Toc-toc-toc.......toc-toc-toc

Ignoro as batidas na porta, que ouço de longe, abafadas pela música do MP4. É ela, minha mãe, minha progenitora, tenho certeza. Fico pensando por que algumas pessoas têm tanta sorte de terem pais amorosos e legais e outras só se fodem? Acho que Deus tenta equilibrar as coisas, ou ele só decide que algumas pessoas nasceram para se foder mesmo. As batidas ficaram mais forte e urgentes, sei que estou a irritando, mas que se foda, quero mais que os dedos sangrem de tanto bater. As batidas cessaram, tirei os fones e fiquei olhando para o teto, tentando não pensar em Emily, mas não conseguia esquecer a noite que passei com ela, mesmo que não tenha acontecido nada, ainda consigo lembrar o cheiro do seu cabelo, do perfume, do seu toque macio cuidando das minhas feridas. Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da fechadura sendo aberta, que DESGRAÇADAAA, tirou uma cópia da chave. Preciso mudar de novo a tranca. Fingi que estava dormindo, mas minha vontade era de voar no pescoço dela, por ter entrado no um quarto assim. Ouvi seu salto fino batendo no chão de madeira, senti o lado direito da minha cama afundar, seu toque no meu rosto embrulhava meu estômago, ela levemente desceu a mão até meus lábios e passou o polegar, meu corpo contraiu, sua mão desceu por meu pescoço, depois meu peitoral, desceu até meu abdome, tentei controlar minha respiração para que ela não percebesse que não estava dormindo, meu coração estava acelerado, abri os olhos irritado, ela sorriu maliciosa.

—–– Acordei você garotão? Hoje é seu dia e preparei uma surpresa especial. ––

Cada palavra que saia daquela boca me deixava enjoado, me dava calafrios, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Ela alisou meu abdômen por cima da blusa, empurrei sua mão com força, como resposta tive um sorriso de canto com um olhar felino, ela se inclinou sobre meu corpo, tentando beijar meu rosto e desviei, quando percebi ela já estava em cima de mim me prendendo com as pernas, meu sangue ferveu e a empurrei da cama jogando-a no chão com raiva, ela deu um grito de dor quando seu pulso virou na queda, me olhou com fúria, levantou esfregando o pulso, a encarrei encarando com ódio e desprezo, senti meu rosto arder com o tapa certeiro que recebi, respirei fundo e me virei de volta acertando seu rosto com um soco, o que a fez recuar tonta, apoiando na cômoda atrás dela, sai do quarto às pressas enquanto minha mãe se recuperava. Sai correndo me sentindo um lixo, sentia nojo de mim, meu estômago estava embrulhado me fazendo vomitar em seguida, meu corpo se contraia involuntariamente.

Corri alguns quarteirões sem rumo e sem saber por quanto tempo, sentei exausto e suado na calçada de algum vizinho, com a cabaça baixa, passei as mãos nos cabelos com raiva, deitei no gramado, o Sol estava escaldante, se tivesse sorte, morreria de insolação.

—– Ei, o que está fazendo aí? Você está bem? ––

caralhooooooo! Mas que infernooo, não consigo ter um minuto de paz sozinho. Abri os olhos para ver quem foi que acabou com minha tentativa de morrer queimado de Sol, então percebi que corri sem rumo indo parar na frente da casa da pessoa que mais tenho evitado nesses últimos dias.

Pufffffffff

—–– Estou! Agora sai daqui e me deixa quieto! ––– Falei seco, ela juntou as sobrancelhas com raiva e cruzou os braços.

—– Então, não sei se percebeu, mas está na frente da minha casa, portanto minha calçada e não vou sair daqui. –– bateu o pé teimosa, como um aviso de que não sairia dali.

—– A calçada é pública, fora que estou do outro lado, ou seja, estou na frente da casa do seu vizinho, então some daqui! –– ela grunhiu irritada e deu meia volta batendo os calcanhares, indo para dentro de casa. Voltei a fechar os olhos.

Alguns segundos depois, senti alguém sentando ao meu lado, não consegui segurar o riso de canto, sabia que era ela, seu perfume a denunciava. Continuei de olhos fechados colocando o braço em meus olhos por conta da luz do Sol, ela respirou fundo inquieta e se acomodou.

—– Quer água? Vai acabar ficando desidratado. –– Revirei os olhos mentalmente.

—– Já passou pela sua cabeça, que talvez eu queira ficar desidratado ou morrer de insolação? ––– tenho certeza que nesse momento ela franziu a testa irritada, sei que ela odeia quando sou sarcástico.

—–– Então vai morrer em outra rua por favor! Não quero olhar para esse gramado e lembrar do seu corpo estirado aí, até por que aqui é um lugar lindo e calmo e não quero que estrague isso. ––– Não consegui segurar a gargalhada, a fazendo sorrir também, mas voltando a ficar seria logo em seguida.

—– Como já disse a rua é pública e não vou sair. –– Bufou irritada.

––– Então vou ficar aqui, pode me ameaçar o quanto quiser, não vou sair. ––– Como ela consegue ser tão teimosa e irritante.

—– Cara como você é chata! Eu só quero passar meu aniversário sozinho jogado em alguma vala, me deixa quieto e some daqui vai! –– Ela ficou surpresa, ficando silêncio pensativa por alguns minutos.

—–– Posso te perguntar uma coisa? ––– A encarei ficando sentado, sei que ela não vai sair daqui, então me dei por vencido.

—–– Eu tenho escolha? ––– Ela balançou a cabeça em negação.

—–– Porque não está comemorando seu aniversário com seus pais? Deveria estar com sua família, é um dia especial. ––– Cocei a cabeça, de especial não tinha nada, estava mais para pesadelo.

—– Meu pai morreu quando eu tinha 8 anos, tenho um irmão mAis velho, mas ele não pôde vir e minha mãe…. essa deixa pra lá. Melhor não tocar nesse assunto. –– Ela franziu a testa, pensativa. Emily é esperta, pega as coisas no ar.

—–– Sinto muito pelo seu pai! ––– ela me olhou com tristeza e pena, me deixando irritado, não preciso que sintam pena de mim.

—––– Me poupe das suas palavras de consolo e muito menos da sua pena, só quero ficar sozinho, afinal nem todo mundo tem uma família perfeitinha como a sua! ––– Emily estava me irritando e o Sol estava de castigar, morrer queimado não estava funcionando como eu esperava, minha pele estava começando a ficar vermelha e arder, meu corpo estava completamente molhado de suor, fazendo minha camisa grudar no corpo. Emily continuou sentada ao meu lado em silêncio, enquanto o calor me derretia, talvez estivesse esperando minha morte.

—– Acho melhor você entrar comigo um pouco, sua pele de vampiro sangue suga não vai aguentar muito esse Sol e te garanto que depois a sensação vai ser bem pior para vestir ou tirar qualquer roupa.—–— respirei fundo irritado, com a insistência, ignorando o vampiro sangue suga, mas teria que ceder ou ela ia ficar aqui até o Sol se pôr e se queimaria junto comigo.