A serpente e a estrela
10 O rei dos Ifrits - Side Story
Notas iniciais

O rei dos Ifrits
O amor é o único capaz de aplacar a fúria de um imortal...
Side Story
Conta a lenda que o deserto de Quim’ziQ foi um oásis guardado por um clã benigno de Ifrits, o clã conhecido como Shamadan. O deserto nessa época era chamado de Qamar Halewa, um lugar de delícias e bondade. Era uma época em que homens e ifrits conviviam pacificamente. Viajantes procuravam as águas suaves de Qamar Halewa para aplacar a sede, e o líder do shamadan os recebia com dignidade e respeito. Dizem que muitos homens deixavam oferendas a ele, o reverenciando como verdadeira divindade.
Essa paz reinou por muito tempo até que, como sempre acontece nas histórias, houve uma traição. Uma perfídia tão cruel que foi capaz de provocar uma guerra letal entre os clãs ifrits, que praticamente exterminou essa raça e culminou com o ódio mortal dessa espécie aos homens, e dos homens pelos ifrits.
— Então a traição partiu de um homem? – Ikki perguntou a Asmita, que cavalgava ao seu lado. Durante a noite, ele havia contado resumidamente sua história e convencido o persa de que realmente buscava por Shaka. Ao menos ele achava que agora, o loiro não tentaria mais matá-lo durante o sono.
— Sim. O líder dos efrits confiava bastante em um servo humano de nome Agoy. Agoy era o braço direito do rei, seu representante entre os reis humanos, a pessoa em quem confiaria sua própria vida.
Este rei possuía um consorte, um guerreiro que era o líder de outro clã. Esse homem, o consorte real, era o líder de um clã que seguia rígidas regras de conduta e lealdade ao shamadan. Letal e altivo, mas alguém diferente do restante do seu clã, os Siysmins, muito austero e frio. Esse homem possuía chamas dentro de si, dizem. Era letal em combate, mas de uma leveza e beleza difíceis de imaginar. Dizem que ele era o único a tirar sorrisos do rosto sempre frio do líder do shamadan, e essa amizade especial perpetuou o pacto de lealdade entre os clãs Siysmins e Shamadan por anos.
— Todos sabiam do romance? Isso era normal na cultura deles? – Indagou Aldebaran curioso.
— Sim. Eles não eram regidos pelas leis morais da Arábia. Poderiam ter o amante que quisessem, vários amantes se quisessem. Mas eles escolheram serem fiéis um ao outro.
— E o que aconteceu? – o saubeu mostrou-se curioso.
— Esse poderoso rei possuía um grande amigo. Um jovem e bom guerreiro que o admirava profundamente e o estava sempre seguindo. Era uma espécie de escudeiro do grande soberano e este tinha por ele grande afeto. Pela proximidade com o líder do Shamadan, o jovem acabou se tornando também grande amigo do amante do rei, chegando a tornarem-se companheiros inseparáveis. Passavam muito tempo juntos, pois o líder dos Shamadan era um ifrit ocupado com as obrigações de um soberano. Isso foi o suficiente para que Agoy, o humano que desejava tornar-se ifrit e amante do rei, espalhasse uma terrível perfídia dentro do clã. Nunca houve a certeza, nunca se viu nada que condenasse os dois guerreiros, mas a dúvida foi o suficiente para que alguns generais e ministros considerassem o ato do líder do clã aliado e do jovem escudeiro algo abominável e passível de punição.
Eles exigiram que o soberano agisse, e o rei perturbou-se. Não sabia em quem acreditar, mas sob a influência de Agoy, ele resolveu, justo que era, que a corte deveria julgar os dois “criminosos”. Agoy plantou provas falsas de que o líder do clã aliado tencionava depor o Shamadan e assumir o poder em Qamar Halewa. O reino se dividiu entre aqueles que acreditavam na lealdade dos Siysmins e aqueles que acreditavam em Agoy. O Siysmins achou amoral e afrontoso tal julgamento e abandonou o pacto de lealdade ao Shamadan. Logo uma guerra foi iniciada.
O amante do rei líder de clã tentou evitar a guerra. Alguns dizem que ele ofereceu-se a morte para que a paz continuasse, mas nenhum dos dois lado quiseram seu sacrifício, o Siysmins porque o amava, e o Shamadan porque não queria torná-lo um mártir. Os clãs se dividiram; alguns apoiavam o Siysmins, outros o Shamadan. A guerra duraria séculos.
A guerra só terminou quando poucos restavam de ambos os lados e só então se descobriu a mentira de Agoy. Ele confessou enquanto agonizava sob o pé do amante do rei. Mas era tarde, Qamar Halewa estava destruído. Dizem que o sangue de humanos e ifrits foram derramados de tal forma que tornaram a areia vermelha e envenenou as quedas d’água, secando-as. Assim Qamar Halewa passou a se chamar Quim’ziQ, deserto vermelho ou deserto de sangue.
— E desde então nenhum olho mortal mirou um ifrit novamente – completou o saubeu, pensativo. – Triste história. Dizem que agora eles se escondem nas cavernas desse enorme deserto. Será verdade ou apenas lendas?
— Lendas. – Ikki posicionou-se. – Não creio que guerreiros temíveis como os ifrits, se existissem, aceitariam ficar escondidos em cavernas. Esses seres não existem.
— Eu conheci um homem que viveu esses tempos – disse Asmita, calmamente.
— Pelo que se conta isso aconteceu há mais de 600 anos – riu Aldebaran, mas calou-se ao mirar o rosto sério do guia.
— Sim, eu sei. – Asmita respondeu somente.
Os três chegaram à parte mais difícil do trajeto, os estreitos desfiladeiros das colinas de Mustaf, o lugar intransponível que separava a Arábia e as águas da Mesopotâmia.
— É uma subida difícil – disse o persa. – Devemos seguir em silêncio e devagar. O lugar é habitado.
— Deixe-me adivinhar... Ifrits? – o príncipe sorriu de lado.
— Talvez seja aqui que o grande rei ifrit escondeu seu povo. É um povo místico, quase anjos, quase demônios, podem estar à nossa frente sem que os vejamos. – Falou Asmita, atento.
— Teus olhos espirituais poderiam vê-los se aqui estivessem? – Ikki indagou, encarando o rosto bonito do príncipe de Najah com um sorriso de troça.
— Talvez. Assim como posso ver o sarcasmo em tuas palavras, bravo tamudaei – Asmita disse seco. – Mesmo não podendo vê-lo com olhos naturais.
Aldebaran sondou o ambiente com seus ouvidos atentos. Nenhum som, nem mesmo um piar de pássaro. Aquilo era muito estranho, estranho demais.
— E se eles existirem e quiserem nos matar, o que poderemos fazer? – ele quis saber, preocupado.
— Rezar aos deuses, saubeu. Rezar aos deuses. – Falou Asmita.
Ikki cavalgava ao lado dele, calado. Na noite anterior ouvira a história do príncipe persa, e ele também ouvira a sua. Parecia que haviam entrado em consenso de que pelo menos seriam aliados até encontrarem Shaka. Todavia, o árabe não podia negar que a presença do ariano o perturbava de forma estranha. Ele era muito parecido com o irmão, embora também houvesse grande diferença entre os dois. Asmita possuía um tom de voz mais áspero, indiferente e cáustico, bem diferente de Shaka. Embora cego, a percepção do herdeiro do trono de Najah era espantosa e muitas vezes naquele breve contato entre eles, o moreno duvidou de que o jovem fosse mesmo cego. Asmita parecia olhar diretamente em seus olhos muitas vezes e ver nele o que nenhum olho mortal seria capaz de ver realmente.
“Possuo olhos espirituais que veem além do físico”, ele explicava como conseguia perceber um roedor do deserto há metros de distância, mesmo sem enxergar.
O tamudaei sentia os pensamentos revezados entre crer e não crer na capacidade do jovem loiro. Aquilo era estranho, pois Ikki, mesmo tendo crescido entre a trevosa superstição do seu povo, era terrivelmente cético.
— Parem. – Asmita exigiu. À sua frente havia um portal, um portal invisível entre as rochas, que os jogariam diretamente em um reino perdido. – Não podemos prosseguir por aqui...
— Não há outro caminho – Ikki argumentou, franzindo as sobrancelhas, os lábios movendo-se atrás do tecido que os protegia. – Temos que passar por aí.
— Não estamos sozinhos, tamudaei, confie em mim. – Asmita disse atento, sentindo as sutis vibrações na pele. – Há uma poderosa força ancestral nesse lugar.
— Como é que...
Antes que Aldebaran pudesse completar a pergunta, o chão se abriu e todos despencaram para dentro da montanha que se tornou um redemoinho de areia antes do portal se fechar e tudo voltar à quietude do deserto.
“Quem ousa adentrar os domínios dos efrits?” a voz alta e suave falou de forma melodiosa em meio à areia e as chamas que envolvia os viajantes. Eles tentavam se agarrar a qualquer coisa, mas estavam no meio de uma tempestade de areia e fogo.
Ikki viu-se perdido, tentando manter-se sobre o cavalo e fechando os olhos incompetentes em ver qualquer coisa no meio daquela tempestade de areia.
“Dissipe mung’gah wehi” Asmita ordenou e imediatamente as areias serenaram, e eles se viram em um oásis perdido no meio das rochas da montanha de Mustaf.
— Quem ousa adentrar o lar do último efrit da Arábia?! – a voz imperiosa, e suave como uma melodia rodeou os viajantes novamente.
Ikki ergueu sua saif, o cavalo se agitou amedrontado, medo que o príncipe tamudaei não possuía.
— Sou Ikki Haruk Kaddar, príncipe de Karna e mercenário do deserto! E digo, espírito, eu atravessarei esta montanha, mesmo que seja a última coisa que faça em vida!
Após as palavras do príncipe, as rochas ao redor do oásis começaram a se descolar da cordilheira.
— Ousas desafiar o rei dos efrits? O que move tua insolência, mortal?!
A voz melodiosa continuou o diálogo, enquanto os humanos protegiam-se das pedras que eram atiradas sobre eles com violência.
— O amor! O amor é o que me move! Efrit, e por ele sobreviverei até mesmo a ti! Apareça, demônio! – disse o príncipe, enquanto escapava das pedras que rolavam.
De repente, todas as rochas se fizeram pó e tudo serenou novamente naquele oásis.
— Amor? – a voz do espírito pareceu vacilar e extinguiu-se num queixume, deixando tudo num silêncio vago como a imensidão do céu.
— Parece que acabou – volveu Aldebaran, ainda olhando para cima, esperando um novo deslizamento, mas tudo se fez silêncio.
O silêncio estendeu-se durante muito tempo, e eles puderam ouvir o cantar da cachoeira e o farfalhar das palmeiras daquele oásis místico, perdido em algum lugar das colinas rochosas de Mustaf. Em fim, levaram os cavalos até uma nascente para beber água e ousaram lavar os próprios rostos e reabastecer os cantis nas águas límpidas onde grandes peixes nadavam sem medo da aproximação humana.
— Que lugar esplendido, onde será que estamos? – Aldebaran indagou curioso, olhando ao redor.
— Ao que parece, é o lar do último ifrit da Arábia – Asmita disse e então sentiu uma poderosa energia se aproximar e segurou o cabo da sua adaga.
— Não temam – a voz melodiosa surgiu, agora de forma natural, aproximando-se junto com o vulto que surgia de uma das cavernas que cercavam o oásis. – Sejam bem vindos, viajantes, ao Oásis do Shamadan, o último refúgio dos efrits da Arábia.
Os viajantes miraram pasmado o ser espectral que lhes falava, mas à medida que ele se aproximava, seu corpo ganhava consistência e ele ficava cada vez mais parecido com um humano.
Ikki desceu do cavalo, acompanhado por Aldebaran e Asmita.
— Quem és tu? – ele perguntou sem tirar os olhos das chamas rubras que eram o olhar do efrit. Era um ser impressionante, o corpo era humano, alvo como as nuvens, como se nunca houvesse sido tocado pelo sol, mas ele possuía garras longas e asas vermelhas e gigantescas como seus olhos e cabelos. Também possuía caninos pronunciados que foram expostos pelo sorriso desdenhoso que o demônio lançou ao tamudaei, e chifres meios curvos entre os fios vermelhos e brilhantes. A pele dos braços e ombros eram marcadas por vivazes símbolos os quais somente Asmita sabia o que significava. Sua expressão era plácida e, ao mesmo tempo, ele trazia em si uma ferocidade primitiva.
— Tu invades meu lar e quer que eu diga meu nome? Que tal começares a apresentar-me teus amigos, Ikki Horuk Kaddar, príncipe de Karna?
O jovem árabe empertigou, mas achou justo.
— Esse é Aldebaran, o saubeu, e este é Asmita, príncipe de Najah. Precisamos atravessar seu oásis para chegarmos à Babilônia de Hamurabi.
— Por causa do amor? – o ser indagou, os olhos rubros brilhando numa curiosidade profunda.
— Eu procuro por alguém. Alguém que me foi tirado. – Ikki falou, os olhos azuis presos às chamas do olhar do ifrit. – Pode me ajudar?
— Eu também procurei... – ele disse com certa tristeza. – Procurei por anos dentro da minha eternidade, mas foi em vão... Ele está morto, e eu condenado a viver eternamente nessas montanhas por meu erro...
— Então... você é...?
— Chamo-me Kamus Tzinkezzu, senhor do shamadan...
— O rei ifrit! – O saubeu exclamou, pálido.
— Um dia eu fui. Um dia eu fui quando havia efrits. Eu sou o último da minha linhagem e espero o momento de minha morte honrada para me juntar aos espíritos dos meus ancestrais. Por enquanto, eu guardo a última nascente de Qamar Halewa e ficarei aqui até envelhecer e morrer. Ao contrário do que os humanos pensam, os ifrits não são importais, contudo, nossa vida é tão longa que possivelmente eras se passem até que a minha se extinga.
— Está esperando que alguém o mate? – Ikki indagou confuso.
— Um rei ifrit não pode sucumbi a fraqueza da dor e da solidão tirando a própria vida. – Asmita explicou tranquilamente. – Ele espera uma batalha, alguém que queira tomar a nascente e que o mate. Mas é necessário que ele lute com honra e não somente se deixe morrer.
O demônio sorriu, assentindo com a cabeça.
— Por isso entristece-me saber que não vieram tomar a nascente. Outros vieram, mas nenhum se mostrou digno de me derrotar.
— Kamus Tzinkezzu, eu peço que nos ajude. – Ikki curvou-se em respeito àquele ser. – Caso o faça, uma grande batalha o espera e terás a honra de morrer em combate e juntar-se aos seus ancestrais.
— Qual batalha, Tamudaei? – O ifrit ergueu uma sobrancelha.
— Preciso adentrar o território babilônico, rompendo a linha de soldados das suas fronteiras. Hamurabi é conhecido por sua engenhosidade militar e sei que em algum momento teremos um conflito. Junte-se a nós e poderá realizar seu desejo.
— Não posso deixar o oásis. Eu sou o último guardião de Qamar Halewa.
— Qamar Halewa está seguro. Ninguém conseguirá encontrá-lo enterrado nessas montanhas. Siga-nos e tenha a morte honrosa que deseja.
O ser do deserto hesitou. Estava há milênios enterrado naquela montanha, morto em vida. Esperando o dia em que lhe fosse permitido morrer. Chegara a hora, aquele era o presságio.
— Eu irei. – Ele disse e repentinamente o ifrits sofreu uma pequena metamorfose. As unhas se retraíram tornando unhas humanas, assim como as asas e os caninos e seus olhos antes rubro tornou-se um tom acastanhado, mas os cabelos permaneceram vermelhos como o sangue.
— Deuses, isso é incrível... – Aldebaran murmurou, observando o belo homem a sua frente. A feição feroz tornou-se delicada, mas a pele manteve o mesmo viço e brancura. Kamus agora se assemelhava a um rapaz de não mais que 20 anos e a ferocidade ifrit cedeu a uma expressão suave, mas ainda fria como o metal.
— Só posso estar com vocês até a fronteira. Lá, nos separaremos para sempre. – Disse o imortal. – Voltarei a ocupar as ruínas de Qamar Halewa. Essa é a minha missão até que morra. Não é permitido que eu me vá.
— E como desejas morrer? – Indagou o saubeu curioso.
— Pela violência da espada. É isso que busco ao acompanhá-los. Agora tamudaei, senhor das terras vermelhas de Karna, diga-me o que procura no degradante solo babilônico; tu, ao que parece, o último de tua linhagem?
Os olhos escuros do tamudaei encararam as chamas rubras do olhar do ifrit.
— Procuro uma estrela.
O ifrit sorriu. – Logo o céu estará cheio delas, não precisas ir tão longe para encontrar isso.
Ikki sorriu meio triste.
— Só uma estrela me interessa.
— Então vamos encontrá-la. – Dito isso, ele abriu suas grandes asas vermelhas e sobrevoou o deserto como um falcão, voltando em seguida ao solo e novamente retraindo suas asas.
— Podemos ir. Eu preciso apenas vestir-me adequadamente. – Falou Kamus, que naquele momento vestia apenas uma calça justa negra. Ele voltou alguns segundos depois, vestido uma roupa justa de couro e metal e carregando uma espada. – Creio que seja necessário dizer que quanto mais tempo eu passar em forma humana, mais humano eis de me tornar. É necessário que retorne logo à nascente de Qamar Halewa.
— A fronteira não é tão distante. – Disse Asmita e estendeu-lhe a mão, oferecendo carona em seu cavalo. Kamus subiu no animal, e o persa se dirigiu diretamente a ele.
— Conte-nos sua história. É realmente verdade que uma guerra por amor destruiu Qamar Halewa?
— Não uma guerra por amor, uma guerra por ciúmes. Uma guerra por uma mentira.
— Ele nunca lhe foi infiel.
— Eles nunca foram. E hoje sou o último da minha espécie e só desejo descansar. Não posso consertar meus erros, mas posso melhorar minha penitência. Há milênios uma sacerdotisa profetizou que esse momento chegaria. O momento em que eu teria a missão de ajudar um jovem com o coração cheio de amor a encontrar o ser amado. Ela disse que todos os meus erros seriam expiados nesse momento.
— Então por que hesitou? – Asmita indagou com indiferença.
O ifrit sorriu com o canto dos lábios.
— Príncipe persa..., embora tua alma abrigue muito conhecimento sobre as coisas profundas da existência, teu coração ainda duvida e tua alma arde no fel da vingança. Teus mestres místicos já o advertiram sobre isso: a falta de perdão em teu ser poderá ser a tua ruína, jovem príncipe herdeiro do trono de Najah.
A voz sussurrada e tranquila do ifrit lhe causava um mal-estar que Asmita não estava acostumado. Sabia que assim como ele, aqueles seres viam além das aparências e conseguiam ler a alma de um homem.
— Perdão – Asmita repetiu com um curvar amargo dos lábios. – Durante anos eu tento achar a essência do verdadeiro perdão. Ainda não consegui.
— Num momento crucial, isso lhe será pedido, jovem príncipe.
— E quanto a ti, Ifrit, conseguiste o perdão daqueles a quem traíste?
— Meu amado me perdoou antes do seu último suspiro, e ele virá buscar-me quando este corpo frágil perecer, e viveremos para além das montanhas de Gaza, nos campos felizes.
Asmita calou-se por um tempo, resoluto. – É isso que buscas? – indagou finalmente.
— Foi somente o que busquei durante os 600 anos em que vivi só. – Kamus respondeu.
Ikki ergueu uma mão e fez os companheiros estancarem com seus cavalos.
— Um grupo de Hulagu – o tamudaei advertiu.
O clã Hulagu era um grupo de mercenários e traficantes de escravos que se esgueiravam pelas fronteiras, fazendo prisioneiros para vários impérios. Pela localização dos seus homens, Ikki tinha certeza de que ele estava servindo ao grande império babilônico, resguardando suas fronteiras, e não deixaria ninguém passar.
— Vamos recuar, tentaremos passar à noite.
Eles recuaram para trás das cordilheiras e montaram acampamento. O Ifrit mirou o céu.
— Então, por amor, o líder do Shamadan perdeu seu império. – Aldebaran disse. Estava curioso a respeito daquele ser místico. Fosse sincero e diria que estava fascinado por Kamus de uma forma um tanto apaixonada.
O ifrit mirou o saubeu que estava sentado à sua frente, as chamas de uma fogueira entre os dois, tornava o aspecto de Kamus ainda mais celestial.
— Eu quis evitar a guerra, mas mesmo um rei ifrit precisa respeitar as tradições e os conselhos de anciões. Ao final, a guerra foi declarada e Qamar Halewa destruída. Eu nunca mais veria Milo.
— Milo?
— Ele era para mim o que os mortais chamam de esposo. Meu companheiro no leito e no campo de batalha. Meu amigo e meu ministro. E é a ele que me unirei quando esse corpo for aniquilado.
— Acreditas mesmo nisso? Desculpe, mas... Essa história me deixa confuso. Deuses, demônios, espíritos do deserto, isso tudo me faz temer. – Confessou o saubeu, e Kamus sorriu.
— Tu não tens medo. Não tens medo nem mesmo de confessar coisas que qualquer outro homem teria, caro saubeu.
— Estás enganado – Aldebaran apontou para Ikki que estava sentado sozinho, do outro lado da sombra da cordilheira e mirava Asmita de uma forma profunda, analítica, como se quisesse saber quem de fato era o herdeiro do trono de Najah. –Vês como ele mira o tal mago? Tenho medo que meu amigo enlouqueça com essa obsessão de encontrar a tal estrela que não é nada mais que um homem!
— Não é nada mais que a pessoa que ele ama. E isso é tudo. Nada mais que tudo. – O ifrit sorriu e encarou os olhos castanhos do loiro. – Tu também encontrarás teu grande amor, Aldebaran, o touro da Sabbah.
— Creio que não! – riu o gigante, sem jeito, passando as mãos na trança longa que usava. – Já tive tempo para isso e o desperdicei.
— E eu digo que antes dessa viagem terminar, encontrarás a pessoa que conquistará teu coração.
Aldebaran respirou fundo e riu um pouco, pegando o cantil de uma bebida fermentada à com al cóhol, uma especiaria que conseguiu no litoral.
— E se nada nos esperar depois daqui, Kamus? – o saubeu continuou, curioso e um tanto melancólico. – Eu gostaria de acreditar que após tantas guerras e tanta dor, uma era de paz nos espera após a morte, mas para homens que viveram a guerra é difícil acreditar nisso.
— Nada é tão simples, saubeu. Para nós, Ifrits, os campos felizes são o que nos espera após a morte, isso se cumprimos nossa missão na terra. Caso não, voltaremos em outras formas até encontrarmos a plenitude.
— Então podem voltar em forma de animais ou coisas asquerosas? – Aldebaran perguntou com uma careta de asco que fez Camus rir.
O guerreiro se perdeu um pouco no sorriso do Ifrit. Kamus era um ser fascinante, um estágio entre o demoníaco e o divino, que perturbaria qualquer um que mirasse as chamas vermelhas dos seus olhos, e mesmo para homens que já viram muito, como o saubeu, era difícil não parecer um pouco bestificado diante dele.
— Sim, podemos, dependendo do que fizermos em vida – o ifrit disse e seus olhos de fogo fitaram o saubeu por um tempo. – O sol está se pondo, meu poder é maior à noite. Os ajudarei a cruzar a fronteira, passando pelo Hulagu, sem luta, e voltarei para o que sobrou de Qamar Halewa. Cuidar do oásis é minha missão. Não posso ir muito longe.
— Missão perpétua? – Aldebaran indagou condoído.
— Até que o reencontre num momento de fogo. – O rei ifrit disse, mirando as estrelas no céu. – Um oráculo disse que minha vida findaria quando o reencontrasse... Findaria junto a dele. Seria nosso único momento de ciclo e então nossas almas caminhariam para a eternidade sem volta. Não sei quando isso acontecerá, mas acontecerá um dia, nesse século ou em outros.
O saubeu sorriu e virou-se para mirar a primeira estrela da noite do deserto.
— Eu gostaria de vê-lo novamente, Kamus. Gostaria de ouvir histórias de outras Eras. Quem sabe numa época mais feliz?
O ifrit virou-se para o saubeu e retirou do peito um cordão rústico decorado por uma pedra vermelha.
— Quando precisares, toque na pedra e eu o encontrarei. Se estiveres em grande perigo, eu o ajudarei.
O saubeu assentiu com a cabeça. Ikki e Asmita se aproximaram já prontos para a partida. Kamus os guiaria pelo meio do hulagu em total invisibilidade.
O rei ifrit utilizou seu poder místico para isso, fascinando os viajantes, sobretudo, Asmita, que mesmo sendo versado na magia, nunca tinha presenciado nada parecido. Os mercenários não conseguiam vê-los, mesmo que eles passassem há alguns metros de tropas e tropas hulagus.
Atravessaram a fronteira e só depois que estavam para além das montanhas de Mustaf, o ifrit os deixou visíveis novamente.
— Nos despedimos aqui, viajantes – ele disse e mirou Ikki nos olhos. – Que os deuses te ajude a encontrar tua estrela – ele falou e retirou mais uma dos colares que tinha no pescoço. – Este é para ti, caso precises, invoque-me. Eu o ajudarei. Ajudar-te-ei em nome do amor.
O príncipe tamudaei levou a mão ao peito e curvou-se respeitosamente.
— Serei sempre grato, meu amigo.
Kamus assentiu com a cabeça, lançando seu último olhar a Asmita.
— E a ti, mago...
— Eu não preciso de presentes, meu senhor – o ariano o interrompeu com um sorriso cordial. – Eu já sei. Eu já sei.
— Maktub, Allahi afoutn’s passastet— Kamus disse e curvou-se em respeito a Asmita, discípulo de Alkkar, o último grande alquimista humano.
Asmita levou a mão ao peito em respeito ao grande ifrit, então Kamus lançou um último olhar a Aldebaran, antes de erguer as mãos e transformar-se num ser gigantesco de fogo, que fez os viajantes afastarem-se para se proteger do calor.
As chamas fez um grande clarão surgir na noite da Mesopotâmia e depois se extinguiu dando lugar a um céu cravejado de estrelas esplendorosas.
Ikki respirou fundo e mirou a abobada celeste, melancólico, mas decidido. Amores surgiam e desapareciam nas areias do deserto. Guerras separavam amantes e amaldiçoavam seres poderosos. Entretanto não permitiria que sua história terminasse dessa forma. Não. Ele insistiria, encontraria sua estrela, encontraria seu amor, mesmo que para isso, tivesse que desafiar o mundo.
“Eu estou indo, meu amor, não me esqueça.” Prometeu, vendo os olhos de Shaka naquele amontoado de estrelas. E então seguiu seu caminho.
Allahi afoutn’s passastet – Que sua jornada seja suave.
Qamar Halewa – Lua doce
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