shaka secou-se e vestiu-se numa longa túnica azul e nas calças folgadas de sempre, roupas de criança, e por estranho que fosse, ele não quis ficar com o árabe daquela vez. Quis voltar ao harém, mesmo que isso magoasse Ikki.

O que o príncipe árabe não sabia era que as indagações do pequeno ariano eram o que o levavam de volta ao aconchego dos braços da mãe postiça. Ainda estava claro quando ele chegou ao reservado da bela mulher. Ela estava deitada, vestia uma saia da cor dos seus cabelos e tinha o busto coberto por um bustiê dourado, linda e perfumada como sempre.

— Posso ficar aqui contigo? — Shaka perguntou, e a fenícia sorriu ficando de lado para que ele se deitasse na enorme cama com dossel.

— O que houve? Não passarás a noite com o príncipe?

— Não.

— Não? Brigaram?

— Não, mas... Eu não quis ficar com ele.

— Por quê?

— Eu... — mordeu os lábios. — Eu me sinto estranho perto dele, às vezes.

— Estranho como? — Jamila começou a afagar os cabelos sedosos do menino.

— Não sei explicar. Meu coração bate muito forte e sinto meu rosto quente, me sinto febril e meu estômago dói. — Suspirou. — Eu acho que ele me deixa doente...

Jamila riu levemente com carinho.

— Isso acontece sempre que ele volta de viagem?

— Sim. Na maioria das vezes, mas..., às vezes, acontece quando ele me beija ou me abraça e... — Shaka calou-se. Havia algumas outras reações fisiológicas que ele não achou por bem comentar com a mulher.

— Isso não é doença, Shaka. É amor.

— Amor? — os grandes olhos do menino se voltaram para ela. — Mas eu sempre o amei, sempre. E não me sentia assim.

Jamila afagou o rosto macio do mancebo com carinho e pensou que, apesar de tudo, Shaka aliviava a dor que sentia por ter pedido seu filho. Mas ele estava crescendo, crescendo rápido e começando a vagar no labirinto das emoções. Era preciso cuidado agora.

— É que estás te tornando um homem. O amor muda nessa fase — suspirou. — Rogo aos deuses somente para que não te machuques. O mundo é tão cruel para os apaixonados.

— Jamila... — o loirinho chamou timidamente, mas ainda olhando os olhos da mulher. Desde criança, ele sempre teve uma capacidade incrível de prender as pessoas com apenas um olhar. — É por causa disso que eu penso tanto no Ikki, tanto? Eu penso nele o tempo todo...

— Ah, deuses! — a mulher sorriu, mas estava preocupada. Era hora de afastar aquela criança dali. Precisava salvá-lo e quem sabe também ao príncipe?— Decerto, meu querido. — Ela falou. — Agora voltes para perto dele. Ikki deve estar magoado com sua ausência. Vai, que eu preciso pensar.

— Mas...

— Shaka, o amor encontra um jeito. — Sorriu e beijou a testa do pequeno.

O príncipe de Najah foi até ali tentar entender seus sentimentos, contudo ficou ainda mais confuso com as respostas, ‘que não diziam nada’, de Jamila. Quando voltou ao quarto do árabe, este estava no alpendre, mirando o céu escuro salpicado de estrelas.

— Pensei que não fosses voltar... — A voz do outro foi baixa, um tanto estrangulada, mas Shaka percebia que, ao menos com ele, ela perdia aquela ferocidade tão conhecida por todos.

— Jamila me mandou de volta. Ela não sabe ou não quer me explicar o que sinto por ti. — Declarou, pueril, abraçando a cintura do moreno. — Disse que estás magoado comigo, é verdade?

— Não. Na verdade eu também precisava ficar sozinho.

— Estás zangado?

— Não.

— Queres que me vá?

— Não. — O árabe se virou para mirar os olhos dele. — Eu não quero que tu vás nunca! Eu nunca o deixarei longe de mim.

“Os lábios se encontraram. Um beijo que agora possuía um sabor diferente. Um sabor de outro sentimento. Outro sentimento tão intenso e vivo quanto a amizade que sentíamos. O que um grego certa feita disse-me chamar-se Philos, tornou-se Eros rapidamente, e após, Ágape. Mas todos esses sentimentos preencheram nossas almas ao mesmo tempo sem dar chance a nenhum de nós de saber quando um começava e quando o outro findava. Não era uma posição justaposta e sim uma profusão sem começo e nem fim. Um todo.”

Lábios, línguas, gosto, tudo era provado com a sofreguidão que curiosidade e desejo adolescentes proporcionavam. Quando sentiram os corpos quentes demais para serem contidos e ainda não sabendo muito bem o motivo e nem de qual forma toda aquela embolia sensorial se dava naquelas partes estranhas, desconhecidas, e meio que intocadas do corpo, eles se afastaram levemente.

— Por que é tão quente? — Shaka sussurrou um tanto ofegante.

Ikki lambeu os lábios, tentando se concentrar em algo que fizesse suas terminações nervosas pararem de tremer.

— Vamos dormir? — sugeriu perturbado. Shaka apenas assentiu com a cabeça e os dois foram para a cama e dormiram abraçados. Mas demorou muito até os corpos se acalmarem no abismo do sono.

A Serpente e a Estrela

الثعبانوالنجوم

Quando ele passava envolto no lenço da cor dos seus olhos provocava alvoroço no castelo e por mais que fosse conveniente manter o olhar para os chãos, ordens de Faraó, alguns servos se arriscavam a perder a vida para poder, por segundos, admirar aquilo que deveria ser visto unicamente pelo deus e que só poderia ser tocado por ele.

No Egito, diziam que seus olhos foram feitos de pedaços de céu por Hórus e que seus cabelos foram cingidos de ouro por Háthor, antes de enviá-lo, para que a fecundidade do trigo nunca deixasse Kemet. Shaka era um templo vivo, uma matriz sagrada que trazia luz e prosperidade, e muitas pessoas o veneravam.

O aldeão comum não sabia que além de ser um sacerdote, ele era um escravo, que além de escravo, ele era amante do faraó. Eles só enxergavam sua beleza e glória, beleza que para o persa era também sua maldição.

Naquela noite, ele sabia que precisava estar perfeito, pois foi solicitado pelo faraó. Já conhecia esse ritual, afinal, nas luas novas e crescentes havia certos ritos e banquetes que deveriam ser oferecidos aos deuses por seus representantes. Sendo assim, o castelo ficava repleto de ilustres convidados e fervilhava de prazeres.

O grande banquete seria no dia seguinte, no ponto alto do quarto crescente, e tudo precisava estar em ordem. O persa sentia o cheiro da conspiração e da pérfida se espalhar pelo Egito. Conhecia muito bem aquele cheiro podre que sempre levava ao sangue. Desde que ouvira naquela manhã a conversa entre Pandora e Defteros, pensava numa forma de conseguir algo com aquela informação. Evidente, não tencionava permitir que os planos da princesa que se julgava muito esperta se concretizassem, mas também não queria constitui-se inimigo imediato dela, não por algum receio à imbecil, mas sim, do seu esposo. Shaka sabia que Pandora era peça de Hades, e Hades era um inimigo respeitável. Não gostaria de tornar-se inimigo dele. Não ainda.

Ele abandonou o lenço quando entrou na sala de refúgio, local destinado ao deus e por isso pouco visitado. Era ali que o faraó se livrava das impurezas depois de percorrer o reino com sua comitiva.

O vento entrava pelas janelas arcadas e agitavam os cabelos que ondulavam graciosos sobre seu quadril, serpenteando as nádegas firmes e vistosas sob a calça branca. Os olhos agateados pelo khol azul escuro tornavam-se ainda mais fascinantes. Para seu próprio bem, Shaka precisava manter a mística em que estava inserido. Afrodite o ensinara bem, e ele com certeza foi o mais competente aluno do sacerdote de Ishtar.

O ariano chegou aonde queria: à sala de purificação. Um servo lhe dissera, há alguns minutos, que o faraó o esperava ali. Geralmente, apenas duas pessoas adentravam àquele antro: Saga e Aioros, Faraó e Vizir. O grão vizir fazia as vezes de sumo sacerdote ao cuidar da purificação do rei.

Quando Shaka entrou, todavia, surpreendeu-se pela ausência de Aioros. Havia somente um homem na sala e ele não usava o traje de purificação, que era uma calça e túnica brancas. Os cabelos estavam à mostra: belos, brilhantes e desalinhados como sempre. Shaka sorriu para o soberano e se aproximou.

— Majestade — ajoelhou-se, reverente. — Mandaste-me chamar?

— Sim, estava com saudades. — Ele respondeu e se ergueu, aproximando-se do loiro e o puxando pela cintura, tomando-lhe os lábios com força e um desejo desenfreado.

Shaka arregalou os olhos, percebendo seu engano e lutando para se afastar, empurrando o outro homem com força.

— Kanon Amon!

O irmão do faraó ria divertido, enquanto o dançarino limpava os lábios com as costas das mãos.

— Nojento, estúpido! Não cansas de fazer este tipo de brincadeira? Estamos na sala de purificação e se Saga ou Aioros entrasse?

— Tu com certeza estarias em maus lençóis. Aioros não faz questão de esconder que o detesta! — Ria o mais velho.

— Aioros não é ameaça para mim! — rebateu Shaka, altivo. — E Saga sabe que posso ser dono de todos os defeitos, mas não seria estúpido de me deixar seduzir por ti, caro príncipe.

— Se fosses tu, teria mais cuidado com o Vizir. Ele é olhos e ouvidos do meu irmão, não há pessoa sobre a terra em quem Saga confie mais, durrdana.

— Isso não me assusta, Kanon. — sorriu com desprezo. — Afinal sou completamente fiel ao faraó, um leal servo...

Kanon riu alto e voltou a se aproximar de Shaka, que ergueu o queixo para olhá-lo nos olhos em desafio, já que era mais baixo que o príncipe egípcio.

— Fiel ao faraó? Não me faças rir, Shaka! Sei que esperas a primeira oportunidade para fugir deste castelo e procurar por quem deu-te isto! — Tocou o bracelete negro no braço do loiro.

Shaka empalideceu. Como ele podia saber? Apenas Mu sabia do seu passado, mais ninguém. Algum dos servos o traiu. Não duvidava da lealdade do jovem príncipe até porque o príncipe de certa forma também estava em suas mãos. Shaka sabia dos segredos mais íntimos do jovem-faraó. Então quem? O loiro chegou à conclusão de que precisava saber o que de fato Kanon conhecia do seu passado.

Riu, fingindo um desprezo que seu coração aflito estava longe de sentir.

— Este bracelete? Sim, tens razão, ele é importante para mim. Foi-me dado por alguém muito especial. — Mirou Kanon nos olhos. — Alguém que já morreu, se queres tanto saber.

O egípcio calou-se e isso fez um sorriso de triunfo aformosar os lábios do persa. Shaka se aproximou sensualmente do Nomarca e ficou na ponta dos pés para deslizar os lábios macios nos dele. Kanon ofegou, estremecendo, sentindo o desejo pulsar em si.

— Quando quiseres saber algo sobre meu passado, podes perguntar diretamente a mim, meu querido nomarca.

— P-Posso...?

— Sim, podes. Sabes que és meu preferido, não sabes?

— Shaka... não pense que eu...

Calou-se com o beijo profundo que recebeu. Ofegou e correspondeu com sofreguidão, o coração batendo descompassado por aquela demonstração inédita de interesse do estrangeiro. Shaka, contudo, afastou-se rapidamente, e continuou mantendo o sorriso hipócrita no rosto, os olhos azuis profundos mirando Kanon com doçura.

— Eu apenas não posso, Kanon. Entenda-me que me nego porque...

— Por quê?... — Kanon o segurou pelos braços e tentou beijá-lo novamente, mas ele fugiu.

O loiro soltou um suspiro e abraçou o torso nu numa mostra suave de fragilidade.

— Tenho pressentimentos. Tu sabes dos poderes que possuo, sabes que meus olhos veem além do mundo visível.

— Sim, mas o que viste?

— Uma profecia. Um rei cairá, outro se levantará nas areias do Grande império. Sei o que tencionas, mas-... Não posso conceber com a morte de Faraó, isso desencadeará uma maldição.

— Morte? — Kanon franziu a testa. — Não! eu nunca permitiria que ninguém tocasse em Saga. Ele é meu irmão!

Shaka mordeu os lábios hesitante. Não era a morte de Saga que eles estavam tramando? Então por que o vinho envenenado? Passou a mão no rosto tentando equilibrar as ideias.

— Shaka, eu disse que serei faraó e tu prometeste que serás meu quando eu o conseguir. É só isso que quero, mas nunca mataria meu irmão. Ele tem sangue divino, ele não pode ser morto por mãos humanas.

“E como achas que te tornarás faraó, imbecil!”, Shaka pensou e recuou quando Kanon tentou avançar em sua direção novamente. Precisava pensar e não poderia com aquele ali por perto.

— Já que Saga não está aqui, eu irei encontrá-lo, boa noite, alteza — disse frio e cortante como uma lança.

Kanon se enfureceu e o segurou com força pelo braço o puxando para si.

— Pensas que sou tolo, escravo de merda?! — Rosnou. — Eu o ensinarei a não tomar como parvo Kanon Amon!

— Soltes meu braço agora! — Shaka estreitou os olhos, lançando seu mirar letal e desdenhoso ao mais velho.

As miradas se desafiavam quando as cortinas do gabinete se esvoaçaram dando passagem ao Vizir. O irmão do faraó rapidamente soltou o braço do cortesão que também se afastou dele. Aioros mirou de um para o outro desconfiado.

— O que fazes aqui a sós com o nomarca? — indagou a Shaka de forma severa.

— Ele achou que eu fosse meu irmão — riu Kanon. — Tu sabes o quanto gosto dessa brincadeira de me passar por Saga.

— Para o amante dele? Não achas isso no mínimo perigoso, alteza? — Aioros encarou o governador em repreensão.

— Não tive intenções ruins como as que estão em teus pensamentos, Vizir! — Defendeu-se o gêmeo de Saga.

— Meus pensamentos? — Aioros riu de leve. — Então agora podes ler os pensamentos alheios? Quem te deu tal poder? O próprio Anúbis?

— Chega disso, por favor. — Shaka pediu, voltando a envolver o rosto no lenço azul. — Preciso falar ao faraó.

— Ele já se purificou e o espera em seus aposentos — continuou Aioros, ainda sério.

O cortesão fez um aceno de cabeça e saiu sem mais olhar para nenhum dos dois homens na câmera de purificação.

— Bem, eu preciso ir também. Há muitos afazeres em Assuã. — Sorriu Kanon de forma dissimulada. — Até mais, caro Vizir.

Aioros não respondeu, ficou pensativo. Não confiava naqueles dois, talvez fosse melhor advertir Saga sobre aquele encontro. Sua mente contorcia-se em dúvida, mas pensava que entre ser desleal a Saga e maledicente, ele preferia ser maledicente.

Shaka atravessou o castelo e adentrou finalmente o grande quarto, encontrando o senhor supremo do Egito esperando-o.

A noite tingia o céu e esfriava a areia quente do deserto. Saga virou-se e sorriu, ele vestia apenas a calça branca do ritual, mais nada cobria o corpo viril do faraó. Os cabelos longos serpenteavam pelos ombros fortes, esvoaçados pelo vento, e recebiam um brilho azulado das luzes dos archotes.

Ele se aproximou do nunefer lentamente, os contornos fortes e perfeitos do seu corpo à meia luz.

— Majestade — o ariano repetiu o ato de reverenciá-lo, mas foi puxado para cima delicadamente pelo braço até seus olhos estarem mirando o olhar apaixonado de Faraó.

— Meu presente... — Murmurou Saga, olhando dentro daqueles olhos que o enfeitiçavam.

— Meu senhor... — sussurrou Shaka e teve os lábios tomados com a mesma paixão e delicadeza que caracterizava um dos reis mais poderoso do Mundo antigo.

Quando os primeiros raios do sol começavam a despontar no deserto, Ikki mirou o Horizonte. Era hora de voltar a seguir sua estrela.

Lance seus olhos ao oceano

Lance sua alma ao mar

Quando a noite escura parecer infinita

Por favor, lembre-se de mim

O vento frio assoviava na noite escura e lúgubre enquanto Shaka voltava para seus aposentos, envolvido no grande casaco que pertencia ao faraó. Saga o exigira durante toda a noite. Já era tarde e seus olhos se perdiam na escuridão enquanto ele atravessava o grande jardim de volta ao quarto, naquela rotina que era uma tortura.

Antes de alcançar os aposentos, deitou-se no chão de pedra, acariciando-o como faria a um amante, sentindo uma dor íntima e profunda, mas não chorou. Ele prometeu que não mais choraria.

Por favor, Lembre-se de mim...

http://letras.mus.br/loreena-mckennitt/a-time-for-us

A Serpente e a Estrela

الثعبانوالنجوم

Notas finais
Glossário de termos: Ghouls: Demônios do deserto que comem carne humana e bebem o sangue, em especial de bebês. Eles podiam se transmutar em animais ou homens. Ifrits: Um ifrit é uma enorme criatura alada de fogo, masculino ou feminino, que vive no subsolo e freqüenta as ruínas. Ifrits vivemos em uma sociedade estruturada ao longo de antigas linhas árabes tribais, completo, com reis, tribos e clãs. Beijos a todos. Perdoem-me os errinhos pelo texto, estou em período de provas e não pude fazer uma revisão detalhada. Espero que as imagens apareçam, pois da primeira vez que postei não apareceram, se aparecerem comentem, please! Até a próxima postagem! Sion Neblina Postado em 25.06.2013