A princesa e o plebeu (FF reescrita)
7 Capitulo 7: Noite em Manchester. Parte I
— Mei vai nos encontrar lá. Então termina logo de se arrumar para não chegarmos atrasadas. – disse Anne vestida com um top preto e uma calça da mesma cor, que fazia seu cabelo e seus lábios parecessem ainda mais vermelhos. – Ela vai levar Ken e um amigo deles.
— Ela disse quem era? – Emma finalizava sua maquiagem.
— Não. Nem perguntei. Vamos?
Desde que Anne chegou em Manchester, Emma parecia mais animada. Ela não poderia ficar os próximos seis meses em Manchester, mas aproveitaria a estadia dela.
— Só me ajuda a decidir. Cabelo preso ou solto?
— Preso. – Anne afirmou.
Emma meneou e prendeu em um rabo de cavalo.
Quando estavam saindo da cobertura, Emma não falou com a mãe. Elena ainda estava no escritório trabalhando, então deixou um aviso com a governanta. Depois se despediu do irmão, que estava entretido em um de seus jogos, mas que, quando viu Anne, a olhou da cabeça aos pés com um olhar diferente. Emma reprimiu o riso para não deixa-lo constrangido.
O restaurante escolhido para a noite foi o Sapporo Teppanyaki, sugestão de Mei.
Anne dirigia rápido, olhava toda hora para o retrovisor e os espelhos laterais. Tinha algo que a incomodava.
— Você parece preocupada? — perguntou Emma, quando começou a notar aqueles comportamentos.
— Acho que é só impressão minha. — Anne resmungou, ajustando a marcha do carro. — Na próxima sou eu quem escolho onde vamos comer.
— Para de reclamar. Você namora um japonês.
— Namorava. — Ela corrigiu, com um tom seco. — Mas eu gostava de comer ele, não da comida japonesa.
Emma piscou, surpresa.
— E você não me disse nada? Foi recente?
Anne suspirou.
— Vou poupar você desse assunto.
Anne aproveitou o semáforo fechado para conectar o celular ao sistema de som do carro e colocar qualquer música, qualquer coisa para não falar mais daquele assunto.
A melodia começou, grave:
"Prison's gates won't open up for me
On these hands and knees I'm crawling.
Oh, I reach for you
Well, I'm terrified of these four walls
These iron bars can't hold my soul in..."
Emma fez uma careta na hora que reconheceu aquela música.
— Sério que você tá ouvindo Nickelback? — questionou. — Você deve estar mal mesmo.
— Não enche. Eu estou com raiva, isso sim.
— Você quer conversar?
— Vamos deixar para outro momento. O foco dessa história é você.
Emma entendeu o recado. Não era hora de insistir.
O semáforo ficou verde e Anne arrancou com o carro.
— Se quiser, pode trocar. Tá no aleatório. — Anne jogou o celular no colo de Emma, sem muita delicadeza.
A outra pegou o aparelho e deslizou a tela em busca de algo melhor. Quando deu play na música, um sorriso apareceu em seu rosto.
O ritmo mudou completamente, e Emma começou a cantar:
— I'm giving you everything, all that joy can bring. This I swear...
— Você é uma idiota. – Anne continuou olhando para frente.
Emma apenas aumentou o volume e continuou:
— Last time that we had this conversation, I decided we should be friends...
Anne soltou um suspiro exasperado, mas seus dedos começaram a bater levemente no volante, acompanhando o ritmo.
Emma sorriu, satisfeita.
Spice Girls sempre funcionava.
As duas foram as primeiras a chegar no restaurante. Assim que se sentaram, Emma pediu um gim, enquanto Anne optou por um chá verde. O restaurante tinha um ambiente agradável, e o aroma dos pratos preparados na chapa flutuava pelo salão.
Emma estava prestes a comentar algo quando, pelo canto do olho, viu uma figura conhecida entrando. Assim que reconheceu Mei, acenou animadamente e se levantou, indo até ela.
— Cuidado! São novos. Só tem um mês. — Mei alertou, erguendo as mãos antes que Emma a esmagasse num abraço empolgado.
Emma parou no meio do movimento, abrindo a boca em surpresa.
— Eu não acredito que você fez isso?!
— Pode acreditar.
Emma riu, abraçando a amiga com mais cuidado.
— E eu morrendo de saudade de você!
— Eu também!
Anne, que observava tudo com os braços cruzados, estreitou os olhos.
— Tá, tá... Agora me deixa ver.
Mei olhou ao redor, como se avaliasse o movimento no restaurante, e abriu discretamente o cardigã que usava. Anne e Emma inclinaram a cabeça ao mesmo tempo, analisando.
— Eu estou chocada. Ficou perfeito. Parece que nasceu com você. — Anne murmurou, impressionada.
— Doeu muito o pós operatório? — Emma perguntou.
— Bem menos do que eu esperava. A recuperação está sendo muito tranquila.
— E o seu namorado? O que achou?
Mei estalou a língua e rolou os olhos.
— Disse que não precisava, que gostava deles do jeito que eu era.
Anne riu baixo.
— Homens...
— Mas, quando viu pessoalmente... — Mei sorriu maliciosa.
— Ele testou? — Emma perguntou, semicerrando os olhos.
— Ainda não. Mas eu já avisei que só deixo ele voltar para Portugal depois que a gente testar.
Anne gargalhou.
— Isso sim é motivação.
Emma sorriu, mas logo se lembrou.
— E onde ele tá? Não me diz que te deixou vir sozinha.
— Ele nem é louco. Ele está estacionando o carro. O nosso amigo veio junto.
— Quem?
Antes que Mei respondesse, Ken surgiu atrás dela, passando os braços ao redor da cintura da namorada e depositando um beijo no rosto dela.
— Já exibindo?
— Elas que estavam curiosas.
Emma sorriu ao ver a interação dos dois, mas sua atenção foi desviada no instante seguinte. Porque, logo atrás de Ken, entrava Kojiro Hyuga. Ela piscou algumas vezes, incerta se tinha visto certo. O japonês parou por um segundo ao notar sua presença e, para a surpresa dele, ela sorriu.
Ele não sabia se era sorte ou azar.
— Oi, Kojiro. — Emma o cumprimentou.
— Se conhecem? — Mei olhou para Emma e depois para Kojiro.
— Sim. — Confirmou Emma. — Salvei ele no dia que chegou em Manchester.
Ken arqueou as sobrancelhas e lançou um olhar significativo para o amigo.
— Então é ela? — murmurou em japonês, mantendo a privacidade da conversa. — A tal garota misteriosa?
Mei, que estava sorrindo, diminuiu a expressão conforme as palavras de Ken chegaram aos seus ouvidos.
— Ela mesma. — Kojiro manteve a expressão imparcial para disfarçar.
Mei pousou os olhos nele e não desviou.
Emma e Anne não entendiam o que estava sendo dito, mas Mei captava cada palavra.
— Do que vocês estão falando? — Mei perguntou, tentando manter a voz casual, mas o olhar carregado de algo mais.
Kojiro hesitou. Só então percebeu que Mei tinha escutado tudo.
Eles se sentaram a mesa e a conversa começou a fluir entre goles de bebida e os primeiros pratos servidos. Kojiro não conseguia parar de olhar para Emma. E, mesmo sem perceber, às vezes ela retribuía. Não era nada escandaloso, mas suficiente para incomodar Mei. Não era Emma quem tinha compromisso com outra pessoa.
Mei sabia que era melhor ficar alerta.
— Eu estou ficando doida ou isso é uma aliança? – perguntou Emma olhando diretamente a mão esquerda da amiga, onde brilhava um belíssimo anel de diamante.
Mei sorriu e ergueu a mão para exibir melhor a joia.
— Ah, sim. Esse, na verdade, foi um dos motivos pelos quais chamamos vocês aqui hoje.
Enquanto as amigas a parabenizavam, Kojiro encarou Ken como se o goleiro tivesse feito a pior idiotice da vida.
— Quando isso aconteceu? — Anne perguntou, recuperando-se ainda da notícia
— Recentemente. Assim que Ken foi para Londres depois da pré temporada.
— Uau... Parabéns! Já tem data?
— Ainda não temos a data final, mas vai ser em junho do ano que vem. No Japão. E eu quero que vocês duas sejam minhas madrinhas. Minhas melhores amigas.
As garotas estavam tão genuinamente felizes, que contrastava com os dois homens da mesa, que elas notaram.
— Não vai falar nada, Kojiro? – Mei o encarou.
— Claro que sim. Então agora você vai ser cunhado do Wakabayashi?
Ken bufou. Aquela história de novo.
— É só isso que você tem a dizer? – falou Mei. — Genzo é meu primo, não meu irmão.
Anne, que estava animada, mudou quando ouviu aquele nome.
— Ainda assim, é da família. – refutou Kojiro.
Ken revirou os olhos.
— Ok. Chega. Nós estavam aqui para dá a notícia.
Emma percebeu o momento em que Anne começou a ficar tensa. A xícara de chá que antes segurava com elegância, agora estava presa entre seus dedos de forma quase rígida.
Anne não disse nada, mas seu olhar focado em algum ponto indefinido mostrava que, de alguma forma, aquela conversa a atingiu. Sentiu a mão de Emma em cima da sua, querendo acalma-la, mas estava tão irritada que não conseguia ficar mais alí.
— Preciso ir ao banheiro. – Anne se levantou da mesa, jogando o guardanapo de pano no prato.
— Quer que eu te acompanhe?
Mas Emma não teve resposta.
— Como você consegue ser tão desagradável. – Mei olhava no fundo dos olhos de Kojiro.
— Eu não falei nada dela.
— Wakabayashi é o ex namorado dela. – falou Ken.
— Eu não posso ser responsável pelo que acontece na vida amorosa das outras pessoas.
— Mas você pode ser menos estúpido. – Mei brigou. – Você deveria saber respeitar um relacionamento. Pena que nem todos aqui sabem o significado disso.
Kojiro franziu a testa. Aquilo foi uma insinuação para ele?
— Parabéns, Wakashimazu. Acabou com sua liberdade. – Kojiro tentou jogar com a mesma moeda.
Ken não acreditava que aquilo estava acontecendo.
— Não se preocupa. Vai valer muito a pena para ele. — Mei rebateu na mesma altura. – Quero ir embora.
Ken hesitou, mas Mei tinha razão.
— Tudo bem, vamos.
Kojiro pegou as chaves do apartamento e jogou para Ken.
— Vão precisar. — Mei pegou as chaves antes de Ken e as colocou na mesa de volta.
— Não se preocupa. Não vamos precisar. — Ken concordou.
— Eu... eu tenho que esperar a Anne. – disse Emma ainda sem saber o que fazer.
Mei respirou fundo, assentindo.
— Tudo bem. Depois nos falamos.
Emma viu os dois indo embora.
— Eu ainda estou sem entender o que aconteceu. – Emma pôs uma das mãos na boca, um pouco atordoada.
— Essa é essa sua amiga.
Emma soltou o ar devagar antes de se voltar para Kojiro.
— O que você fez foi horrível! — sua voz não era alta, mas carregava indignação. — Você não precisava ter falado aquilo. Não é você que vai se casar com a Mei;
Kojiro sustentou o olhar sem demonstrar arrependimento.
— Eu só falei a verdade. Meu amigo vai se ferrar se casando com ela.
— Não fala assim dela. — Emma ordenou visivelmente irritada. — Você sabe que não é só isso. E o pior: nem percebeu.
Antes que Kojiro pudesse responder, uma nova voz surgiu.
— Uou, que clima pesado é esse?
Emma virou-se e viu Antony, o jogador do Manchester United, amigo de Brian, se aproximar da mesa deles.
— O que aconteceu aqui? — ele puxou uma cadeira como se já fosse parte da conversa. — Eu tinha acabado de chegar quando vi sua amiga se levantar. Parecendo que ia matar alguém.
Emma suspirou e massageou a têmpora.
— Longa história...
Antony olhou para Emma, depois para Kojiro, claramente curioso.
— Desculpa perguntar, mas vocês dois estavam em um encontro de casal.
Kojiro e Emma se entre olharam.
— Ai, meu Deus. Desculpa. Não queria me meter no encontro de vocês.
Antony ficou sem saber o que fazer.
— Sei que não é da minha conta, mas você precisa falar com o Brian, Emma.
— O que? Não. – Emma estava completamente confusa. Antony falava muito rápido, o que aumentava seu stress. – O que o Brian tem a ver com isso? Nós estávamos apenas acompanhando nossos amigos.
— Você não está saindo junto?
— Não, nos encontramos por coincidência. – respondeu Kojiro. – Aqueles dois que saíram eram amigos em comum.
— Por favor, não diga nada ao Brian que você nos viu aqui. – pediu Emma.
Kojiro se surpreendeu ao ouvir aquilo.
Mas antes de Antony pudesse falar qualquer coisa, Anne voltou à mesa.
— Onde estão Mei e Ken?
Emma abriu a boca para responder, mas Antony foi mais rápido.
— Puta merda... — ele murmurou, sem nem tentar disfarçar a forma como olhava para Anne.
Ela arqueou uma sobrancelha, analisando-o por um segundo o moreno bonito bem na sua frente, antes de desviar o olhar. Anne logo o reconheceu, mas ignorou o rapaz e voltou-se para Emma.
— Onde eles estão? – perguntou novamente.
Emma suspirou.
— Foram embora. Mei ficou irritada com... — lançou um olhar significativo para Kojiro. — Com tudo isso.
Anne apertou os lábios, mas não perguntou mais nada. Devia ter acontecido muitas coisas nos minutos em que esteve fora.
Kojiro já estava arrependido do que causou.
— Então vamos sair daqui. Esse jantar já deu o que tinha que dar. — Anne pegou sua bolsa da cadeira e ajeitou a alça no ombro. Ela já estava cansada daquela noite.
— Concordo plenamente — Emma se levantou, ainda insatisfeita com a situação.
Ela abriu sua bolsa, mas Kojiro segurou seu braço.
— Pode deixar que eu pago. Reconheço que fui um babaca com a sua amiga. — Ele suspirou e olhou para Anne. — E com você também. Não deveria ter falado daquele jeito. Eu sabia que o Wakabayashi era primo da Mei, mas não que ele foi seu namorado.
Emma não esperava essa confissão.
— Você foi injusto com ela. Mei estava vendo a amiga sofrer por causa daquele assunto. Você acha que ela ia ignorar?
Kojiro passou a mão pelos cabelos, visivelmente frustrado.
— Eu sei.
— Que lindo. Então faça isso. — Anne respondeu de forma debochada, já sem paciência.
Kojiro não respondeu. Chamou o garçom e resolveu tudo rapidamente.
Antony, que parecia ter se hipnotizado por Anne, sorriu e olhou diretamente para ela.
— Eu também posso ir?
Anne desviou o olhar para ele, percorrendo o rosto do jogador com uma expressão analítica.
— E você é...?
Anne sabia quem ele era.
— Antony Raquena — Ele estendeu a mão, ainda sorrindo. — Jogo no United.
Anne apertou a mão dele, mas Antony a virou e beijou o dorso da sua mão em um gesto de cavalheirismo.
— Ótimo pra você.
Ela não se impressionou.
Em uma situação normal, Emma teria morrido de rir, mas só queria que ir embora daquele lugar.
Kojiro olhando a cena e achou patética.
— Se você quiser ficar, está tudo bem. – falou Emma.
— Nada disso. – Anne negou. – Vou com você.
Quando saíram do restaurante, Kojiro olhou ao redor e franziu a testa.
— Droga.
— O que foi? — Emma perguntou.
— O carro que eu vim era da Mei. Ela levou.
— Se leva não tivesse recém operada, teria cortados os freios e deixado para você voltar para casa. – disse Emma.
— É bem o tipo dela.
— Então você tá sem como voltar pra casa?
Kojiro enfiou as mãos no bolso e puxou o celular
— Vou dar um jeito.
Ele começou a procurar o endereço da sua casa. Sabia que a senhorita Matsumoto o havia mandado.
— Você ainda não decorou o seu endereço, não é? – Emma perguntou vendo a o esforço.
Anne pegou as chaves do carro e balançou no ar.
— Eu posso te levar.
Kojiro arqueou as sobrancelhas.
— Ah, é? Vai ser minha motorista particular agora?
— Não começa, Kojiro. – Emma alertava. Já havia tido muita confusão por esteira naquela noite.
Anne revirou os olhos.
— Por favor, entra logo nesse carro antes que eu perca a paciência de vez.
— Anda, Hyuga. Entra logo antes que ela mude de ideia.
Kojiro hesitou por um instante, mas acabou seguindo a recomendação de Emma e entrou no carro junto dela.
Antony assistiu à cena, ainda impressionado com Anne.
E então veio a sensação estranha.
Emma olhou para o lado observando algo que não sabia o que era. Algumas pessoas estavam chegando no restaurante, mas tinha alguma coisa errada.
— Porque você não deixa sua amiga levar o carro e você fica aqui. Eu te deixo em casa. – Antony ainda insistia.
Anne não respondeu, só entrou no carro pela porta do motorista e o ligou.
— Ei, espera aí. — Ele deu um passo na direção dela antes que ela fosse embora. — Não precisa ir tão rápido.
Anne virou para ele e lançou lhe um olhar de soslaio, como se já soubesse exatamente o que viria a seguir.
— E por que não?
Antony sorriu, inclinando-se levemente para frente, assumindo uma postura mais galante.
— Porque você nem me deu uma chance de te convencer a ficar.
Anne arqueou uma sobrancelha, os olhos avaliando-o por um instante.
Foi então que, para total surpresa de Antony, ela disse em um português perfeito:
— Como já dizia Camões: "Melhor um desconforto que me alegre do que um gosto que me entristeça."
Antony piscou, atordoado.
— Espera... Você fala português?
Anne sorriu de canto, já abrindo a porta do carro.
— E agora, o que me alegra é seguir o meu caminho.
Ela sorriu e, no instante seguinte, arrancou com o carro, deixando Antony ali, ainda tentando processar o que acabara de acontecer.
Ele passou a mão pelo queixo, soltando uma risada baixa e balançando a cabeça.
— Que mulher...
Continua...
Fale com o autor