A serpente e a estrela

13 As relações entre a casa real e o clã de Leontópolis


Notas iniciais
Olá, queridos leitores, tudo bem? Mais uma folguinha, mais um capítulo, espero que gostem. Beijos da Sion e boa leitura! Visitem o blog! http://yaoifictions.blogspot.com.br/?zx=13b1868028739862 Beijos da Sion

As relações entre a casa real e o clã de Leontópolis

Capítulo 12

As horas passavam-se e a tensão no Egito crescia como heras nas paredes. Saga e Aioros passaram várias horas somente recebendo os mensageiros e elaborando a carta que mandariam à Babilônia. Kanon seguiria à noite, escoltado por Radamanthys. Deveria chegar ao Grande império entre rios em alguns dias.

Enquanto isso, Ikki, Asmita e Aldebaran adentravam as terras de Hamurabi, cortando os desfiladeiros e chegando aos pântanos do Tigre. Seria uma caminhada árdua até que estivessem realmente na cidade, e eles deveriam fazer várias paradas para descanso, além de evitar o Hulagu.

E foi numa dessas paradas que Asmita quis saber finalmente o que tirara Shaka da Arábia, levando-o ao grande império babilônico. Ikki não se opôs a contar, já que teriam algum tempo até que realmente ele conseguisse alcançar sua estrela.

O árabe suspirou entristecido. Lembrou-se de quando as coisas começaram a mudar de fato em Karna, quando tudo se tornou perigoso demais. A situação de Shaka na fortaleza tornou-se insustentável, obrigando-o a apressar as coisas.

Era a última lua cheia antes da semana dos mortos, data que antecedia a grande festa. Numa noite especial, após a última lua cheia do mês negro, Nakgrott, o Deus dos mortos, seria reverenciado e um sacrifício lhe seria oferecido no templo subterrâneo de Anskarriet, um remoto campanário, onde, rezava a lenda, os primeiros tamudaeis receberam as revelações dos senhores das estrelas. Era um lugar estranho e sombrio, habitado apenas pelas bruxas necromantes de Karna, mas em que, todos os anos, rituais e sacrifícios eram oferecidos para que Nakgrott se satisfizesse e não levasse muitas almas tamudeias.

Nakgrott era o deus mortífero, senhor dos ghouls do deserto, um espírito mau e ávido por sangue. Shaka não gostou do clima funesto e dos cantos estranhos que dominava a fortaleza das serpentes negras. Passara todo o dia no quarto do príncipe, enquanto Ikki treinava na arena de areias vermelhas. Muitas vezes ele treinava novos soldados, fazendo-os correr de chacais. Era um treinamento brutal e por isso, o persa preferiu não sair mais para assisti-lo, mesmo porque, isso já estava causando comentários dentro do clã, e Shaka não queria problemas.

As mulheres de Karna não gostavam de lutas. Atinham-se aos afazeres domésticos. Mas Shaka, desde o momento que chegou, parecia ter um fascínio único pela arena e pelas batalhas, o que era um tanto intrigante para elas. O príncipe de Najah sabia que não deveria chamar tanta atenção para si e por isso passou a evitar trânsito desnecessário pelo palácio. Ele já sabia manejar a saif e as adagas, talvez não com a destreza de um guerreiro, mas de forma a se defender, caso preciso. Apenas aguardava ansioso o dia em que ele e Ikki deixassem aquele lugar cruel.

Fazia mais de uma semana que Jamila fora levada para o templo e desde então, o garoto persa deixou de visitar o harém. Ikki o queria na proteção do seu quarto e ele também preferia assim. Não era apenas os jovens amantes que temiam aquele agouro de morte que pairava na cidade, as mulheres no harém também se puseram em oração baixa, pedindo cada uma a seu deus que as protegessem.

Omã andava introspectivo, preocupado. Às vezes, lançava olhares furtivos ao filho, principalmente quando o via em atitudes mais íntimas com a “garota” persa. O rei desejava os olhos de Shaka, os lábios, toda sua estranheza fascinante, e aquilo crescia estranhamente dentro dele como uma maldição. Omã queria livrar-se daquela inquietação que “a garota persa” lhe provocava e não sabia outro jeito que não a tendo, mesmo que fosse à força, mas não podia. Não podia. O chacal controlava seus instintos de forma heróica; era um homem de palavra e manteria sua palavra.

Shyna também os observava. A etrusca cobiçava o príncipe, cobiçava a boa vida e os privilégios “da persa” e agiria assim que possível. Esperava encontrar a ocasião certa e isso era questão de tempo – assim ela pensava.

Aquela noite era propícia. Um cortejo de pessoas envoltas em capas negras, levando tochas nas mãos, seguia num estranho murmúrio, algo que não era uma música e nem uma oração, parecia mais um lamento penitente.

Todos os habitantes de Karna participavam e isso incluíam os jovens amantes. O loiro seguia ao lado do moreno, tendo o braço segurado com força por ele, enquanto segurava uma tocha.

— Shaka... – Ikki murmurou ao ouvido dele, ficando propositalmente para trás um pouco. – Não quero que tenha medo, mas hoje algo acontecerá quando chegarmos à caverna das necromantes.

Os olhos azuis do persa brilharam na escuridão enquanto ele encarava o outro.

— O que, Ikki? Tu estarás comigo?

O moreno mordeu os lábios. – Claro que estarei. Não se assuste.

— O que é?

— Um sacrifício. Uma moça será sacrificada e depois todos se aconselharão com a feiticeira. Esse aconselhamento faz parte do ritual.

— Eu não gosto de feiticeiros. – Disse Shaka, pensativo. – Alguns iam a Najah, queriam vender seus serviços a meu pai. Meu pai disse para que eu não confiasse neles.

— Eu sei. Por isso não fale nada. Absolutamente nada a ela. Entraremos juntos e sairemos juntos e mudos, certo?

O loiro assentiu com a cabeça. Ikki o beijou várias vezes no rosto e então seguiu o cortejo.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Não era para estar ali. Sabia. Caso o irmão o visse, com certeza reclamaria da sua indolência e o mandaria de volta ao campanário militar para treinamento. Todavia, fugir para mais uma aventura naquela tarde quente valia o risco.

Esgueirou-se silenciosamente pelo corredor, quase na ponta do pé. Já estava alcançando seu destino quando foi brutalmente surpreendido, quase caindo com o susto ao ver o rosto sério de Aioros à sua frente.

Coçou os cabelos meio sem jeito, ruborizando, mas pigarreou para manter a postura recém adquirida de homem. Rendeu saudação respeitosa ao mais velho, dobrando o corpo pra frente. Mas logo o encarou intrigado.

— Algum problema, Aioros? – Disse, percebendo o semblante grave do outro e tentando parecer homem, dentro do seu adolescer.

— Nenhum. O que o traz ao palácio? — desconfiou o poderoso vizir.

O guerreiro não soube o que dizer, mordeu o lábio inferior e pensou em uma desculpa. Não esperava encontrar o irmão, melhor, esperava escapar daquele encontro.

— Vim falar com o chefe dos medjais, ele ficou de me dar algumas lições. — Mentiu descaradamente, esperando que Aioros estivesse ocupado demais para insistir no assunto.

Aiolia tinha 18 anos e nascera e crescera para ser um militar. Era alto, forte e valente; um orgulho para a família. Belo, também se constituía em uma tentação para as mulheres e por esse motivo, o Vizir preferia mantê-lo longe do palácio e das filhas dos escribas. Entretanto, o rapaz nutria grande amizade pelo príncipe herdeiro, único filho homem do faraó, o que lhe abriu as portas para entrar e sair do palácio a qualquer hora, mesmo contra a vontade do irmão.

No Egito os relacionamentos entre homens existiam e eram sabidos por todos, entretanto, a união com uma mulher era essencial à manutenção da sociedade, ou seja, por mais que eles não discriminassem a conduta homoerótica, ela era vista apenas como uma diversão sensual, nada mais. Devido a isso, o vizir se preocupava com aquela amizade, mesmo porque, o príncipe seria o futuro faraó, e não seria adequado que outros sentimentos surgissem entre ele e seu irmão.

— Não veio encontrar o príncipe? Já o adverti a não vir ao castelo. – Reclamou Aioros.

— Não! Não vim falar com Mu! — riu Aiolia, dissimulado. — Ele ficou de me encontrar à tarde, às margens do Nilo para que déssemos comida aos crocodilos da represa, vim fazer outra coisa.

— Aiolia, tenha juízo! Deveria estar treinando e não andando indolente por aí. – O vizir suspirou, tinha muito a fazer — Não o quero no castelo, faça o que tiver que fazer e vá embora. Vemo-nos à noite – disse e se afastou. Achou melhor ir cuidar dos afazeres do faraó, suas rotinas eram por demais importantes para que ficasse pensando nos encontros de dois jovenzinhos.

Aiolia esperou o irmão desaparecer pelo corredor, esticando o pescoço para ter certeza de que ele não retornaria, e então subiu correndo as escadas para o andar superior em direção ao quarto do príncipe. Os dois guardas que estavam à porta lhe concederam passagem, e ele encontrou o belo garoto ainda adormecido entre os lençóis. Ficou um tempo o observando dormir; os lábios róseos entreabertos, os cílios negros e longos que se moviam levemente sobre a pele branca e sedosa, a perna que se dobrava revelando-se, as costas por onde serpenteavam os cabelos claros que também se espalhavam pela cama. Aproximou-se devagar, passando a língua sobre os lábios secos. Ajoelhou-se ao lado da cama baixa e tocou os lábios do amigo de leve.

— Aiolia... — o garoto murmurou e se remexeu – Sempre com essa mania de me acordar de madrugada...

— Já está bem tarde, alteza, seu pai já se apronta para ir ao templo, não o acompanhará?

— Não, estou com sono...

— Indolente...

— Não sou, olhes como falas comigo, sou o príncipe...

— Grande coisa...

Mu riu de leve e se espreguiçou mais, se sentando na cama.

— Não tens nada melhor a fazer que me importunar? – reclamou, manhoso.

— Deixe-me pensar... Acho que não! — sorriu o militar. – A vida de soldado em tempos de paz é uma maçada!

O príncipe se ergueu e caminhou até a imensa sacada, mirando a paisagem, vendo trabalhadores, militares e sacerdotes que passeavam pela cidade. Passou as mãos pelo algodão da túnica de dormir e suspirou, cansado.

— Aonde iremos hoje? — indagou.

— A foz do rio, o que acha?

— Muito bom, só preciso cuidar para que meu pai não note minha ausência. – Tornou Mu pensativo, voltando para o quarto.

— Ele não vai se importar, você nunca segue os ritos mesmo! – Provocou Aiolia.

— Tu não tens mesmo nada a fazer? — sorriu o jovem príncipe.

— Em época de paz? Não!

— Certo, espere-me, por favor, então. Tomarei um banho e o desjejum e já o encontro na saída do templo. Todos estarão muito ocupados com meu pai para pensar em mim.

— Certo, alteza, e não demore.

O jovem soldado saiu feliz e o príncipe se encaminhou para a sala de banhos. Aproveitaria o dia agitado de seu pai para ser um tanto feliz.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

A rotina de um faraó não era fácil. Todas as manhãs após o desjejum era necessário ir ao templo fazer sacrifícios aos deuses. Depois, os sacerdotes o cercavam para interpretar seus sonhos e procuravam sinais dos deuses que ajudassem o soberano a governar melhor. Em seguida, eram feitas as leituras dos informes e os altos funcionários do reino eram recebidos: vizires, escribas e generais. Após isso, o rei se exercitava no tiro com arco e flecha.

À tarde, Saga visitava a obra de seu túmulo e recebia os embaixadores dos países vassalos que lhe traziam oferendas. Assegurava-se assim de que continuava dominando o mundo habitado. Por último, era a hora da caçada, sua ocupação favorita. À noite, a família real se reunia para um grande banquete para o qual também eram convidados os embaixadores.

Aioros o maior de todos os vizires, o seu homem de confiança e amigo de infância, o acompanhava em todos os eventos e se não era venerado como deus na terra, tal qual Saga, era temido e, talvez, mais amado que o faraó. Era conhecido como O justo vizir, por sua sabedoria, mesmo sendo muito jovem. Era também um dos poucos subalternos que poderia se aproximar do deus vivo Saga e, geralmente, ele não se prostrava e “cheirava a terra” como faziam os demais.

Já era bastante tarde quando todas as atividades terminaram, e Saga voltava pelo corredor que levava ao seu quarto, seguido de perto por Aioros. Livrou-se do nemés e seus cabelos escuros e sedosos dançaram por sua pele clara. Aioros baixou o olhar respeitosamente.

— Peço que não faça isso, Faraó... Não é adequado que olhos contaminados o vejam sem o nemés...

— Aioros, desde quando teus olhos são contaminados? — riu gostosamente, mas estava exausto. — Estou cansado de ficar com isso em minha cabeça...Odeio isso!

Aioros riu de lado, balançando a cabeça.

— Não sejas rebelde.

— Não é rebeldia, sabes como meus dias são exaustivos — chegaram à porta dos aposentos do soberano. — Não queres entrar?

— Não, senhor...

— Tornou-se tão formal nos últimos anos. – O rei revirou os olhos.

— Estou mais velho, meu soberano.

Os olhos verdes de Saga se prenderam ao verde mais claro dos olhos do amigo.

— Não é isso, sinto como se tivesses ficado com medo de mim como todos os outros — Saga foi direto, não gostava da atitude distante de Aioros.

O grão vizir sorriu com certa melancolia e desviou o olhar do faraó. Nunca se permitia passar muito tempo a sós com Saga para evitar momentos como esses. Eram íntimos sim, mas era uma intimidade polida e profissional.

— Não é medo, só estou me pondo em meu lugar. Não somos mais crianças, agora sou o vizir e tu és o Faraó...

— Nessa hora do dia sou apenas teu amigo — sorriu o rei, um sorriso que deixava o poderoso vizir meio sem norte, mas ele não podia chegar muito perto.

— Soberano, como disseste, estás cansado, não acha... Não! — Tentou impedir que Saga segurasse suas mãos, mas não teve sucesso — Não deves...

— Aioros, por Osíris! Somos nós! — riu da reverência do amigo — Se até um estrangeiro como Shaka foi permitido me tocar, por que não a meu principal vizir? Meu único amigo?

A menção ao dançarino reforçou a vontade de Aioros de manter distância do rei.

— É diferente. Ele é teu, e os deuses o fizeram limpo por isso, além do mais, ninguém o toca além de ti ou... ao menos não deveria...

O olhar de Saga que era doce tornou-se confuso e irritado.

— O que queres dizer com isso? Fale-me, Aioros, viste algo entre Shaka e Kanon além das conversas? Esconde-me algo?

— Nada, majestade, eu não vi nada – Aioros adiantou-se a dizer. – Preciso me recolher...

— Fiques onde estás, vizir. – A voz dura do soberano ordenou.

Aioros sorriu, baixando o olhar. O temperamento do faraó era muito volátil.

— Como queira, meu senhor.

— O que disseste? Achas acaso que Kanon...

— Nada acho, majestade. – O vizir o interrompeu. – Nunca poderia fazer tal acusação, mas sabes que não...

— Sei, sei, tu não gostas de Shaka. Não confias nele.

— Sim, não gosto, mas não serei maledicente. Só tenho suspeitas e não provas. Nada vi além de alguns encontros furtivos entre os dois. — Aioros retorquiu, formal.

— Tua honra e justiça me encantam. – O rei suspirou. – Mas algo precisa ser feito a esse respeito.

— Cumpro apenas meus deveres de homem e vizir, soberano. – Respondeu o mais novo. — E se desejas fazer algo, creio que seja melhor saber o que acontece realmente. Não devemos condenar sem provas.

Saga tocou o rosto de Aioros por um tempo, olhando profundamente em seus olhos verdes, deixando-o apreensivo. Então, afastou-se de repente e caminhou para o quarto.

— Coloque espiões para seguir Kanon. Quero saber todos os passos do meu irmão até sua viagem e também quando retornar.

— Assim será feito. Boa noite, meu soberano.

Aioros se afastou. Saga ficou observando o vizir partir com um estranho pesar no peito. Não gostava de se sentir assim, isso trazia má sorte. Tentou afastar os sentimentos ruins e resolveu dormir. Sonharia com a próxima dança de Shaka.

A Serpente e a Estrela

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O cheiro das flores de lótus se espalhava por aquela área distante do castelo. Havia uma ponte de madeira perto da represa e era nela que o príncipe estava de pé observando as águas escuras. O tenente Aiolia segurava uma tocha e examinava a água também.

— Melhor voltarmos, aqui é perigoso à noite — disse ele, depois de jogar o último peixe no rio e ver a silhueta de um gigantesco crocodilo deslizar pela água.

Os crocodilos, filhos do deus Sobek, todo poderoso deus do Nilo, eram venerados em todas as cidades do Egito e temidos nas moções do rio. Por isso, tais animais eram muito bem tratados, muitos ganhando até joias e lugares especiais dentro dos majestosos templos.

— Não corremos risco desse lado da represa e... está quente — murmurou Mu — poderíamos dar um mergulho...

Aiolia colocou a tocha pendurada num tronco de madeira sobre a ponte e se aproximou do amigo que brincava de molhar os pés na parte segura do rio.

— Não tem medo de que um pequeno crocodilo consiga passar pelas redes e acabe atacando seu formoso pezinho, alteza? — provocou.

— Essas águas são inspecionadas todos os dias, guarda tolo! — Riu Mu.

Aiolia fez uma careta e jogou água no rosto de Mu que riu e jogou de volta água nele, logo os dois começavam uma guerra infantil, e o guarda acabou jogando o amigo na água. Mu ficou indignado, o que diria quando chegasse ao castelo daquela forma?

— Estúpido! olhas o que fizeste? — reclamou.

— É muito tarde, não tem chance de teu pai encontrá-lo quando voltares ao castelo e se meu irmão, aquele que é olhos e ouvidos do faraó o vir, por amor a mim, ele manter-se-á calado.

Mu caiu numa gargalhada de deboche.

— És muito tolo e pretensioso ao julgar que Aioros mentiria a meu pai por ti! — provocou, saindo de dentro do rio e se sentando na pequena ponte de madeira. — Não há ninguém em todo Egito que seja mais devoto ao deus vivo que teu irmão.

— Sim, eu sei e sei também como ele sofre com isso — bufou Aiolia.

— Sofre? Por que dizes isto? – indagou Mu, curioso.

— Oras, Mu, ou tu és muito tolo, ou muito ingênuo, o que dá no mesmo! — riu o soldado, caçoando do amigo. — Aioros ama faraó, não como servo, mas como homem!

Mu piscou confuso. — Nunca percebi nada na conduta do grão vizir. Aiolia, acho que estás mentindo para mim! Estás me pregando uma peça!

— Melhor que penses assim, se Aioros souber que falei algo desse tipo para alguém, ele me mata!

— Gostas muito dele, não é?

— Sim, é como se ele fosse meu pai. Aioros assumiu a família muito cedo.

— Sim, eu sei. Ele é mesmo muito jovem para ser o grão vizir do faraó.

— O faraó também é muito jovem.

— Saga assumiu o trono aos 12 anos — suspirou Mu. — Espero que ele viva muito, não desejo me tornar faraó tão cedo. Na verdade... Não desejo me tornar faraó...

— Como não? — Aiolia riu, mas ficou meio triste. — Não temos muita escolha... Somos aquilo que querem que sejamos...

Mu suspirou e mirou o horizonte coroado de estrelas.

— Tu não sentes que pode haver algo maior além do Nilo? Eu nunca fui a outros impérios, nunca conheci algo maior que as terras quentes de Kemet... Não sei... Às vezes sinto como se algo me chamasse além do deserto...

Aiolia suspirou.

— Esqueças isso, Mu. Não acontecerá. Nasceste para ser faraó, não há escolha, assim como não há escolha para mim. Sou o que sou, ou o que querem que eu seja.

— Mas isso é errado. Desejo ser o dono da minha vida, que mal há nisso? — Mu disse, triste.

O filho de Mahes sorriu companheiro para o amigo.

— Penses pelo lado bom! Tu serás o faraó mais lindo que o Egito já viu!

— Aiolia!, Faraós não precisam de beleza, precisam ser justos e corajosos! – Mu corou, sempre ficava sem jeito quando era elogiado por qualquer pessoa.

— Tudo isso tu és, Mu! Não fique sonhando com as estrelas, meu belo amigo, quando a terra é bela e confortável. Nasceste com o signo da sorte. O trono é teu, és o primeiro na linha se sucessão e não há disputas. Foste abençoado pelos deuses, o que mais desejas?

Mu calou-se, ainda mirando aquele punhado de luz espalhados pelo céu.

— Desejo encontrar... Desejo me encontrar. – O príncipe declarou, mas sorriu, mesmo que um tanto triste. — Vamos voltar, está ficando tarde.

Aiolia beijou Mu no rosto e segurou a mão delicada do príncipe. O escoltaria de volta ao castelo. Em silêncio.

A Serpente e a Estrela

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O ritual começou com a invocação de Ta'lab, magnífico deus da lua para que ele desse passagem às trevas de Nakgrott. A moça escolhida como oferenda ao deus era uma bela jovem de 15 anos que pendia seminua sobre a grande pedra na maior galeria da caverna. O corpo da moça era adornado com todo tipo de joias, que seriam gananciosamente surrupiadas pelas necromantes após o cadáver apodrecer.

“Nós, feiticeiras de Karna, invocamos o deus dos mortos, senhor dos ghouls do deserto e lhe oferecemos essa virgem em sacrifício!”

Um pulso velho e ressequido ergueu um punhal no ar. Shaka entreabriu os lábios quando a arma desceu e rasgou o ventre da menina que caiu desfalecida com um curto gemido sobre a pedra achatada do altar.

“Que o sangue dessa virgem aplaque a fúria dos teus filhos, Nakgrott, e que os ghouls continuem no deserto, longe de nossas aldeias!”

O povo envolto em suas capas escuras uivou como demônios. O garoto persa tremia, os olhos vidrados no sangue que pingava da pedra. O passado... A invasão de Najah... O sangue e o fogo. Tais lembranças voltaram à sua mente, o golpeando como se fossem aquele punhal.

Shaka sentiu a mão de Ikki cobrir seus olhos. – Não olhe... – ele sussurrou ao seu ouvido, puxando o corpo magro do garoto de encontro ao seu. Prendendo-o com força numa atitude protetora.

— Eu quero sair daqui – o loiro murmurou, estava enojado, ferido pela crueldade com aquela jovem vida fora ceifada e em sua mente a imagem dele e Ikki sendo mortos pelos tamudaeis também se formou, o horrorizando. As palavras proféticas de Violet tornavam-se vivas.

— Não podemos. Ainda não. – O árabe negou.

Apôs o sacrifício, o barulho incessante de algum instrumento começou a soar no local. Um círculo foi feito e para o centro foram lançadas algumas mulheres, as sacerdotisas da feiticeira que ensaiaram uma estranha dança e canto em volta da pedra em que a menina jazia, e a Grande necromante cuspiu algum feitiço, antes de desaparecer dentro das galerias.

As necromantes então se puseram em fila e lentamente iam conduzindo as pessoas, sempre cobertas pelos capuzes negros para dentro da caverna. Os murmúrios não cessavam, e eles sentiam um medo profundo os dominar. Quando chegou a vez dos dois, entraram de mãos dadas, como muitos casais o faziam. O lugar era escuro e tinha um cheiro de algo pútrido e sulfuroso.

A necromante estava sentada atrás de uma pedra lisa que continha desenhos estranhos e vários ossos de animais, crânios de pássaros e de ratos do deserto, que eram vistos devido às tochas que se espalhavam pelo local.

— O que buscam? – a voz enrouquecida perguntou.

— Nada, minha senhora, trouxemos apenas oferendas – Ikki disse, tirando um pequeno saco de pano do bolso e jogando sobre a mesa as pedras preciosas que nele continha.

— Tu és o príncipe, o futuro dono de Karna, aquele que levará o império para além das montanhas e da terra seca – ela disse depois de revirar bizarramente os olhos e mirou as pedras, concentrando seu olhar sorumbático numa pedra azul.

De repente, a velha abriu a boca com horror e encarou na penumbra Shaka, erguendo-se e retirando o capuz dele, mirando horrorizada o rapaz.

— Tu! Tu trarás a morte a todos! Tu! Maldição ariana! – a mulher ensaiou gritar, mas antes que sua voz ecoasse pela caverna, chamando atenção de todos, a saif de Ikki cortou sua garganta. Shaka estremeceu mudo, enquanto o árabe puxava a lâmina ensangüentada, e o corpo da mulher desabava sobre a pedra, como se ela dormisse.

— Vamos embora, Shaka, agora! – ele pegou o amigo pelo pulso e saiu o arrastando pela galeria. – Cubra o rosto! – ordenou – e ande devagar até chegarmos à saída.

Trêmulo, o persa o obedeceu, passando pelo meio da multidão que ainda esperava as profecias da necromante. Lentamente, eles chegaram à saída da caverna e foi quando ouviram um grito pavoroso, seguido de outros: assassinos! assassinos! Gritavam as feiticeiras em bizarro desespero.

— Corra! – Ikki disse, segurando a mão do outro e o guiando em direção aos montes de pedras pelos quais chegariam à Karna algumas horas depois.

O príncipe chegou a seus aposentos e foi para o quarto de banho para lavar o sangue da saif, além de queimar suas roupas sujas. Shaka ficou no quarto, sentado, estático na cama, abraçado ao próprio corpo. Quando Ikki saiu da sala de banhos com o corpo nu e úmido, ele se sentou ao lado do loiro.

— Por que a matou? – o ariano sussurrou, sem encará-lo, ainda meio ofegante, o coração disparado no peito pelo excesso de adrenalina.

— Se ela falasse aquilo a alguém, Omã ordenaria que o matassem. Eu não tinha escolha a não ser calar-lhe a boca. — Ikki explicou preocupado. Precisavam sair dali, agora isso era vital.

O ariano entendeu, embora aquela selvageria ainda o deixasse triste, ele não mais se chocava, contudo sentia medo. Medo de se tornar como um tamudaei. Medo de não mais se incomodar com a violência e a morte.

— Ikki..., Jamila está com aquelas mulheres?– perguntou preocupado.

— Não. Jamila está com as sacerdotisas de Wadd, elas não são necromantes e nem feiticeiras.

— Mas Zahira é uma delas, ela fará mal a Jamila, eu sei. Precisamos tirá-la de lá.

— Eu não posso, Shaka! Temos que esperar o bebê nascer, não há alternativa! – Ikki disse, nervoso.

O loiro o encarou, e Ikki sentiu medo do que via nos olhos dele. Era uma determinação feroz, algo que não estava acostumado a ver no meio de toda a doçura que embarcava aquele olhar.

— Não! Não entrarás lá, Zahira pode fazer mal a ti também. – Adivinhou as intenções perigosas do amante.

— Não te importas com ela? Só te importas comigo?! – Irritou-se o ariano. – És tão ruim quanto todo teu povo! – cuspiu magoado, magoando o árabe também, mas Ikki não demonstrou, apenas mordeu o lábio interior e depois de suspirar disse:

. – Não vais e estamos conversados. Vamos dormir.

Shaka calou-se. Era claro que ele iria, só não sabia como. Despiu-se e foi para a sala de banho, mergulhando na grande tina, onde ficou pensando no que fazer. Queria deixar Karna, mas não faria isso sem Jamila e seu bebê.

Ele deixou a água e foi para o quarto onde se secou com uma toalha de linho e deitou-se ao lado do corpo nu de Ikki, o abraçando pela cintura. O moreno estava acordado, mirando um ponto qualquer no quarto.

Ambos ficaram longamente em silêncio, mergulhados em suas próprias inquietações.

— Amo-te – Shaka sussurrou ao ouvido dele, fazendo-o se voltar para olhá-lo. O árabe tocou-lhe o rosto com os nós dos dedos.

— Amo-te também – sussurrou, beijando a testa do outro levemente. – Mais alguns dias... Eu prometo. Eu o protegerei, mesmo que disso dependa minha vida.

Shaka assentiu com a cabeça, o abraçou com mais força e adormeceu, embora Ikki não.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Obrigada a todos que passaram por aqui! Beijos e até a próxima! Sion Neblina