Notas iniciais
Olá, leitores queridos! Saudade de vcs!!! Nossa!como eu demorei dessa vez hein? Bem, eu tardo, mas não falho XD, e venho com um capítulo enorme como sempre. Espero que vocês gostem. Curiosidades no blog: http://yaoifictions.blogspot.com.br/?zx=5508c7384d40a914 Obriga a todos que continuam acompanhando a história. Uma ótima leitura! Sion Neblina

“Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão

Dava pra ver o tempo ruir

Cadê você? Que solidão!

Esqueceras de mim?”

Oceano — Djavan

Jogos nas sombras

Capítulos 7

“Ele dança... E a lótus se abre em meio ao caos...”

O grande salão estava pronto. O cheiro das especiarias, da cerveja e do vinho, era sentido, misturado aos perfumes de incensos trazidos do oriente. As escravas seminuas carregavam bandejas de frutas e tinham os corpos decorados com desenhos em tinta negra. As mais belas mulheres eram escolhidas para servir ao faraó e sua família. Os seios morenos e firmes eram cobertos por tinta dourada e os cabelos negros como o pelo das panteras eram ornados com enfeites diversos.

Nerfertari mirou a comitiva das belas e jovens servas, escolhidas com cuidado por ela. Gostava de suas meninas, cuidava delas com muita atenção e carinho, elas eram como as filhas que nunca pôde ter. Lembrava-se que quando mais jovem, queria ter uma menina, mas lhe convenceram de que ela precisava gerar um menino que assumisse o trono na idade certa. Também a convenceram de que ela deveria desposar o primo. Ela somente aceitou seu destino, calada e firme, como deveriam fazer as mulheres.

A bela rainha vestia um vestido azul com o desenho de um grande pavão na frente, a cabeça estava coberta por uma peruca de contas da mesma cor, assim como era a cor da pintura dos seus olhos. Andava pelo grande salão observando tudo com cuidado. Estava entediada e queria que aquele banquete acontecesse logo. Faria o que fora pedido por Hades e voltaria aos seus aposentos. Estava sem o bom humor àquela noite, mas era preciso que todos a vissem ao lado de Saga e, como sempre, cobiçassem sua beleza e imponência, embora seus olhos permanecessem sempre tristes.

Nerfertari sorriu e continuou percorrendo o salão até que o sol desapareceu no horizonte. Logo Saga regressaria e depois chegariam os seus convidados. A rainha voltou aos seus aposentos e ordenou que uma das servas lhe chamasse alguém. O escravo adentrou seu antro minutos depois, calmo e silencioso como sempre.

— Precisas de mim, minha senhora?

— Sabes que sempre preciso de ti quando estou nervosa e quando as dores de cabeça me ameaçam — ela respondeu e fazendo um sinal para que as servas partissem, ajeitou-se na grande cama e afastou o vestido expondo os seios firmes e pequenos aos olhos indiferentes do homem. — Ajude-me, preciso estar bela e calma esta noite.

Uma das mãos do escravo massageou um dos seios da rainha, movendo-se com delicadeza, as pontas dos dedos roçando o mamilo e logo o deixando duro. Ele sentou-se ao lado da mulher, fazendo a mesma massagem em seu outro seio, ouvindo seus gemidos baixos e lânguidos.

— Apenas tu sabes me tocar assim. Sinto-me molhada apenas com isto. Deves ter tido um bom mestre erótico — ela murmurou entre gemidos.

— O melhor — ele respondeu indiferente, os olhos preso a qualquer lugar que não fosse à mulher.

— Oh... — Nerfertari gemeu mais alto e abriu as pernas, dobrando-as de forma insinuante. — Venha, meu belo... por favor...

Enfadado, Shaka deslizou a mão pelo abdômen liso e formoso da mulher até sua intimidade, que começou a acariciar, masturbando-a e sentido o quanto ela estava molhada. Nerfertari gemia e se contorcia, roçando-se contra os dedos habilidosos do jovem.

— Oh... por Rá, penetre-me, Shaka... eu preciso... — gemeu alto, ensandecida.

O escravo a obedeceu, enfiou três dedos dentro da mulher, mexendo-os até tocar uma leve saliência dentro do canal que a fez gozar. Quando Nerfertari já estava calma, o ariano se afastou e lavou as mãos numa tina ao lado da cama, utilizando a pasta que era uma mistura de óleos animais e vegetais, areia e sal, que limpava e perfumava.

— Tens nojo de mim? Achas as mulheres repulsivas? — a rainha perguntou quando sua respiração já estava normalizada.

— Não, senhora. — Respondeu, gélido.

— Então por que teus olhos são tão frios? — ela indagou, queixosa. — Eu queria apenas um pouco de amor, queria que sorrisses para mim como sorris para Mu. Fale-me: também te deitas com meu filho?

— Não. — Respondeu novamente, indiferente. — Posso me retirar?

— Por favor, converse um pouco comigo. — Implorou Nerfertari.

— Senhora, faraó solicitou minha presença no banquete, preciso estar pronto.

— Não precisas te aprontares! Já nasceste pronto! Lindo! Ficas um pouco comigo, por favor. — Ordenou, mesmo que de forma implorativa.

A contragosto, Shaka sentou-se ao lado da mulher na cama. Nerfertari o abraçou e chorou em seu peito até cansar. Não era a primeira vez que isso acontecia. A carente rainha sempre o chamava para lhe dar prazer e depois escutar suas mágoas do marido. O príncipe de Najah agradecia por ela nunca ter pedido para que ele fosse além da masturbação, pois dificilmente conseguiria ter uma ereção numa situação daquelas. Não se sentia atraído por Nerfertari e isso não se devia a ela ser mulher, e sim a ela ser terrivelmente instável e emotiva. Não queria envolvimentos emocionais, mas continuava atendendo-a; cedo ou tarde, poderia precisar da bela rainha.

— Nunca amaste, Shaka? Nunca houve mulher ou homem que tenha partido teu coração?

— Não, senhora.

— Sorte tua. Eu amei e ainda amo.

— Faraó? — a conversa começava a seguir um caminho interessante.

Nerfertari riu. — Não! Faraó nunca foi uma possibilidade para mim, nunca.

Ela se calou e mergulhou no passado sombrio. Era tão menina quando foi àquele lugar levada por sua mãe e sacerdotes. Mal tinha feito treze anos, uma menina assustada.

Estava nua, e as luzes escuras dos archotes reproduziam sombras nas paredes. Ele apareceu na escuridão, os cabelos negros e longos refletiam à luz, os olhos cinzentos soltavam faíscas esverdeadas. Ela deitou-se na pedra ritual e sentiu um punhal rasgar a pele do seu dedo e depois os lábios e a língua do sacerdote sugando seu sangue.

Ele espalhou algo em seu corpo, algo que possuía um cheiro exótico e que era um tanto pegajoso e então lhe abriu as pernas e passou um óleo quente em sua vagina. Depois ofereceu à rainha uma raiz apimentada que foi mascada. O sacerdote segurou as pernas esguias da menina e deslizou a língua por sua intimidade enquanto entoava uma prece estranha.

Nerfertari estremeceu e gozou olhando ao redor, vendo rostos nas sombras e ouvindo sons guturais e estranhos. Ela gemia e movia o quadril contra aquela boca faminta e despudorada, mas logo ele se afastou, deixando-a trêmula de desejo.

O homem separou suas pernas com força e a penetrou fundo, fazendo-a gritar como louca. A rainha não saberia dizer quantos orgasmos tivera naquela noite, seu jovem corpo foi inebriado por um êxtase que dominava todos os seus sentidos. Mas quando amanheceu, havia apenas o vazio. Ela foi lavada e vestida pelas servas do templo e levada de volta a Men-Nenfer. Ela nunca soube quem era aquele homem, mas ainda hoje, 18 anos depois, sonhava com ele.

— Sabias que tu me lembras alguém? — Nerfertari mudou drasticamente o assunto.

— Verdade? — A voz fria do nunefer deixou escapar uma pontada de ironia.

— Sim, mas falamos disso em outro momento. Vai-te aprontar. Saga com certeza deseja-o lindo esta noite.

— Sim, minha senhora.

Shaka se ergueu com sua altivez característica, os cabelos longos serpenteando sobre a saia longa e vermelha. Os ombros nus sendo banhado pela seda dos cabelos. A rainha sorriu, ele era um bonito rapaz. Esperava que Saga não o ferisse, porque, no fundo, ela sentia que o belo escravo era apenas uma criança abusada e escravizada. Desde menina, por mais que lhe fosse ensinado que a escravidão era necessária e que eles, família de Faraó, representantes dos deuses, possuíam o direito de escravizar e até matar qualquer homem, Nerfertari nunca acreditou nisso. Mas quem era ela para questionar uma imposição divina? Era apenas A grande esposa.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

O amanhecer no deserto era um esplendor de cores, e a brisa fria da noite ainda soprava sobre os viajantes. Aldebaran, Ikki e o guia misterioso seguiam calmamente em seus cavalos e observavam uma caravana beduína que cortava umas das longas dunas à frente do grupo. A marcha lenta dos camelos era quase hipnótica e criava uma sensação de miragem junto ao vento e o calor que começava a saltar como djins das areias amareladas. Já fazia algumas horas que eles haviam deixado o porto de Jedda e atravessado a fronteira até chegar ao deserto, rumo às perigosas montanhas de Mustaf.

O céu multicor fazia uma linha estreita no horizonte e aureolava a cadeia de montanhas de pedra, distante e inimaginável. Ikki mirou o guia que seguia silencioso, ainda coberto por sua capa. Agora, à luz da manhã, ele podia ver o desenho de um queixo delicado e uma pela branca, como imaginava a pele dos espíritos do Além-mundo. Os lábios eram finos, bem desenhados, implacáveis, e se moviam algumas vezes como se ele lastimasse algo consigo mesmo. O tamudaei seguia sua viagem entres essas observações, a paisagem exótica e as lembranças do passado, lembranças doces e sombrias...

Um grande banquete foi oferecido pelos Tamudaeis em comemoração à gravidez de Jamila, que após três meses havia ‘vingado’, como era da cultura deles. Omã estava exultante e fazia questão de desfilar com a jovem fenícia o tempo inteiro. Ela deveria postar-se sempre atrás dele com a cabeça baixa como uma boa e servil esposa.

O canto e a dança ritualística estavam presentes. Zahira bebia sentada em seu trono, ainda ostentava o posto de Grande esposa, embora não se soubesse até quando. As antigas concubinas que a serviam estavam ao seu lado. Ela mirava o rei e a sua nova esposa com insatisfação, e mesmo sorrindo o tempo inteiro para a bela da Mesopotâmia, em seu coração havia fel e sede de vingança, como era próprio das mulheres desprezadas.

Omã sentia-se orgulhoso e bebia animado, mas não ofereceu a nenhum dos homens ‘A dádiva’. Ele sabia que aquilo estragaria a festa em que havia mulheres e crianças.

Ikki estava presente e, como todas as mulheres do harém foram chamadas a participar, seguia como um cão de guarda ao lado de Shaka que vestia a túnica, a calça longa, e tinha no rosto a máscara negra como todas as escravas. Omã sorriu para o filho e fez um gesto com o cálice de bronze em que bebia. Ikki devolveu o gesto e baixou a cabeça, levando a mão ao peito em sinal de respeito e reverência ao Emir. De repente, Omã mandou que parasse todos os cantos e um grupo de homens com instrumentos musicais entrou no grande salão negro.

— Jamila! — ele exclamou, fazendo os olhos da mulher se voltarem para ele – Trouxe esses homens para que tocassem uma daquelas músicas que me apresentaste. Quero que dances e que todo meu povo possa entender que os deuses a abençoaram e que tens todas as qualidades para seres, a partir de hoje, minha Grande esposa! — Dito isso, arrancou do rosto da mulher a máscara que a classificava como mera concubina.

Os guerreiros aplaudiram, Zahira se engasgou com o vinho e se ergueu, lançando um olhar mortal a Omã. O Chacal a encarou, vendo a mulher bufar como um cão raivoso.

— Se alguém for contra a minha escolha que fale agora e arque com as consequências! — o rei desafiou. Ele não teria razão nenhuma para não decepar a cabeça daquela ‘amaldiçoada de útero seco’.

Ninguém foi capaz de se opor. Zahira, todavia, chamou suas servas e deixou o salão sem que o líder se importasse.

— Alilat abençoou Omã e o clã da serpente negra! — ele continuou a dizer. — A prosperidade voltará a Karna.

O povo reverenciou e glorificou a criança na barriga de Jamila. Mas Shaka não estava feliz, ele tinha medo de Omã e não queria que sua amiga ficasse perto d’O Chacal.

Omã ordenou que os músicos tocassem uma música da Ária e mandou que todos abrissem caminho para que Jamila dançasse. A bela mulher sorriu e foi para o centro do salão.

Todos pararam admirados quando a ‘bela do Eufrates’ começou a dançar. Jamila era sensual e graciosa e era percebido como seus movimentos seduziam o rei. O ventre um tanto volumoso não incomodava, ao contrário, para os tamudaeis era um sinal de boa sorte e decerto a mulher nunca esteve tão bela; seus cabelos longos brilhavam, sua pele mostrava-se firme e aveludada e suas curvas ainda mais generosas.

— Eu quero sair daqui — Shaka sussurrou ao ouvido do príncipe. Ikki aproveitou-se que todos prestavam atenção à nova Grande esposa e saiu de fininho, segurando a mão do amigo.

Eles correram dali para o quarto do garoto moreno, rindo de forma traquina, comentando e ridicularizando a festa e o Emir. Assim que chegaram à alcova, Shaka arrancou a máscara do rosto com um grunhido irritado.

— Odeio isto! — reclamou tirando também a túnica. Fazia muito calor naquela noite.

Havia uma grande placa de bronze polida no quarto do príncipe moreno, e ela conseguia refletir de forma um pouco embaçada, mas satisfatoriamente nítida, os aspectos dos seres. Shaka mirou sua silhueta nela e estendeu a mão tocando-a com especial atenção.

— Tu me achas muito pequeno para a minha idade? — ele perguntou a Ikki, que se aproximou o encarando. O menino moreno examinou o menino loiro que estava vestido apenas na calça negra folgada agora, o corpo esguio e frágil sendo coberto parcialmente pelos cabelos loiros e longos.

— Acho que tu és como és — rebateu o árabe com carinho no palpitar constante do seu coração.

— Fraco, pequeno... — resmungou Shaka, encolhendo os ombros — Com cara de menina...

Ikki lhe ergueu o queixo e olhou nos olhos grandes e amendoados com um sorriso de adoração decorando seus bem feitos lábios carnudos.

— Lindo, forte — murmurou — e com cara de menina!

Shaka o esmurrou, rindo um tanto corado, e o moreno riu divertido também, segurando-lhe os braços. Ikki se inclinou e beijou os lábios do loiro que o enlaçou pelo pescoço e o beijou com mais intensidade, bebendo de sua boca com sofreguidão e sede. O outro correspondeu ao beijo, sentindo o corpo quente. De uns tempos, ele começara a sentir aquilo sempre que estava ao lado do príncipe de Najah e não sabia se isso era bom. Partiu o beijo, sorrindo sem jeito. Naquele momento, novamente, ele temeu que ‘aquilo’ o dominasse e se afastou. A sensação intensa que Shaka parecia ignorar completamente o fez tomar uma decisão que protelava há vários dias.

— Fique aqui. Eu tenho que voltar ao salão. — declarou.

— Por quê? Aquela festa está muito chata, para onde vais? — emburrou-se o loirinho.

— Preciso falar com uma pessoa, fique aqui. – Ordenou Ikki.

Shaka fez bico, mas o obedeceu. Pegou um pedaço de carvão e começou a desenhar algo na parede, depois que Ikki saiu. Era uma forma de passar o tempo.

Ikki voltou ao salão e observou Ágora que bebia animado ao lado de Shiva, numa mesa com outros guerreiros. Durante um tempo, o príncipe apenas observou os dois. Não havia nada de diferente neles. Ambos tinham a mesma postura feroz e altiva dos tamudaeis; nada os faziam ‘diferentes’.

O primogênito de Omã encarou Ágora, e o guerreiro de cabelos avermelhados ergueu uma sobrancelha. Ikki moveu o queixo de lado, indicando que o mais velho deveria segui-lo, e o subalterno se ergueu em seguida, saindo na mesma direção que o príncipe.

Ikki chegou numa pequena praça que havia no jardim e viu Ágora se aproximar em seu traje negro que o cobria do pescoço aos pés.

— O que desejas, meu senhor? — o guerreiro perguntou.

Os olhos escuros do moreno interpelavam os dele e brilhavam como chamas negras no deserto.

— Eu quero saber como se faz para amar um homem – foi direto o príncipe.

Ágora abriu mais os olhos escuros e deixou escapar um sorrisinho malicioso.

— Então realmente amas o pequeno escravo?

— O que queres dizer? — indagou Ikki com brutalidade. Confundia-se com as palavras do mais velho.

— Ora, se queres saber é porque queres fazer, não é certo?

O filho do Emir coçou os cabelos espessos pensativo. Não, não queria fazer, aquilo parecia um tanto nojento e era... estranho. Eles gemiam como animais. Certo, não era tão ingênuo, via os homens ‘fodendo’ mulheres o tempo todo, mas era diferente. As mulheres eram muito diferentes dos homens, desde a pele à genitália. Elas eram curvilíneas e macias, apesar de virgem, Ikki sabia disso, já tocara em mulheres, já fora acariciado por elas, embora nunca tenha ido a fundo. Não, ele ainda não era um homem. Seu corpo não era definido como os dos guerreiros do seu pai — apesar de forte — , ainda havia traços neles que lembravam a infância. Mas ele sempre apreciou as mulheres, gostava de olhá-las e de sentir aquele formigamento no corpo quando via um casal fodendo, embora nunca tivesse coragem o suficiente para fazer o mesmo, talvez sentisse nojo. Sim, sentia nojo daquilo. Mas não sentia nojo ao pensar em se deitar com Shaka. Era estranho. Sim, estranho. Tudo isso, sem medo, Ikki explicitou a Ágora que agora ali, sentado de frente ao garoto-homem, o analisava com a mão no queixo, pensativo e solícito.

O príncipe exibia um semblante meio envergonhado por ter que conversar sobre aquilo, fala, aliás, que não era seu forte, geralmente era calado, esquivo, distante dos outros humanos; talvez aí morasse a questão central do seu questionamento: Shaka. Seu estranho fascínio e proximidade pelo príncipe da Ária, aquela coisa linda e selvagem que ele prendera a si como uma extensão da própria pele.

— Queres saber o que me levou a amar um homem?

— Quero saber se é possível — rebateu Ikki.

— Viste que é possível — Ágora sorriu malicioso. — Embora, muitas vezes, não adequado.

— É melhor que amar uma mulher? — O príncipe continuou curioso.

— Não diria melhor, e sim diferente, Horuk. Creio, no entanto, que não conheces essa diferença, já que nunca estiveste com mulher.

— Fale-me.

— Bem, o corpo da mulher é lânguido e subserviente ao corpo masculino, não gosto. É macio, acho que macio demais. Eu gosto do vigor, da dureza do corpo masculino. Gosto do aperto cheio de vontade e desejo. Gosto de guerrear com ele; sou um guerreiro, gosto de tomar aquela resolução que o homem tem de mesmo subjugado se manter no comando, mesmo dominado, não ser submisso. Não pense que encontrarás subserviência em um homem somente porque enfias teu pau entre as pernas dele, jovem príncipe. Não é assim que funciona. Vê Shiva? Vê Shiva em toda sua juventude e inocência? Ele não se submete, ele é um guerreiro, e, muitas vezes, é ele quem me domina, quem me escraviza, quem me pisa e humilha com seu corpo voluntarioso. Submeter-se por que sou eu a entrar no corpo dele? Isso é ingenuidade. Somos homens, somos guerreiros e somos fortes. Essa é uma questão simplesmente física, não é questão de gênio, jovem Horuk, não é questão de poder, é puramente físico. Já nossas pobres fêmeas são educadas para servir. O macho as dominam, e penso que não por fraqueza delas, mas porque elas acreditam que são menores. São ensinadas. Pobres criaturas escravizadas mesmo quando libertas. Prefiro os animais selvagens.

— E é... bom assim? – Os olhos do príncipe pareciam duas gigantes estrelas azuis a brilhar sobre o ruivo.

O homem de cabelos vermelhos riu.

— É muito bom. As mulheres são amáveis, isso é bom, mas eu gosto de desafios maiores. Gosto de uma boa peleja, sem contar que os garotos também sabem ser gentis, amáveis, carinhosos, enfim, é bom de qualquer jeito.

— Entendo... — mentira, ele não entendia nada, continuava confuso. — Eu tenho que ir agora.

— Sim, vá. Está ficando tarde — Ágora sorriu. Divertia-se com a curiosidade infantil do príncipe e a confusão que estava estampada no rosto dele. — Voltes amanhã e conversaremos mais.

— Certo.

Depois da longa conversa com Ágora, Ikki voltou para sua alcova e encontrou Shaka dormindo, esparramado na cama, de bruços. O árabe parou e ficou observando o amigo por um tempo — o corpo esguio e firme, as coxas bem torneadas que se deixavam ver pelo amassar da longa túnica, as nádegas empinadas, embora não fossem vistosas e fartas como nádegas de mulher... Não, eram masculinas, durinhas e arrebitadas como um fruto ainda verde e voluntarioso que reluta em cair do pé.

O menino moreno aproximou-se do loiro, sentou-se na cama e deslizou a mão timidamente pela perna dele, subindo a túnica pelo corpo magro até expor os glúteos do ariano. Não era novidade, eles nadavam nus, tomavam banho juntos... Agora, todavia, havia uma curiosidade mais maliciosa que o guiava, havia certa malícia infantil, ou seja, ele sabia o que fazia, mas fazia por uma curiosidade genuína e sem intenções vis, só um real desejo de se tornar homem, de saber o que desejava e o que fazer com esse desejo.

Ikki parou o gesto e ficou analisando aquela parte do corpo do amigo em silêncio.

— O que estás fazendo? — a voz sonolenta de Shaka perguntou.

O árabe viu o persa o mirar com os olhos semicerrados e umedecer os lábios ressequidos pelo sono. Ele corou um pouco, mas não se sobressaltou, assim como não havia nenhum sobressalto na indagação do ariano.

— Estou pensando — respondeu e espalmou a mão no bumbum do outro, apertando e verificando que ele era realmente firme, mas macio.

— Precisas apalpar meu traseiro para pensar? — Shaka indagou com divertida ironia e sem nenhuma mostra de constrangimento.

— É que... Espera um pouco — ele disse e começou a descer a peça íntima do loiro que não ofereceu nenhuma resistência. Shaka estava curioso com a atitude de Ikki e não possuía qualquer vergonha em ficar nu na frente do outro.

Quando terminou de afastar a peça, o moreno mirou mais uma vez, agora completamente nu, o bumbum branco e liso do amigo.

— Ikki, o que estás fazendo? — Shaka protestou, porque o rapaz segurou fortemente suas nádegas, analisando-o de forma íntima e embaraçante. Expondo-o de maneira um tanto desconfortável. Mas isso não durou muito, logo o moreno se afastou e, balançando a cabeça, começou a rir sem jeito, corado.

Shaka se sentou na cama, ajeitando a roupa, vermelho também, embora não entendesse bem o porquê. Estava com vergonha, mas para ele não fazia sentido sentir vergonha de Ikki.

— O que foi isso? — perguntou irritado. — Por que fizeste isso? Paras de rir e me dizes!

— Não cabe! É impossível! — Ikki respondeu rindo.

— O quê? — Shaka estava ainda mais confuso — O que não cabe?

— Nada, nada, esqueças! — falava e ria numa mistura de incredulidade e vergonha. Estava mesmo cogitando aquilo? Não! Nunca faria aquilo com Shaka, aquilo o machucaria. Onde estava com a cabeça? Não, não com sua estrela.

— Contas agora! — Exigiu o loirinho irritado.

O moreno mirou-o, parando e rir e fechando a expressão. Odiava quando o outro falava consigo com aquele tom de ordem.

— Não!

Shaka bufou, mas desfez o bico e mudou a estratégia:

— Ikki, me contas — pediu se aproximando dele e massageando seus ombros, sedutoramente. — Se me contares, eu te dou muitos beijos...

— Muitos? — indagou, olhando-o de soslaio, e Shaka fez que sim com a cabeça.

O moreno pigarreou e moveu os ombros de forma pueril.

— Meu pau... — respondeu, desviando o olhar.

— Hã?... — Shaka se afastou dele. — Tu queres... Queres?... Entrar em mim? Igual àqueles dois?! — quase gritou, arregalando os olhos, incrédulo.

Ikki mordeu os lábios, acanhado.

— Tu disseste que querias foder, não foi? — resmungou.

— Eu não o quero enfiado em mim! — reclamou Shaka.

— Foste tu quem estava interessado nisso! – Irritou-se o príncipe árabe. – Eu nem queria, foste tu quem ficou fazendo perguntas! – acusou. Não entendia muito bem o que sentia naquele momento. Sentia-se decepcionado, rejeitado e com raiva.

— Mas eu quero! – Shaka esclareceu e mordeu os lábios, pensativo. – Mas... Porque... Eu penso que... Eu não sei, eu não sei. Eu tenho medo.

— Medo de quê? – Ikki perguntou curioso e preocupado.

— Não sei.

— Shaka, eu nunca o machucaria... – a voz do árabe foi baixa, em tom de confissão.

— Eu sei. Eu confio minha vida a ti, Ikki! – o loiro se aproximou e tocou o rosto másculo do moreno. – Sei que nunca me machucarias, nunca. – Disse, e eles ficaram se olhando no fundo dos olhos por um longo tempo. Seus lábios se encontraram e eles iniciaram um beijo calmo, mas cheio de paixão.

Quando se afastaram, Shaka lambeu os lábios sentindo ‘aquele formigamento’ no corpo e o coração disparado no peito. Abraçou o moreno e riu de leve.

— O que foi? — Ikki perguntou, ouvindo a batida do coração dele em compasso com as do seu.

— Realmente não cabe — o loirinho respondeu rindo, e o moreno também riu.

— Ágora disse que cabe.

O ariano se afastou para mirar os olhos do outro, curioso.

— Foste falar com ele?

Ikki corou sem jeito e coçou os cabelos.

— E com quem achas que eu poderia falar sobre isso, parvo? Com meu pai? — respondeu com grosseria para disfarçar o constrangimento.

— Tens razão. Mas então ele disse que podemos?

— Sim, disse.

— Então podemos tentar depois?

O árabe revirou os olhos, enfadado.

— Não ca-be! — soletrou. — Tu mesmo disseste!

— Podemos tentar, idiota! — O loirinho falou com uma careta e saiu do colo dele. — Mas agora vamos dormir, depois pensamentos nisso!

“Falávamos daquele assunto como quem planeja uma brincadeira nova. Era muito engraçado isso. Numa época em que as pessoas da nossa idade já estavam casadas, nosso isolamento, o de Shaka por força e o meu por resolução própria, nos impedia de um amadurecimento completo. O tempo que passamos juntos talvez tenha sido tão mágico exatamente por que nossos mundos eram impenetráveis a outros olhos, a outras mãos, a outros seres. Vivíamos unicamente um para o outro e essa situação, ao contrário de ser doentia e sufocante, era simplesmente tudo do que precisávamos.” Ikki pensava enquanto seguia pelo deserto ao lado do amigo.

— Diga-me, Aldebaran, já amaste um homem? — indagou, os olhos ainda no horizonte.

O loiro franziu as sobrancelhas espessas com a pergunta repentina do jovem tamudaei.

— Se amei? — O mais velho inquiriu confuso. — Já comi alguns eunucos por aí, por quê?

Ikki sorriu amargo com o canto dos lábios.

— Perguntei se já amaste um homem, não no sentido de amor carnal, senhor rude. Não estou falando de sexo.

— Ah... Não, não. Isso é possível? — indagou o saubeu com os olhos ainda preso à miragem da caravana.

— Era aonde eu chegaria. Tu achas ser possível? — volveu o príncipe, astuto.

O gigante moveu os ombros, tirando um cantil de um dos alforjes sobre o animal e virando-o nos lábios com um meio sorriso ladino.

— Eu creio que o amor vem do espírito e que não se importa com formas, meu jovem amigo. — Ele respondeu. — Se queres saber se sei que tua estrela é um homem, eu já sei disso há certo tempo e não faço julgamentos. Respeito demais o amor para fazê-los.

Ikki sorriu com o canto dos lábios e calou-se. Era a resposta que necessitava.

— Venham por aqui, esta é a melhor rota. — Falou o guia, que andava um pouco à frente dos dois guerreiros e aparentemente não notava a conversa. Ele apontou para um conjunto de dunas miúdas diante de outras gigantescas. Realmente, cortá-las parecia a decisão mais acertada.

— Deserto de Quim’ziQ — Ikki murmurou, mirando a paisagem árida que aparecia no meio da areia e que se assemelhava a um sulco avermelhado. Se caminhassem por mais algumas horas, chegariam às ruínas da destruída cidade de Karna. Ikki não gostava daquele lugar habitado por ghouls e ifrits. Quim’ziQ parecia-se com a garganta de um djab enterrado na areia e pronto para engolir os incautos que se arriscavam a desafiá-lo.

— Não é a rota mais fácil — Volveu Aldebaran, lançando um olhar desconfiado ao guia que continuava silencioso e ereto sobre seu cavalo.

— Dizem que lá — a voz sobrenatural do homem envolto na capa negra falou — é aonde nasce o fogo que abrasa o solo da Arábia. Foi no passado um lugar de sacrifícios humanos a espíritos ruins e a energia que se desprende de sua terra vermelha e árida ainda atrai esses espíritos ávidos por alimento. Teríeis vós, mercenários, coragem de passar por tal lugar?

Ikki franziu as sobrancelhas. Aldebaran torceu os lábios. Quem aquele homem pensava que era para questionar a coragem de guerreiros?

— Pois saibas, senhor das areias, que eu sou um príncipe tamudaei e que este deserto era apenas o campo de divertimento da minha infância. — Falou o príncipe e golpeou a barriga do animal, fazendo-o disparar para Quim’ziQ. Parou quando já estava a alguns passos. — Ficarão aí parados? — indagou com um sorriso provocador, pondo novamente o cavalo em movimento.

Aldebaran passou pelo guia com um sorriso de deboche.

— Nunca subestime o sangue tamudaei, caro guia — provocou e seguiu o amigo.

O homem envolto na capa negra ficou parado observando os dois corajosos guerreiros avançarem destemidos pelas areias vermelhas do perigoso deserto.

— Um príncipe tamudaei — ele murmurou sem emoção e então os seguiu.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Sons, aromas e delícias dominavam o grande castelo. Faraó estava sentado em seu trono vestido no esplendor que Rá lhe concedera. O nemés, as duas mestras nos cetros, a coroa com a cobra, símbolo máximo, a barba falsa. Ele era a personificação divina. Ao seu lado direito, o príncipe e a grande esposa, ao outro, o outro príncipe e o grão vizir. O grande clã do sol, a carruagem celeste que carregava os destinos dos homens.

Um farto banquete era servido aos convidados. Música e dança alegravam vizires, nomarcas e seus familiares. Hades e Pandora aproximaram-se e prestaram reverência ao soberano. Saga não se movia, era a regra, o faraó deveria se manter inabalável e responder com monossílabas e de forma objetiva. As perguntas fugazes deveriam ser respondidas pelo grão vizir. Todos deveriam dirigir-se ao deus apenas para assuntos importantes.

Nerfertari aceitou os cumprimentos afáveis de Pandora. A irmã do faraó estava divina em seu traje branco, os braços e cabelos ornados por ouro, os lindos olhos violeta agateados pelo khol negro, os lábios rubros. A rainha não entendia o motivo de não ter sido ela a escolhida para Grande esposa, já que diziam que Pandora era a mais bela mulher do Egito.

Um a um, todos foram cumprimentados e depois que a família estava reunida, os outros convidados foram se aproximando. Militares, nomarcas, vizires, escribas: a nata da sociedade egípcia estava ali e divertia-se entre bebida e comida farta. Um grupo de militares adentrou o palácio, entre eles, Aspro e Aiolia que logo foram levados até a grande mesa. As mulheres cochichavam ou flertavam abertamente, animadas com a presença de cavaleiros tão garbosos. Os homens as ignoravam e procuravam falar de guerra e política. Quando o Deus finalmente resolveu beber algo, Nerfertari informou que providenciaria o melhor dos vinhos. Ela chamou um servo e pediu que este trouxesse o vaso do vinho especial que havia separado para a ocasião. Nesse momento, os olhares de Pandora e Hades se encontraram e eles trocaram um sorriso que foi acompanhado por Aspro, que mais adiante conversava com outro militar.

Para Mu, a festa apesar de bonita e de conter música animada, era um tanto tediosa, já que estava sempre obrigado a acompanhar seus pais que pouco conversavam com ele. Ele não passava de uma criança que não possuía conhecimento político, embora já fosse legalmente adulto desde os doze anos.

O príncipe afastou-se intencionalmente para um dos jardins e logo Aiolia deu um jeito de escapar da festa também e ir se unir a ele. Mu sorriu ao vê-lo e o tenente sorriu de volta. Ali, ocultos nas sombras da noite, eles esqueceriam a aborrecida recepção e seriam somente os dois. Por enquanto.

Um grande sino soou, todos prestaram atenção ao grande tapete que seguia até a porta que levava as adegas do castelo. Hades e Pandora esperaram ansiosos a entrada de Defteros, mas quem apareceu não foi o meio irmão do faraó.

Nesse momento, as sobrancelhas espessas e bem feitas de Saga se uniram, tirando Faraó do seu semblante impassível. Caminhando com graciosidade ensaiada enquanto os músicos eram novamente ouvidos, entrou no salão O presente do Oriente. Vestido num saiote vermelho curto, tendo o corpo ornado por fitas e colares, ele se aproximou ao som da música, numa coreografia que de tão singela, deixava escapar como bruma no salão toda a sensualidade explícita que havia no sacerdote de Háthor. Mãos, pés, braços, dançavam num ritmo lento e sedutor enquanto, logo atrás dele, entravam duas lindas servas com ânforas de vinho apoiadas na cintura.

O ar pareceu faltar a todos com a entrada inusitada do ariano, que imediatamente roubou para si todas as atenções e toda a cobiça. Ele flutuava ao som da música sensual e envolvente; seus sedutores olhos azuis concentravam-se apenas em quem lhe interessava.

As mulheres se ajoelharam e depositaram cuidadosamente as ânforas aos pés do faraó, retiraram-se logo em seguida, e então Shaka rodopiou pelo salão até terminar de joelhos aos pés de Saga, sendo aplaudido por todos, mesmo que isso fosse uma quebra de protocolo.

O ariano sorriu, fazendo uma reverência e voltando em seguida os belos e enigmáticos olhos azuis, agateados no khol negros, para o soberano que exibia um semblante surpreso, embora quisesse ocultá-lo.

— Serei eu a servi-lo, se assim o quiser, poderoso faraó — disse Shaka respeitosamente.

Saga quase deixou escapar um sorriso, mas consertou a expressão, que deveria ser sempre séria e distante, a tempo.

Hades e Pandora se entreolharam sem entender o que acontecia. Miraram o ariano e nesse momento um leve sorriso de prazer e ironia escapou dos lábios do loiro. Shaka sabia que entrava num jogo arriscado, mas sabia também que precisava correr riscos se quisesse deixar o Egito com vida.

Hades sorriu discretamente de volta ao dançarino, passando uma das mãos nos cabelos negros.

“Então tu queres jogar, meu belo? Hum... acho que isso pode se tornar muito interessante. Muito interessante para mim.” Pensou o governador, observando os olhos astutos do belo da Ária.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Aff, Shaka sofre, viu? Tem que suportar o rei e a rainha carente, ninguém merece isso! Ikkiiiiiiiiii kd vc?? '-' E então, o que acharam de Nerfertari? Vilã ou vítima? E agora que Shaka atrapalhou os planos de Hades, será o que rei do submundo vai querer vingança? Qual será o papel de Kanon nessa história toda e, principalmente, onde está Defteros? Respostas no próximo capítulo hehehehehe. Beijos a todos e obrigada sempre e sempre por ler e comentar! Sion