—— Marvin me contou algumas coisas, me disse que só cabe a você me contar todo o resto, não sou burro Nikki, sei que é bem mais complicado do que apenas controlar seus passos. Via como ela o tratava, mas me fiz de cego, não queria acreditar no pior. Se ela ainda estivesse viva, eu mesmo a mataria. Não vou força-lo a nada, só quero que saiba que nunca mais vou deixa-lo sozinho. —– ele falava com ódio e fúria. Simon sempre foi calmo, mas quando se tratava de Melinda, ele perdia o controle. Ela conseguia despertar os piores sentimentos das pessoas.

Fomos interrompidos pela Dra. Ana Beatriz que entrou no quarto com uma prancheta na mão e um sorriso empolgado. Simon ficou de pé estendendo a mão para cumprimentá-la, que respondeu apertando sua mão.

——Tudo bem garotos, vamos ver como está esse rapazinho. ——

A Dra. Ana Beatriz sempre cuidou da nossa família, desde que éramos bebês. Mesmo quando o assunto não era em sua área, ela estava lá acompanhando. Ela sempre foi muito educada e prestativa, mas quando se tratava de Melinda, era claro sua falta de empatia. Melinda não conseguia enganar todo mundo, a Dra. Ana Beatriz era uma dessas pessoas que não caia na encenação dela, o que muitas vezes foram motivos de briga entre ela e meu pai. Pois Melinda insistia em mudar de médica e meu pai se recusava. Quando ele morreu ela até tentou, mas a Dra. Ana Beatriz teve uma conversa com ela em particular, algo que deixou Melinda com medo, pois ela mudou de ideia quanto a mudança rapidinho.

—— Vou pedir que faça alguns exames Nicolas, para ter a certeza que está fora de perigoso, foi me passado o que ocorreu mais cedo, sobre sua queda de pressão. —— Simon me olhou assustado, apenas dei de ombros. –— Creio que deve ter sido apenas um susto, por acordar no hospital e estar com a mente confusa, mas fora isso, tudo parece correr bem. Vou pedir que uma enfermeira venha colher uma amostra de sangue, entre outros exames. Se continuar progredindo assim, logo estará em casa. Agora peço que descanse um pouco e chega de emoções por hoje. —– Simon entendeu o recado e sentou-se na poltrona, indicando que ficaria quieto. A Dra. Sorriu satisfeita saindo da sala. Alguns minutos se passaram e comecei a sentir meus olhos pesados, me levando para um sono profundo, do qual não conseguia resistir.

Pesadelo

“ No sonho me encontrava com Emily e a beijava como se não a visse a séculos, o beijo parecia tão real, seu gosto estava gravado em minha memória, nos abraçamos com saudade, sentia o cheiro do seu perfume, estava explorando cada detalhe, quando ouvia a voz de Melinda me chamando, olho e a vejo segurando uma arma, ela dispara acertando Emily que cai, a seguro em meus braços desesperado, ela me pedindo ajuda, enquanto a gargalhada de Melinda ecoa. Emily dá um último suspiro, levando consigo toda a minha esperança, minha alegria, minha vontade de viver, restando somente o desespero. Acordei assustado sentindo um aperto no peito, minha testa suava, meu corpo tremia, ainda sentia Emily em meus braços. Abri os olhos olhando para os lados procurando por Melinda, ouvindo sua risada ecoando em minha mente. Olhei para o quarto e estava vazio, somente com Simon deitado de forma desajeitada, na poltrona, ele parecia estar tendo um sonho ruim pela sua expressão. Sussurrei para mim mesmo. ”

—— Foi apenas um pesadelo. Ela está bem. ——

Voltei a fechar os olhos na falsa esperança de ter um sono tranquilo, mas acho que isso vai levar algum tempo, pois agora as lembranças estavam vivas em minha memória, me fazendo revive-las constantemente como um filme de terror. Graças a Marvin, sei que Emily está bem, mas queria saber por que esta estava se recusando a falar com a polícia? Por que queria me ver depois de tudo que aconteceu. Tantas perguntas pairavam em minha mente, deixando a noite longa e torturante. Levantei devagar tentando ficar sentado, sentia dor com os movimentos, então parava até a dor passar e tentava de novo. Consegui ficar sentado, tirei o acesso que estava em meu braço, onde o medicamento descia direto para minha veia. Olhei Simon para me certificar que estava dormindo ainda, nenhum sinal de que acordaria. Tentei sair da cama, senti uma pontada na cabeça, passei a mão atrás e senti pontos, devo ter cortado com a queda. Fui até a janela, sentindo minhas pernas fracas, devido ao tempo em que fiquei sem movimenta-las, abri a cortina com os dedos e vi a calçada encharcada pela chuva que caia lá fora. Me sentia familiarizado com aquela chuva forte com vento, eram como meus sentimentos, tão forte e avassaladores que acabaram afundando tudo a minha volta. Somente quando Emily apareceu é que pude consegui acalma-la e ver a paisagem.