A outra face do mal
22 Parte II
—— Vamos começar pelo começo Nicolas, se preferir posso chama-lo pelo sobrenome Garen. —— fiz um sinal negativo e ela continuou. – “Deve estar se perguntando como a polícia federal se envolveu nisso, certo? —– fiz um sinal positivo com a cabeça e ela continuou.
—— Como bem sabe, sua mãe não era um posso de honestidade, não vou trata-lo como se fosse ingênuo, conhecia bem ela e inclusive a ajudava em alguns assuntos. —– meu coração gelou, mas mantive a postura. Ângela me olhava indecifrável.
—— Sua mãe era uma mulher ambiciosa e pelo visto não estava satisfeita em apenas construir prédios, certo? —— concordei, sem esboçar qualquer sentimento. –— Enquanto ela estava apenas lidando com trafico, isso ficava sobre os cuidados da polícia daqui, mas a partir do momento em que ela começou a mexer com tráfico que ela dizia ser de peças roubadas, que na verdade as peças eram pessoas, aí tivemos que entrar no jogo. —— Nesse momento a tristeza tomou conta de mim, Melinda era tão desprezível que não se importava em vender pessoas para seu próprio benefício. Ângela percebeu minha expressão.
—— Você não sabia que ela traficava pessoas? —— balancei a cabeça negando.
—— Só tive conhecimento no dia em que ela sequestrou Emily. —— respondi deixando a agente intrigada.
—— Vou escolher acreditar em você Sr. Nicolas, mas preciso que coopere comigo, você já fez 18 anos, o que o torna totalmente responsável por seus atos, então não quero que minta para mim. —– balancei a cabeça em positivo e ela continuou.
—— Até que ponto estava familiarizado com os negócios da sua mãe. —— fiquei apreensivo, não sei se deveria responder essa pergunta, olhei para Marvin que se aproximou do pé da cama.
—— Sabia que estava envolvida com o tráfico de drogas e que estava começando um novo negócio, exportando peças roubadas, mas ela me mantinha de fora desse, dizia que não estava pronto para lidar com os gringos, então ela contratou Michael para cuidar disso. Tudo que sei sobre isso, é que eram peças roubadas, que grande valor. —— Marvin ficou inquieto do outro lado do quarto, chamando a atenção da agente.
—— Diga a ela Nikki, o que aquela vadia fez com você. —– a agente olhou para ele confusa e depois para mim.
—— Tem algo que queiram me contar? —– balancei a cabeça para Marvin, negando e ele bufou passando a mão nos cabelos.
—— Você precisa dizer o que ela fazia com você Nikki, isso pode te ajudar cara. —– Ângela ficava intercalando o olhar entre nós dois, perdida. Respirei fundo cansado de tudo aquilo, falar algo assim tão íntimo para a polícia, me dava medo. Medo do que eles pensariam de mim.
—— Sr. Nicolas tem algo a dizer que não chegou ao nosso conhecimento, preciso que me diga para tomar as devidas providências. —— mordi o canto da boca, meu coração batia pesado no peito, cada vez que tocava naquele assunto, revivia os momentos. Estava confuso, o medo me consumia.
—— Sim, tem algo, mas não estou pronto para falar disso agora. —– Ângela franziu a testa confusa e frustrada. –— O que vou dizer, é que sabia sim que minha mãe mexia com outras coisas além de drogas, ela estava me esperando completar a maioridade para que pudesse assumir parte dos negócios, mas a verdade é que nunca concordei com nada, ela me obrigava a fazer parte daquilo e se me recusasse, era punido por isso. —– a agente pareceu surpresa por um momento.
—— Então está me dizendo que sua mãe o obrigava a participar dos negócios e o punido caso recusasse? —— balancei a cabeça confirmando. –— Me desculpe, mas é difícil de acreditar. Pode me prova isso Sr. Nicolas? —— Olhei para Marvin, confirmando que ela não ia acreditar.
—— Sim, tenho marcas pelo corpo de objetos que eram usados para me punir, quando a desobedecia, ela monitorava cada passo que eu dava, pode confirmar pedindo para algum especialista olhar meu celular. —— Ângela ficava cada vez mais incrédula com o que ouvia.
—— Dependendo das marcas, não podemos provar nada, precisaria passar pela perícia para ver se são realmente marcas de tortura e como sabe sua mãe era uma mulher com muito poder, tendo aliados dentro e fora da justiça, então se quer realmente sair dessa precisa me contar tudo que sabe, todos os detalhes, por mais inacreditáveis que sejam. —– Ela não iria desistir de saber o que Marvin queria que eu contasse, ela não era do tipo que desistia fácil.
—— Nikki posso mostrar o vídeo para ela? —– agora a agente ficou alerta, pelo jeito Marvin manteve o vídeo em segredo até agora.
—— Vídeo? Está me dizendo que tem uma gravação Sr. Preston e manteve em sigilo? —– Ângela chamou Marvin pelo sobrenome, o que fez ele se afastar apreensivo. –— Sabe que pode sofrer consequências por esconder provas da polícia? —– chamei a atenção da mulher a minha frente, que parecia querer pular em Marvin para pegar a prova.
—— Não foi culpa dele, como você mesma disse Melinda tinha aliados dentro da justiça e só por essa razão ficamos com medo de entregar o vídeo. —– ela pareceu entender voltando sua atenção para mim, fazendo assim Marvin relaxar um pouco.
— Ok rapazes, estou tentando ser legal aqui, mas pelo visto não estão sendo honestos comigo. — ela parecia aborrecida. Fez menção em levantar, mas pedi que ficasse e ela concordou relutante.
—— Entenda agente, tenho dificuldade em confiar nas pessoas. Tenho meus motivos e prometo falar, se não contar que Marvin escondeu o vídeo. Ele tem sido minha família desde que meu pai morreu e não quero que seja prejudicado. Não sabíamos em quem confiar, por isso ocultamos a existência do vídeo. —— ela concordou.
Pedi que Marvin esperasse lá fora e não deixasse ninguém entrar, Ângela ficou apreensiva, mas se manteve firme. Contaria a ela tudo que passei nas mãos de Melinda até o dia em que sequestrou Emily. Quando Marvin fechou a porta, me virei para lateral da cama ficando de costas para a agente, que levantou ficando em alerta. Levantei a blusa deixando minhas costas a mostra, não pude ver sua reação, mas pela respiração profunda que deu, pude perceber que ficou chocada, pedi que ela desse a volta na cama ficando de frente para mim e mostrei as pequenas marcas que tinha no peito e abdome, marcas de queimaduras de cigarro, de objetos pontiagudos, entre outras coisas. Ângela procurou segurar as emoções, não queria demonstrar quaisquer seus sentimentos e preferia assim, não quero que sinta pena de mim. Vesti novamente a blusa e voltei a me deitar na cama.
Vamos recomeçar o pesadelo.
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