Uma semana se passou desde que voltei do coma, me sentia bem melhor, já estava podendo sair da cama sem autorização. Simon e Marvin estavam sempre comigo revezando, as vezes me sentia como uma criança que de precisava de supervisão. Quando estava de bom humor tirava proveito dos dois, o que deixava ambos putos, mas não podiam fazer nada ou contava para a Dra. Ana Beatriz e ela os repreendia. Marvin ainda não tinha chegado, mas não me preocupei com isso, afinal ele já estava fazendo muito por mim, ficando comigo todos os dias.

Estava tomando café da manhã, quando ele entrou nervoso no quarto, tentou demonstrar calma ao ver a enfermeira Liz, o olhei questionando sua atitude ele respondeu entre lábios que precisávamos conversar. Pedi a enfermeira que me nos deixasse a sós e ela concordou saindo, dando um olhar penetrante para Marvin, que deixou passar despercebido, deveria ser algo muito sério, para ele ignorar a morena. Quando ela saiu, Marvin encostou a porta, vindo em minha direção apreensivo.

—— Não temos muito tempo, a polícia está aqui, passei por eles na recepção, que por sorte não me viram chegar. Lembre-se do que falamos e que Deus nos ajude. —– Marvin estava nervoso e com razão, qualquer palavra errada colocaria tudo a perder. Respondi com um olhar de que tudo ficaria bem e ele entendeu, afastou-se sentando na poltrona, pegou o celular no bolso para parecer que estava ali a algum tempo, foi só o tempo dele se acomodar e a polícia entrou no quarto, fiz uma expressão confusa. Uma policial de estatura mediana e cabelos castanhos presos em um coque, entrou no quarto, ela era magra com uma cintura bem acentuada, estava com uma calça preta com listras brancas, uma blusa social branca justa, que deixava seus seios medianos bem desenhos, a corda do seu crachá ficava entre a linha do seu decote, usava um salto baixo. Era muito bonita, Marvin quase caiu o queixo ao vê-la entrar com aquela pose autoritária e expressão marrenta. Seus olhos castanhos eram determinados, seus lábios finos estavam com um batom rosado, os deixando convidativos.

Com ela estava um cara magro, mais ou menos do tamanho de Marvin, seu olhar me dava calafrios e ele me encarava como se fosse sua presa. Vestia um uniforme azul, identificando que era da delegacia, ele intercalava o olhar entre mim e Marvin, dando um sorriso de canto, como se tivesse nos pego em flagrante, tomou a frente ignorando completamente a mulher que entrou com ele, com uma enxurrada de perguntas e acusações em tom ameaçador.

—— Bom dia Sr. Nicolas, espero que esteja curtido a estadia, pois não vai durar muito. —– não demonstrei nenhuma reação, sei como são esses policiais, sempre querendo nos intimidar.

—— Bom dia, em que posso ajuda-los? —— o policial sorriu irônico. Não sei o que esse cara estava tramando, mas Marvin já estava em alerta.

—— Nossa quanta cordialidade, nem parece o garotinho metido a traficante, que há alguns meses, colocava medo em todos na escola. —— tentei não revirar os olhos com o comentário ofensivo vindo dele. –— Impressionante como as pessoas lembram da boa e velha educação, quando estão encrencados. —— Me segurei para não revirar os olhos. —— Veremos se vai continuar assim, quando estiver atrás das grades com bandidos de verdade. ——– ele ia continuar as ofensas quando a agente que estava com ele interviu.

—— Vai com calma aí Torres, esse assunto não está mais na sua jurisdição, então baixa a bola. —Segurei o riso, quando a mulher diminuiu o ego do babaca de uniforme, que se afastou em contragosto. –— Então Sr. Nicolas, sou a agente Ângela da polícia federal. —— agora sim fiquei preocupado, por que uma coisa eram os policiais de merda da cidade, outra coisa é a polícia federal. Ela estendeu a mão para um cumprimento e respondi fazendo o mesmo.

—— Prazer agente Ângela. —– Marvin a cumprimentou acenando com a cabeça, começamos a prestar atenção em cada palavra que ela dizia.

— Gostaríamos de te fazer algumas perguntas, mas recebemos orientações de sua médica de que ainda não pode sofrer emoções fortes, então vou respeitar seus limites. —– balancei a cabeça concordando, enquanto o policial Torres me espreitava com um felino.

—— Tenho uma dúvida agente Ângela. —— ela fez sinal me dando passagem para falar. –— Não deveria me fazer perguntas na presença de um advogado? —— ela levantou uma sobrancelha sorrindo de canto, não sou burro e ela sabia isso, muitos anos convivendo com Melinda me fizeram mais esperto do que eles imaginam.

—— Sim, você só pode falar na presença do seu advogado, mas por estar hospitalizado, pensei que pudéssemos ter uma conversa amigável, sem pressão. Não se preocupe, nada do que for dito aqui, será usado para prejudica-lo. —— ela me parecia confiável, já Torres, com toda certeza queria me fuder. Olhei para Marvin, que estava tenso, seu olhar me dizia que a decisão estava em minhas mãos, olhou para a agente e para Torres fazendo um sinal negativo.

—— Como vou ter a certeza que está falando a verdade, afinal vocês já entraram aqui cheios de acusações e ofensas —— Não deixei passar despercebido o olhar fulminante que Ângela deu para Torres, que continuou com sua marra cruzando os braços, como quem não iria ceder.

—— Te dou minha palavra. —– sei que ela estava falando a verdade, mas Torres não me deixava a vontade para falar.

—— Ok, mas só falo com você, prefiro que ele espere lá fora –— olhei desafiador para Torres que abriu a boca para questionar, sendo interrompido pela agente, que pediu que se retirasse, mostrando a ele que estava acima dele. O policial saiu bufando da sala, pronunciando xingamentos que fiz questão de ignorar. Ângela olhou para Marvin esperando que ele saísse também.

—— Ele pode ficar. —– ela sorriu balançando a cabeça, percebendo que queria apenas irritar o policial que esperava lá fora, com sangue no olho.

Marvin levantou da poltrona, oferecendo o lugar para a Ângela que aceitou impressionada com o cavalheirismo do garoto, ele caminhou indo para perto da janela, encostando no parapeito, ambos estávamos apreensivos, Marvin mordia a ponta do polegar, eu por sua vez olhava cada detalhe da agente que se preparava para fazer perguntas. Ela tirou o celular do bolso colocando no silencioso, deixou em sua perna, antes me mostrando que não estava gravando nada.