A princesa e o plebeu (FF reescrita)
8 Capitulo 8: Noite em Manchester. Parte II
Emma tentava relaxar, recostando-se contra o banco do carro enquanto observava as ruas bem iluminadas do bairro nobre onde estavam. Quase não havia movimento àquela hora.
Depois de tudo que aconteceu no restaurante, o peso do dia parecia ter dobrado sobre seus ombros. Emma viu Kojiro pelo reflexo do retrovisor, no banco de trás sem dizer uma palavra. Ele também parecia distante, perdido em pensamentos. Talvez ele realmente tenha reconhecido que foi muito rude com Mei.
Ela olhou para o lado e viu Anne exausta, dirigindo. A amiga também estava mal.
— Você quer que eu assuma o volante? — Emma perguntou, lançando lhe um olhar de relance.
Anne não hesitou em aceitar.
Deixaria o carro com Emma, para que pudesse prosseguir e pegaria o carro na manhã seguinte.
Não era apenas o nome de Genzo que a afetou — embora isso por si só já fosse suficiente —, mas toda a situação, o ambiente, a maneira como as coisas tinham se desenrolado. O que era para ser um jantar entre amigos tinha se tornado um teste de paciência.
Quando chegaram em frente a mansão dos pais de Anne, ela desceu e Emma trocou de lugar. Fazendo Kojiro ir para o banco do carona.
Elas se despediram e assim que Anne entrou na propriedade, Emma prosseguiu.
O silêncio dominou o carro assim que Emma começou a dirigir. O cansaço de Anne, o humor sombrio de Kojiro e as próprias questões que pairavam na mente de Emma deixavam o ambiente carregado.
Ela não gostava disso.
— Você conhece a Mei há quanto tempo? — Emma perguntou, quebrando o silêncio de repente.
Kojiro desviou o olhar da janela e levou um segundo para responder.
— Uns cinco ou seis anos, eu acho.
Emma assentiu.
— Eu a conheço há mais de dez. Quando os pais dela ainda eram vivos, nós três costumávamos passar ir apara a casa dela depois da escola. Eles moravam aqui perto. Os pais dela eram tão divertidos. – Emma sorriu com lembrança.
— Quando os pais dela morreram, tudo mudou — Emma continuou, mas o sorriso começou a murchar, os dedos apertaram levemente o volante. — Ela ficou mais terna, tentava ser mais próxima das pessoas que ela gostava.
— Isso explica muita coisa.
Emma lançou um olhar afiado para Kojiro antes de voltar os olhos para a estrada.
— Não me entenda mal. Eu não quis dizer que ela é uma má pessoa. – Kojiro resolveu se pronunciar. — Mas ela é... como dizer sem parecer uma ofensa. Possessiva.
— Você quis dizer apegada.
Kojiro arqueou uma sobrancelha, mas não negou.
— Se você acha isso. Eu continuo a achando possessiva e ciumenta.
— E eu tenho certeza que o seu amigo sabe disso. Se mesmo assim ele decidiu pedi-la em casamento, é porque encontrou nela algo especial. Todo mundo tem uma história.
Kojiro ficou em silêncio por um momento, ponderando.
— É... pode ser que você tenha razão. Eu estava perto quando eles se conheceram. Sei como foi.
Emma sorriu de leve, satisfeita por ter quebrado um pouco da tensão.
— E qual é a sua história com Cruyfford?
Emma piscou, um pouco surpresa pela pergunta. Ela não respondeu de imediato, virando levemente o rosto na direção dele.
Kojiro olhava pela janela, como se a pergunta fosse casual. Mas Emma não era ingênua.
— Ele é meu amigo. Por que a pergunta?
Kojiro ergueu as sobrancelhas, sem tirar os olhos da paisagem em movimento.
— Quando Antony apareceu no restaurante, ele mencionou Cruyfford. Você disse para não comentar nada com ele.
— Eu disse isso? — Emma arqueou uma sobrancelha. — Nem lembro.
Kojiro soltou um riso curto, quase inaudível.
— Você e Cruyfford estão juntos?
Emma não respondeu imediatamente. Ela sabia exatamente o que ele estava fazendo.
A forma como ele perguntou, o tom arrastado, o jeito como Kojiro parecia observar cada nuance de sua expressão. Era como se estivesse testando a água antes de mergulhar.
Emma passou a língua pelos lábios, umedecendo-os antes de responder.
— Brian e eu somos amigos. — Sua voz saiu calma. — Por que a pergunta?
— Nunca ficaram juntos? – ele insistiu.
Emma manteve o olhar preso à estrada, mas um pequeno sorriso surgiu nos cantos dos lábios.
— Não. Mas... — Um pequeno sorriso curvou o canto dos lábios. Emma soltou um suspiro leve, inclinando a cabeça de um jeito quase preguiçoso. Ela não completou.
Kojiro virou o rosto em sua direção, analisando cada palavra que Emma queria dizer.
O silêncio preencheu o carro, mas não era vazio. Era carregado.
O olhar dele se demorou mais do que o necessário nos lábios dela.
— Eu sabia que ele gostava de mim. — Emma jogou a frase no ar como quem joga uma moeda em um poço, esperando para ver onde ela cairia.
Kojiro apertou a mandíbula.
— Sabe... Às vezes eu penso em como minha vida poderia ter sido diferente — continuou Emma, baixando um pouco a voz, como se estivesse testando o peso das próprias palavras. — Você já pensou nisso?
Kojiro soltou um suspiro, relaxando contra o banco, com o queixo levemente levantado.
— Não costumo perder tempo com essas coisas.
— Nenhuma escolha errada? Nenhuma decisão precipitada?
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Se eu fiz, segui em frente.
Emma observou a linha firme do maxilar dele, a forma como a mão descansava relaxada na coxa grossas por baixo da calça jeans. Kojiro era um homem muito bonito, ela não podia negar.
— Nós somos bem diferentes nisso. – Emma concluiu.
O carro continuou deslizando pela rua iluminada. Emma sentia que sua pele estava quente, mesmo a noite estando agradável.
Quando Kojiro percebeu, já estavam na rua do seu prédio, Emma diminuiu a velocidade e encostou.
Ele não saiu imediatamente.
— Você acha que Antony vai falar sobre a gente? – Kojiro perguntou.
Emma virou o rosto na direção dele ao ouvir aquela pergunta.
— Se ele já não tiver contado. — Ela inclinou levemente a cabeça, sorrindo de forma angelical. — Mas como foi dito: não houve nada.
Kojiro umedeceu os lábios. A observou por um segundo a mais antes de sair.
Os olhos dela sustentaram os dele.
Ele abriu a porta e saiu.
— Toma cuidado. — Kojiro fechou a porta e Emma o assistiu entrando no prédio.
Os dedos dela apertaram levemente o volante, sentindo uma inquietação correr sob sua pele. Ele tinha um jeito intenso.
A noite deveria ter terminado ali.
A rua estava deserta. Emma soltou um longo suspiro. Iria voltar para sua casa e voltaria a sua vida monótona e desagradável. Tentando fazer de tudo para não se sentir um estorvo na vida da mãe. Talvez seja esse o motivo de Elena não falar nada sobre o novo relacionamento. Perguntaria a Anne na amanhã seguinte se ela sabia de algo.
Elena e Cristina Seymour, mãe de Anne, eram amigas há mais de duas décadas, então a amiga poderia ter ouvido alguma coisa. Mas o que Emma sentia era que a mãe tinha refeito a sua vida, e ela não fazia mais parte.
Emma passou a língua nos lábios ressecados, pegando um balm na bolsa. Mal a abriu e o celular vibrou com uma mensagem.
Brian: Você tá ocupada?
Seus olhos se voltaram rápido para o reflexo no vidro da janela do carro. O estacionamento estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes baixas no teto.
Emma hesitou. O incômodo voltou. Não era Brian. Tinha algo em sua volta que a deixava insegura de ficar alí. O que era estranho, aquele era um dos melhores bairros da cidade.
Sem pensar muito, apertou o nome de Brian e levou o celular ao ouvido.
Ele atendeu no primeiro toque.
— Não precisava me ligar. — A voz dele era suave.
— Eu estou voltando para casa. Preciso de companhia.
Ouviu a risada alta e grossa do outro lado da linha, característica dele. Emma pode relaxar um pouco.
— Daqui eu não consigo te proteger, mas te prometo que vou atrás de você até o fim do mundo.
Emma fechou os olhos por um segundo, rindo baixo.
— Você sempre com essas promessas dramáticas, Cruyfford.
— Eu cumpro todas.
Ela não duvidava.
— Está voltando para casa sozinha?
— Sim. Deixei Anne na casa dos pais. Agora estou na frente do prédio onde Kojiro mora e o deixei aqui.
A pausa de Brian foi quase imperceptível.
— Você estava com ele?
— Sim. Sai com minhas amigas. E o namorado de uma delas é amigo do Kojiro.
Brian demorou um segundo a mais para responder.
— Ok.
— Antony não te contou?
— Só comentou.
Emma acertou em cheio.
— Saí com as minhas melhores amigas. Você se lembra delas?
— Anne e Mei.
Emma sorriu.
— Isso. Você ainda se lembra.
— Eu me lembro de tudo que se refere a você.
Emma mordeu o lábio, sem saber o que responder. Brian sempre sabia o que dizer para deixá-la sem palavras.
— Mas o que aconteceu?
— Bem... Tivemos uma discussão no jantar e acabamos saindo mais cedo do restaurante. E como você já sabe, encontramos Antony lá no sushi.
— Sim, foi ele que me falou. Contou que vocês tiveram um problema e que ele está apaixonado pela sua amiga.
— Sério?
— Sério. E pediu para pegar o número dela com você.
Emma riu.
— E o que você fez?
— Disse que se ele quisesse, podia pedir diretamente para você amanhã, quando estivesse em Carrington.
— Boa, Cruyfford.
— Depois, ele me pediu para convidar você e suas amigas para a festa de aniversário dele. Vai ser nesse sábado e não tem hora para acabar.
— Ele quer aproveitar o último fim de semana antes da Premier League com a Anne?
— Parece que sim.
Emma refletiu por um instante.
— Acho uma boa ideia. Sei que Mei não vai poder, porque é o dia que ela voltar para casa. Já Anne só volta em setembro, então poder ser que ela aceite ir comigo. Aí, quem sabe, Antony consiga admirar a gostosa que ela é.
Brian riu do outro lado da linha.
— Então eu aviso para ele.
Emma mexeu no retrovisor para conseguir se ver enquanto passava seu balm nos lábios. Quando voltou o espelho no lugar correto, viu a silhueta de uma pessoa atrás do carro. Ela grito tão alto que a pessoa pareceu se assustar também. O celular escorregou dos dedos dela e caiu no assoalho do carro.
— Emma?
Brian a chamava, mas Emma estava tremendo de pânico. Seu coração deu um salto no peito. O medo congelou seu corpo por um segundo, mas então ela girou o rosto, esperando ver alguém.
Emma tentou controlar a respiração acelerada, mas o peito subia e descia rápido demais.
— Emma, o que foi? Fala comigo! — Brian ainda insistia.
Ela não ouviu mais nada, mas sabia que não foi coisa da sua cabeça.
Foi então que ela sentiu o vulto passar do lado da sua janela, se movendo rápido.
Deu outro grito para desespero de Brian que estava do outro lado da linha e não conseguia fazer nada.
Emma só conseguia pensar que aquela pessoa poderia estar atrás dela.
Com os vidros fechados e as portas trancadas, ela arrancou.
Manteve o pé pressionado no acelerador o caminho todo, desviando o olhar para os retrovisores o tempo inteiro.
O medo só aumentava. O peito subia e descia rápido, a mente gritando que não era nada, que devia estar imaginando coisas. Cada sombra de poste na rua parecia um vulto se movendo.
O caminho até seu prédio foi um borrão. Não olhou mais para os lados, não diminuiu a velocidade nos semáforos quase fechando. O único pensamento martelando sua mente era: não pare.
Quando finalmente entrou no estacionamento subterrâneo do prédio, sentiu as pernas trêmulas ao pisar no freio.
Ao sair do carro, a sensação voltou com tudo. Ela correu até o elevador e apertou o botão repetidamente e esperou. Ficou de costas para a porta do elevador. Não ia dá a bobeira de ser surpreendida por trás.
O estacionamento estava vazio, mas algo na iluminação baixa e no eco dos seus próprios passos a deixava em alerta. A sensação estava pior ali. Como se alguém estivesse à espreita, escondido na penumbra, esperando o momento certo.
Sentia sua respiração alta demais.
Se o elevador não chegasse logo, ela ia surtar.
Ouviu o som do elevador chegando no seu andar, atrás dela. Emma girou tão rápido que quase tropeçou. Ela sabia que se visse aquela sombra de novo... Ela não ia esperar pra descobrir quem era.
Quando a porta se abriu, Emma deu um grito ainda mais alto. A pessoa segurou seu braço.
Seu primeiro instinto foi recuar, mas então reconheceu a figura à sua frente.
— O que aconteceu?!
Elena vestia apenas um robe por cima da roupa de dormir, os cabelos estavam levemente desalinhados, como se tivesse saído de casa às pressas. Mas o que chamou atenção de Emma foi o olhar da mãe de desespero, misturado com alívio por vê-la.
Antes que Emma pudesse dizer qualquer coisa, Elena a puxou para dentro e a abraçou forte. Sentindo o coração da mãe acelerado também.
— Você não sai mais sozinha.
Continua...
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