Marvin me deixou algumas ruas antes do Hoka onde deixei meu carro. Fui para casa, estacionei na garagem e subi direto para o quarto, não estava afim de ver a cara de ninguém, muito menos da minha mãe, fui ao banheiro para ver como estava minha aparência, que suponho estar péssima. Olhei para o espelho apenas para confirmar minhas suspeitas, liguei a torneira para lavar a mão machucada que ardeu com o toque da água, limpei o canto da boca que estava com um pouco de sangue devido aos tapas que Emily me deu, sai do banheiro indo pegar uma blusa de frio. Abri o fundo falso da parede do guarda roupa, que fiz para esconder minhas coisas de Melinda, minha amada mãe. Puta, não sei por que a chamo de mãe, ela nunca soube o como ser uma, mas chama-la pelo nome só me trouxe problemas. Peguei o canivete que ganhei de aniversário e sai indo até a garagem pegar a moto, seria mais rápido para chegar no galpão, queria o máximo de tempo a sós com Michael, agora que despistei Marvin, ficaria o tempo que fosse preciso até matar aquele desgraçado.

Não demorei muito para chegar, estacionei a moto e entrei silenciosamente, Michael estava acordado e assustado, ficava tentando se soltar das cordas.

Ele tentava gritar com a boca amordaçada. Fiquei no escuro o observando por um tempo, coloquei o canivete no bolso da calça, comecei a enrolar uma faixa na mão assobiando, ele conhecia aquele som. A respiração de Michael ficou acelerada, podia ver o suor escorrendo em sua testa, ele continuava a pedir socorro por debaixo da mordaça. Terminei de enrolar a faixa, coloquei o soco inglês por cima, não queria machuca-la mais do que já estava. Michael tentava gritar.

—– Michael, Michael! Pode gritar o quanto quiser, ninguém vai te ouvir. –– De repente ele parou, procurando de onde vinha minha voz. -–– Ainda falta uma última coisa, que preciso que me diga. –– Parei atrás dele colocando a mão em seu ombro, ele quase saltou da cadeira com o susto, sentia seu corpo tremer. ––– O que aconteceu entre você e a Emily? ––– Tirei sua mordaça.

—–– Do que está falando Nikki, não aconteceu nada. –– Sua voz falhou. –– Soube que vocês tiveram um lance. Queria saber como foi, por que não me contou, afinal somos amigos né e você não me contar que ficou com a Nerdzinha? Foi muita sacanagem, acho que você está pegando o hábito de me esconder as coisas. ––– fiquei ao lado dele, passando uma mão por cima de seu ombro.

—– Só ficamos uma vez, ela estava muito a fim de mim, mas não foi nada sério. ––– Cada palavra era como gasolina.

—–– Então não é verdade os boatos que que vocês treparam? Qual é Michael, você sempre foi um garanhão, vai me dizer que não comeu ela? ––– Ele me olhava com desconfiança e medo. –– Cara não acredito que você comeu antes de mim. ––– Aos poucos a tensão e a desconfiança foram se desfazendo.

—–– Ela estava me dando mole, me provocava, não consegui resistir. – Quando terminou a frase, enfiei o canivete até o talo em sua coxa direita, o fazendo urrar de dor.

—– Como foi ah? Me fala os detalhes! –– ele gritava enquanto pressionava o canivete.

—– PELO AMOR DE DEUS, PARAAAAA! ––– Meus olhos queimavam como brasa viva.

—–– ELA QUIS CARA, EU JURO. NÃO SABIA QUE VOCÊ QUERIA FICAR COM ELA, SE SOUBESSE NÃO TERIA FEITO. ––– Tirei o canivete, limpando o sangue na manga da blusa.

—– Quando foi que ficou com ela?! –– Ele tremia de dor.

—– Foi um dia depois da escola, esperei todos saírem, sabia que ela saia tarde, então fomos para o quartinho do zelador e transamos cara, juro a você, que ela queria. ––– como ele conseguia falar aquilo, como se ela realmente quisesse, enfiei a lâmina em sua outra perna, ele soltou outro grunhido de dor.

—– Então ela quis? Você não bateu nela, não a forçou a nada? Falaaaaaa! ­­­––– Falava com frieza enquanto girava a faca em sua coxa, lágrimas corriam de seu rosto.

—–– Ela se insinuava cara, eu juro, com aquele jeito marrento, sempre desobedecendo suas ordens, me desafiando, ela estava pedindo isso, eu sei. É uma vadia Nikki, como as outras, ela gostou, ela gemia como uma prostituta, eu juro. ––– Meus olhos se ardiam como brasas quando ele a comparou com uma prostituta.

—–– Ela gemia de prazer Ou de dor? Maldito desgraçado, como você pode abusar dela e ainda dizer que eu mandei? ––– Tirei a faca da perna e enfiei em seu peito, girando. Ele perdeu os sentidos por alguns momentos. Dei um tapa em seu rosto para que voltasse, esperei recobrar os sentidos, ele voltou atônico.

—–– Eu juro cara, ela merecia uma lição, queria que ela te obedecesse, não sabia que você queria ficar com ela antes. ––– Soquei seu rosto com fúria, quebrando seu nariz.

—–– Eu jamais faria algo assim com ela, ou com qualquer outra pessoa, seu porco nojento. ––– Suas calças ficaram molhadas, estava urinando na roupa, maldito covarde. Queria vê-lo sofrer, até parar de respirar, tirei o canivete do seu peito para dar outro golpe, não erraria seu coração dessa vez.

Quando tentei cravar o canivete novamente no peito de Michael. Alguém me segurou pelas costas e me arremessou longe me fazendo cair, levantei às pressas para ver quem me impediu, vi Marvin com o rosto pálido, olhando para Michael coberto de sangue.

—–– FICA FORA DISSO MARVIN! ––– Fui caminhando em direção a Michael, que estava respirando muito devagar, com a cabeça caída. Marvin entrou na frente segurando meus pulsos.

—–– NIKKI SEJA LA O QUE ELE TENHA FEITO, NÃO VALE A PENA CARA, ELE NÃO VALE A PENA! ––– Minha cabeça estava a mil, queria vingança, exterminar Michael da face da terra, mata-lo.

—–– VOCÊ NÃO SABE O QUE ELE FEZ MARVIN, ELE TOCOU NELA, A MACHUCOU. ––– Marvin ficou pálido, mas se manteve firme.

—–– MATA-LO NÃO VAI MUDAR O QUE ACONTECEU, SÓ VAI DESTRUIR SUA VIDA ––– ele tentava me convencer.

—– CUIDA DA EMILY, TENTA MELHORAR OS DIAS DELA, MAS MATAR ELE, NÃO VAI APAGAR DA MEMÓRIA DELA O QUE HOUVE. ––– Meus olhos arderam e as lágrimas a tanto tempo contidas, corriam compulsivamente pelo meu rosto, cai de joelhos, derrotado, me sentindo um lixo. Foi minha culpa, se eu não tivesse implicado com ela, se a tivesse deixado em paz, isso jamais teria acontecido. Tirei o soco inglês e comecei a socar o chão com força, até sentir arderem as juntas das minhas mãos. Chorei como um bebê, até soluçar, sentia que meu peito iria explodir, a dor era insuportável. Marvin colocou a mão em meu ombro, ele nunca tinha me visto chorar. Emily conseguia despertar sentimentos há muito tempo esquecidos.

Alguns minutos depois, Marvin desamarrou Michael, fiquei em silêncio desde então, apenas o ajudei a colocá-lo no carro. Não sei o que Marvin faria, também não me importava, precisava esfriar a cabeça, mas minha casa era o último lugar onde queria estar. Subi na moto, sem dizer nada, pilotei sem rumo, quando me dei conta, estava na frente da casa daquela que ocupa metade dos meus pensamentos. Desci da moto e caminhei até o muro, com um conflito interno se deveria ou não subir até aquele quarto, mesmo que isso custasse minha liberdade, me arriscaria vê-la uma última vez.

Tentei abrir a janela, mas estava trancada, não queria acorda-la, minhas mãos estavam machucadas demais para aguentar ficar perdurado ali, estava desistindo quando a luz do abajur acendeu, Emily caminhou cautelosa até a janela e respirou cansada ao me ver, hesitou um pouco antes de abrir, sabia que ela também estava lutando consigo mesma se me deixaria entrar ou não. Por que ela não conseguia ser má comigo, depois de todo mal que eu a causei? Isso só me destruía ainda mais por dentro.

Minhas roupas estavam encharcadas de sangue, Emily arregalou os olhos, ficando preocupada, foi até a porta do quarto e trancou.

—– O que aconteceu com você? Por que está sangrando! –– Ela segurou minhas mãos e viu o quanto estavam machucadas.

—–– Esse sangue não é meu, é dele. ––– Ela congelou, ficou pálida e trêmula, pensei que fosse desmaiar, a segurei pela cintura a sentando na cama.

—–– Você o matou? Não, não, não, me diga que não fez isso? ––– Lágrimas começaram a cair de seus olhos involuntariamente, seus lábios tremiam.

—–– Não sei, queria ter a certeza, mas não sei. ––– Ela limpou o rosto na tentativa frustrada de se manter calma, o segurei enxugando com meu polegar uma lágrima que escapou, mas acabei deixando uma mancha de sangue no lugar.

—– Nicolas porquê fez isso? Por que colocou sua vida em risco? ––– Queria abraça-la, dizer que nunca mais deixaria alguém a machuca de novo, mas como posso prometer isso, não posso prometer nada, ela nunca estará segura ao meu lado.

—– Porque ele merecia, pelo que fez com você. Não sei o que ele te disse, mas eu nunca o mandei fazer aquilo, jamais mandaria alguém fazer algo assim com você ou com qualquer outra pessoa. Eu sei o que é ser tocado contra sua vontade e não desejo isso para ninguém. –– Ela me olhou curiosa, mas não entraria em detalhes, quem sabe um dia, mas hoje não. Beijei sua testa e me levantei para ir embora, ela me puxou de volta.

—– Você pode ficar mais um pouco, se quiser, mas antes precisa se limpar e trocar de roupa. –– Fiquei surpreso com o que acabara de ouvir, no fundo senti alívio, estava cansado demais para recusar. Ela me levou até o banheiro e me mostrou onde ficava tudo, apensar concordei, liguei o chuveiro quente e deixei a água cair sobre meu corpo, fiquei ali pensando em tudo que havia acontecido, mais uma vez as lágrimas vieram, chorei em silêncio. Fiquei longos minutos ali, sentindo a água quente, que ardia quando tocava minhas feridas, mesmo assim, me relaxava. Desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha, abri a porta e Emily me entregou um moletom cinza, uma blusa que deveria ser do pai dela, pelo tamanho e estilo. Voltei ao banheiro para me vesti, sai olhando em volta, pensando onde dormiria. Na cadeira ou no carpete, qualquer um deles seria melhor que minha cama com certeza. Escolhi a cadeira como melhor opção.

—–– O que está fazendo? Você não vai dormir na cadeira, minha cama cabe nos dois, mas não tente nenhuma gracinha ou juro que a vassoura vai ser fichinha perto do que vou fazer. ––– sorri de canto, ela ficava linda com esse tom ameaçador, acho que foi isso que me fez se apaixonar por ela. DEUS COMO POSSO ESTAR APAIXONADO POR ELA?!

Fui até a cama meio desconcertado, é estranho, nunca estive tão próximo assim de uma garota. Pode parecer estranho vindo de alguém como eu, mas é a pura verdade, tenho uma mãe extremamente controladora e ela jamais me deixaria ficar tão próximo de alguma garota, Samanta foi a prova disso. Sentei e ela segurou minha mão em seguida, passou uma gaze com álcool, não pude evitar a careta quando senti arder, a fazendo sorrir de canto, pelo jeito essa garota gostava de me ver sofrer. Depois de limpar minhas mãos, passou uma faixa em volta e puxou a coberta, sinalizando onde dormiria, deitei sem jeito, ela nos cobriu, apagou a luz e ficamos em silêncio, até adormecer...