A serpente e a estrela

9 Asmita, príncipe de Najah


Notas iniciais
Olá, leitores queridos! Mais um capítulo de ASEAE. Mais informações no blog! Obrigada de coração a todos que continuam acompanhando. Beijos no coração e boa leitura! Sion Neblina

Asmita, príncipe de Najah

Capítulo 9

Eu e meu pai liderávamos nosso pequeno exército numa tentativa desesperada de proteger nossa cidade, já que tudo ao redor do castelo tinha sido queimado. Foi uma noite de horror como eu nunca tinha visto na minha curta existência e como eu jamais veria novamente.

Meu pai foi morto primeiro que eu. O grande rei Sohan foi massacrado por aquele homem odioso que chamavam de O chacal. Meu pobre pai era um homem pacífico, não um guerreiro, mas nunca aceitaria esconder-se covardemente ou fugir. Ele disse: Najah é nosso lar e temos que lutar por ela. Todos lutaram. De pobres servos aos sábios e artesãos. Todos queriam preservar aquele lugar de paz e esperança, mas foi em vão contra a horda de demônios vinda do deserto...

Najah pereceu. Minha mãe foi morta e meu irmão havia desaparecido quando eu retornei ao castelo e fui capturado pela horda bárbara. Eu lutei, mas não seria páreo para eles. Ao final, fui jogado com outros corpos para ser queimado na manhã seguinte, enquanto seu povo imundo comemorava estuprando as mulheres de meu pai, inclusive minha mãe. Eu estava ferido, quase morto, mas pensava neles, meu irmão e minha mãe... Shaka... O que seria do meu pequeno e inocente irmão? O que seria dele quando descobrissem quem ele realmente era? Eu soube do plano de meu pai tarde demais para interferir. Agora meu irmão seria morto também, morto como fora Najah e seu povo.

Arrastei-me entre os cadáveres e consegui chegar à saída da cidade, onde acabei sendo salvo por uma caravana que passava. Saberia tempo depois que eram um clã de místicos, oráculos e clarividentes. Eles haviam tido uma visão de que precisavam ir àquele lugar e ao me encontrarem, descobriram o motivo.

Durante todos esses anos, eles me ensinaram um pouco do seu conhecimento místico e astrológico e me ensinaram a ver pelos olhos da alma, já que meus olhos carnais já não enxergam. Sim, os tamudaeis me tiraram a visão, mas queria eu que isso fosse tudo que eles houvessem me tirado.

Ikki permaneceu calado, mirando aquele ser tão parecido com Shaka e ao mesmo tempo tão diferente, que tinha os punhos amarrados e estava sentado sobre os calcanhares. Não duvidava da história de Asmita. Seu rosto era a confirmação da verdade, não havia sombra de dúvidas de que ele fosse irmão de Shaka, mas ainda assim, a companhia do místico o inquietava.

— Entende agora, tamudaei, príncipe tamudaei, por que eu tenho que matá-lo e a todos da sua raça? — indagou o senhor do deserto. — Não posso viver sem vingar minha família, meu povo, minha cidade.

— Compreendo. Mas sinto dizer que já não sou um tamudaei. Há três anos fui expulso do meu clã, banido. Não faço mais parte daquela raça maldita, caro príncipe persa.

O ariano franziu as sobrancelhas como se ponderasse o que ele dizia.

— E por quê? — A pergunta. Ele sabia que aquela resposta traria grandes implicações nas suas decisões futuras. Podia sentir.

— Fui banido por desrespeitar as regras do clã. Tornei-me um mercenário do deserto e me aliei a um grupo de guerreiros que exterminou todos os tamudaeis de Karna. Mas isso é outra história. A grande questão aqui é que não posso libertá-lo, se continuar tentando me matar cada vez que fecho meus olhos.

Asmita sorriu com o canto dos lábios.

— Então por que não me matas?

— Porque tu és irmão de Shaka.

O senhor do deserto não entendeu aquela afirmação. O que ela queria dizer?

— O príncipe ama teu pequeno irmão, caro persa — Aldebaran se adiantou a dizer, sorrindo. — E sinceramente... Agora te olhando, eu até entendo, quero dizer... se a pequena estrela parecer contigo! — riu o saubeu, ficando meio sem jeito com o galanteio não intencional que fazia a um homem; bonito, mas homem!

— Shaka está vivo? — Asmita perguntou a Ikki um pouco sobressaltado. — Onde ele está? O que ele está dizendo? O que fez a meu irmão?

— Contarei. Contarei tudo, meu caro príncipe... — o tamudaei disse com um meio sorriso.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Depois que voltaram à Karna, Ikki e Shaka tornaram-se um pouco diferentes. As palavras e a história de Violet não saíam da mente dos dois. Pareciam palavras de mau agouro, e elas foram capazes de produzir algumas mudanças nos garotos. Era como se de repente eles houvessem amadurecido anos.

Durante algumas noites, Shaka não foi ao quarto do árabe, nem este o procurou no harém. Eles sentiam uma necessidade estranha de ficarem sozinhos. Era como se agora houvessem se dado conta de que a situação não era tão simples e que as coisas poderiam dar erradas. Ikki temia acabar morto como o capitão que amou Violet e tinha medo que Shaka caísse nas mãos de Omã.

Passaram-se três dias distantes, coisa que só mudou quando Omã designou a divisão de Ikki para uma nova empresa. Quando soube que passaria meses sem ver o amigo, o moreno foi buscá-lo no harém para avisá-lo.

— Não sabes quando voltas? — afligiu-se Shaka.

— Não. Dessa vez é para uma terra muito distante. Cruzaremos o mar novamente.

O loiro mordeu os lábios e abraçou o próprio corpo, afastando-se do outro para olhar a escuridão pela janela.

— Ikki... não quero ficar aqui sozinho... Não quero ficar sem você...

O árabe aproximou-se dele e o abraçou por trás, apoiando o queixo no ombro do loiro. Isso o fez perceber que Shaka já não era mais tão pequeno. Ele estava crescendo.

O primeiro ano do jovem persa com os tamudaeis já havia se passado, e agora mais meses se acumulavam. Ikki se tornava um homem mais instruído e ao contrário da sua raça, já sabia ler e escrever bem e portar-se de forma mais contida e elegante e não como um mero animal selvagem, embora possuísse uma selvageria inata que mais seduzia que amedrontava.

Shaka gostava das mudanças do rapaz, mas gostava também daquele jeito livre e selvagem que ele mantinha, e sempre sentia falta dele nos períodos em que o moreno ficava distante. Agora ele dizia que passaria mais tempo longe, justo agora que não era mais inocente, que tinha medo e que duvidava de que tudo terminaria bem de verdade.

— Eu estou com medo, Ikki... — ele confessou. — As coisas que Violet contou... e se-... se Omã gostar de mim, pensando que sou uma garota...? Ele me olha de vez em quando, eu percebo...Olha-me de um jeito... — confessou seus medos.

— Não fales bobagens! Ele não tocará em ti enquanto fores meu — tranquilizou-o o árabe. — Fique com Jamila, sempre com ela. Não ande sozinho pelo castelo, não fique perambulando pelos corredores e nem vá à arena. Por favor, Shaka, eu não estarei aqui para protegê-lo, por favor, me obedeça pelo menos uma vez. — Implorou o árabe. Ele também estava com medo, embora tentasse não demonstrar.

— Eu o obedecerei, eu prometo. — Shaka virou-se nos braços dele e o abraçou com força. Seu coração estava triste e pesado e não apenas pela viagem do moreno, havia coisas que ele nem mesmo saberia explicar.

Beijaram-se longamente, e Ikki partiu. Shaka não tinha medo que ele morresse. Não. Acreditava tanto na força do príncipe árabe que chegava a pensar que ele era como os deuses, invencível e imortal, e isso mantinha sua esperança do retorno do rapaz.

Os dias foram passando de forma lenta. Jamila percebia a tristeza do príncipe, a tristeza do filho do seu grande amor que poderia ser seu filho que não sabia por onde andava, devido à maldade de Surya. Prometeu, entretanto, que não repetiria a maldade da rainha ariana. Cuidaria de Shaka, porque ele era uma criança inocente e porque foi o último pedido de Sohan. Ela percebia que o garoto estava mais retraído, menos alegre do que sempre foi. Shaka crescia e inquietações próprias da nova fase começavam a perturbá-lo.

— O que você tem, ‘Nur’? — Jamila perguntou, afagando de leve os cabelos dourados do menino.

— Sinto falta de Ikki — ele confessou, mirando a lua amarela.

— Só isso? — Indagou a astuta Jamila. — Não quer me contar sobre o misterioso passeio que fizeram a Yatreb?

O loirinho passou a mão nos cabelos de forma desconfortável.

— Conhecemos uma mulher. Uma mulher tamudeia que é meretriz em Yatreb.

Jamila ponderou a informação.

— E por que ela o perturbou?

— Porque o que aconteceu a ela foi muito triste, e eu tenho medo de ficar aqui e ver acontecer comigo ou contigo, Jamila! Precisamos ir embora. Esse povo é mau. Eu vejo a rainha Zahira olhando para ti com ódio, eu sinto os olhos d’O Chacal sobre mim. Eu tenho medo dos tamudaeis! Eu odeio os tamudaeis!

— Shnn... Calma, minha criança! — Jamila o abraçou. — Não vamos deixar nada acontecer contigo, nem eu e nem Ikki. — Ela sorriu. — Depois que o bebê nascer, eu terei mais poder em Karna. Serei mãe de um filho de Omã. Tudo ficará bem, tu verás.

— Senhora! — uma das concubinas entrou nos aposentos da grande esposa, e eles se calaram. Shaka a encarou, e a mulher sorriu para ele. — O Emir pediu para avisá-la que está vindo.

Jamila franziu a testa, olhando a mulher desconfiada.

— E desde quanto sois mensageira do Emir, Shyna? — Irritou-se.

— O guarda não quis incomodá-la e solicitou-me que avisasse, senhora.

— Certo, certo. Shaka, vá para o quarto do príncipe e fique por lá.

— Sim, Jamila.

O menino ergueu-se e saiu dos aposentos da grande esposa, sendo seguido e observado por Shyna que o interpelou no corredor.

— Shaka, não é? — ela indagou, olhando-o de cima a baixo. — A preferida do príncipe.

— O que quer? — volveu o loiro, olhando-a de volta, desconfiado.

— Eu também pertenço ao príncipe — Shyna disse rodeando o rapaz persa como uma serpente faria a um roedor. — Mas ele nunca me procurou... Nunca. O que a ‘princesinha’ persa tem que amarra um guerreiro como Horuk dessa forma?

Shaka moveu os ombros, pueril. Não sabia o que responder.

— Ah, deve ter alguma artimanha! — riu Shyna, curiosa. — É bonita, mas magricela e desengonçada! Conte-me o que faz para seduzi-lo! Há rumores de que ele a desposará na próxima lua nova...

— Ele não pode me desposar, isso não é verdade! — Shaka riu e adiantou-se a dizer. Para sua cabeça ainda um tanto infantil era inconcebível um casamento entre dois homens em Karna.

— Por quê? Não me diga que não deseja tornar-se esposa? — a garota sorriu e se aproximou dele até seu hálito tocar o rosto do rapaz. — Se não quiser, eu aceito de bom grado ocupar seu lugar no leito dele... Ele parece tão feroz... Deve ser um amante maravilhoso... Um macho de verdade...

Shaka sentiu seu estômago revirar e o rosto enrubescer com aquelas palavras. Os olhos verdes malévolos e expressivos de Shyna o interrogavam ardilosos.

— Não tocará nele! — o ariano falou, afastando-se da mulher, olhando-a com raiva. — Não chegue perto dele!

A etrusca riu e pôs as mãos no quadril. — E quem vai me impedir?

Shaka ficou por um tempo sem ação. Pensou, pensou e pensou. Ele era um garoto, não poderia bater numa garota, nunca. Embora vivesse entre os tamudeis, povo que não tinha nenhuma espécie de respeito pelas mulheres, ele aprendeu em Najah que elas mereciam consideração e respeito e não esqueceria os ensinamentos do seu povo. Mas ainda podia ameaçá-la, afinal, ela pensava que ele fosse uma garota.

Mas... Não. Deveria seguir o caminho inverso.

— E por que eu iria querer me tornar esposa do príncipe de um povo que dizimou meu reino? Eu sou um-... Uma princesa — consertou o que diria. — Não sou uma reles prostituta como tu és, Shyna. Deve ser isso o que ele vê em mim! Tu és... Vulgar!Eu sou... sagrada.

— Estás muito segura do teu poder, bela ariana, mas não és a única bela por aqui.

— Sou a única bela que interessa a Ikki — Shaka disse e deu as costas à mulher, caminhando de forma altiva em direção ao quarto do príncipe.

Shyna permaneceu parada, observando-o. — É o que veremos — ela murmurou. Seus planos iniciais eram seduzir Omã, tornar-se a preferida, mas ao conhecer Jamila que era tão formosa e que além disso estava grávida do rei, ela perdeu as esperanças, então se voltou para Ikki. Shaka com certeza seria alguém mais fácil de tirar do seu caminho. Além de ‘magrela’, ‘ela’ parecia uma criança super crescida e não uma mulher. Não precisaria de muito esforço para roubar-lhe o amor do príncipe. Achava.

Shaka voltou para o quarto do árabe e por lá ficou a maior parte do tempo das três luas que Ikki passou distante. Dias de solidão e saudade.

As mulheres eram atenciosas, verdadeiras mães e irmãs, mas ele era um menino e ninguém poderia ser companhia melhor para um menino que outro menino, e isso não havia no castelo, ou melhor, até havia, mas ele não poderia se aproximar deles. Não poderia compartilhar com eles as aventuras que compartilhava com Ikki e assim revelar sua verdadeira identidade. Permanecia vestido até os pés e com o rosto coberto pela odiada máscara negra a maior parte do tempo, e os dias eram longos.

Ele sempre preferia ficar desenhando no quarto, longe de Shyna e de Omã. Jamila o visitava e uma serva sempre lhe levava a comida. De vez em quando, ele ia ao harém e passava as tardes vendo as mulheres dançarem e a barriga de Jamile tornar-se cada vez maior. Logo o bebê chegaria. Elas o chamavam para dançar também, mas ele não gostava. Às vezes cedia para ser gentil, mas não gostava de dançar, achava algo feminino demais e seu orgulho de homem resistia. Ainda era muito imaturo para se despir desses inocentes preconceitos, mas chegaria o dia de não mais se importar.

Era mais uma bela noite de lua cheia quando os guardas informaram que os guerreiros estavam de volta e que as mulheres deveriam estar prontas para seus respectivos senhores. Shaka estava no harém, então correu para o quarto do príncipe, tropeçando na túnica longa que vestia, tamanha sua ansiedade.

Ikki não estava no dormitório, mas ele ouviu o barulho de água no quarto de banho e correu até o moreno, encontrando-o de pé, completamente nu e molhado. O árabe estancou quando o viu, seus olhos se encontraram e sorrisos brincaram nos lábios de ambos. Shaka se atirou nos braços do moreno, sendo recebido com todo o amor contido no peito do guerreiro. Os corações batiam forte de amor e saudade. O corpo menor foi acolhido pelo maior com perfeição. Ikki afundou as mãos em seus cabelos, enquanto aspirava o cheiro dele, estremecendo. Havia sentido tanta falta de Shaka, nem mesmo a batalha, antes sua única diversão, tivera qualquer sabor.

A língua do persa procurou a do árabe, tocando-a com vontade, mas insegurança. No começo tudo era muito calmo e desajeitado, mas logo ambos queriam sentir mais daquela carícia gostosa e úmida. Ikki estreitou Shaka mais nos braços, sentindo o corpo quente. Shaka aprofundou o beijo, puxando a nuca do moreno, para conquistar mais espaço em sua boca, ambos giravam a cabeça à procura do encaixe perfeito.

O árabe puxou o outro para si pela cintura e beijou-lhe o rosto, os olhos, a testa, o nariz, descendo e beijando seus lábios em seguida com paixão, mordendo de leve, sugando os lábios macios e carnudos. Shaka envolveu seu pescoço, correspondendo ao beijo. Ikki desceu as mãos pelo corpo dele e o ergueu pelas pernas, Shaka por instinto trançou as pernas no quadril do moreno enquanto as mãos afagavam a nuca do tamudaei, causando arrepios.

“Nossas peles ardiam, eu sentia todo o seu calor...”

Ikki sentiu seu falo enrijecer ao contato com o corpo do loiro e gemeu com isso. Era instintivo, o corpo dizia o que fazer, já que a mente desconhecia as consequências. Ergueu a túnica longa que Shaka vestia até acima das coxas e tocou a pele quente, massageando a parte interna de leve, fazendo questão de mirar o amado nos olhos, demonstrando toda a força irracional do desejo. Os diamantes azuis estavam escurecidos e cravados nele sem nenhum resquício de pudor ou medo, os lábios entreabertos entre a excitação e a curiosidade.

O garoto tamudaei levou o persa até a cama e logo se deitou sobre o corpo do príncipe de Najah, voltando a devorar seus lábios de forma ainda melhor do que Shaka lhe ensinara. Agora havia o primitivo desejo, como deus pagão, para guiar suas ações. Também já não era totalmente inocente como naquele primeiro beijo, tinha visto muitas coisas naqueles meses de distância do seu amado. Poderia dizer que se tornara realmente um homem. Puxou o corpo menor para si de forma que pudesse ficar entre suas pernas... Olhando o outro nos olhos.

Havia amor, um desejo louco e pouca, muito pouca delicadeza... Não por rudeza propriamente, mas por inexperiência.

Livrou Shaka da calça que era a peça íntima que ele usava, vendo o membro desprotegido agora, rígido, tal qual o seu. Mirou os olhos do amado, curiosos e ao mesmo tempo hesitantes, afastou suas pernas de forma pouco delicada e mergulhou dentro dele em um único e seco golpe, forçando-se a entrar até a metade no corpo menor com força e constantemente, sentindo toda a dificuldade, as barreiras impostas pelo corpo do loiro.

Shaka soltou um grito de dor agonizante e se debateu, tentando afastá-lo com desespero, mordendo o lábio com tanta força que um filete de sangue desceu por seu queixo. Aquilo doía, doía muito e como ele nunca havia imaginado.

Ikki prendeu-lhe os braços sobre a cama para impedi-lo de se debater e mirou seus olhos rasos d’água.

Ambos ficaram imóveis por um tempo, a respiração pesada e ruidosa se encontrando. Ambos estremeciam por motivos distintos; um de prazer e necessidade; outro, de dor.

— Dói? — indagou o moreno, olhando os olhos úmidos do loirinho. Na verdade, ele também sentia certo incômodo, mas não parecia nada perto da dor demonstrada pelo outro. Shaka assentiu com a cabeça.

— Dói... — gemeu. — Muito...

— Q-Quer que eu pare...? — perguntou Ikki, sentindo o corpo se contorcer dolorido de desejo, mas também por se sentir comprimido em um local tão miseravelmente apertado.

— N-Não... — o loiro balbuciou, mas assim que Ikki avançou mais um pouco dentro de dele, gemeu alto, mordendo os lábios para não gritar, fazendo-os sangrarem novamente. Ikki parou de imediato, o coração aos pulos, o desejo feroz que sentia brigando com o cuidado que sempre tivera pelo outro.

— Shaka...? — ele queria algum sinal do loiro para prosseguir.

— Ikki... parece que... você está me rasgando... — o persa fechou os olhos com força. — Está doendo muito... — ele murmurou, e o moreno passou o polegar no lábio ferido do loiro e somente o sutil movimento de se inclinar pra frente, fez o ariano gemer de dor.

— P-Pare!... — ele pediu.

O moreno não pensou duas vezes, rápido, saiu de dentro dele, ouvindo um gemido mais longo deixar os lábios do ariano. Ikki percebeu que, ao sair, o lençol sob o loiro foi manchado de sangue. Arregalou os olhos, sentindo-se culpado e sem saber o que dizer ou fazer. Não entendia o que estava acontecendo, mas aquilo lhe causava uma angústia profunda. Virgens sangravam, mas Shaka era um garoto, o que estava fazendo? Sim, certamente ele era virgem... Mas não era uma garota...E...

Todos esses questionamentos passavam pela mente do tamudaei, mas nada parecia fazer muito sentido. Sim, ele conhecera algumas coisas naqueles meses; Ágora lhe dissera como homens poderiam manter contato sexual uns com os outros; foder, como diziam os guerreiros, mas... Não sabia nada além do básico. Não tinha ideia de que poderia machucar Shaka daquela forma.

— Eu... — todo o desejo que sentia esvaiu-se ao perceber que havia ferido o amigo. Tocou os lábios dele e mirou seu rosto pálido, afastando-se com as mãos na cabeça em sinal de aflição — Desculpe-me!...

O loiro fechou os olhos com força, sentindo dor e uma ardência incômoda.

— Ikki... — murmurou choroso — Dói ...Eu nem consigo me mexer...Eu... Eu desisto, não quero mais foder. Não parece muito bom... agora...

O moreno se afastou mais, procurando as roupas e encontrando uma calça negra que vestiu apressado. Ele olhava para Shaka e para as manchas de sangue nas coxas dele com desespero.

— O que posso fazer? Como posso-... Eu quero ajudá-lo!— dizia de forma atropelada.

Shaka respirou fundo e se moveu na cama, fazendo uma careta de dor.

— Eu vou... me banhar — ergueu-se com dificuldade e foi mancando para a sala de banho. Ikki ficou no quarto, andando de um lado a outro, até que, angustiado, resolveu buscar ajuda na única pessoa que confiava ali.

— Jamila... — o moreno entrou no quarto da mulher, esbaforido, nem prestando atenção se seu pai estava ou não ali, por sorte não estava. — Eu... Eu preciso de sua ajuda...

— O que houve, menino? — indagou a concubina, irritada com toda aquela afobação.

— Eu feri Shaka!

Os olhos verdes da mulher piscaram aturdidos.

— O quê? Como?

Ikki não respondeu, ela o seguiu às pressas em direção ao quarto. Quando eles chegaram, Shaka já estava no quarto, banhado e vestido em uma túnica branca. Ele estava deitado de lado na cama, pensativo... Parecendo muito distante dali...

— ‘Nur’? — Jamila tocou-lhe o ombro, sobressaltando-o.

Shaka arregalou os olhos quando viu Jamila, corando como um pimentão e escondendo o rosto entre as mãos como se a mulher pudesse adivinhar todos seus pensamentos e suas ações. Assim que ouviu a voz dela, o loiro sabia que Ikki a havia chamado ali e não era tão ingênuo a ponto de não sentir vergonha.

— Por que a trouxe aqui?! — ralhou com o árabe, autoritário.

— Você estava sangrando, o que queria que eu fizesse?! — defendeu-se Ikki, preocupado e surpreso com a reação do ariano.

— Não devia ter dito a ela, Ikki, não devia! –— falava Shaka, magoado e irritado.

— Estúpido! Estou preocupado contigo! — devolveu Ikki, e ele continuaram a discussão até que Jamila mandou que os dois se calassem.

A mulher mirou o persa e depois o árabe.

— Podem me dizer o que está acontecendo? Como o feriu, Ikki? Ele não parece ferido — observou, desconfiando do que estava acontecendo naquele quarto. Bem, cedo ou tarde aquilo aconteceria.

O menino moreno coçou os cabelos curtos, ruborizando.

— Ele está sim... Eh... Lá embaixo! — apontou para um ponto específico da túnica do outro.

Jamila franziu a testa.

— Lá embaixo? Por todos os djabs do deserto o que quer dizer com isso? — volveu a mulher, nervosa com toda aquela incerteza.

— É...Estávamos... É... — O moreno gaguejava com o rosto enrubescido, sem conseguir dizer o que queria.

— Fodendo — Shaka respondeu por ele, e Ikki mirou-o com os olhos arregalados e o rosto ainda mais vermelho. Como o loiro podia dizer aquilo daquele jeito para Jamila?

— Como é que é? — a mulher pôs as mãos nos quadris — E quem disse que poderiam fazer isso assim, dessa forma? Deuses! Não percebem que são muito inexperientes? Crianças tolas!

— A culpa foi minha, Jamila — acusou-se Shaka, baixinho, sem olhar para a mulher. — Fui eu quem quis...

— Vocês são homens! Isso não funciona assim...

— Sabemos! Não sabíamos que isso aconteceria! Foi o beijo, a culpa é do beijo! — falou o tamudaei nervoso, passando as mãos nos cabelos escuros. — A culpa é mesmo sua, Shaka! Foi você quem inventou essa história de beijo e de foder! Agora deu nisso! — acusou como uma criança delata um amiguinho faceiro.

— O beijo... — Jamila repetiu, incrédula — e por que raios vocês não vieram falar comigo? Shaka, por que não me perguntou como isso poderia acontecer? Isso evitaria que se machucasse!

Encarou o garoto severamente, mas ele continuou escondido atrás das mãos.

— Olha pra mim!

— Não! Tenho vergonha! — murmurou o loirinho, teimoso.

A mulher se sentou ao seu lado, impaciente, virando o corpo magro do menino para si.

— Não teve vergonha de abrir as pernas para Ikki, agora olhe pra mim!

O rapaz negou com a cabeça e se encolheu, gemendo com o gesto. Ikki se agachou ao seu lado na cama e acarinhou-lhe o ombro.

— Deixe Jamila te ajudar, ‘Albi’. Está machucado e a culpa é minha, desculpe... A culpa não foi sua, foi minha. — O moreno beijou várias vezes o rosto claro do loiro, não se importando mais com a presença da concubina, deixando Jamila bestificada e comovida ao mesmo tempo. Aqueles garotos se amavam de verdade. Amavam-se de uma forma única e ainda inocente. Mas o que aconteceria quando descobrissem que a bela concubina do príncipe era na verdade um belo rapazinho?

Percebia que logo Shaka seria um homem completo, a aparência andrógina da infância cedia lugar a um corpo masculino bem proporcionado, ombros levemente largos, quadril estreito, um peito que começava a se definir. O rosto ainda era de anjo, mas já começava a ter certa delineação masculina na linha do queixo e testa. Aquele segredo não seria segredo por muito tempo, precisava dar um jeito de tirá-lo de Karna antes que fosse tarde demais.

— E agora isso! — bufou a mulher. — Ikki, vá até o meu quarto e pegue um baú de veludo vermelho sob minha cama, vá agora!

O menino moreno correu dali, e Jamila acarinhou os cabelos suados do loiro.

— ‘Nur’, olhe para mim... — pediu com extremo carinho, e Shaka baixou as mãos do rosto lentamente. — Do que tem tanta vergonha?

— Não sei...

— Escute, Shaka. Amar nunca é vergonhoso, e vocês se amam não se amam?

O menino assentiu com a cabeça, mais confiante.

— Não é errado o que fizemos? — perguntou, agora olhando para mulher com seus grandes olhos azuis muito abertos.

— Não é errado o que fizeram. Só deveriam ter mais cuidado. Você acabou machucado. — disse Jamila — Afinal sabe o que estavam fazendo?

— Sim... Fodendo — ele respondeu, pueril como quem sabe muito do que fala.

— Ah, certo, certo. Mas sabe as consequências disso?Sabe que é algo que o separa da infância completamente? Que vai mudá-lo, amadurecê-lo?

O loirinho balançou a cabeça negando. Não entendia as palavras de Jamila. A mulher sorriu e afagou o rosto dele.

— Eu sei que nessa idade o desejo é indomável, já tive irmãos com esse mesmo tipo de desejo.

— Desejo? Como assim, desejo, Jamila? — Shaka perguntou, ajeitando-se na cama, a dor já havia diminuído e agora ele estava novamente curioso.

— Ah, por Nubus! Você não entende de nada, é uma criança! E o outro foi criado apenas para matar! Também não sabe de nada! — Riu, mas sentia-se preocupada.

— Mas o que deveríamos saber? — Shaka agora estava curioso, curioso demais.

— Tem que saber que no sexo deve haver alguns cuidados. Mas conversaremos sobre isso quando estiver melhor — sentenciou a mulher ao tempo em que Ikki voltava ao quarto com o baú. — E até lá, nada de foder, ouviram bem? E nada de beijos! Use esse unguento, isso o fará se sentir melhor. — Entregou o baú para o loiro.

— Obrigado, Jamila.

— Cuide dele — ela disse a Ikki, antes de sair.

O moreno se sentou ao lado do loiro em silêncio e com uma expressão frustrada.

— Quer ajuda? — ele perguntou, sem encarar o amigo.

— Não. Já estou bem — Shaka respondeu e segurou a mão do moreno, entrelaçando os dedos com os dele. — Ei, não foi sua culpa. — Percebia os sentimentos que habitavam o coração do moreno. Conseguia reconhecer até o mínimo franzir das sobrancelhas dele.

— Claro que foi, eu fui... Eu... Um animal! — baixou o olhar, envergonhado.

— Foi sem querer — Shaka sorriu. — Por que não toma um banho e vem deitar aqui comigo? Está ficando frio.

Ikki assentiu com a cabeça, se ergueu e foi para a sala de banhos. Shaka suspirou, aspirando o cheiro bom do lençol que havia acabado de trocar.

“Não deu certo dessa vez, mas quem sabe na próxima?” Pensou e riu de si mesmo. Ikki nunca mais iria querer tocá-lo, tinha certeza.

— Nós dois cumprimos as recomendações de Jamila como se recebêssemos ordens de um general. Demorou muito para que o desejo nos subjugasse novamente. Paramos até mesmo com os beijos, afinal eles eram os catalisadores de todo o resto. Ficamos com medo por um tempo e nos sentíamos meio culpados e envergonhados.

Mu ria daquela história, com as faces avermelhadas.

— Realmente não sabiam que sexo entre homens poderia machucar se não tivessem cuidado? — o jovem egípcio perguntou como quem tem grande autoridade no assunto.

Shaka estreitou os olhos.

— Queres me convencer que já és um perito, jovem-faraó? — debochou.

— Não! — o adolescente corou mais. — Mas é uma prática comum aqui, então todos sabem dos cuidados para que o sexo seja prazeroso e não doloroso. No templo de Kart ita há várias pinturas a respeito disso, qualquer criança pode ver.

— Povo estranho — resmungou Shaka. — Bem, eu só fui saber o que era sexo em Karna, aos 15 anos, e não foi uma experiência muito agradável.

— A primeira... — Mu completou, sorrindo e desviando o olhar, sem jeito. Shaka riu mais alto e deu uma chave de pescoço no príncipe, dando um murro fraco na sua cabeça.

— Sim, a primeira!

— Mas a segunda, terceira, quarta, quinta...? — perguntava Mu, rindo sem parar.

— Isso não interessa a príncipes enxeridos! — Divertia-se Shaka, fingindo apertar o pescoço do mais novo que ria sem parar.

— Solte-me, eu juro que não pergunto mais! — Rendeu-se Mu, e o persa o libertou.

Só nesse momento, eles perceberam que já não estavam sozinhos. Mu logo se pôs numa posição ereta e séria, e Shaka pigarreou. Ambos usavam somente uma saia presas com nós ao redor da cintura, como era costumeiramente a roupa cotidiana do quente Egito, tendo apenas uma pequena tanga como peça íntima.

— Não sabia que receberia visitas importantes, caso soubesse, estaria vestido mais apropriadamente. — Shaka falou com sua imponência característica. Não entendia o que aquele homem fazia no seu jardim, já que era recomendado a todos que passassem bem longe da área do castelo destinada ao nunefer. Saga era um soberano ciumento e desconfiado. O persa se sentiu exposto. Não vestia nenhuma das suas máscaras naquele momento em que foi surpreendido. Nem sequer usava maquiagem ou joias. Naquele momento, falando com Mu sobre seu passado, ele voltara a ser apenas Shaka, não o nunefer do grande faraó, não o sacerdote de Háthor, e isso o deixava vulnerável.

Hades sorriu. Não estava ali a tempo suficiente para ouvir a conversa entre o príncipe e o cortesão, mas ver a intimidade que os dois dispunham foi algo extremamente interessante e seria muito proveitoso para seus planos futuros.

— Desculpe-me, jovem sacerdote. Eu ouvi o riso quando vinha pelo corredor e era tão contagiante que não resisti à curiosidade de saber a quem ele pertencia.

— Eu já estou de saída, governador — falou Mu, sério. — Não há necessidade de meu pai saber que eu estive aqui...

— Nem mais uma palavra, Mu — Shaka o interrompeu e sorriu provocador. — Não faço nada às costas de Faraó. Ele sabe que estás aqui comigo, sempre soube de tuas visitas, então não temas.

— Oh, sim, sim, claro. Eu acredito. Aioros é zeloso suficiente para não permitir que qualquer coisa aconteça às costas de Faraó — volveu Hades com um sorriso conciliatório. — Bem, estava apenas à procura de Aioros. Como já sei a quem pertenciam esses risos de alegria tão contagiantes, estou de saída, continuem a agradável conversa.

O governador deu as costas aos dois e sumiu por trás da cortina vermelha. Shaka ficou um tempo parado, mirando o local por onde o homem saiu.

— Não confie nele, Mu. Nunca.

— Eu não confio — disse o mais jovem. — Mas agora preciso ir. A comitiva deve retornar e eu tenho que está pronto para o banquete.

— Vá — Shaka concordou, e príncipe egípcio assentiu e também deixou a alcova do nunefer.

O ariano mordeu os lábios. Algo nos olhos de Hades o alertava de que o governador planejava algo. Sabia que fez uma manobra arriscada, mas aquela era sua única chance de um dia conseguir sair do Egito. Agora teria que arcar com as consequências e, se preciso, enfrentar aquele homem perigoso.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Obrigada a todos que leram, em especial os que comentaram, fazendo uma autora feliz! Beijos e até a próxima! Sion Neblina Postado em 02/02/2014