A serpente e a estrela

8 Caminhadas: entre alcovas reais e desertos intransponíveis


Notas iniciais
Olá, meus amados leitores, tudo bem? Mais um capítulo de ASEAE. Sei que ando demorando de atualizar, mas é que o final da minha graduação chegou e alguns desafios pessoais também, então peço um pouco de paciência a todos. Bem, como vocês já devem ter notado, essa história será longa, arrisco que será a minha história mais longa, até porque, no meio dela terá algumas side storys que elucidará alguns acontecimentos e matará a curiosidade de leitores mais atentos. Acredito que depois do próximo capítulo, a fic vá se concentrar em finalizar o passado do Ikki e do Shaka em Karna porque terei que narrar como se deu as coisas depois que eles se separaram até Shaka chegar ao Egito, então terei que deixar o presente um pouco de lado para terminar isso e Ikki finalmente chegar à Babilônia e a fic seguir para o seu desfecho. Vcs sabem que até isso temos muita água pra rolar XD. Espero que consiga o talento para que a história não se torne desinteressante sendo tão longa e espero também contar com a presença de todos vocês. Desde já, agradeço aos carinhosos reviews e recomendações. Vocês me fazem muito feliz! Beijos da Sion e boa leitura! Sion Neblina P.S. Não betado.

Ah, se pudéssemos contar as voltas que a vida dá

Pra que a gente possa encontrar um grande amor

Como se pudéssemos contar todas estrelas do céu

Os grãos de areias desse mar...

A miragem – Marcus Vianna

Entre alcovas reais e desertos intransponíveis

Capítulo 8

A expressão séria continuava a mesma no rosto do faraó. Seus olhos, todavia, brilhavam com uma intensidade alarmante. Kanon também não tirava os olhos de Shaka, na verdade nem mesmo Hades, o que causava os ciúmes de Pandora.

— Desejas servir-me, então – Saga disse de forma imponente. – Diga-me como?

O ariano deu um passo para trás e se aproximou de uma das ânforas, pedindo que um dos servos lhe trouxesse a longa concha para que ele retirasse o vinho. De forma lenta e cuidada, ele retirou o líquido rubro de uma das ânforas e levou a concha até Saga.

— Servirá ao faraó assim? – Debochou Pandora, enciumada com a atenção que o dançarino recebia. – O deus só é serviço em taças especiais, cortesão. – Disse a mulher com altivez e mirou o faraó – Meu irmão...

Mas um gesto de mão de Saga a fez calar-se e se curvar, assim como todos os presentes, menos Shaka.

— Como pretendes me servir, sacerdote? – O deus perguntou seriamente.

— Através de um cálice sagrado, majestade – falou o estrangeiro e levou a concha aos próprios lábios, sorvendo o vinho e deixando-o na boca. Em seguida, ele se aproximou do faraó, um filete do líquido escorrendo por seu queixo, os olhos hipnotizantes presos aos do soberano.

Saga sentiu um nó na garganta e seu membro enrijeceu de imediato com aquela cena sensual. Shaka se aproximou dele, sem temor, coisa que admirava, embora não confessasse, e, ficando nas pontas dos pés, o beijou nos lábios, compartilhando o vinho com ele.

Aioros sorriu de canto e com um gesto de mão informou aos músicos que eles deveriam voltar a tocar, o que aconteceu, alegrando a festa novamente. Todos pareciam exultantes com o presente do cortesão.

Shaka sorriu ao afastar os lábios de Saga e recebeu um rápido sorriso de volta. Em seguida, o soberano se ergueu, fazendo todos repetirem o gesto em respeito, e sussurrou algo ao ouvido de Aioros.

— Continuem a festa. Faraó irá se recolher agora – informou o grão vizir.

Saga e sua escolta particular se afastaram pelo corredor enquanto todos se prostravam, exceto Shaka, que o seguiu também, e Aioros que continuava de pé. O grão vizir mirava a cena, um pouco preocupado. Não entendia o que estava acontecendo, não entendia a aparição de Shaka. Não era para ele estar ali, não era para ele fazer qualquer solicitação ou dança naquela noite. Algo estava acontecendo, e ele saberia no dia seguinte, nem que tivesse que espremer o nunefer até que ele sangrasse.

— Algum problema, Aioros? – Hades se aproximou dele, fingindo preocupação. – Vejo que não esperavas pela aparição do ariano.

— Não, não esperava, ao menos não assim – respondeu lacônico.

— É perigoso quando as coisas são feitas às costas do grão vizir – disse o governador com uma fingida condolência. – Não sei se o pequeno e belo persa é confiável, eu penso...

— Hades, cuidado com as palavras – Aioros sorriu de leve. – Uma sílaba contra Shaka pode valer tua cabeça. Não notas que ele é toda a alegria de Faraó? Cuidado, não se deve brincar com as coisas que são caras aos deuses.

— E eu jamais faria tal coisa, ai de mim! – Riu Hades, nervoso. – Só tenho certas suspeitas de escravos. Lembre-te de que eles não estão conosco por prazer.

— Shaka está. Ele não poderia estar em lugar melhor que os braços de Faraó. – Volveu Aioros com altivez.

Hades calou-se. Aioros vestia uma couraça que até mesmo para ele era difícil de penetrar. Sabia que o vizir não pensava em nada daquilo, tinha certeza; sua percepção de sacerdote e necromante sabia disso. Mas ele nunca conseguia atingir o filho de Sisyphus. Aquele garoto impertinente que Saga tivera a audácia de colocar no posto que deveria ter sido seu desde o início possuía truques e artimanhas que ele não conseguia vencer.

O governador solicitou licença e se afastou, engolindo a raiva. Para conseguir o que queria, precisava tirar Aioros do seu caminho. A qualquer custo.

Hades aproximou-se de Kanon que bebia uma grande taça de vinho e ria ao lado de Aspros. Sim, ele ria, mas Hades percebia o quanto o pupilo estava infeliz, roendo-se de ciúmes por saber o que acontecia naquele momento na alcova de faraó.

Idiota apaixonado. Por que o sexo torna os homens tão tolos?” Riu consigo mesmo.

— Aspros, viste teu irmão? – Ele perguntou ao se aproximar dos dois.

O general lançou um olhar enigmático ao tutor.

— Não. Defteros sumiu.

— Preciso saber o que deu errado. – Falou o governador. – Pandora garantiu-me que o havia convencido e que lhe entregara o vinho logo cedo. Quero saber por que ele não serviu Saga como o ordenado.

— Eu o procurarei – disse Aspros sério. – O que desejas que eu faça?

— Nada. Ele confia em ti, mas nem tanto em Pandora. Sonde-o, saiba os motivos que o levaram a mudar de ideia.

Aspros assentiu com a cabeça e saiu à procura do seu gêmeo. Hades então mirou Kanon.

— Irás embebedar-te para abrandar tua dor de cotovelo? – Riu. – Temos que agir...

— Escutas, tio Hades! – Kanon irritou-se. – Eu estou cansado disso tudo, desses teus planos idiotas. Eu nunca serei faraó, entendeu? Os deuses abençoaram Saga e não a mim! E... E eu nunca terei Shaka! Para mim, chega! – ele jogou a taça no chão e saiu dali, revoltado.

Hades mirou o vinho que salpicou em seus pés e sorriu, vendo nele o sangue de todos seus inimigos.

“Sim, meu querido, eu sei. Tu nunca serás faraó. Eu serei.”

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Seu jovem corpo se movia para frente e para trás com a força dos movimentos de avanço e recuo que o rei fazia. Seus cabelos eram cuidadosamente puxados, não de forma que causasse dor, e sim como uma espécie de apoio, enquanto o soberano se satisfazia em seu corpo com voracidade.

Shaka fechava os olhos nesses momentos e sempre viajava para lugares onde nem Saga e nem ninguém fosse capaz de alcançá-lo. Era sempre doloroso, emocionalmente doloroso, mas ele seguia firme. Desde muito jovem, ele aprendeu a deixar sua mente livre pelo espaço tempo quando tudo parecia perdido ou viajava por terras distantes para fugir de um incômodo imediato.

Estremeceu quando sentiu que o soberano chegava ao êxtase e deixava o pesado corpo cair sobre ele. Saga beijou várias vezes seu pescoço, rindo de leve, como uma criança diante do prazer de uma brincadeira, uma façanha do deus que poucos tinham acesso.

— Tu sempre me surpreendes – ele disse. – Por que apareceste hoje? Não me avisaste e nem a Aioros? Ele me disse que aparecerias para me fazer companhia e não para me servir vinho.

— Não gostaste do que fiz? – indagou o nunefer com a voz rouca e sonolenta.

— Gostei, claro que gostei, mas Aioros ficará aborrecido. Ele não gosta de surpresas – riu o faraó.

Shaka riu também e com esforço, rolou sobre o corpo musculoso do soberano, ficando montado em seu quadril.

— Vivo apenas para fazer feliz o faraó – sorriu, lambendo os lábios, malicioso. – Não me importa o que venha a pensar o Vizir.

Saga levou as mãos à cintura dele, subindo pelo peito até alcançar os lábios que tocou com carinho e devoção.

— Tu és tão lindo. O melhor presente que já ganhei.

Shaka o encarava profundamente. Seus olhos azuis tentavam arrancar todos os segredos dos olhos verdes do faraó, mas muito pouco diziam.

— Sinto-me lisonjeado. – Mentiu.

— Deves... – murmurou Saga, puxando-o para si e o beijando. Shaka, contudo, logo se afastou com um sorriso malicioso enquanto mordia o lábio inferior.

— Fale-me de Hades, quem é ele, meu senhor?

— Por quê? – Saga franziu as sobrancelhas, desconfiado.

— Soube que deveria ser Pandora a tua esposa. Só sinto-me curioso em saber por que foi ele a desposá-la.

— Meu pai havia prometido. Eles eram irmãos.

— Ah sim, irmãos – Shaka ponderou. – Acordo entre irmãos devem ser respeitados.

— Sim. O sangue divino é sagrado. Uma promessa feita entre parentes deve ser cumprida.

Shaka mordeu os lábios pensativo.

— O que estás tramando, Shaka? – Saga indagou com uma voz meiga e suave, mas o nunefer sabia o quanto ele poderia ser cruel e perigoso se contrariado.

— Não estou tramando nada, meu senhor. Estou feliz essa noite, apenas isso – inclinou-se e voltou a beijá-lo, fazendo com que o rei esquecesse qualquer desconfiança, mas mantendo todas suas respostas seguramente em seu raciocínio.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Os cavalos seguiam com lentidão, observando todos os lugares, as grutas escondidas na cordilheira de pedra. Eles ainda estavam no perigoso deserto e precisavam ter atenção redobrava. Logo seria noite e a escuridão traria os ghouls, era o que pensavam.

— Sinto-me observado – murmurou Aldebaran, movendo os olhos ao redor. – Eles estão nas cavernas mais altas.

— Sim, já percebi – Ikki falou no mesmo tom. – Vamos continuar, talvez não se importem com nossa presença.

— Ifrits não gostam de homens em seu território.

— Ifrits não são vistos há muito tempo. Devem ser apenas salteadores se aproveitando da fama do deserto – desacreditou Ikki.

— Não sejas incrédulo, as lendas são verdadeiras. – Aldebaran replicou, atento como sempre.

— Acho melhor pararmos aqui – disse o guia. – Há um grupo de ifrits logo à frente. O líder é hostil e determinado.

Ikki e Aldebaran se entreolharam. Eles não viam nada além de areia e pedra adiante.

— Eu não vejo nada! – exclamou o príncipe tamudaei desconfiado. – Como podes ver?

— Não enxergo com os olhos, caro tamudaei, mas se quiseres, podes prosseguir e tirar as conclusões por si mesmo.

— Temos que prosseguir de qualquer jeito – falou Ikki e sacou as duas espadas curvas, esporeando o cavalo e adentrando as ruínas.

Aldebaran o seguiu sem temor dos espíritos do deserto. Um gêiser de fogo com mais de dois metro se levantou na frente dos dois guerreiros como paredes mortais e logo outros três os cercaram. Das chamas apareciam os ifrits.

— Quem são vós, tolos mortais que ousam desafiar os ifrits do deserto de Quim’ziq? Pagarão com a vida pela ousadia! – a voz cavernosa do djab ergueu-se em meio à areia vermelha.

— Então tente matar-nos, demônios, eu os desafios! – gritou Ikki.

Mais fogo se ergueu no meio do deserto. Os dois guerreiros cortavam as labaredas com suas espadas, mas pouco efeito faziam, a muralha de fogo só aumentava de tamanho. Seria impossível para um mortal derrotar seres como os ifrits.

Ikki sentiu as chamas avançarem sem piedade sobre si, estava perdido, morreria! Morreria ali e nunca mais veria Shaka.

— Shaka...– ele murmurou dentro do pesadelo e abriu os olhos, sobressaltado. Havia dormido sobre o cavalo enquanto atravessava o perigoso deserto.

Tudo era silêncio e parecia que os ifrits, se existissem, ressonavam tranquilos sobre as areias escaldantes.

— Precisamos parar, os animais estão cansados e não conseguirão subir Mustaf se não descansarem um pouco – falou o guia, já deixando seu cavalo e o amarrando num ramo seco preso à encosta de pedra.

Ikki fez o mesmo, seguido por Aldebaran. Eles escolheram um recuo junto à montanha para passar a noite. Acenderam uma fogueira e aproveitaram para se alimentarem, coisa que não fizeram durante todo o dia. O guia resolveu percorrer a encosta para checar se não havia perigo enquanto os dois preparavam a refeição.

Aldebaran preparava um chá de especiarias que acompanharia a carne salgada, levada como suprimento. Eles se sentaram próximo à fogueira enquanto o guia permanecia distante, examinando um estranho pergaminho.

— Eu acho que ele é um bruxo ou um djab— murmurou o saubeu, desconfiado. – Homem mais esquisito...

— Ele é um guia do deserto, seus olhos “espirituais” já devem ter visto muitas coisas – debochou o príncipe tamudaei. – Contanto que ele não tente nada contra um de nós, ele pode ser até um ghoul que não me incomoda. Embora eu ache que ghouls não teriam mãos tão alvas e cuidadas...

Aldebaran riu:

— Tu és um cão observador, caro tamudaei – falou. – Eu também reparei na boa educação do nosso guia. Ele não parece um rude morador do deserto. Por isso, penso que não seja humano.

— Não vamos nos distrair com nosso guia, Aldebaran – volveu o príncipe, sério. – Apenas fiques atento, mas vamos nos preocupar em chegar à Babilônia.

— Decerto. – Resmungou o saubeu, pegando a chaleira e pondo o chá numa grande cuia que compartilharia com o amigo. – Que tal aproveitares esta noite fria para nos entreter com mais detalhes da tua história com a Estrela? Já faz um longo tempo que a iniciaste aos meus ouvidos, mas nunca a terminaste.

Ikki sorriu de canto e mirou o céu cravado de estrelas...

— Sim. É um bom momento... Bem, começarei de onde parei exatamente...

Depois da conversa com Ágora, Shaka e eu só tínhamos uma coisa na cabeça: sexo. Estávamos ansiosos para saber como aquilo funcionava. Tínhamos quinze anos, estávamos cheios de desejo, amor e aquela curiosidade inconsequente que as crianças têm que as afasta de qualquer medo. Só não sabíamos como iniciar aquilo e, por isso, Ágora passou a ser perseguido por mim até perder qualquer resquício de paciência. Afinal, ele era um guerreiro, não um instrutor sexual. Foi então que as coisas começaram a mudar para mim. O guerreiro me explicou que para saber o que eu queria, eu deveria procurar uma “especialista” fora dos muros de Karna. Eu deveria ir até certo local, de preferência na companhia de Shaka, coisa que eu nunca faria, afinal, eu nunca exporia minha Estrela ao desconhecido. Então Ágora me garantiu que não havia perigo, e eu aceitei que Shaka fosse comigo. Só que havia um problema: não era admitido às concubinas, escravas, deixarem Karna, nem mesmo na companhia dos seus senhores, sem a permissão do ‘Emir’. Então, eu, humildemente, fui solicitar a Omã, a liberdade para levar ‘a minha concubina’ para além dos muros cinza de Karna.

O líder mirou o primogênito profundamente com seus olhos negros interrogadores e cruéis.

— O que pretendes fazer com uma escrava fora dos muros de Karna?

— Eu prometi levá-la para um passeio. Não demoraremos mais que um dia – explicou Ikki sem erguer os olhos para o pai. – Se o senhor me permitir...

— Não mais que um dia, Horuk – falou Omã.

O príncipe ficou feliz, mas ao mesmo tempo estranhou ter conseguido o que queria com tanta facilidade.

— O que está esperando? Parta! – Irritou-se Omã.

A verdade era que Ikki percebia sutis mudanças no rei desde que Jamila tornou-se sua esposa.

— Obrigado, meu senhor – cumprimentou, flexionando o corpo com o punho no lado esquerdo do peito, como costume dos tamudaeis.

O chacal mirou o filho por um tempo. Bem, já era hora. Verdade. Todavia, aquela menina foi a primeira mulher do seu filho e ao que sabia, a única. Não era lícito que acontecesse no meio de tamanha inexperiência, embora, ele pudesse ter quantas mulheres quisesse depois. Entretanto, Omã sentia algo estranho em relação a Shaka. Achava-a linda, atrativa, exótica. Mas havia algo nela, naqueles olhos, que o incomodava profundamente. Todavia, como se sentia muito feliz, ele passaria tal felicidade ao filho.

— Se gostas tanto dessa menina persa porque não a toma como esposa?

Os olhos azuis do adolescente se arregalaram. Ele tomar Shaka como esposa? Não podia! Shaka era um garoto! Como poderia? Confundiu-se o adolescente.

Omã viu a dúvida brilhar no rosto do filho e sorriu com isso, achando que Ikki contorcia-se em dúvida por achar-se jovem demais e por ter interesse de conhecer outras mulheres.

— Façamos assim, Ikki. Viajes com ‘a mocinha’, quando retornarem, eu darei uma festa em que tu escolherás para si, ao menos mais três concubinas. As conheça e depois disso, se quiseres, eu autorizo teu casamento com a garota persa.

O príncipe não soube o que dizer, então somente assentiu com a cabeça e deixou o grande salão. Pensaria naquilo depois da viagem, não era o momento para pensar naquelas coisas e uma das grandes características de Ikki Horuk Kadar era não desperdiçar energia pensando no futuro.

Omã sorriu malicioso quando o filho deixou o salão. Sim, Ikki poderia escolher a mulher que quisesse e, com sorte, ele perderia o interesse pela menina persa, e ela deixaria de ser sua exclusividade, dando liberdade para que Omã a possuísse quando e como quisesse, assim pensava o Emir. E quem sabe, depois disso, depois de tê-la para si, ele não descobrisse o que tanto o incomodava naqueles olhos?

Há muito O Chacal observava Shaka. Shaka, nome estranho. Esquisito, esquisito como era aquela menina. Shaka era terrivelmente bonita, bonita demais, mas era estranha, havia algo estranho nela, mesmo que ele não soubesse exatamente o que fosse. Os olhos, os lábios, o nariz eram lindos, mas a garota era um pouco desengonçada, magra demais, alta demais. Os meses passavam e ela se tornava cada vez mais alta, mas o corpo infantil não mudava, continuava magricela, sem seios nem ancas. Omã reparava, mesmo por baixo das roupas excessivamente folgadas e dos cabelos cada vez mais longos que funcionavam como um véu, ocultando tudo que ele deseja ver. Ainda assim, seu fascínio por aqueles olhos feiticeiros e agourentos não passava e isso começava a inquietar o rei. Talvez fosse todo aquele conjunto estranho que era Shaka que tanto o fascinasse e amedrontasse.

A menina, entretanto, era de Ikki. E ele respeitaria isso enquanto o filho assim o quisesse. Logo, a única forma de poder tocá-la seria fazer com que Ikki não a quisesse mais. E era isso que ele tentaria fazer.

Ikki correu para o seu quarto, encontrando Shaka desenhando como sempre.

— Consegui! Podemos sair da cidade, meu pai me dará a carta! – disse esbaforido, já arrancando a roupa do corpo e correndo para o quarto de banho. – Vamos logo, Shaka, apressa-te, sairemos à noite.

O loiro começou a se despir também, indo atrás dele no banheiro e entrando na grande tina de bronze, junto com o amigo.

— Para onde vamos?

— Para um lugar que Ágora me indicou.

— Que lugar?

— Eu não sei. Ele me mandou procurar um lugar, nós vamos a esse lugar. Não sei o que nos espera, mas Ágora garantiu que é seguro e se não for, minha saif cuidará disso – volveu o árabe, confiante.

Shaka confiava totalmente em Ikki e apenas lhe sorriu.

Em aproximadamente uma hora, já prontos, encobertos por vestes e capas negras e tendo nas mãos a licença assinada pelo Emir, a apresentando aos guardas da saída da cidade, eles partiram em direção às montanhas da cidade de Yatreb.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

A festa havia acabado, restava apenas o odor exótico dos incensos de jasmim e Mirra, do vinho e da cerveja. Os normarcas e suas famílias já haviam partido e agora existia apenas a quietude da madrugada fria e certa melancolia no ambiente enquanto Defteros caminhava no palácio. Passara a noite inteira distante, remoendo suas dores. Não tivera coragem de ir à festa. Sabia que Pandora ficaria desapontada, mas não compareceria apenas para servir de servo da família real.

As palavras do ariano ainda feria-o no orgulho. Orgulho, este era o sentimento ao qual Defteros se apegava e não deixaria que ele fosse espezinhado somente porque sua irmã caprichosa queria fazer um agrado a Faraó.

— Procurei-o por toda a noite, onde te escondeste?

Ele voltou-se ao reconhecer a voz de Aspros. O irmão estava à sua frente, vestido no traje militar de escama que era mais nada que uma camiseta de malha de bronze e um saiote do mesmo material sobre a toga curta. Os pés eram calçados nas sandálias de tira de papiro. O gêmeo mais velho o encarou com seu olhar firme e com seu jeito imponente, o mesmo jeito que possuíam todos os homens da Mesha.

— E por que me procuravas? – indagou magoado. – Assim como Pandora, esperavas tu que eu me portasse como servo esta noite?

Aspros franziu as sobrancelhas.

— Então foi isso que o cortesão estrangeiro lhe disse? – Sondou. Precisava saber sobre o envolvimento de Shaka naquela história.

— Foi mentira por acaso? – Devolveu Defteros.

Aspros riu de leve e se aproximou do irmão.

— Defteros, Defteros... Será que esqueceste que só podes confiar em mim? Achas acaso que eu deixaria que tu fosses humilhado por alguém? – mirou dentro dos olhos do irmão. – Não mesmo, nem mesmo por Faraó.

— Mas...

— O cortesão queria uma oportunidade para agradar o rei, por isso mentiu a ti, e tu caíste como um ingênuo – sorriu e sussurrou: – Nunca deixarei que alguém faça mal a ti e a mamãe.

Aspros segurou a nuca do irmão, olhando em seus olhos e deslizando os dedos por seu rosto.

— Eu não o reconheço mais, Aspros. – Defteros retribuiu o olhar. – Pareces agora uma simples marionete de Hades. Achas que sou tolo? Achas que não percebo a sede de poder que teu tutor demonstra? Ele quer poder, quer ser o grão vizir e não sossegará enquanto não conseguir derrubar a casa de Maahes e toda Leontópolis. Não sei por que ele odeia tanto aquele nomo, mas...

— Não fales sobre o que não conheces! – Irritou-se Aspros. – Eu sirvo a Hades e sirvo a Sisyphus, meu último general em chefe, sirvo ao vizir Aioros e sirvo acima de todos eles ao Deus Saga. Enlouqueces, Defteros! Hades é fiel a todos eles!

Defteros mordeu os lábios. Ele possuía muito respeito e amor por Aspros e ouvi-lo falar com tanta convicção acabou por pôr-lhe dúvida a respeito de suas próprias deduções. Talvez não fosse muito seguro das próprias crenças e nem confiasse muito no próprio discernimento e já que Aspros dizia, ele tinha que acreditar.

— Quem anda pondo tais bobagens em tua cabeça? – Aspros sondou, preocupado. – Shaka?

— Não. Eu nem olho na direção de Shaka, é ordem de Faraó. Até estranhei quando ele me procurou e me pediu a honra de servir ao deus. Ele não me disse nada, disse apenas que não ficaria bem a um príncipe servir o vinho. – Sorriu de leve. Na verdade, Defteros sabia que fora seduzido pelo belo dançarino. Ele usara as palavras certas para persuadi-lo. Chamá-lo de príncipe, ele, apenas um irmão bastardo, agregado da casa real, foi realmente uma boa jogada, tinha que admitir agora, mesmo que no momento que fora feito, envolto no véu negro da vaidade, não houvesse percebido que estava sendo manipulado.

— Para que deixasses que ele servisse... – Aspros ponderou sobre aquilo e chegou à conclusão que deveria ser Hades a se preocupar com aquelas coisas e não ele. Sua parte, ele já havia feito. Agora era confiar que Nerfertari fizesse a sua com perfeição e logo Shaka ou qualquer outro não se constituiria problemas para Hades.

— Tenho que voltar agora, irmão – Aspros aproximou seus lábios dos de Defteros e o beijou, afastando-se para mirar seus olhos verdes – Cuide-se, cuide da mamãe e, acima de tudo, Defteros, confie em mim! Somente em mim, certo?

O gêmeo mais novo assentiu com a cabeça. Aspros deixou o salão. Iria para o alojamento militar. No dia seguinte contaria a Hades suas descobertas.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Era uma grande cidade erguida sobre pedras no meio das areias do deserto. Caso fosse dia e não fizesse tanto frio, Ikki pensou que nenhum viajante seria capaz de diferenciá-la das dunas douradas que se erguiam ao redor dela. Ele e Shaka estavam sobre Dushara o cavalo multriz negro que trotava lentamente como se tivesse receio da escuridão.

Ao entrarem na cidade, perceberam que havia uma grande arcada cujos lados possuíam estátuas de dois seres antropomórficos que possuíam braços e pernas enroscados num estranho bailado. Ikki mirava tudo com atenção, e Shaka, também. O primeiro porque nunca tinha visto algo tão estranho e o outro porque aquilo tinha algo de perturbador para ele.

— Parece o inferno. O lugar em que vivem as bestas famintas que li nos Devas – explicou o loirinho.

— Pois para mim parece um lugar de um povo de muito mau-gosto – volveu o árabe, observando tudo com desconfiança.

Havia uma grande praça em que mulheres dançavam sensualmente, algumas com espadas e outras com serpentes. Eles desceram do cavalo, pagaram a um guardador para que cuidasse do animal e seguiram, impressionados com tudo. Havia altos archotes iluminando a noite, música, dança e depravação.

Shaka observava, sobretudo, um enorme círculo no chão em que havia uma estrela de cinco pontas dentro, cheio de símbolos estranhos. O adolescente se aproximou devagar, os olhos presos aos símbolos, completamente curioso.

— Shaka... – Ikki o puxou pelo braço. – Vamos para lá – apontou para um prédio alto.

O ariano o seguiu. Os dois garotos surpreenderam-se com a beleza do local coberto por finas cortinas de linho e tapetes maravilhosos. Mulheres lindas, de pele morena e olhos claros, desfilavam em lindos trajes e ostentavam gemas preciosas nos colares e brincos. Elas se serviam de tâmaras e de vinho em taças de prata e eram cercadas por todos os tipos de homens, de nobres a guerreiros. Shaka entendia que aquilo ali era um harém. Ele andava devagar ao lado de Ikki, observando tudo com cuidado, quando algo lhe chamou a atenção: era um rapaz. Um rapaz de feições delicadas, magro, vestido numa calça de linho e uma túnica meio aberta, num estilo que era feminino sem o ser. Era estranho. Ele parecia realmente uma mulher, mas de alguma forma, Shaka sabia que não era uma. Deveria ser pouco mais velho que ele, algo em torno de 17 ou 18 anos. O príncipe persa parou e ficou o observando durante um longo tempo. Percebeu quando homens cercaram o garoto, cortejando-o, entregando-lhe joias e tâmaras.

— Ei, os dois – uma voz imperiosa e feminina falou atrás dele, e o loiro se virou imediatamente, assim como Ikki.

Uma mulher de cabelos negros e olhos inteligentes os observava com atenção.

— Não são daqui. O que duas crianças fazem no meu bordel?

Ikki se adiantou e retirou o capuz, mostrando-se à mulher. Shaka fez o mesmo, pondo-se ao lado do moreno.

— Chamo-me Ikki Haruk Kadar. Ágora pediu para que viesse. És Violet?

A mulher os observou com mais atenção. Mirou Ikki por um longo tempo e depois Shaka com olhos perigosos e analíticos.

— Ágora é meu irmão – ela falou, fazendo o moreno franzir a testa. Então aquela mulher era de Karna? Como?

— Venham comigo – ela os chamou, enquanto passava por entre todos e os guiava para os fundos do bordel, ao seu recinto que era um luxuoso quarto no andar superior que eles chegaram após subirem uma longa escada em caracol.

Shaka observou os móveis maravilhado. A cama confortável com dossel, as cortinas.

— Parece Najah! – ele disse, e Violet se virou para encará-lo.

— Então vieste da cidade branca?

O menino piscou sem entender, parecia fazer tanto tempo que não ouvia aquele termo. Cidade branca era como alguns mercadores estrangeiros chamavam Najah, quando Najah existia.

— Sou um dos príncipes de Najah – ele informou com tristeza. – Ou era. Antes dos árabes a queimarem.

Ikki levou a mão ao ombro do amigo. Não entendia os motivos, não entendia seus sentimentos, mas sempre se sentia mal quando se lembrava do que ele e seu clã fizeram ao povo de Shaka. Era estranho, porque depois dele, depois de Shaka, as conquistas perderam o sabor para ele. Não havia o que comemorar a cada pilhagem. Ele aprendeu que a guerra era uma coisa feia e cruel. Aprendeu com o príncipe persa.

— Eu estive em tua cidade uma vez – disse Violet, os olhos adquirindo uma expressão pensativa. Ela se livrou da capa mostrando-se num vestido negro longo sem mangas, sob as luzes dos archotes. Shaka percebeu que a pele da mulher era recoberta de cicatrizes e que ela era tão musculosa quando um guerreiro.

— Mulheres não podem deixar Karna – Ikki falou desconfiado, observando a bela, mas estranha mulher de cabelos longos e escuros.

— Sim, eu sei. – Ela disse, examinando o príncipe. – Mas eu era um guerreiro. Um guerreiro mais poderoso do que todos os guerreiros do teu império, Horuk Kadar. Eu fiz parte do exército de Karna e todos pensavam que eu fosse um homem, tamanha minha força...

— O que foste fazer em Najah? – Shaka indagou, mais curioso com a visita da mulher à sua cidade do que com sua história, ao contrário de Ikki.

— Fui comprar roupas para minhas bordas. Eu me casaria – ela explicou com uma voz triste. – Mas isso nunca chegou a acontecer – Violet se ergueu e mirou a noite estrelada do lado de fora da janela. – Digam a que vieram, crianças. Violet não tem a noite toda.

— Por que deixou Karna? Como pôde fazer parte do exército sendo uma mulher? – Ikki estava curioso. – Por que Ágora não me disse que eras irmã dele?

— Porque falar de mim é proibido em Karna e uma vergonha para o meu clã.

— Por quê?

— Porque eu menti. Eu entrei para o exército fingindo ser um homem. Logo me destaquei, tornei-me melhor do que todo o meu batalhão e o orgulho da minha guarnição, isso não seria bem visto pelos orgulhosos machos de Karna. Jamais seria. O pior foi que me apaixonei pelo meu capitão e ele por mim, por isso viajamos a Najah. Só que ninguém sabia que eu era uma mulher e quando nosso envolvimento foi descoberto, fomos ambos condenados à morte – nesse ponto Violet se interrompeu e mirou os garotos. – Não é possível uma relação assim em Najah. Fui salva porque no último momento, descobriu-se que eu era uma mulher. Então fui apenas banida...

— E o capitão? O que aconteceu a ele? Por que veio parar aqui, sozinha? – Shaka começou a perguntar aflito.

— Ele foi morto antes que soubessem que eu era uma mulher... Morreu calado por fidelidade a mim. Ele sabia que eu seria descoberta no último momento e poupada por minha condição, mesmo sendo exilada. – Violet sorriu triste. – Não entendo porque ele não falou... Poderia ter sido poupado se...

— Ele não seria. Ele era um capitão, nunca deveria mentir a Omã e ele mentiu. Não seria. – Concluiu Ikki e ergueu-se, aproximando-se da mulher. – Assim como eu não serei por amá-lo – apontou para Shaka.

Violet se virou e encarou Ikki, atônita, e depois Shaka, que permanecia sentado no mesmo lugar.

— Ele... é um garoto?

— Sim, eu sou um garoto! – Shaka se ergueu, irritado, odiava ser confundido com uma menina o tempo todo.

Violet ficou estupefata, mirando de um para o outro.

— Eu o conheço. O vi quando ainda era muito pequenino, mas tu já seguravas uma espada. Tu és filho d’O chacal – ela murmurou.

— Sou. E eu amo um menino – o moreno disse, encarando os olhos escuros da mulher. – Nós queremos saber como... como podemos... fazer... – Ikki engasgou, o rosto ficando absurdamente vermelho.

— Queremos saber o que fazer para ficarmos juntos. – Shaka completou.

Violet olhou de um para o outro, inicialmente sem entender o que aquelas crianças queriam. Quando finalmente se deu conta do assunto tão constrangedor que fazia o jovem príncipe engasgar, ela começou a rir, o que não agradou em nada o jovem árabe.

— Estão falando de sexo? – volveu a mulher e passou as mãos nos cabelos, voltando a encarar os olhos escuros de Ikki de forma firme e até irritada. – Você quer morrer, jovem príncipe, e condenar aquele pequeno também? Esquece-te onde vives? Esquece-te de quem és? Teu pai cortar-te-á a garganta antes que tenhas a chance de suplicar por piedade, caso descubra o que sentes! Insensatos! Deixem minha casa! Não compactuarei com esse duplo suicídio! Ágora acaso enlouqueceu me mandando estas crianças? – Falava para si mesma, agora.

Ikki emudeceu com a explosão da mulher, e Shaka se ergueu e bateu com força na mesa, fazendo um vaso de barro que estava sobre esta cair e se quebrar. O príncipe loiro encarou Violet com firmeza e sem temor.

— Cavalgamos a noite toda. Não iremos embora sem que nos ensines o que queremos! – disse ele. – Isso não tomará muito do teu tempo, é só nos dizer o que Ágora queria que nos dissesse.

Violet mirou os dois jovens e balançou a cabeça em negativa. O que poderia fazer? Condená-los?

— Escutem a voz de quem muito sofreu por ser diferente: se desejam se amar, deixem as areias vermelhas de Karna. Aquele lugar não foi feito para abrigar o amor. Saíam de lá e prometo abrigo aos dois, já que foram me enviados por Ágora. Mas não posso ensiná-los nada que possa pô-los em risco.

— Tu não entendes, Violet, Omã já nos considera amantes, não há mais o que fazer – explicou Ikki. – Nós só queremos...

— Tornarem-se amantes de fato. – Sentenciou a mulher. – Creiam, crianças, isso não é o mais importante para o amor. Descobrirão o sexo cedo ou tarde e de forma natural. O importante agora é que deixem Karna e também este bordel. Poderia pô-los em um quarto. Acho até que era isso que queria meu irmão ao manda-los até mim, que os dois experimentassem o sexo com segurança. Entretanto, sei que esta não é a questão principal. Estão em perigo.

— Se foste uma guerreira por que acabaste aqui? – Shaka perguntou, aproximando-se da mulher, curioso.

— Uma mulher não tem muitas opções na Arábia. Nenhum exército confiou em me ter como soldado, de sorte que não me sobrou muita opção.

— E Ágora? Por que não fez nada? – Ikki indagou, meio decepcionado com o soldado.

— Ele era uma criança, pouco mais velho do que tu és agora, jovem príncipe. Agora, ele ama o jovem Shiva que não deseja deixar Karna. Eles se arriscam muito e são loucos por dar conselhos loucos a crianças. Ouçam-me, meus pequenos, voltem para Karna, peguem o que precisarem para atravessar o deserto e fujam de Omã. Vão para algum lugar onde os olhos d’O Chacal não os alcancem. É tudo que posso fazer pelos dois.

Shaka e Ikki se entreolharam. Eles perceberam que a mulher tinha verdadeiro pavor do Emir de Karna. O príncipe árabe imaginou as atrocidades pelas quais Violet passara. Sabia o quanto Omã poderia ser cruel e abusivo e das coisas que ele fazia às escravas ou qualquer mulher que desejasse e se negasse a ele.

Mirou a pele marcada de Violet; marcas de chicotadas e cortes de facas.

— Ele a quis. Por isso fingiste-te de homem e entraste para o exército. Ele a queria, não foi? – concluiu Ikki.

— És muito perspicaz para tão pouca idade, Horuk. Mas não quero relembrar o que aquele desgraçado me fez. Voltem a Karna, peguem o que puderem e fujam. É o melhor para os dois.

— Por que Ágora quis que viéssemos aqui se não podes nos ajudar? – irritou-se Ikki. – Ele sabia que não me ajudarias!

— Eu acho que ele queria que soubesses de mim, assim tomarias juízo e tirarias esse belo pequeno das vistas de Omã antes que ele também comece a cobiçá-lo como fez a mim. Eu não teria que mentir, que fugir, que me esconder se-... Eu poderia ter sido feliz...

— Tu ainda podes ser feliz, Violet... – Shaka murmurou, condoído com a história daquela mulher.

— Vamos embora, Shaka, ela não vai nos ajudar – o menino moreno disse, pegando o outro pelo braço e o arrastando dali. Shaka seguiu com ele, mas os olhos ainda voltados para Violet, vendo a lágrima solitária que escorria do rosto da mulher e ela murmurar um nome: Aiacos...

“A história de Violet ocupou meus pensamentos durante dias. Eu a compreendia e compreendia porque ela não queria nos ajudar. Nossa viagem de volta a Karna foi silenciosa e melancólica. Eu seguia abraçado as costa do meu amigo, sentindo meu coração quebrado. Ela estava certa. Tínhamos que deixar aquele lugar, mas talvez fosse tarde demais... Talvez a história estivesse apenas se repetindo...”

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

O guia não dormia. Seus ouvidos atentos vigiavam o saubeu e o tamudaei, que pareciam tranquilos em seus sonos. Ele sabia que aquele deserto era cheio de demônios e por isso mantinha-se vigilante. Necessitava de pouco sono, na verdade. Desde que se tornou um “homem do deserto”, não costumava dormir como os humanos normais. Sua energia vital fora mudada, mudada pelos seres que o salvaram da morte há quase cinco anos. Muitos o consideravam um espírito errante ou penitente, um mago que vagava nas terras em busca de conhecimento e verdades, mas o homem que se escondia sob as vestes longas e negras contava somente 23 anos, pouco mais que o jovem príncipe árabe que agora dormia, indefeso à sua frente.

Ele mirou o rosto de Ikki por um tempo. Ele ainda era um menino, constatou, podia sentir a energia vital e quase podia ver-lhe as feições somente pela energia que escapava da sua pele. Mas ainda assim, ele era um assassino como todos da sua raça maldita. Assassinos, depravados, bestas famintas e gananciosas que varriam vilas e reinos levando destruição e morte à procura de riquezas e sexo. Durante muitos anos, o guia visitou as terras saqueadas pelos tamudaeis. Queria ser forte para enfrentá-los e exterminá-los, mas há algum tempo, alguém chegou à sua frente e pôs fim àquele clã maldito. Todavia, o príncipe deles estava ali, vivo e altivo. Belo em toda sua inocente juventude. Deveria ser o último de sua raça, e o senhor do deserto sabia que aquela raça maldita deveria ser exterminada até sua última geração.

O guia sacou o punhal curvo que guardava sob as vestes escuras. Ergueu-se em absoluto silêncio como era estranhamente silenciosa a noite do deserto. As estrelas iluminavam aquele rosto ainda imberbe, muitos pontos de luz faziam o desenho das feições juvenis do príncipe, o tornando quase nítido aos seus olhos sem vida. O errante, contudo, não teve piedade quando desceu seu atroz punhal em direção ao coração do jovem.

Tudo aconteceu numa velocidade sobre-humana. As mãos do jovem guerreiro árabe seguraram a base da arma e empurraram o assassino para longe.

O senhor do deserto pulou para trás e rapidamente, refeito da surpresa, precipitou-se novamente contra o outro príncipe que, num salto, ergueu-se e tomou de sua saif, partindo para o combate. As lâminas da espada e do punhal se chocaram, e o barulho do combate despertou o saubeu, que também sacou suas adagas. Contudo, não se envolveu no combate que sabia já estar ganho.

Com um golpe potente que fez o outro gemer, Ikki derrubou o senhor do deserto, fazendo-o soltar a adaga. Ele ainda tentou se arrastar até a arma, mas o príncipe pisou em suas costas, fazendo-o gritar de dor, prendendo-o ao chão e afundando a mão em sua cabeça, puxando-o para trás pelos cabelos e o capuz.

— Por que tentaste me matar, desgraçado? – indagou Ikki, ofegante, segurando o homem de bruços na areia, montando em suas costas e pondo a saif contra seu pescoço. – Por quê? Morrerás por tua deslealdade!

— Um tamudaei falando de lealdade? – o homem riu. – Raça maldita sem honra que mata crianças e mulheres! Meu único arrependimento é morrer por mãos tão imundas!

O moreno franziu as sobrancelhas. Quem era aquele homem que o odiava tanto e ao seu povo?

— Quem és tu e por que falas desta forma?! – interrogou e virou o homem para si com violência, derrubando o capuz que lhe ocultava as feições.

As estrelas iluminaram a face pálida. Ikki entreabriu os lábios, surpreso, e afastou suas mãos do senhor dos desertos, completamente atônito, o que foi notado por Aldebaran. A cor fugiu completamente do rosto do jovem mercenário.

Não era ele. Ele sabia que não era ele, mas... Como seria possível tal semelhança?

— Que magia maldita é esta? Por que te pareces com Ele! Por quê?! – tornou perturbado.

— Ele? – o homem que estava preso entre suas pernas não entendeu. – Estás falando de... Shaka?

Ikki rangeu os dentes e levou as mãos ao pescoço do outro.

— Conhece-o? O viste? Onde ele está?! Diga-me! Diga-me! – gritava em desespero, balançando o outro pelo pescoço até que o guia começou a tossir.

— Eu... quem pergunto! Teu povo o levou... O levou depois de destruir nossa cidade! – tossiu o senhor do deserto.

— Quem és tu, pelos deuses?! – o árabe gritou, exasperado.

O guia empurrou o tamudaei, tossindo e levando a mão ao pescoço.

— Eu sou... Eu me chamo... Asmita Devraj Vishwamitra, príncipe da devastada cidade de Najah... E irei mataste, maldito tamudaei...

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
E aí, gostaram de descobrir quem é o misterioso guia? E da entrada da Violet na história? Ela terá um papel bem importante. Beijos a todos que leram e comentaram. Espero que tenham gostado, até a próxima! Sion Neblina Postado em 09/12/2013