A resistência de Dorne
4 Capítulo 4 - Blane
Capítulo 4
Blane
A taverna do Dente Branco de Hellholtz estava movimentada como sempre. Os bêbados e apostadores aproveitavam o horário de almoço para se encontrar. Blane tinha apenas dez dias de seu nome, com apenas um metro e quarenta centímetros de altura, cabelo preto liso e curto, olhos castanhos e a pele castigada pelo sol devido as suas tardes treinando esgrima. Sonhava em ser um grande guerreiro, igual seu pai fora – pelo menos era o que a sua mãe, Jaeny, dizia, visto que nunca chegou a conhecê-lo. Ela lhe contava sobre grandes batalhas todas as noites em que o colocava para dormir. A preferida do menino era a do “Deserto Sangrento”, na qual as Casas Pine e Cantell enfrentaram a Redthorn e a Moore há cerca de 30 anos atrás.
— “Nessa época a estrutura de poder de Dorne era bastante diferente. Malos Footly ainda era uma criança mas a família dele era a protetora do continente – sempre fora, desde a invasão dos Roinares aliados aos Valyrianos. Garred Pine e Aldo Cantell, líderes de suas Casas durante esse conflito, eram os únicos dorneses que não haviam traído o pacto com os Cellarys feito há dois séculos atrás. Ambos possuíam bastante influência e poder nessa época. Os estandartes dos Pine, um Falcão Branco em fundo amarelo claro, assustavam no campo de batalha.”
— “Mas e meu pai, mamãe?”
— “Seu pai lutava por eles. Pelos Pine. E lutou bravamente. Ele não era muito alto, media mais ou menos um e setenta, mas era muito forte. Lutava com uma espada de duas mãos que ele chamava de “Justiça”, porque era o que ele sempre buscava. No meio do combate ele foi cercado, assim como vários outros soldados do exército Pine. Ele matou dez soldados antes de ser ferido, e mais dez antes de morrer finalmente.”
Enquanto pegava mais cervejas e ia até as mesas distribuí-las, lembrava da história e se imaginava em um combate. Havia se acostumado com o barulho da taverna de tal forma que nem percebia mais as conversas, ficava apenas em seu mundo dentro de sua cabeça. Imaginando batalhas e sonhando em ser um guerreiro. Durante a tarde, usou o intervalo do trabalho para chamar sua amiga Lysa e brincarem de luta.
— “Dessa vez eu vou ser Asha, a grande guerreira dornesa”, ela disse segurando um pedaço de madeira leve e fino e uma tampa de lata de lixo. Era mais alta que Blane, cabelo e olhos pretos.
— “Hmf! Ela jamais seria párea para um guerreiro da guarda real. Eu serei Bannet Honn, o Inconsequente”, retrucou enquanto segurava um cabo de vassoura com as duas mãos.
Correram em direção um do outro. Ele defendeu diversos ataques dela apesar de sua velocidade boa, mas a qualquer momento ele conseguiria quebrar sua defesa. E foi o que fez dando um golpe com a parte de baixo do cabo no escudo dela e a atordoando, depois pulando em sua direção a derrubando e ficando em cima dela com o cabo contra o pescoço da garota, dizendo: “Venci. Novamente!”. Deu risadas enquanto ela ficava brava e o empurrava para longe. Repetiram esse duelo até o fim do intervalo dele. As poucas vezes que perdeu o frustaram muito, perder era algo que ele nunca aceitara bem. Despediu-se de Lysa ao ouvir sua mãe chamá-lo, estava anoitecendo e o horário mais turbulento do trabalho estava prestes a começar – e ele não fazia ideia de como essa noite mudaria totalmente os rumos de sua vida.
Horas depois, cansado das bebidas que distribuíra a noite, estava deitado em sua cama no andar de cima. O fogo estava aceso – ele que construíra aquela pequena e humilde lareira. Gostava das chamas. Elas o mantinham quente na fria noite do deserto. O estalar delas era como uma música para os seus ouvidos. Eram como companheiras para Blane. Havia começado a sonhar com uma enorme parede branca quando ouviu sua mãe chamá-lo. Com medo de ela estar em apuros, pegou sua espada de madeira e desceu correndo as escadas. Se deparou com um gordo bebendo vinho e tossindo sangue, e ao lado dele o homem mais alto que vira na sua vida. Seu coração se tranquilizou quando a viu sorrindo.
— “Esses dois vão precisar da nossa ajuda filho”, chegou perto do ouvido dele e então cochichou: “Eles vão nos pagar um dragão de ouro pra isso!”
Blane arregalou seus olhos e seu corpo se preencheu de alegria. Um dragão de ouro?! Pelos Deuses! Com essa moeda eu consigo comprar uma espada de verdade pra mim. E virar um grande guerreiro, igual meu pai foi. Mas o gordo cortou seus pensamentos:
— “Ajuda a gente menino, que esse meu corpo arredondado ta parando de funcionar”, disse enquanto tossia. “Ah! Eu sou Garth, esse grandão aqui ao meu lado é Ragnar”.
— “Porque você ta tossindo sangue moço?”, perguntou Blane, ainda assustado com o tamanho do outro homem.
— “Uma refeição mal feita, acho que a Lara Pine não cozinha muito bem menino. Minha dica é: nunca coma com eles!”
Nossa, ainda bem que a minha mãe é uma boa cozinheira.
— “Blane querido, eles precisam que você viaje pelo deserto com eles. Tem uma mensagem muito importante que deve ser entregue à Bartolomys Redthorn. Pegue o cavalo de seu tio e faça esse serviço, está bem?”
Viajar pelo deserto? Conhecer Bartolomys Redthorn? Uma aventura? Finalmente eu vou poder sair daqui da taverna! Preciso contar isso para Lysa! Mas porque eles não mandam um corvo com essa mensagem? Melhor eu não dar a ideia, vai que eles desistem de me levar.
— “Eu topo com certeza! Quando saímos? Nós iremos montados em grandes cavalos de batalhas?”
— “Não, meu filho. Vocês precisam sair imediatamente. E eu disse para pegar o cavalo do seu tio, lembra?”
— “Mas mãe, eu preciso contar para a Lysa que...”, Jaeny o interrompera.
— “Eu aviso ela meu lindo, agora, vá. Ajude eles. E a nós também.”
Mas, a Lysa...
Nesse momento desejou que tivesse os poderes de uma minhoca. Assim se dividiria em dois. Uma parte iria na aventura, a outra avisaria a sua amiga. Olhou pra sua mãe e para os homens, então saiu correndo da taverna para buscar o cavalo de seu tio. Percorreu a noite fria do deserto descalço. A lua brilhava prateada no céu, e algumas lamparinas ainda estavam acesas na cidade. Em alguns cantos via homens e mulheres se amassando contra a parede. Isso é hora de treinar luta gente? Estava tremendo de frio, mas já estava acostumado com isso, não tinha roupas que o protegessem para isso. Com essa moeda eu posso até mesmo comprar uma blusa de lã para mim! Uma bem bonita feito de pele de cordeiro. Chegou quase congelando na casa de madeira de seu tio. Bateu na porta algumas vezes mas ninguém atendeu. Ele tinha o sono muito pesado. Soltou o cavalo do pequeno estabulo de madeira e pedra e o levou consigo. Depois minha mãe conta pra ele o que aconteceu.
Voltou para a taverna e encontrou Ragnar preparando um cavalo para sua viagem. Amarrou a montaria de seu tio e entrou para se despedir de sua mãe. Lá dentro estavam todos reunidos. Um velho homem, conhecido por “O contador de histórias”, falava o conto do “Herói Perdido”, Blane gostava muito dessa história também. Mas estava mais ansioso para viajar do que para ouvi-lá novamente. Sua mãe lhe entregou um pequeno saco com algumas coisas que achava bom ele levar para a viagem.
— “Se cuide ok meu anjo?”, disse com lágrimas nos olhos. “Volte o mais rápido possível e me mande noticias assim que der. Eu te amo muito. Vou rezar muito aos sete deuses.” O abraçou com muita força e o manteve em seus braços por um bom tempo.
— “Mãe, ta bom. Também te amo. Mas me solta, preciso ir”.
— “Ok, tome cuidado meu menino. Volte logo ta?”, respondeu secando seu rosto da água salgada.
E assim foi. Montou sem sela no cavalo de seu tio, ficou ao lado de Ragnar e os dois se olharam. Uma criança inocente, que não conhecia os males do mundo de Westeros. O outro, um gigante, marcado por assassinato desde que nasceu e que já perdera a conta de quantas vidas havia tirado. Blane recebeu um sorriso do musculoso, seguido por uma série de tosses que mancharam sua mão de sangue.
— “Você também comeu a comida mal cozida de Lara?”, perguntou preocupado.
— “Há, sim! Nunca coma lá garoto”, respondeu sorrindo. “Se algo acontecer, me amarre ao cavalo está bem? Tem uma corda na minha bolsa. O mais importante de tudo é que você leve essa mensagem ao Bartolomys ok? Ela é importante demais para um corvo levá-la”, disse com um olhar sério e mostrando um bilhete que colocou dentro de sua armadura.
— “Está bem. Mas o que tem de tão importante nesse bilhete?”, perguntou, entendendo o motivo de estarem viajando até lá.
— “Coisa chata de adulto, não se preocupe”.
O sol já se mostrava tímido no horizonte. Seria errado viajar durante o dia no deserto, os cavalos não aguentariam muito tempo e os lobos do deserto caçavam suas presas à luz do dia. Mas não tinham tempo, então saíram rapidamente para que aproveitassem o calor baixo. Apesar de sua idade baixa, Blane cavalgava tão bem quanto Ragnar, deixando o gigante impressionado. Galoparam pelas areias de Dorne durante algumas horas, mas sua pele começaram a arder e os cavalos a fraquejar, assim pararam perto de uma pequena árvore que providenciava uma esperança de sombra. Quando desceram do cavalo, Ragnar começou a tossir vigorosamente, de forma que teve que ajoelhar na areia e vomitar nela. Um jato de sangue saiu de sua garganta. Ficou atordoado por alguns instantes. Blane veio tentar ajudá-lo mas após alguns segundos Ragnar ficou melhor. Mas o menino estava assustado. E se ele morrer? Será que eu consigo chegar até o... qual o nome mesmo? Ah! Salão das Velas. Que os sete estejam ao nosso lado.
— “Só precisamos descansar, e dar água para os cavalos”.
E foi o que Blane fez. Usou um dos odres de água que havia trazido para os cavalos beberem, e então os amarrou na sombra. Contou para Ragnar sobre a história de seu pai, do herói que havia sido e de como queria ser igual ele.
— “Então você quer ser um grande cavaleiro?”, perguntou encostando na árvore, ao lado dos animais e do garoto que estava quase dormindo.
— “Sim, quero uma espada de verdade. Um cavalo forte. E vencer os verdadeiros inimigos”, a voz já fraquejando de sono.
— “Os verdadeiros inimigos? Como assim?”.
— “Sim, os que estão para lá da muralha”.
Aquilo deixou Ragnar quieto pensando. A muralha não era um assunto abordado com frequência em Dorne. O país estava no lado oposto dela. Todos ali a tinham como sendo um mito criado pelos nortenhos. Como será que o menino sabia algo sobre esse lugar?
— “Mas quem está para lá da muralha?”, mas Blane já tinha dormido. Ficaram no silêncio desértico descansando, sob um pouco de sombra de uma pequena árvore.
O corpo de Blane se teletransportara. Andava por uma parede gigante de gelo, mas labaredas de fogo a derretiam. Ele corria das chamas tentando chegar ao limite dela, mas ela parecia infinita. Suas pernas fatigadas, sentia câimbra nelas de forma que não conseguia se mexer. Ia ser engolido pelo calor quando se deparou com uma matilha de lobos rosnando em sua direção. Atrás dele fogo, em sua frente inimigos. Tirou sua espada de madeira quando cavalos passaram correndo ao seu lado e começaram a lutar com os felinos. Um dos animais selvagens driblou os cavalos e veio em sua direção rosnando, pulou em cima dele. Quando sua boca estava fechando no rosto do menino, Blane acordou. Ragnar estava com os olhos fechados encostado na árvore, as mãos cheias de sangue. Os cavalos relinchavam tentando se soltar e fugir. Quatro lobos cercaram o grupo e rosnavam em direção à refeição que haviam encontrado.
— “RAGNAR! RAGNAR! ACORDE!”, gritava desesperado.
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