A serpente e a estrela

2 De príncipe a escravo


Notas iniciais
Olá gente linda! Bem, eu só tenho a agradecer os 23 reviews e as duas recomendações já no primeiro capítulo! Maravilhosos e lindos, MUITO OBRIGADA DE CORAÇÃO PELA ACOLHIDA. Sério! Fiquei muito feliz! Obrigada a: Álefe e Vagabond pelas recomendações e reviews, e a: Cici, Mermaid love, With, Rosemary,Lord Bol, Mitchan Amamiya, Park JoonYong, Vanessa Braga da Silva, Hanajima, Mililika, ddkcarolina, guima, Crush Girl, PollyWeasley,Kao, Maya Amamiya, Marianne, takanorix, Franciane, Bia Yuuji e bondofflames pelos preciosos comentários! Espero que esse capítulo corresponda a todo o carinho de vocês. Como sempre, peço que perdoem possíveis erros, não foi betado. GLOSSÁRIO, TRECHOS, HISTÓRIAS E CURIOSIDADES ESTÃO NO LINK ABAIXO: http://yaoifictions.blogspot.com.br/ É só copiar! Acompanhe o blog, ele sempre trará alguma curiosidade que tem a ver com a fic! Obs. Imagem do final não me pertence, é de um mangá e foi uma cortesia da Álefe à história - obrigada linda! - não tem fins lucrativos! Um superabraço a todos e uma ótima leitura! Sion Neblina

De príncipe a escravo, de escravo

Capítulo 2

— Eu sou um homem. — Essa foi a ingênua declaração do príncipe de Najah.

Ikki piscou os longos e negros cílios e franziu a testa. Shaka ficou parado da forma que estava, não moveu um músculo sequer. Esperou pacientemente que aquele menino selvagem sacasse a espada e o matasse, mas o garoto árabe continuava parado, encarando-o curioso.

— Tu tens cara de menina! — Disse o tamudaei. — Se és mesmo um homem, o que fazias num harém de mulheres?

O persa sentiu medo de dizer a verdade e arriscar sua vida e a da mãe, por isso calou-se. Se alguém tivesse de morrer, que fosse ele e não sua pobre mãe.

— Eu... fugi para lá quando... chegaram... — Mentiu, mas Ikki apesar de menino ainda, também era um guerreiro astuto.

— Então fazes parte da família real? Alguém mandou que te escondesses no harém, não foi? Acaso és o jovem filho do marajá? — sondou como faria um chacal.

— Sim. — Shaka encarou os olhos escuros do outro garoto sem medo. Talvez por ver no inimigo algo ainda da infância, não sentia medo. Na verdade, sentia grande curiosidade a respeito do rapaz e algo estranho que ele não conseguia identificar ainda. Seu coração batia tão forte que o incomodava.

Ikki sorriu, encarando-o. Um sorriso estranho que o persa não soube decifrar. Anos depois, ele saberia que era um sorriso sapeca. Sorriso de criança que quer aprontar brincadeiras de criança. E os dois saberiam identificar cada expressão facial do outro.

— Se meu pai descobrir, irá matá-lo. — Declarou o guerreiro árabe.

— Tu contarás a ele? — Shaka indagou, ainda encarando os olhos do moreno.

A pergunta era tão ingênua que confundia o jovem guerreiro. Ele não poderia mentir ao senhor de Karna, mas algo nele não queria entregar aquela “rara peça” nas mãos do Emir.

O garoto moreno sorriu um sorrisinho malvado e balançou a cabeça negando. Shaka sentiu um grande alívio e uma estranha sensação de reconhecimento. Era como se aquele garoto estivesse consigo por toda vida.

— E o que farás? Deixar-me-á fugir? Tenho que ir, eu e minha mãe! — Pediu aflito. — Tu sabes do meu pai e do meu irmão? Eles ainda estão vivos? — E Shaka fazia um amontoado de perguntas nervosas, enquanto o jovem moreno apenas o olhava com visível fascínio e curiosidade.

— Calma, chede. Não deixarei que nada de ruim aconteça contigo.

Shaka mordeu o lábio inferior, confuso, e seus olhos se encontraram com os do outro menino, selando uma promessa estranha de um estranho elo entre eles.

— E por quê? — Interrogou o persa, incerto. Eles mataram tudo no caminho, por que o poupariam?

O moreno não respondeu, empurrou o loiro na cama.

— Tira a roupa... — a declaração foi seca e natural.

— Como?

— Tira a roupa, és surdo? — Insistiu o tamudaei, sem delicadeza.

O menino najariano franziu as sobrancelhas e cruzou os braços.

— Não! — negou, empinando o narizinho como a mais petulante das crianças.

O garoto árabe bufou.

— Não é um pedido é uma ordem! Tu agora és meu escravo!

Seus olhos se encontraram mais uma vez na penumbra do quarto. Shaka não teve muita opção ao receber aquele olhar. Tirou a túnica longa que usava e o saiote que vestia por cima da peça íntima masculina que ia até os seus joelhos.

Ikki ajoelhou-se na cama e sacou um punhal que estava preso à sua perna. Shaka sobressaltou-se, mas o moreno logo tratou de acalmá-lo.

— Não vou machucá-lo. — Declarou.

— O que fará? — Volveu o príncipe de Najah com a voz falha.

O moreno não respondeu, desceu a faca, fazendo um pequeno corte na perna do loiro, que soltou um grito, mais de susto que de dor. O sangue escorreu pelo lençol e pela calça fina que Shaka vestia, formando uma mancha em ambos. Foi um corte pequeno, mas profundo o suficiente para que o sangue escorresse por sua perna.

A tribo dos tamudeus ou tamudaeis possuía uma peculiaridade que talvez a tornasse ainda mais perigosa: seus guerreiros eram capazes de farejar como verdadeiros chacais e diziam possuir a capacidade de conhecer um homem apenas pelo odor do seu sangue ou suor. Ikki, um garoto de 14 anos, acreditava nisso.

— Foi só para não sujar tuas roupas. Creia, o meu sangue não serviria. Sabias que cada sangue tem um odor diferente? — Explicou Ikki. — Pode se vestir.

Shaka o obedeceu com uma careta de dor. Ikki tirou a facha da sua cintura e amarrou o ferimento do garoto loiro.

— Por que feriste minha perna? — Indagou Shaka, sentando-se na cama e tentando limpar o sangue que descia por sua coxa.

O moreno sorriu de canto e mirou o loiro como se debochasse de sua ignorância.

— As virgens sangram. Tu disseste que era virgem. Meu pai precisa acreditar nisso.

Shaka franziu o cenho, continuando sem nada entender.

— Sangram por quê? — interrogou, curioso.

Pacientemente, o outro menino sentou-se ao seu lado.

— Sangram quando vão foder, oras! ignorante! — Ikki moveu os ombros de forma infantil, finalmente parecendo um garoto de 14 anos.

— O que é foder? — Insistiu o loiro, curioso e irritado com a ofensa.

Ikki levantou-se da cama e bufou.

— Sabes, tu és muito burro! — reclamou, porque ainda não sabia como era foder e não poderia explicar detalhes, embora houvesse visto toda espécie de perversão. O que ocorria era que o jovem árabe geralmente passava ao largo das festas do seu clã e embora fosse um assassino hábil, preferia a introspecção após as vitórias às orgias de sexo e sangue promovidas por Omã. Também não se sentia confortável em falar daquele assunto com “aquele menino estrangeiro com cara de menina”.

Shaka mordeu o lábio inferior, irritado.

— E tu és muito mal-educado! — resmungou.

“Era algo totalmente estranho. Estávamos no meio de uma guerra. A cidade saqueada, seus homens mortos ou escravizados, mas nos tratávamos como amigos de brincadeiras. Shaka parecia até mesmo esquecer que agora era um prisioneiro, um escravo, e que seu pai e seu irmão provavelmente estavam mortos.”

O garoto tamudaei ficou calado, mirando o outro. Estava curioso a respeito daquele menino que possuía olhos de estrela. Naquela época, ele achava que era curiosidade, não imaginava que fosse algo diferente, mas gostou realmente do loiro, independente de ele ser um menino ou uma menina, e ficaria com ele.

— Venha comigo...

— Pode me ajudar a fugir com minha mãe? — Pediu Shaka, aflito. — Meu pai nos encontrará, eu só preciso fugir com ela daqui.

Ikki pensou por alguns instantes, ajudá-lo a fugir não era bem sua intenção, mas poderia ajudar a tal mãe a fugir se aquilo fizesse o garoto feliz.

“Pergunte-me por que eu queria fazê-lo feliz? Não sei, não sei até hoje e também gostaria de entender. Pergunte-me por que o amei assim que o olhei? Respondo que nem mesmo sabia o que era esse tal amor que vim a sentir tão profundamente por aquele menino. Em Karna, amor, lealdade e amizade não existiam. Tudo de humano que aprendi na vida, devo a ele.”

— Tudo bem, meu clã não precisa mesmo de mais escravos. Eu os ajudo... Venha... — concordou o árabe. — Mas vamos esperar o amanhecer. Ouves? É melhor não sairmos daqui agora.

Shaka realmente ouvia, apavorado, os gritos das mulheres e os urros animalescos dos homens. Eram sons bizarros e estridentes. Não eram os ruídos de prazer de uma orgia e sim gritos desesperados por socorro, vindo das belas concubinas que eram estupradas das formas mais selvagens e degradantes possíveis.

— Minha mãe está lá! — gritou Shaka, tentando passar pelo árabe, mas o garoto tamudaei colocou-se à sua frente como uma muralha.

— Se passares, terás o mesmo destino que todas elas, isso se não for morto antes, quando descobrirem que tu és um homem — disse Ikki com frieza. — Queres mesmo ir?

— Eu tenho que salvar minha mãe! — falou o ariano determinado, tentando passar pelo moreno e conseguindo com sorte e esforço.

Shaka correu pelo corredor escurecido em direção ao harém, mas o que viu o deixou tão chocado que ele estancou lívido e com os olhos arregalados.

Era uma carnificina. Os selvagens estupravam e matavam as mulheres sem nenhuma piedade. O cheiro de sangue, suor, sêmen e urina se mesclava ao cheiro acre do vinho amargo que eles bebiam aos barris e ao adocicado de algo que o príncipe de Najah não sabia o que era, mas que revirou seu estômago. Os olhos estarrecidos do loiro seguiam os movimentos dos corpos. Os homens gemiam, fodendo até mesmo cadáveres, sem perceber, ensandecidos estavam pelo vinho e pelo que ele saberia depois ser a “dádiva de Hassan”.

Ikki engoliu em seco. Sabia que aquilo terminaria acontecendo. Era natural entre o clã da Serpente negra, após as conquistas, oferecer aos guerreiros, mulheres, bebida e o alucinógeno conhecido como A dádiva. Ele nunca o consumia, pois não queria terminar como aqueles homens que enlouqueciam e eram capazes dos atos mais bárbaros. Ikki preferia manter o controle. Sempre preferiu.

Shaka sentiu o estômago revirar e uma náusea profunda. Então o pior aconteceu, mirou um corpo que jazia sobre uma alva pedra de mármore, numa posição obscena. O sári que a mulher usava estava rasgado, exibindo um dos seios, e ela tinha os olhos vidrados pela morte e, ainda assim, havia um homem entre suas pernas, em sôfregos movimentos, gemendo como um porco.

Maa... — ele murmurou, trêmulo, e seus olhos foram inundados pelas lágrimas. Então, o príncipe loiro gritou de dor e tentou correr, mas não conseguiu, por mais que se debatesse; o jovem assassino o segurava com força, não permitindo que ele adentrasse o harém.

Shaka gritava e tentava se libertar em desespero. Ikki o jogou contra uma parede, prendeu-lhe o corpo com o seu, pondo a mão em sua boca para que ele não gritasse, mas Shaka continuava gritando de dor sob a mão forte do assassino.

— Se continuares a gritar, eles o verão — sussurrou o árabe. — Se eles o virem, eu não serei páreo contra todos. Esses homens estão possuídos pel’A dádiva de Hassan, não são nada além de bestas famintas por sexo e sangue. Entendeu?!

Shaka balançou a cabeça positivamente, mas quando Ikki libertou seus lábios, ele soltou um gemido angustiado de dor e chorou no ombro do jovem assassino, que permaneceu sem nenhuma reação. Ao contrário do garoto de Najah, selvageria era tudo que o príncipe árabe conhecia e o que se passava ali não lhe causava nenhuma comoção.

Quando os soluços do loiro suavizaram-se, Ikki o pegou pela mão e levou-o de volta ao quarto onde estiveram antes.

— Devemos ficar aqui por enquanto — declarou.

Shaka se sentou na cama, encolhido, e chorou calado por um bom tempo. Não conseguia pensar, o sofrimento era demais. Tudo que amava estava morto.

— Eles mataram minha mãe — murmurou Shaka, dolorido. — Por que fizeram isso? Ela não era má, não era uma guerreira, não era uma ameaça a ninguém!

O moreno não sabia o que responder. Apenas coçou a cabeça e ficou em silêncio. Para ele, mulheres e crianças inimigas eram apenas peças para venda e sendo assim, suas vidas pouco importavam. Sua mãe o entregara a Omã quando ele ainda era um bebê e morrera anos depois sem que jamais voltasse a vê-la.

Shaka chorava, e Ikki mantinha silêncio ao seu lado, brincando com sua saif tranquilamente, até que o sol apareceu. Era hora de o clã voltar para Karna.

— Levante-se e tire as calças — ele falou, e Shaka abriu mais os olhos inchados pelas lágrimas, mas o obedeceu. Tirou a peça e ficou apenas com a longa túnica de lã que vestia e a peça íntima que era uma calça menor, pouco acima do joelho.

Ikki pegou a roupa e depois puxou o príncipe pelo braço, arrastando-o de volta ao harém. A situação ainda era hedionda. Os homens agora empilhavam os corpos das mulheres mortas e arrastavam as sobreviventes.

Shaka viu em meio às mulheres que saíam Jamila e, libertando-se de Ikki, correu até ela atirando-se aos seus braços.

— Jamila! Eles mataram minha mãe, eles... ! — voltou a chorar.

Com muito medo, a concubina o abraçou, olhando para os lados, assustada.

— Calma, Nur, ficará tudo bem, confie em mim — ela dizia baixinho.

Nesse momento, o senhor do clã entrou no local com sua imponência e selvageria únicas. Olhou ao redor e ordenou:

— Peguem até o último anel e depois queimem tudo. Fora as mulheres, matem qualquer um que sobreviver. Não queremos ninguém que possa segurar uma espada e queira vingança vivo!

Jamila apertou Shaka mais forte nos braços, mas o príncipe tamudaei o puxou pelo pulso.

— Venha comigo — falou, tirando Shaka de perto da concubina.

Shaka relutou, mas não tinha forças nem para lutar, estava com a alma em frangalhos.

— Onde está o corpo da minha mãe?Aonde vão deixá-lo? Ela precisa dos ritos fúnebres, por favor... — implorou dolorido, procurando com os olhos. O moreno o mirou e balançou a cabeça negativamente.

O príncipe de Najah soltou sua mão e saiu correndo, procurando pelo castelo. O tamudaei o seguiu. Contudo, tudo que Shaka conseguiu foi trombar em cadáveres e sentir o cheiro da morte contaminar o ambiente. A dado momento, o garoto moreno o segurou pelos ombros, jogando-o contra uma pilastra e o prensando com seu corpo.

— Pare de gritar ou chamarás a atenção de Omã! Se ele descobrir quem tu és... — falou, mas em resposta, recebeu uma bofetada.

— Bastado assassino! — gritou Shaka, revoltado e transpassado de dor. O loiro rangia os dentes de fúrias. Por um momento, ele havia esquecido quem era aquele garoto, por um momento, ele havia esquecido que sua família estava morta por culpa do povo daquele rapaz que se comportava como seu amigo, mas que era tão covarde e mau quanto todo seu clã. Sentiu-se vil e traidor e novas lágrimas foram aos seus olhos. Ele precisava odiar aquele garoto, odiar tanto quanto se esforçaria para odiar a todos.

Ikki sorriu de leve e passou a língua no canto dos lábios machucado pelas unhas de Shaka. Nada daquilo era novo para ele; não sentia nenhuma emoção, mas seu peito se apertava por ver aquele garotinho — com cara de menina — chorar, sem que entendesse o motivo. Deveria matá-lo para livrar-se daquela sensação desconfortável que experimentava perto dele? Segurou os pulsos do outro e encarou seus olhos; os diamantes faiscavam.

— Tu não me assustas! — cuspiu Shaka, olhando dentro das safiras escuras do inimigo — Tu és um porco como todos eles e eu... Eu crescerei, me tornarei um guerreiro e irei matá-lo e a todo o teu clã de bastardos!

“Acho que, fora os olhos, eu gostei do seu jeito arrogante, quase selvagem e, ao mesmo tempo, inocente. Ele era exótico. Na época, eu só conseguia entender meu fascínio dessa forma: que Shaka era um animal muito exótico e jamais visto e que por isso eu gostei dele. Se o visses entenderias do que estou falando. Seus cabelos eram como um manto dourado e seus olhos azuis como o mais límpido céu diurno. Fiquei fascinado, completamente fascinado, e seria capaz de cometer as maiores loucuras por ele. E cometi todas.”

Ikki fez pouco caso das palavras do rapaz e arrastou-o de volta ao quarto, tencionando sair com ele, mas encontrou seu pai no caminho.

Omã parou e colocou as mãos no quadril, mirando-o com seu sorriso perverso. Ikki estancou o passo e, consequentemente, Shaka também.

— Fez o que ordenei? — indagou o Chacal de forma lenta.

— Sim, meu senhor — respondeu Ikki, firme.

O senhor de Karna aproximou-se dos dois e o menino árabe pediu mentalmente que o príncipe de Najah não abrisse a boca. Omã examinou o rosto da “garota” durante muito tempo, de forma intrigada, como se visse algo diferente e suspeito nela.

— Não podemos deixar ninguém vivo — ele disse.

— Só as escravas — volveu o menino.

Omã examinou os dois mais atentamente. Parecia ver, ali, algo que não gostasse. Seus olhos malignos se voltaram para o filho, que estava parado, tendo a mão do príncipe de Najah entre as suas.

— Mate-a, Ikki, não gosto do olhar dela.

Os olhos dos dois garotos se encontraram e depois eles encararam Omã.

— Ela é minha — disse o tamudaei mais jovem.

— Não me interessa! Esses olhos... São olhos feiticeiros, eu não gosto. São olhos que agouram morte. Mate-a!

Ikki ergueu a calça suja de sangue de frente ao rosto de Omã.

— Ela é minha — falou devagar e de uma maneira desafiadora que irritou o Chacal.

Omã pegou a peça da mão do filho e a cheirou como faria um lobo, depois se aproximou do rosto de Shaka, que sentiu um arrepio de repulsa quando o nariz do rei tamudaei tocou sua pele macia, assim como seu hálito quente e fétido pela noite de bebedeira invadiu suas narinas. O homem desceu o rosto por seu pescoço, e o príncipe de Najah manteve-se rijo, tão tenso que até sua respiração parou por um tempo. Então o rei finalmente se afastou.

— Se a fizeste tua, ela será tua como eu disse — falou Omã entre dentes. — Agora cuidado com esses olhos feiticeiros. Sou o líder do clã e não pense que porque é meu filho admitirei insubordinação ou qualquer comportamento impróprio de tua parte. Não admito que trates esta menina como algo mais importante que uma meretriz.

Ikki encarou o homem com firmeza:

— Sim, senhor. — Baixou o olhar. — Não te preocupes. Sei exatamente meu lugar e o lugar de nossas peças. Quero apenas... divertir-me um pouco com ela... É uma boa peça, não posso simplesmente matá-la. — Sorriu com malícia.

Shaka não prestava atenção ao que eles diziam. Estava exaurido, quase catatônico com a carnificina que via em sua casa. Tudo estava pintado de sangue. Apesar de entender bem o dialeto usado entre os tamudaeis, naquele momento, sua compreensão falhou e ele nada entendia.

A resposta de Ikki pareceu satisfazer Omã, que sorriu perverso, exibindo seus dentes brancos de caninos salientes.

— Sábia resposta, filho. Por um momento, pensei que pudesses sentir apego por essa pequena peça de ouro. — Declarou. — Pode levá-la para Karna, não me importa que tenhas uma concubina favorita, eu mesmo estou levando algumas, as mais belas daqui...

O homem se aproximou dos adolescentes e tocou alguns fios dos cabelos de Shaka, que estremeceu, despertando do seu estado de ausência. Omã o encarava como uma verdadeira serpente, mas Shaka não desviou o olhar dos seus olhos escuros, em declarado desafio. Seus dentes rangiam de ódio e seus olhos brilhavam como nunca na mistura de raiva e lágrimas.

Ikki mantinha os braços do príncipe presos, de forma que ele não pudesse avançar contra o líder tamudaei, caso isso lhe passasse pela cabeça.

— Nenhuma das que escolhi tem esses olhos... — murmurou Omã, demonstrando fascinação e malícia no olhar.

O príncipe árabe apertou forte o braço de Shaka, enquanto encarava o pai em advertência.

— Mas esta é minha, meu pai. O senhor me deste, lembra-se? — Falou firme, querendo deixar claro que o menino era um presente do líder do clã. Palavra de Emir não voltava.

Omã soltou os cabelos de Shaka; mesmo assassinos tinham um código de conduta.

— Sim, é tua — falou enfim. — leve-a em teu cavalo para que nenhum dos homens tome liberdades com ela. Coloque-lhe o bracelete com tuas iniciais em seu braço, para que saibam que ela pertence ao príncipe e nunca nem mesmo olhem em sua direção.

Ikki assentiu e arrastou Shaka para fora do castelo de Najah. Preso em sua dor, o príncipe loiro não conseguia se dar conta da realidade; da realidade de que agora era um escravo e que estava fadado a se passar por uma menina se quisesse permanecer vivo.

O jovem mercenário experimentou o vinho que Zahid lhe servia agora quando as sombras da noite já tomavam o deserto.

— Então ele se tornou um escravo? — indagou o beduíno com tristeza — De príncipe a escravo...

— Sim. E eu escravo dele.

O velho mirou o céu tumultuoso do deserto, onde algumas estrelas apareciam longínquas.

— E tu o perdeste?

Ikki mirou na mesma direção. — Sim. E há três anos o procuro. Onde ele estará agora?

Os céus não respondiam, ninguém responderia.

— E o que fará agora?

— Seguirei para a Babilônia — falou o mais jovem. — Tenho informações de que o homem que o comprou era de lá.

— A grande Babilônia? — Zahid temeu. — Ouvi muito falar daquele lugar. Um lugar de bestas ferozes e homens imorais. Tens certeza de que desejas pisar naquelas terras?

— Não tenho saída, Zahid. Se ele estiver lá, eu o encontrarei.

— Quem o acompanhará nessa viagem? — o beduíno preocupava-se com o jovem mercenário como se ele lhe fosse um filho.

— Um amigo que fiz no exílio, um grande homem. Ele me espera no porto de Antioquia e de lá seguiremos até os amorritas — Ikki informou, não querendo dar detalhes sobre seu acompanhante. Zahid não ficaria feliz.

— Jornada perigosa — resmungou Zahid, coçando a extensa barba.

— Nada tenho a perder, meu velho amigo. A única coisa que me importava, já perdi.

Ikki tencionou se erguer, mas foi detido por um pedido do amigo:

— Espere. Zahid não tem bons pressentimentos. Sei que uma serpente negra não teme as víboras noturnas do deserto, mas durma aqui esta noite. Amanhã seguiremos para o Oásis de Al-Hasa e lá poderá arma-se melhor para a viagem.

O jovem hesitou. Tinha pressa, precisava chegar à Babilônia antes da próxima lua cheia, pois tinha um compromisso inadiável naquele período que o forçaria a atravessar, com seus homens, o mar vermelho. Mas conhecia Zahid há muito tempo e sabia que suas intuições não deveriam ser descartadas.

— Tudo bem, meu bom amigo — sorriu de canto. — Ficarei contigo por mais uma noite.

Zahid sorriu satisfeito.

— Sim, meu jovem, e alegre este velho com um pouco mais de tua história de amor.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

De Najah até Karna, no centro da Arábia antiga, eram vários quilômetros de rios e desertos. Shaka sentia o sol escaldante, seguindo envolto em várias camadas de tecido e montado na garupa do alazão negro do príncipe dos tamudaeis. Seu rosto estava totalmente coberto, apenas os olhos irritados pelo constante mover da areia estavam à mostra, fazendo com que percebesse todo o difícil caminho.

O percurso durou exatos 10 dias com paradas mínimas para o sono e as necessidades fisiológicas. Um sono que nunca durava mais de meia hora até os comandantes acordarem todos e mandarem caminhar.

Os outros escravos seguiam nas gaiolas sobre carroças puxadas por bestas estranhas, cobertas com tecido negro para que eles não morressem de insolação. De vez em quando, Ikki passava um cantil ao príncipe de Najah, que sorvia da água com abundância e voltava a devolvê-lo ao árabe. O moreno também compartilhava com ele pedaços das refeições, um bolo de farinha, carnes e especiarias, que era comido sobre os cavalos, sem paradas, e carregado dentro de um alforje negro. Embora o estômago do ariano se contorcesse, a fome o fazia aceitar. Não estava disposto a morrer de fome no deserto.

O dia amanhecia quando eles chegaram a Karna, a cidade tamudeia. Shaka mirou com horror a imensa cidade que mais se parecia com as masmorras dos livros antigos que lia. Todos os prédios eram construídos com uma espécie de pedra cinza e eram imensos, erguendo-se quase até as nuvens. As ruas eram como as areias escaldantes do deserto, mas ao contrário da solidão árida das planícies arenosas, elas estavam abarrotadas de pessoas esfarrapadas e mulheres que se prostituíam seminuas, com os seios a mostras, adornados por longos e vistosos colares.

“Leve-me para o seu harém, meu senhor”, elas pediam e se exibiam, mas nenhum dos guerreiros pareciam se importar, uns apenas as afastavam com violentos chutes, que as jogavam ao chão. Nesses momentos, Shaka estremecia e levava a mão aos lábios, chocado ainda com tanta brutalidade.

A fortaleza do clã das Serpentes negras era imponente, mas rústica, não tinha a beleza do castelo de Najah, e Shaka achou-a fria e escura.

O que sobrara das mulheres depois da orgia de sexo e sangue dos assassinos foi levado para o grande harém, as que não seriam vendidas, entre elas, Jamila, pois Omã viu graça na preferida do rei najarino.

Não havia muitas mulheres no harém de Omã; eram em torno de dez e nenhuma era bela como Jamila. Todas pareciam mulheres sofridas e abusadas, arrastando um olhar triste pelos cantos.

Shaka não ficou no harém. O príncipe tamudeu levou o príncipe de Najah para os seus aposentos, queria ficar com ele pelo menos naquela madrugada, pois percebia o quanto o garoto estava assustado e triste. Shaka mirava as imensas janelas, pensando somente em escapar da vigilância de Ikki e se atirar de uma delas. Começava entender o que acontecia e só pensava em “honrosamente” tirar a própria vida.

— Você está bem? — Ikki aproximou-se numa tentativa de diálogo.

— Não! — gritou o loiro, revoltado, encarando-o com raiva — Assassinos, assassinos covardes! — Esmurrou o moreno com força e correu em direção à janela imensa, do que parecia ser o quarto do moreno. — Eu nunca serei seu escravo, prefiro...

Não completou a frase, porque Ikki o derrubou ao chão, impedindo que ele subisse na sacada.

— Solte-me, desgraçado! — grunhia Shaka como um animal, debatendo-se, mas para Ikki era muito fácil prender-lhe os braços e as pernas, imobilizando-o.

O ariano fez tanto esforço para tentar se libertar que seu rosto ficou vermelho e suado. Mas vendo que não conseguiria, apenas deixou-se sacudir por soluços e caiu num choro convulsivo.

O moreno relaxou a pressão nos pulsos do estrangeiro e o puxou para si, ficando abraçado a ele sentado no chão. — Tu és um príncipe muito chorão — disse, apertando-o nos braços. Shaka não deu ouvidos, continuou chorando, agora abraçado ao “seu inimigo” até dormir de exaustão.

— Era estranho que um menino conseguisse comover um homem como eu. Eu era um assassino cruel, tão cruel que assustava homens feitos, mas depois de vê-los, depois de ver os diamantes dos seus olhos, tudo mudou. Não sei de que forma, me tornei humano. — Ikki tomou o chá que fumegava, sentindo o vento frio do deserto brincar com seus cabelos rebeldes. — Até hoje não entendo que feitiço havia naqueles olhos. Meu clã nunca aceitaria e se aquilo fosse descoberto, Shaka seria morto, e eu... eu com certeza seria morto ou banido para sempre.

— Eu sei... — falou o beduíno — Os tamudeus não toleravam relacionamentos sensuais entre homens. Levar o príncipe para o seu quarto já constituiria uma grave ofensa às tradições e por que correu esse risco?

Ikki sorriu de canto.

— Eu não sei, mas eu corri e correria novamente.

Quando Ikki acordou na manhã seguinte, o príncipe loiro ainda dormia pesadamente. Tocou seus cabelos macios e se ergueu da cama, indo fazer uma rápida higiene. Precisava se apresentar na arena de treinamento ou poderia ter problemas.

Saiu da pequena sala de banhos e estava enxugando os cabelos quando percebeu aqueles olhos cravados em si.

Saba-hel kheir, Anjum (Bom dia estrela).

— Bom dia... — respondeu o outro menino, sentando-se na cama e fazendo uma careta de dor — minha perna...

Ikki caminhou até ele, descobrindo a perna de Shaka e observando o ferimento.

— Trarei um unguento pra curá-lo disso.

— Faça isso e me explique por que as virgens sangram — falou Shaka com a simplicidade de quem não vê problema algum em conversar sobre aquilo.

— Novamente essa pergunta? — Ikki indagou, corando e rindo. Os olhos azuis céu se cravaram nele, curiosos.

— Mas eu não entendo por que elas sangram! — tornou o loiro com impaciência — Por que não quer me dizer?

O menino moreno sentou-se na cama o olhando.

— Não sabes que quando uma virgem é deflorada ela sangra?

Shaka arregalou os olhos. Na verdade não sabia o que significava “deflorada”, mas não deixaria que Ikki percebesse isso e o insultasse novamente.

— Quem disse isso?

— Meu pai e meus tios — explicou o árabe. — Por isso eles verificam a cama e as roupas depois, só assim têm a certeza de que a moça fosse realmente virgem e ela poderá ser aceita como mulher de um tamudaei. Nós também reconhecemos o cheiro do sangue de outros clãs, por isso eu precisava feri-lo.

— Mas eu não sou uma moça! — irritou-se.

— Mas precisas fingir que és, se quiseres viver.

— Até quando? Não posso ficar fingindo a vida inteira!

— Fingirás pelo tempo que for preciso — respondeu lacônico. — Fique aqui, providenciarei que lhe tragam roupas e comida, e não saia.

Shaka não protestou. Ficou quieto, imaginando um jeito de sair daquela situação. Todavia não havia saída. Agora era um escravo e preferia ser um escravo do príncipe de Karna do que um escravo do rei Omã.

Ikki passou o dia inteiro fora, só voltou à noite. Encontrou o príncipe persa sentado na cama, vestindo uma longa túnica branca, abraçado aos próprios joelhos. Ele chorava baixinho. Por mais que não quisesse, para Shaka era difícil controlar as lágrimas ao pensar em sua família.

— Passaste o dia inteiro chorando? — o moreno perguntou, irritado. Para um guerreiro tamudaei, chorar era vergonhoso demais e sinônimo de fraqueza sem limites. Um homem de Karna seria eternamente motivo de chacota se fosse apanhado chorando.

— Isso não te diz respeito! — vociferou o loiro como um animal ferido, fungando e enxugando o rosto.

O moreno deu de ombro e foi para a sala de banho ao lado do quarto, banhando-se demoradamente. Quando chegou ao quarto, secou-se e vestiu-se com uma Cirwal negra e se sentou na cama ao lado do outro menino.

— Quantos anos tens? — perguntou Shaka, curioso, percebendo que o moreno era mais alto e muito mais forte, parecendo um homem, mas que seu rosto mantinha a leve aparência da infância.

— 14, e tu?

— 14 também, mas logo farei 15. Tu vais me deixar preso aqui por muito tempo? — indagou com um suspiro. — Eu não quero ficar aqui, não gosto daqui.

— Não estás preso — Ikki moveu os ombros.

— Então me ajude a ir embora!

Shaka o encarou nos olhos e o árabe se calou.

“E como eu diria a ele que aquilo era impossível? Mesmo porque, eu nem sabia o motivo que o mantinha ali comigo, como poderia libertá-lo se eu mesmo já estava preso no cativeiro dos seus olhos?”

— Não posso... — sussurrou o moreno.

— E o que achas que acontecerá se eu ficar aqui? Não posso viver como menina a vida inteira! — falou irritado, erguendo-se da cama. — Isso... Isso é hediondo!

— É isso se quiseres viver — volveu Ikki com tranquilidade.

— Não aceitarei ser tratado como uma mulher!

— É isso ou a morte — repetiu o moreno, indiferente à irritação do loiro.

O príncipe de Najah empinou o formoso nariz e sorriu confiante.

— A morte. Mate-me então. Prefiro isso a viver essa vida vergonhosa de escravo!

Ikki o encarou sério, analisando o rosto trêmulo de Shaka.

— Só que não quero que morras. Tu ficarás com as mulheres no harém, assim estarás protegido. Quando eu voltar à noite, tu ficas aqui comigo, entendeu?

— Não vou!

— Vai!

— Não vou!

— Vai, eu estou mandando!

— Tu és um pirralho de 14 anos e não mandas em mim!

“Eu voltei a me aproximar dele e o suspendi do chão pelos braços, fazendo-o se debater.”

— Sou mais forte que você e vai me obedecer, entendeu? — Ikki vociferou e o soltou de forma brusca, fazendo o ariano cair sentado na cama.

“Eu não conhecia outra forma de impor minha vontade que não fosse pela força. Bem, ele aceitou passar o dia no harém do meu pai com Jamila e as outras mulheres. Era uma sorte ter a antiga concubina do marajá ali, ela possuía muito carinho por Shaka e o protegia; mas todas as noites, eu o tomava pelo braço e levava-o para o meu quarto, onde passávamos as horas em infinitas conversas sobre nossos mundos. Era como se fôssemos velhos amigos, e com o passar do tempo, a mágoa foi se dissolvendo e eu senti que o príncipe de Najah passou a gostar de mim como a um amigo querido”.

— Logo ele o amaria — constatou o beduíno. — É uma história bem triste, triste demais para uma noite fria. O que achas de irmos dormir agora, Ikki?

O mercenário sorriu de canto.

— Sim, tens razão. Noites frias não são companhias ideais para histórias de amor quando estamos solitários.

O mais velho tocou o ombro do amigo com carinho.

— Amanhã, continuas.

— Continuo sim.

As-salaam-alaykum, Ikki (a paz esteja contigo).

O jovem apenas assentiu com a cabeça e adentrou a tenda.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Leitores, gostaria de salientar que eu particularmente não gosto de ukes muitos feminis, então essa condição do Shaka ser confundido com uma menina tem mais a ver com a idade dele nesse começo da fic do que com eu considerá-lo andrógino (embora ele tenha sim traços delicados). Ikki e Shaka irão crescer e essa "confusão" será esclarecida. Outra coisa, esse Shaka chorão e OOC não se perpetuará na história, os mais exigentes quanto a isso podem ficar tranquilos, como disse, ele irá crescer! Beijos a todos! Sion Neblina