Notas iniciais
Dedicatória: A Álefe uma amiga muito querida que tanto tem me ajudado no processo dessa fic e por ontem ter sido seu aniversário. Linda, infelizmente minha net caiu e eu não pude entregar esse capítulo para ti em tempo hábil, mas aqui está meu presente, mesmo que um tanto atrasado. Meus mais sinceros votos de felicidade e muitos e muitos anos de uma vida repleta de realizações. Te adoro!Agradecimentos: Como sempre a minha irmã de alma Vagabond pelo incentivo para que eu postasse. Amiga, você faz muito a diferença. Danieru, Lithachan, MayaAmamiya, Rosemary e Kitty pela empolgação via facebook o que me incentivou a postar também. NOTAS DA FIC:Entre a Mesopotâmia e o Mar Cáspio, localiza-se o Planalto do Irã. Apesar de ser, em boa parte, uma região desértica e marcada por bruscas elevações, a área foi ocupada, por volta de 2000 a.C., por povos "indo-europeus", originários do Planalto do Cáucaso. Esses povos árias dividiam-se em medos, que se estabeleceram no norte, e persas, fixados no sul. A união das duas nações gerou uma das maiores potências da Antiguidade Oriental: o Império Persa. O que tentarei fazer nessa fic é criar um encontro fantasioso entre esse povo, os árias com o mundo egípcio, seus deuses e crenças, passando pelo mundo árabe antes do advento do Islã. A titulo de enriquecer a fic, como sempre faço, esboçarei curiosidades culturais vistas em minhas pesquisas, mas não as encarem como relatos históricos, pois tudo aqui escrito é ficcional e a função da fanfiction é apenas entreter. EGITO, BABILÔNIA, KARNA, NAJAH escritas aqui SÃO DE MINHA AUTORIA, ou seja, pertencem ao meu imaginário e são FANTASIOSAS. Colocarei informações adicionais no meu blog: http://yaoifictions.blogspot.com.brSpoilers dos capítulos, videos, fanarts e muita coisa referente à fic, então seria bom conferir (já tem coisa lá).Não tenho Beta, então perdoem possíveis erros.Boa leitura e espero que gostem dessa minha nova aventura!Sion

“Par de olhos tão profundos que amarram as pessoas que fitar”

Ao contrário dos beduínos do deserto, ele gostava de andar a cavalo. Gostava da velocidade que o animal proporcionava, da liberdade. Era um nômade do litoral do mar de Arábia, um aventureiro e um assassino.

Nasceu para matar, não tinha dúvidas, e fazia isso sem nenhum remorso. Aprendeu tal ofício desde a infância e não tinha nenhum temor de fazê-lo; foi-lhe ensinado que o mundo era dos fortes e que forte deveria ser. E era isso que o homem que seguia com o rosto envolto em tecido, que o protegia dos perigosos raios solares do deserto, fazia: era forte, um sobrevivente.

Parou seu cavalo perto de uma tenda de couro de cabra, que balançava ao vento do pôr-do-sol. Estava próximo ao oásis de Al-Hasa, mas não teria tempo de chegar até ele. Começava a ficar frio e sabia que não resistiria a uma noite ao relento. As noites do deserto eram cruéis com os viajantes.

A salamo a-leikom! — Gritou para o dono da tenda, que saía para recepcioná-lo.

O beduíno de longa barba negra e turbante cumprimentou o viajante com a cabeça.

A leikom es salâm! Marhaba, Ikki — disse. — Sucesso em sua busca?

La. — Resmungou o viajante, sentando-se sobre o pequeno tapete de pelo de cabra. — Estou perdendo as esperanças, Zahid. Minhas pistas terminaram em Mahakki, agora preciso seguir a direção oposta, à Babilônia.

O beduíno pegou seu narguile* e puxou a fumaça, sentando-se de frente ao jovem.

— Então por que não me contas como essa história toda começou? Como começaste tua busca pela estrela? Nunca falastes nada. Na verdade, falas deveras pouco.

Ikki ponderou nas palavras do amigo.

— É uma longa história que talvez não te pareça bela — falou o jovem de pele curtida de sol.

— Sou um homem velho e prometo não ficar espantado, jovem Ikki. Compartilhes teus segredos comigo e talvez em minhas andanças, eu possa encontrar uma Estrela no horizonte e dizer-lhe que uma Serpente a busca em desalentado desespero.

O jovem sorriu de canto e mirou as chamas que crepitavam na fogueira.

— E se acaso eu disser que essa estrela é um homem?

O velho beduíno encarou-o sem demonstrar nenhuma surpresa ou inquietação.

— Um homem fascinante o suficiente para que o persigas durante três longos anos, abdicando de riquezas e prazeres, que sei já conquistaste? Sim, eu quero conhecer a história desse homem!

O mercenário atiçou as chamas por um tempo, seus olhos brilhavam como elas, mas eram chamas negras e inquietas.

— Então eu contarei a história de dois homens completamente diferentes, mesmo que ambos fossem considerados príncipes. Contarei como me tornei escravo de um par de olhos.

— Olhos?

— Sim, olhos de estrelas. Dois diamantes azuis...

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

O clã da Serpente Negra era o mais temível dos clãs tamudaeis, em meio a outros igualmente temíveis. As aldeias que sofriam seus ataques, noturnos e letais, diziam que eles se igualavam às serpentes do deserto: rápidas, silenciosas e mortais.

O líder do clã se chamava Omã Amadub Kadar, conhecido e temido como O Chacal. Quando essa história começa, esse letal assassino havia acabado de completar 35 anos e já possuía algo em torno de oito filhos. O mais velho era Ikki Horuk Kadar, de 14 anos, um adolescente robusto, ágil e um assassino tão letal quanto seu pai. Ikki, apesar da pouca idade, já liderava saques há várias vilas e povoados, sempre acompanhado por membros mais velhos do clã, o que muito orgulhava seu sanguinário progenitor.

O jovem tamudaei sentia um grande orgulho sempre que pintava a serpente negra do lado esquerdo do rosto e partia para o combate. Os ataques não tinham intenções políticas, eram feitos apenas para saquear e adquirir escravos para venda. O clã da serpente negra era uma tribo guerreira, selvagem e violenta, que fazia Mesopotâmia e Arábia tremerem de pavor, e o jovem gostava disso.

Inicialmente, a violência e a morte o assustavam, mas depois de presenciá-las tanto e de tantas formas, tornou-se indiferente às dores causadas por seu povo. Matar era natural; tão natural quanto estuprar e vender seus espólios de guerra. Assim era a cultura tamudeia. Isso foi tudo que o jovem aprendeu na vida: matar, ser cruel, viver o momento, as orgias de sangue e sexo que se seguiam a cada conquista. Apesar de não participar delas, ele as via como uma rotina normal da sua cultura. Assim, o príncipe tamudaei foi moldado.

O povo Tamudaei não possuía instrução formal. Nem mesmo príncipes como Ikki aprenderia a ler. Não eram criados para as letras, nem as artes, e sim para a guerra. Tal qual Esparta, as crianças tamudeias eram tiradas das mães muito cedo e levadas para o treinamento militar. Não havia escolas e nem filósofos, apenas feiticeiros e oráculos. Era uma cultura mergulhada em trevas e ignorância, em que só se respeitava a força, o aço da espada ou do machado e as maldições.

Do outro lado dessa história, existia um reino pequeno e próspero às margens do Tigre. Uma pequena cidade governada por um rei jovem e bondoso. Na cidade de Najah, a arte e a música eram o principal prazer, e as pessoas viviam com conforto e alegria. A colheita era sempre farta e há séculos não havia seca. As moções do Tigre sempre eram esperadas e nunca provocavam grandes destruições.

O rei de Najah se chamava Sohan Devraj Vishwamitra. Ele era casado com a bela Surya, uma ariana de cabelos claros como o sol e olhos azuis, muitas vezes, venerada como deusa por viajantes que chegavam à cidade. O casal possuía dois filhos: Asmita, o primogênito e herdeiro do trono, um jovem disciplinado e religioso, e Shaka, que possuía apenas 14 anos nessa época.

Os príncipes eram a felicidade do reino, que os via como deuses devido à formosura, inteligência e bondade. Também eram a felicidade da casa real. Asmita era um guerreiro excepcional e um ministro sempre disposto a defender os interesses de Najah. Shaka ainda era muito jovem e não participava de questões políticas. Ele nasceu e cresceu cercado de todo o cuidado e mimo que alguém pode ter. Descobriu cedo o segredo da escrita e do desenho, assim como noções de arquitetura, engenharia e dos manuais sagrados do seu povo, os Vedas. Sabia falar muitos idiomas, tendo sido educado por mestres de várias partes do mundo. O pequeno príncipe dominava várias artes, mas não conhecia nada fora o que lhe era ensinado pelos sábios.

Ao contrário do jovem tamudaei, que vivia de saques e conhecia o mundo, o menino de Najah vivia recluso em seu castelo e nada conhecia além do que seus olhos alcançavam no horizonte alaranjado que via das janelas. Ele era feliz, afinal, não se pode cobiçar o que nunca se conheceu, e acreditava que sua bela cidade era tudo o que precisava. Nunca reclamava, nunca proferia palavras ásperas. Apesar do seu ar distante e altivo, era sempre agradável e respeitoso com todas as pessoas. Gostava de música e de ensinar as línguas diferentes que aprendia às crianças, que sempre o visitavam no castelo. Conhecia a milenar técnica de meditação: "Se um homem sábio mantém seu corpo com suas três partes retas, o peito, o colo e a cabeça, e dirige seus sentidos junto com a mente até o coração, então o barco de Brahmán cruzará todas as torrentes que provocam o medo." Era um exímio conhecedor do yoga sutra e sempre praticava. E era nos momentos logo após sua meditação que a mente do jovem voava e alcançava lugares nunca vistos por ele, terras estranhas e fascinantes, o que era suficiente para acalmar sua alma filósofa.

Shaka Devraj Vishwamitra. Ikki Horuk Kadar.

Essas duas vidas nunca se encontrariam se os clãs tamudaeis não dirigissem seus olhos cobiçosos para a prosperidade de Najah. Como sempre, eles espreitaram a cidade por meses ou anos. Sabiam que era um local de riqueza e comércio constante e que ali havia um rio fértil, algo muito cobiçado por todos os povos. Sabiam também que Najah não era uma cidade militarizada e que contava somente com a ajuda dos exércitos dos seus aliados comerciais, como a Síria, do outro lado do Eufrates.

O clã de assassinos esperou o momento oportuno e chegou à cidade na calada da noite, iniciando um sangrento massacre. “Eram como víboras negras correndo nas areias do deserto”. Alguns sobreviventes relatariam sobre a noite horrenda em que a pequena e próspera Najah caiu.

Shaka dormia em sua cama incrustada de rubis, quando seus pais adentraram correndo em sua alcova, esvoaçando as cortinas coloridas do dossel.

— Shaka, levanta-te! Não temos muito tempo! — disse-lhe o pai, nervoso, e sua mãe o puxava da cama e lhe entregava alguns tecidos.

O jovem mirou as peças de roupas sem entender, ainda confundido pelo sono.

— Vista-te nisto. Somente assim poderás ser salvo — ordenou o rei. — Surya esconda-lhe o rosto e vai-te com ele para o harém... Quero que fujas com Shaka assim que o dia se fizer claro.

— Sohan... — a mulher balbuciou, chorando.

— Amada, se eles conseguirem adentrar o castelo, somente o harém será poupado. Esconda-te e a Shaka e, depois, quando eles estiverem comemorando a vitória, fujam pelo deserto. Essa é a ordem. Vai até a vila de Niger e procures um homem chamado Dohko. Asmita e eu iremos buscá-los assim que possível. Sei que é uma manobra desesperada, Albi, mas é a única forma de sobreviverem. A cidade está cercada, e nesse momento não há uma rota de fuga. Vamos rezar para que Brahmán nos proteja e a Najah.

Surya balançou a cabeça positivamente, e chorou, e se maldisse. O rei mirou os olhos azuis do filho mais novo. Percebeu o quanto Shaka estava apavorado, mas se mantinha firme. Ele era forte, ele sobreviveria.

Nur, proteja tua mãe e a ti mesmo. Teu irmão é um bravo guerreiro e irá resgatá-los. Eu também lutarei e logo nossa cidade estará livre.

Ab... — Murmurou Shaka e abraçou o progenitor com força — Prometo cuidar de maa...

Pyar, Patni... — disse o homem e saiu rápido.

Shaka viu o pai desaparecer pela porta oval, sentindo medo como nunca sentiu.

— Vamos, filho! — ordenou Surya, tentando recuperar-se da dor. Ainda tinha esperanças que ao final daquela noite funesta, Najah saísse vitoriosa. Mas até que isso acontecesse, seguiria seu dever de esposa e obedeceria a Sohan.

O harém do rei era um local estranho ao príncipe. Nunca fora permitida sua ida àquele local. Em Najah, Shaka nada mais era que uma criança com a idade de 14 anos e, sendo assim, totalmente ignorante sobre sexo, coisa que só teria conhecimento aos 16 anos, pelas mãos de um mentor que o iniciaria nas artes sexuais — Kamasutram — e aí sim, ele poderia frequentar o harém ou qualquer outro local destinado a adultos.

O príncipe estava surpreso ao ver-se cercado por tantas mulheres bonitas, só não entendia por que tinha que se vestir como elas. Aquilo não estava sendo confortável. Entendia que era uma forma de proteger-se dos invasores sanguinários, mas o que queria mesmo era ficar ao lado do seu pai e não cercado de mulheres chorosas e apavoradas.

Maa, deixe-me sair daqui, eu quero ficar com meu pai, com os homens! — pediu, desesperado.

Surya segurou seu rosto entre as mãos.

Nur, tu não tens treinamento militar, ainda és uma criança...

Um grande estrondo foi ouvido. Gritos e barulho de luta. As mulheres esconderam-se. Suriya encarou o filho nos olhos:

— Shaka, teu pai e teu irmão... estão mortos. Sohan e Asmita só deixariam quem quer que fosse adentrar o portal do castelo se estivessem mortos!

Não houve lágrimas, só estarrecimento no rosto do garoto. Algumas concubinas se aproximaram da criança e o afagaram, comovidas. Todas gostavam muito do caridoso e generoso rei.

— Cubram-lhe os ombros com um xale, são um tanto largos, podem chamar atenção — disse uma bela mulher, que parecia ser uma das mais velhas do local.

Shaka encarou seus imensos e belos olhos verdes delineados com Kohl, o que os tornava maiores e mais brilhantes. Seus cabelos eram longos e lisos, de uma tonalidade diferente, um tanto arroxeados, e belos, e ela vestia insinuante vestido da cor dos seus olhos. Só tempos depois, o príncipe descobriria que a mulher que lhe salvara a vida naquele momento era a amante favorita do seu pai, e que o rei lhe havia pedido pessoalmente para que o protegesse e à sua mãe.

A mulher, Jamila, vestiu-o e disfarçou sua masculinidade, levando-o para que se escondesse atrás das concubinas, pensando assim, que o jovem passaria despercebido pelos guerreiros árabes e teria uma chance de fugir ao amanhecer. A mulher camuflou seu gênero, o que não foi difícil, levando em conta que ele possuía traços delicados e apenas 14 anos. Ainda assim, Shaka já era relativamente alto para sua idade.

Jamila sorriu, enquanto sombreava os olhos do garoto com o Kohl.

— Teus olhos parecem estrelas, menino. Tão profundos que encantam quem quer que os mire. Falou, fascinada.

Surya, ciumenta, saiu de onde estava e puxou o filho para si.

— Deixe-o! Eu cuido do meu filho!

Jamila sorriu com ironia.

— Assim como cuidaste do meu? Lembre-te, Surya, aqui não és mais uma rainha, logo os tamudaeis chegarão e para eles não serás mais que uma meretriz.

A loira engoliu em seco. Seria mais que desonroso para uma rainha ser tratada como uma serva sexual; preferia honrosamente tirar a própria vida.

— O que são tamudaeis? — Indagou Shaka, curioso.

A preferida do rei se apiedou do menino. Ele era inocente, e ela não colocaria suas desavenças com a rainha acima do pedido de Sohan.

— São cruéis assassinos, Nur... — sorriu com carinho, utilizando o apelido que o amado tantas vezes dera ao filho, quando falava sobre ele. — Tentarei protegeste e à tua mãe até o nascer do sol, depois disso, devem fugir. Se eles descobrirem que tu és um homem, o matarão como devem ter feito a todos.

— Ele é só uma criança! — gritou Surya, caindo em prantos — Não é justo.

— Nada é justo nessa vida. — Suspirou Jamila.

Shaka encolheu-se nos braços da mãe. Realmente não passava de uma criança assustada. Ouviu-se brados que ressoavam tal qual trovões e sentiu-se o cheiro de sangue que sempre precedia à horda tamudeia.

O grande portal se abriu, expondo o oásis particular e o harém do rei Sohan. O numeroso grupo árabe apareceu. Todos vestiam negro e exibiam o desenho de uma serpente, que começava sobre o olho esquerdo e seguia até o queixo, terminando no início do pescoço. A pintura destacava os olhos dos invasores, a maioria claro, entre o violeta e o azul escuro.

Por um tempo, eles apenas examinaram o oásis e as mulheres até que aquele que parecia ser o líder falou:

— Levem-nas para as carroças de escravos. Venderemo-nas na primeira parada. Darão um ótimo preço.

— Senhor, será que não poderíamos aproveitá-las por esta noite? Como soldo de guerra? — um dos soldados solicitou, fazendo o líder rir.

— Claro que sim, afinal, estamos em um harém, não há virgens a serem preservadas, aproveitem a noite, mas não estraguem a mercadoria!

Houve risos e urros, os homens começaram a escolher entre as várias e diferentes mulheres. A família real continuava protegida em um canto escondido do local. Surya abraçava o filho fortemente, mas isso não evitou que um dos tamudaeis se encantasse pelos olhos do garoto. O menino foi puxado bruscamente dos braços da mãe por um homem forte e grandalhão que o segurou com violência pelos cabelos longos.

— Não! Não! — gritou a rainha, puxando o filho para si — Deixe-o, deixe-o!

Jamila, que assistia a tudo, envolveu-se, puxando a rainha pelo braço e com uma bofetada a jogando sentada em uma almofada.

— Cala-te! Queres morrer? — Advertiu e aproximou-se do soldado que continuava machucando o braço do jovem.

— Por favor, senhor, leve-me contigo esta noite, deixe... esta mocinha insossa aos cuidados da mãe — implorou.

— Não — negou o homem. — Seus olhos me encantaram e eu a quero!

— Não, não, ele não! — continuava a chorar a rainha, desesperada. O menino não esboçava reação, apenas olhava de um para o outro sem nada entender e com medo. Embora mantivesse a postura altiva e desafiadora.

Jamila estava desesperando-se. Mirou o líder tamudaei, que parecia muito satisfeito em tomar posse de “peças” tão raras. Então ela correu e prostrou-se aos seus pés.

— Senhor, peço piedade por aquela virgem! — disse de joelhos.

Fez-se silêncio no harém. Omã puxou Jamila com violência pelos cabelos, fazendo-a gemer e erguer-se.

— Considera-me tolo, mulher? O que uma virgem faria em um harém?

— Ela foi trazida por seu pai como forma de protegê-la! Eu não minto! Ainda não conheceu nenhum homem, o senhor conseguirá um ótimo preço se a mantiver assim! — ela gemeu à medida que o homem apertava o puxão em seus cabelos.

Jamila sabia que se descobrissem que Shaka era um garoto, ela estaria morta, todos eles. Mas não podia fazer nada além de arriscar. O líder tamudaei a soltou com violência e ela caiu ao chão. Shaka se libertou das mãos do soldado e a amparou, quase caindo ao tentar andar com aquelas roupas estranhas.

— Nunca mais ouses me dirigir a palavra, concubina, faça isso novamente e eu a mato! — Advertiu o líder. — Mas terei piedade por tua boa vontade com esta criança. Ikki venha aqui!

O menino tamudaei saiu do meio da tropa. Apesar de contar apenas 14 anos, parecia um homem feito, era alto, forte, mas um resquício de inocência ainda brilhava em seu olhar.

Omã o mirou. Já era o momento de tornar o filho um homem completo e aquela era a situação apropriada para isso. Em todos os seus saques e invasões, nunca vira escravas tão belas quanto às mulheres do harém de Najah. Pensava que o melhor seria levar algumas delas para seu próprio harém e vender somente as que não o interessasse. Além disso, o filho merecia um presente por seus feitos.

— Este é meu filho, futuro líder do meu clã. — Falou Omã, mirando Jamila. Gostara dela, admirava a coragem, embora não fosse admitir isso. — Ele também é virgem, nunca esteve com uma mulher até esta noite. Esta mocinha irá com ele. Será ele a decidir seu destino. Se ela o agradar, servi-lo-á para sempre em nosso harém, se não, será vendida como escrava depois que ele a possuir.

Surya quase desmaiou ao ouvir tais palavras. Jamila sentiu os olhos úmidos. Nada do que planejara dera certo.

— Meu senhor...

— Nem mais uma palavra, mulher! — Ordenou O Chacal e voltou-se para o filho — Leve-a para onde quiseres e a tome. Será o teu rito de passagem para a vida adulta definitivamente. Traga-me uma prova de que a conheceste e mostre ao clã. A partir daí, ela será tua e somente tua, se quiseres.

Shaka continuava ereto, tenso, agora olhando para todos de forma confusa. Sua mãe gritava em desespero e logo um homem a segurava com força e a arrastava para longe. Ele tentou segui-la, mas quando esboçou reação, foi agarrado por Ikki pela cintura e afastado do local em direção aos fundos do castelo.

Maa! — ele gritou, estendendo a mão, desesperado, mas não conseguia se libertar do rapaz que o arrastava.

— Shaka! — ela gritou em desespero, mas foi golpeada no rosto para que calasse a boca.

O garoto Tamudaei pegou o príncipe de Najah pelo braço, sem nem mesmo olhar em seu rosto, e o levou pelo meio da multidão, sob os urros do clã e os apelos desesperados das mulheres. No seu íntimo, Ikki não sabia exatamente o que fazer. Embora tenha visto muitas vezes os homens fodendo como animais pelos cantos, tudo aquilo para ele ainda era estranho. Mas se era um desejo de Omã, ele, como fiel soldado, cumpriria.

O garoto loiro estava envolto em um véu azul que escondia parcialmente seu rosto. Ikki seguiu com Shaka para um quarto afastado e vazio. Até aquele momento, ele não havia olhado para o menino de quem apertava o pulso sem nenhuma delicadeza. Shaka deixou-se levar até que eles chegaram à ala dos servos.

Quando o garoto moreno soltou-lhe o braço, o príncipe continuou parado no mesmo lugar. Não sabia o que fazer e nem o que pensar. Via-se em um vórtice de medo, dor e frustração. Da imensa janela, via-se a madrugada esplendorosa com as nuances de rosa e laranja. O garoto tamudaei virou-se bruscamente e arrancou o véu que cobria o rosto do menino loiro. Shaka entreabriu os lábios, surpreso, mas Ikki nada fez, ficou apenas admirando-o, encantado. Seus olhos não deixavam os diamantes azuis à sua frente...

— Era como se houvesse um encantamento — Ikki explicou ao beduíno, enquanto bebia do seu cantil. Seus olhos continuavam fixos nas chamas da fogueira. — Meus olhos se prenderam aos dele numa estranha contemplação, algo místico, e depois daquela noite, eu nunca mais seria o mesmo homem.

O mais velho passou a mão na barba rude com um brilho emocionado nos olhos escuros e já um tanto baços pela idade.

— O amor nasce das formas mais diversas, meu jovem. — Disse o homem. — Já vivi tempo demais para duvidar disso. Alguns corações estão predestinados...

— Então por que o perdi? — Indagou o mercenário num sussurro distante, enquanto contemplava as chamas. Era como se ali pudesse ver o futuro.

— Não posso responder isso. A vida tem caminhos diferentes e difíceis para a maioria dos homens. O remédio contra tempo ruim é ser paciente com ele.

— Já se passaram três anos...

O beduíno sorriu de lado e voltou a fumar seu cachimbo. Ikki voltou a mergulhar no passado enquanto contava sua história...

O tamudaei não conseguia parar de mirar os diamantes azuis que eram os olhos do príncipe de Najah. Estava fascinado. Nunca na vida, um olhar, um rosto, o fascinara tanto.

— Tu és linda... — Murmurou e ergueu a mão para tocar a pele macia da face branca de Shaka, que não fugiu, continuou encarando-o nos olhos. Era como se imãs poderosos os obrigassem a mirar o olhar do outro.

Um mistério, uma predestinação.

Um encontro, um reconhecimento...

— Serás minha? — Insistiu Ikki de forma doce e vacilante, sem parar de contemplá-lo.

Shaka mordeu o lábio inferior e declarou sem nenhum resquício de medo, mirando nos olhos do seu salvador ou seu algoz.

— Eu sou um homem.


A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم



Notas finais
Qualquer expressão que não for entendida, por favor, perguntem no review que eu farei questão de esclarecer. Estou tentando me organizar e terminar as fanfictions com postagens mais antiga, mas isso não significa que essa ficará muito tempo sem atualizar, mas também não nego que o tempo tem seus próprios métodos e não posso dominá-lo.Obrigada a todos que leram e comentam, agradeço aqueles que leram mesmo em silêncio e não puderam comentar, mas saliento que, podendo, é sempre bom para os autores ter um feedback do que está escrevendo, se está bom, se pode ser melhorado, etc. Reviews são muito estimulantes, recomendações também e eu espero que realmente venha a merecê-los. ^__^Beijos a todos vocês e até a próxima postagem!Sion Neblina