A outra face do mal
11 Parte II
Levantei batendo as mãos na calça para tirar o excesso de grama, me virei para Emily estendendo a mão para ajudá-la a levantar, recebi um olhar desconfiado, mas logo ela aceitou, fazendo menção com a cabeça para irmos para sua casa.
—–– Seus pais não estão em casa? Por que acho que não vão gostar de ver a filha nerd com um cara como eu. –– sorri irônico e ela revirou os olhos, caminhando na minha frente. Observava cada parte do seu corpo, cada linha, cada fio de cabelo, que juntos formavam uma conexão perfeita.
—– Mãeeeeee, está aí? Vem aqui na sala rapidinho! ––– Emily entrou na sala tirando os sapatos, que só agora percebi serem pantufas de ursinho, ela estava de pijama. Sua mãe apareceu na sala sorrindo afetuosa para a filha, franziu a testa rapidamente me encarando e olhou para Emily de volta. –– Mãe esse é o Nicolas, não se deixe enganar por seu estilo badboy, na verdade ele é um nerd disfarçado. –––
Ela me encarou com sarcasmo e a fulminei com os olhos, sua mãe veio em minha direção sorrindo e com os braços abertos, me deu um abraço caloroso, que em outro momento acharia ruim por conta do calor lá fora, mas esse abraço era de mãe, de uma mãe de verdade, de alguém que realmente sabe o significado disso. Os únicos carinhos e abraços que recebi da minha, foram tapas, socos e abuso.
—– Mãe o Nicolas e eu vamos subir para o quarto estudar para as provas finais, ele está me ajudando em geometria, que a senhora sabe como sou péssima. ––– ela bufou segurando a testa, olha até que essa garota é uma boa atriz.
Observava tudo calado, sua casa é tão aconchegante, um sofá com uma tv imensa na sala e um tapete peludo, uma mesa de madeira, com seis cadeiras, onde eles deveriam jantar todos juntos e felizes. No aparador da sala, nas paredes, tinha quadros com fotos da família, em vários lugares, fiquei intrigado que em quase todas havia um garoto ao lado de Emily, sempre a abraçando ou ambos fazendo caretas. Senti ciúmes pela forma como eles se encaixavam, tinha química, algo que nunca vou ter com ninguém. Meus pensamentos foram interrompidos pela mãe de Emily, que estava na minha frente me chamando sorridente. Forcei um sorriso simpático.
—– Nikki querido sinta-se à vontade, Emily deixe a porta destrancada, estou fazendo bolinhos de chuva, levo assim que estiverem prontos. –––
Emily avisou que era meu aniversário com os braços em volta do meu pescoço, apertando minhas bochechas. Essa nerd de merda estava testando minha paciência, ela sabe que não vou fazer nada com sua mãe por perto. Recebi um abraço caloroso da matriarca. Conseguia sentir o cheiro do cabelo dela, seu cheiro me lembrava canela e avelã, fechei os olhos sentindo aquele abraço, aquele cheiro, um nó se formando em minha garganta, recuei rápido, disfarçando, meus olhos estavam cheios e brilhantes, mas não de alegria. Emily percebeu, e não disse nada, apenas me puxou escada acima.
Entrando no quarto, as lembranças vieram como uma enxurrada, todas as palavras, os gritos, o choro, lembrei de Michael e de repente tudo ficou embaçado, tudo começou a rodar, me segurei na porta zonzo. Caminhei devagar sentando na cama, Emily veio em minha direção assustada com minha palidez repentina.
—–– Nikki, você está bem? Está pálido e gelado. Vou chamar minha mãe. ––– A puxei pelo braço, antes que saísse do quarto, para pedir ajuda.
—–– Fica, não é nada, logo vai passar. ––– Emily sentou ao meu lado, ninguém disse uma palavra. Esperei minha cabeça parar de girar, meu corpo estava pesado. Encostei a cabeça em seu ombro a pegando de surpresa. Emily demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo, mas logo relaxou e começou a acariciar meus cabelos. Fechei os olhos sentindo seu toque, a sensação é tão boa, acalmava meus pensamentos.
—–– Desculpa por mais cedo na escola, as vezes sou um completo babaca. ––– Emily bufou concordando.
—–– Magoar as pessoas não é o melhor de jeito de mantê-las seguras. –– Emily parecia me conhecer melhor do que imaginava.
—– Não conheço outro jeito ––– Ela parou de mexer no meu cabelo se afastando um pouco, me puxando para deitar em seu colo. O toque dela tinha o poder de sumir com todos os meus problemas. ––– Não tenho outra escolha. –––
—–– Entendo, mas no momento certo você precisará escolher. –––
As palavras de Emily ficaram martelando na minha cabeça, abri os olhos e me deparei com seus olhos castanhos me encarando, sua boca estava tão perto e tão longe ao mesmo tempo, me fazendo perder a sanidade. Coloquei a mão em seus cabelos e ela fechou os olhos com o toque, a puxei para mais perto e ela veio sem hesitar ficando próxima o suficiente para sentir sua respiração em meu rosto. Meus lábios formigavam só de pensar em tocar os seus, diminui o pequeno espaço entre nós dois, a beijei com calma, sentindo seu gosto. Fomos interrompidos, quando a mãe de Emily entrou no quarto de repente.
—– Emily querida, vocês aceitam alguns boli...nhos. ––– Levantei rápido, envergonhado, a mãe de Emily ficou surpresa e desconcertada. Emily estava com as bochechas vermelhas, foram longos segundos de silencio constrangedor.
—– Acho melhor eu ir – Disse olhando para Emily e depois para sua mãe. Levantei rápido demais da cama e minha cabeça girou, meu coração disparou e minhas mãos suadas tremiam, não sei o que estava acontecendo comigo, de repente tudo ficou escuro. Só conseguia ouvir a voz de Emily ao fundo ficando cada vez mais longe.
Sonho
Sentia o chão macio, uma brisa fresca tocava meu rosto, o cheiro de grama, pássaros cantando, abri os olhos e me deparei com um enorme campo verde, a grama estava alta e macia, dava para dormir nela tranquilamente. O céu estava azul como nunca vi na vida, não havia barulhos de carros, buzinas, pessoas, ou construções, só o campo vazio. Olhei em volta para ver de onde vinha os barulhos dos pássaros e um pouco longe vi uma arvore com folhas brancas como a neve, que se destacava no campo verde, somente ela era diferente. Será que eu morri e isso é o paraíso? Caminhei até a arvore, que é isso que as pessoas fazem nos filmes, quando veem algo assim. Conforme ia chegando perto, algo ia tomando formato debaixo dela, meu coração disparou, não era algo e sim alguém, minhas pernas ficavam tremulas a cada passo que dava. Alguém que pensei que nunca mais veria, ele estava do mesmo jeito que o vi na noite anterior a sua morte, com uma blusa de algodão e sua calça social bege, ele estava sentado em um banco, ficou de pé e sorriu calorosamente com os braços abertos.
—– PAAAAAAAAIIIIIIIII!!! –– Corri tão desesperadamente, que pensei que minhas pernas fossem falhar a qualquer momento com tamanho esforço, meu coração batia descompassado, meus pulmões não conseguiam acompanhar o ritmo, me dando a sensação que iriam explodir. Abracei meu pai com tanta força, que poderia quebra-lo ao meio.
—– Meu garoto, como você cresceu! –– Sua voz doce e amável, era exatamente igual à que estava gravada na minha memória, seu cheiro amadeirado, seu abraço quente, não consegui segurar as lágrimas, chorei compulsivamente, encharcando sua blusa.
—– Pai, pai.... como sinto sua falta... por que você me deixou? Por que fez aquilo?! –– Minhas palavras saiam pesadas, carregadas de magoa e tristeza, quase não conseguia falar pela dor que sentia no peito.
—– Calma, tente se acalmar. Sente-se aqui, ainda temos um pouco de tempo. –– ele me afastou me encarando com seu sorriso amoroso.
—– Não quero te perder de novo pai, não me deixe lá sozinho, não vou conseguir. –– seu olhar ficou triste, mas ainda assim ele fez final para que sentasse ao seu lado.
—– Pai, por que você se foi? Você não era feliz? Não te fazia feliz? –– Minhas lágrimas desciam descontroladas, o soluço vinha involuntário, meu pai ficou em silêncio, esperando que me acalmasse.
—– Nikki, sim eu era muito feliz com você e o Simon, vocês são tudo para mim. –– suas palavras saiam calmas e ternas
—– Então por que nos deixou? Por que me deixou lá com ela? –– meu coração estava pesado, doía tanto, que sentia vontade de arranca-lo fora.
—– Não deixei vocês, jamais deixaria você, eu te amo meu filho. Não posso falar muito aqui, mas quero que saiba que jamais deixaria você e seu irmão, descubra a verdade, você sempre foi muito inteligente, sei que vai conseguir. Você não é igual a ela Nicolas, não a deixe destruir quem você é de verdade. –– suas palavras entravam em minha alma como farpas, ele não sabia quem eu era de verdade.
—– Pai não sou mais aquele garotinho ingênuo que você criou, fiz coisas horríveis das quais não me orgulho. Simon é como você, mas eu sou como ela, desculpa te decepcionar. –– mas uma vez as lágrimas rolaram.
—–– Não diga essas coisas, não sabe o que está falando, sempre me orgulhei de você, sei que teve que fazer escolhas difíceis, mas porque as circunstâncias o levaram a isso, as vezes tomamos decisões ruins para nos manter vivos. Nicolas não tenho muito tempo agora, você precisa voltar logo. ––
—– Não quero ir, me deixe ficar aqui com você. –– Meu pai acariciou minha cabeça e me abraçou mais uma vez encostando a cabeça na minha.
—– Você precisa voltar, mas saiba que você pode mudar o rumo da sua história, não deixe que sua mãe o destrua, enfrente-a, descubra a verdade. Você pode ser feliz filho, basta você querer, ainda tem tempo de mudar. Lembre-se não é só porque coisas ruins acontecem com a gente, que devemos nos tornar pessoas ruins. Se permita ser feliz. –– Novamente tudo ficou embaçado, me retornando ao escuro.
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