A outra face do mal
12 Capitulo 5
Ouvi vozes a minha volta, sentia cheiro de álcool e látex, abri os olhos com dificuldade por conta da luz, virei para o lado tentando reconhecer o lugar, vi Emily sentada em uma cadeira roendo as unhas e balançando a perna, tentei sentar e alguém segurou meu ombro, olhei para ver quem era e uma médica loira, de olhos azuis estava me encarando. Seus olhos me lembravam o céu do sonho onde encontrei meu pai, fazendo meu coração doer.
—– Calma aí mocinho, você precisa descansar. –– Olhei para meu corpo, estava coberto com um lençol fino de hospital, vi uma cânula no dorso da minha mão com soro, Emily a essa altura já estava ao meu lado, segurou minha mão com delicadeza, me mandando ficar quieto.
—– O que aconteceu e por que estou aqui? ––– Emily fez menção em falar, mas a Dra. a tomou a frente.
—– Você está em um hospital, teve um desmaio, provavelmente por não ter se alimentado e nem ingerido água. ––– Ela falava carrancuda. –– Vocês jovens não se alimentam direito, não bebem água, acham que a vida é só sexo, bebidas e rock roll. ––– Quase sorri com a última frase, Emily também segurou o riso. –– Pois bem, a enfermeira vai te trazer algo para comer e só vai sair daqui depois que estiver bem alimentado. ––– A Dra. Saiu batendo os calcanhares, Emily levantou as sobrancelhas em afirmação, revirei os olhos, a Dra. Ana beatriz entrou na sala colocando uma badeja com salada de frutas, um croissant, suco e um pudim de chocolate.
—– Quanto tempo em Nikki, vejo como você cresceu! ––– Sorri e canto. A Dra. Ana Beatriz cuida da minha família desde que era um bebê, faz tempo que não a vejo, mas ela continua simpática. –– Me diga por que não está se alimentando e por que esta desidratado. –– Emily me encarava esperando uma resposta.
—– Desculpe Dra. Não sei o que deu em mim hoje, estou sem apetite. ––– Emily levantou uma sobrancelha questionando minha encenação, a ignorei por completo. ––– Mas não se preocupe, vou tentar, recebi ordens rigorosas de que só saio daqui depois que comer. –– A Dra. Sorriu.
—– Sei bem, não se preocupe com a Zenda, ela é meio brigona as vezes, mas é para o seu bem, coma o que conseguir e logo libero você. –––– A Dra. passou a mão em meus cabelos e saiu.
—–Porque sempre age como um idiota? –– Emily falava irritada, apenas dei ombros e coloquei uma colher de salada de frutas na boca, deixando claro que não responderia. Assim ela pararia de me encher o saco e sairíamos dali o mais rápido possível.
—– Ótimo, quanto mais rápido comer, mais rápido vai sair daqui. Avisei minha mãe que está melhor, ela deve vir nos buscar logo, à não ser que queira que ligue... para sua mãe. ––– Emily foi cautelosa ao dizer a última frase, franzi a testa com raiva e fiz um sinal negativo com a cabeça, ela segurou as mãos olhando para baixo. Depois de comer a salada de fruta e tomar o suco a força, com Emily empurrando o copo na minha boca, finalmente pude descansar. Alguns minutos de silêncio era só o que precisava, o que parecia estar longe de acontecer, por que logo em seguida a mãe de Emily entrou no quarto cantando parabéns com um mini bolo nas mãos e uma velinha soltando faísca. Levei um susto, Deus do céu, essas mulheres vão acabar me matando do coração.
—– Nicolas querido, não poderia deixar de passar esse dia em branco, esse não é o melhor dos bolos que já fiz, mas foi o único que a Dra. Ana Beatriz deixou entrar e só porque você precisa se alimentar, mas ela nos deu apenas meia hora, então seremos rápidos. ––– Olhei para Emily com os olhos semicerrados e ela sorriu sem jeito, Marvin que também veio, foi entrando logo atrás da mãe de Emily. Ele sussurrava algo, dizendo que elas o obrigaram.
Não pude deixar de lembrar dos meus aniversários anteriores, mas principalmente do o último que passei com meu pai, me lembro de todos estarem comemorando na sala, meu pai passando chantilly no meu rosto e de Simon, estávamos fazendo a maior bagunça, foi o melhor aniversário que tive e o último.
Recordo-me de levar um pedaço de bolo para minha mãe que estava ao telefone, esperei que ela terminasse a ligação, pude ouvir parte da conversa.
—––– Está tudo certo? Temos que fazer parecer que ele fez aquilo? ––– ela estava seria, segurava um cigarro, fumar era algo que fazia quando estava nervosa. Ela percebeu minha presença, veio em minha direção desligando o telefone. –––– Depois nos falamos, certifique-se que não desconfiem de nada. –––––
—––– Desculpa garotão, assuntos de trabalho. –––– entreguei o bolo a ela, que aceitou me dando um beijo no rosto, muito perto da boca, naquela época achei ser normal.
Emily me abraçou, me fazendo despertar das lembranças, sua mãe também, Marvin me deu um aperto no ombro não deixando passar despercebido meu olhar fulminante. Emily partiu o bolo e me entregou um pedaço, que deixei cair assim que vi minha mãe entrar porta à dentro, fiquei tenso, minha respiração ficou acelerada, Emily estava perto demais. A mulher veio em minha direção chorando e falando alto, percebendo a proximidade entre mim e a garota ao meu lado, me abraçou beijando meu rosto, senti meu estômago embrulhar.
—– Nicolas meu filho, sabe como fiquei desesperada quando a Dra. Ana Beatriz me avisou que estava aqui? –– ela segurava meu rosto com força, me olhava no fundo dos olhos com um brilho felino e ameaçador. A mãe de Emily entrou em cena, chamando sua atenção.
–– Não se preocupe Sra. Garen, ele está em ótimas mãos, a Dra. Ana Beatriz é uma excelente médica. ––– minha mãe se virou para ela, com desdém e ar de superioridade, sorriu maliciosa, deixando a senhora confusa.
—–– Sim, sei que ela é uma ótima profissional e somente por ela que fiquei sabendo que meu único filho estava aqui, por que suponho que não passou por sua cabeça me avisar, não é mesmo? Você como uma mãe, deveria saber como é aterrorizante não ter notícias do filho e depois encontra-lo no hospital. ––– O semblante de Emily mudou, o que antes apresentava alegria, agora estava irritado.
—– Desculpe SENHORA GAREN, não ligamos a pedido do Nicolas, ele deve ter seus motivos. Afinal existem mães e mães, não é mesmo –– Quase pulei da cama para calar a boca de Emily, que falava com a altura da mulher a sua frente, para defender sua mãe. Minha mãe a olhou de cima abaixo com um olhar em chamas, o que não a intimidou. Levantei da cama de supetão, assustando as mulheres e Marvin, precisava sair dali antes que a coisa ficasse feia.
–– Estou bem melhor, vamos embora mãe. Agora! –– A mãe de Emily parecia perdida no meio daquilo tudo, Emily me encarou incrédula e minha mãe com ódio no olhar, ela queria começar uma briga e eu a interrompi. Veio em minha direção me fulminado com o olhar, aquilo não ia ficar assim, senti um frio na barriga, agora mais que nunca preciso manter Emily segura.
—– Obrigado por tudo e me desculpe a falta de educação, mas não sei seu nome. –– Falei com a mãe de Emily, que sorriu abertamente, vindo em minha direção.
—– É Debora querido, não seja bobo, é normal deixarmos passar certas coisas, ainda mais vocês jovens que vivem com as cabecinhas nas nuvens. ––– Que sorte a nerd tinha de ter uma mãe como aquela, agora sei por que ela é assim, sempre gentil. Debora veio em minha direção para um abraço de despedida, sendo barrada pela minha, que entrou na frente estendendo a mão.
—–– Obrigada Debora, desculpe minha aspereza, mas fiquei tão preocupada com meu Nicolas, gostaria de retribuir essa gentileza algum dia.” – meu coração batia descompassado a cada palavra que saia da boca daquela mulher. A mulher arrogante que entrou na sala a alguns minutos atras, agora vestia uma capa de boa mãe, sei que ela estava tramando alguma coisa, mas não teria êxito, não vou deixá-la machucar Emily e nem Debora, nem que isso custe minha vida.
Seguimos em silêncio até o estacionamento, só conseguia pensar em Emily, em como deixa-la segura, preciso de um plano. Peguei o celular no bolso e digitei para Marvin, marcando de encontra-lo mais tarde. Ela observava cada reação minha, precisava manter o controle, não deixar transparecer nada.
—– Vejo que fez novas amizades, hein! Bonitinha aquela garota, mas muito petulante, acho que deveria escolher melhor as pessoas do seu ciclo de amizade. Afinal, você é meu herdeiro e não quero que seja visto com pessoas de baixo escalão. ––– Cada palavra soava como uma ameaça.
—– Elas não são minhas amigas, foi só uma ideia idiota que Marvin teve com a namoradinha e a sogra idiota dele, agora cala boca, ainda estou me sentindo mal.–– virei o rosto para a janela e me acomodei no banco, não dando ênfase para mais conversas. Não sei se colou, mas foi a única coisa que veio à mente no momento. Chegando em casa subi para o quarto, batendo a porta com força e a trancando, esperaria o dar o horário que combinei por mensagem para ir ao encontro de Marvin.
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