Fiquei mais de uma hora a sós com Ângela, contando sobre minha relação com Melinda. Ela tentou manter a postura de durona, mas a vi vacilar algumas vezes quando lhe contava detalhes do que passei na mão da mulher que deveria me proteger. Marvin entrou assim que ela saiu do quarto, ficando preocupado ao ver que meus olhos estavam inchados, pelas lágrimas que ele sabia ser de vergonha, mas não me importava que ele me visse assim, Marvin já conhecia meus segredos mais obscuros e chorar na frente dele não me afetava mais, guardei esses sentimentos por tanto tempo, que agora explodiam dentro de mim, se tornando em lágrimas que não conseguia mais conter. Se aquela agente acreditou na minha história, não sei, mas essa era a verdade. Marvin hesitou um pouco antes de me dizer que alguém me esperava na recepção.

—— Acho melhor passar uma água nesse rosto, tem alguém esperando para vê-lo e sua aparecia não está das melhores. —— Não estava preocupado com quem me veria daquele jeito, na verdade estava pouco me importando se me veria descabelado e com os olhos inchados, cansei de tentar ser forte o tempo todo. Dei de ombros.

—— Acho que todo mundo resolveu me fazer uma visita hoje — Marvin levantou os ombros como se não tivesse culpa saindo do quarto, ele voltou alguns minutos seguintes, revirei os olhos impaciente, só queria descansar um pouco, abri antigas feridas me deixou exausto, mas pelo visto elas continuariam sendo abertas. Emily entrou seguindo Marvin, quase saltei da cama surpreso, meu coração disparou, senti um frio no estômago. Minhas mãos começaram a tremer. Lancei um olhar para Marvin que retribui, dizendo entre lábios que avisou.

— Oi —

Emily disse se aproximando da cama sem jeito, sua aparência estava bem melhor, percebi que perdeu um pouco de peso e seus olhos estavam com manchas roxas embaixo, indicando que não estava dormindo bem. Marvin pigarreou chamando nossa atenção, apenas para sinalizar que esperaria lá fora.

— Oi — Respondi de volta, tentando controlar meus sentimentos que gritavam descontrolados, segurei o lençol para acalmar minhas mãos tremulas. Ambos começamos a falar ao mesmo tempo, parando e rindo da situação. Emily ficou em silêncio então tomei a frente.

—— Emily.... eu...... me desculpe...Nunca tive a intenção de te machucar. —– ela me olhava em silêncio, chegou mais perto sentando do meu lado na cama, meu coração batia acelerado. Se ela pudesse ver dentro de mim, veria a bagunça que causava quando estava por perto.

—— Não peça desculpas, eu estava lá Nikki, vi tudo que aconteceu. —– Ela falava sempre tão doce e meiga. Queria toca-la, mas estava com medo, não sabia que ela ainda sentia algo por mim, depois de tudo que aconteceu.

—— Mas eu poderia ter evitado ficando longe de você. —– ela tocou meu rosto com cuidado, fazendo minha respiração acelerar, fiquei surpreso. Agora toda a saudade que sentia, estava aflorada, tirei uma mecha do seu rosto colocando atrás da orelha e a puxei para mais perto, ela veio sem resistir. Nos beijamos até o ar faltar em nossos pulmões, o que não era bom para mim, ainda estava me recuperando da cirurgia, mas não me importava em morrer em seus braços.

Ela se afastou encostando sua testa na minha, fechei os olhos sem acreditar que aquilo estava acontecendo, não queria chorar, não agora. Por que o amor nos torna tão vulneráveis? Me sentia totalmente a mercê da garota a minha frente, o bad boy que um dia foi tão respeitado, agora chorava por não conseguir viver longe de uma nerd.

— Eu amo você Emily. — ela afastou-se me encarando, com um misto de alegria e surpresa, secou uma lágrima traiçoeira que escapava do meu olho ao falar aquelas palavras. Ela não disse nada, causando um turbilhão de perguntas dentro de mim, ao invés disso, se aconchegou na cama deitando ao meu lado, repousando sua cabeça em meu peito, a ouvi sussurrar baixinho apenas para nós dois.

— Eu também. —

Estar com Emily ali, sem me preocupar com Melinda ou com qualquer outra coisa parecia um sonho se tornando realidade, pela primeira vez na vida posso ter alguém em meus braços sem ter medo de que algo ruim possa acontecer, ambos permanecíamos em silêncio apenas curtindo a companhia um do outro, sem cobranças, sem explicações, medo. Sei que em algum momento vou ter que contar a ela sobre Melinda, mas por enquanto quero apenas aproveitar esse momento de paz.

Marvin entrou na sala avisando a Emily, o que pai dela a estava procurando, ela saltou da cama, mas antes voltando para me dar um selinho. Sussurrou dizendo que voltaria. Marvin saiu às pressas levando embora minha esperança, Emily era a única coisa que me fazia querer lutar, tentar ter uma vida diferente. Sei que não será fácil, Melinda deixou marcas em mim e onde quer que eu vá, as pessoas sempre vão associar nossas imagens. Simon teve mais sorte com isso, fugiu enquanto ainda dava tempo, já eu fui um covarde preferindo me aliar ao mau do que enfrentá-lo.

Levantei indo até a janela, perdido em pensamentos, pensando onde minhas escolhas me levaram? A lugar nenhum, essa era a resposta. Estou com 18 anos e não tenho nada, tudo que conquistei foi através de medo, subornos e trapaças, enquanto meus amigos, estarão se formando, seguindo suas vidas, eu estarei em alguma prisão, pagando pelos meus erros. Aqueles que tanto desdenhei, que sempre tratei como inferiores, com crueldade, na verdade tinham a vida que sempre almejei e os punia por isso, por não poder ser livre. Penso em Emily, que futuro vou oferecer a ela? Deixa-la me esperando alguns anos até cumprir minha pena e arrancar suas chances de ser feliz de verdade com alguém que vale a pena? A quem estou querendo enganar, nunca vou ser bom o suficiente, não sei o que é fazer a coisa certa, não sei o que é honestidade, o que é jogar limpo. Nunca vou ser igual ao meu pai.

— ONDE ELA ESTÁ? —– alguém entrou no quarto aos berros, me voltei para ver quem era e um homem de alto, de cabelos grisalhos e olhos castanho claro enfurecido veio em minha direção, mal tive tempo de reagir e ele me segurava pelo colarinho da blusa, fiquei assustado, sem reação.

— Solta ele querido, eu disse que ela não estaria aqui. —