Decidi sair dali rápido, sem olhar para Marvin e deixando Emily para trás, quando estava em uma distância segura, apressei o passo indo até o ponto de ônibus mais, com a mente a mil. Desci perto do porto, caminhei sem pressa até o porto, sentei a beira do cais, precisava esvaziar a mente. Ouvi passos se aproximando, já o esperava, vi seu carro me seguindo, Marvin sentou ao meu lado e ficamos em silêncio, por longos minutos.

—– Vai me dizer o que está acontecendo? Somos amigos a muitos anos e nunca o vi perder o controle tantas vezes como agora. –– passei as mãos nos cabelos, estava esgotado, queria fechar os olhos e esquecer tudo isso, queria nunca ter conhecido Emily.

—– Não sei o que dizer cara. Não consigo mais ser como antes, não importa para onde eu corra, no final ela está lá, como um filme de terror, que no fim, alguém acaba se machucando. Quanto mais eu tento salva-la, mais me afundo. –– Marvin sorriu, olhando para o céu.

—– Você a ama, por isso não consegue ficar longe e acho que não deveria. Ela mudou você, vejo isso, mudou para melhor, te deu vida de novo. –– ele tinha razão, com Emily me sentia vivo, sentia tudo que nunca senti em anos.

—– Mas ela merece coisa melhor, ficar comigo só a machucaria. Não posso me dar ao luxo de amar alguém, de ter alguém. –– Marvin respirou cansado, passou a mão em seus cabelos e voltou a encarar o horizonte.

—– Até quando você vai se permitir ser um fantoche daquela mulher Nikki? Ela não pode controlar sua vida para sempre, não sei o que ela faz com você, mas precisa lutar. –– encarei Marvin que estava sério olhando para o nada. Ele sabia, mas queria ouvir de mim. Precisava contar para alguém, meu segredo sujo, meu pesadelo sombrio, o sentimento que crescia dentro de mim, estava me consumindo, me comendo vivo.

—– Vou te contar algo, não sei se vai acreditar e não espero que acredita. Ninguém em sã consciência acreditaria. Mas preciso contar ou vou enlouquecer. –– Marvin prestava atenção em cada palavra, em dado momento ele sentou-se de costas para mim, para me deixar mais à vontade e eu fiz o mesmo.

—– Começou logo após a morte do meu pai, tudo ficou muito estranho depois disso. Simon quase não parava em casa e quando estava, ele e Melinda trocavam farpas o tempo todo, chegando ao ponto de se agredirem. Então ele arrumou um emprego longe e eu ficava em casa a maior parte do tempo com ela. No começo eram muitas caricias, abraços, pensei que eram para suprir a falta que meu pai fazia, ela me tocava de uma forma diferente, mas quando se é criança, não percebemos muita coisa. Quando Simon estava em casa, Melinda me tratava com frieza e muitas vezes me batia sem motivos, por isso das discussões constantes entre eles.

Tudo ficou pior no ano seguinte, no meu aniversário de 9 anos, Simon saiu com os amigos naquela noite depois que comemoramos, como não estava tarde, fiquei jogando online no meu quarto, depois fui para a cama dormir, eram quase meia noite, quando ouvi a porta do quarto se abrindo. Pensei que fosse Simon, que sempre checava para ver se estava dormindo, porque as vezes tinha pesadelos e ele me ajudava a dormir. Ouvi os passos se aproximando da cama e me virei para olhar para ele, mas fiquei surpreso ao ver que era Melinda, ela estava com uma camisola de seda vermelha e um batom vermelho nos lábios, achei estranho.

Ela acariciou meus cabelos, aproximando seu rosto do meu e beijou minha bochecha, o cheiro de uísque estava forte. Depois seus beijos foram se tornando mais intensos, se aproximando da minha boca, sinto nojo quando lembro disso.—–––––– Meus olhos estavam marejados, minha voz embargada, era tão pesado falar sobre isso, sentia meu peito afundar como se tivesse uma pedra dentro dele.

—– Ela subiu em cima de mim e tentou tirar meu short, mas segurei, estava assustado, confuso. Não entendia porque ela estava fazendo aquilo, pensei que fosse porque estava bêbada. ––

” Mamãe o que está fazendo? Perguntava. Ela sorria e me dizia: Calma querido, você vai gostar, confia em mim. ”

–– Ela forçou seus lábios contra os meus e quando recusei, senti uma bofetada arder em meu rosto. Você entende o que é isso? Sua mãe, sua protetora, fazer aquilo? Ela continuou, forçava sua intimidade sobre mim, as lágrimas caiam, estava em choque, aterrorizado. Ela sussurra bêbada. ––

“Não seja frouxo, vou te transformar em um homem de verdade. ”

—– Sentia sua boca percorrer meu pescoço, ela tirou meu pijama, deixando marcas roxas em meu peito, chorei baixinho. Ela tentou me beijar com o bafo de uísque, mas não deixei, resisti, então ouvimos um carro estacionar na garagem e ela saiu do meu quarto, Simon havia chegado, naquela noite ele me salvou do pior sem saber, mas por pouco tempo.

Quando ele foi morar na faculdade com os amigos, tudo ficou bem pior, Melinda me batia cada vez que resistia as suas investidas. Tenho cicatrizes por todo o corpo, de cintadas, objetos perfurantes que ela usava para me castigar. Mas só quando tinha 14 anos, que percebi do que ela era capaz. Comecei a gostar de uma garota, Samanta, tão linda e gentil. Melinda descobriu que estava saindo com ela e no outro dia Samanta não foi a escola, nem no dia seguinte e assim em diante, quando fui a sua casa, descobri que tinham se mudado de forma repentina, mas sei que não foi por acaso.

Por isso não posso ficar com Emily, não posso ficar com ninguém. Melinda tem contatos em toda a cidade, ela compra todo mundo. Estaria sendo egoísta se ficasse com Emily, a colocaria em risco, sua família. Só vou ser livre quando estiver morto. –– Marvin ficou em silêncio por um longo tempo, até voltar a posição que estávamos antes, sentados um do lado do outro. Demorei um tempo para encara-lo, sentia vergonha, nojo, raiva.

—– Por que nunca me contou? Somos amigos a tanto tempo e não precisava passar por tudo isso sozinho? –– Marvin falava de forma seca e fria. Seus olhos tão vivos, tão calmos, agora estavam envoltos em trevas, nunca o vi daquele jeito, com aquele olhar. Pela primeira vez, senti medo.

—– Porque...... não consegui.......–– respirei fundo cansado. Era tão difícil falar sobre aquilo, o nó voltava a se formar em minha garganta. ––Não sabia como falar, não tinha coragem de contar isso em voz alta. Me desculpa. ––

Marvin virou-se me encarando, seus olhos estavam indecifráveis, o silêncio, mas uma vez pairava entre nós, uma atmosfera pesada se fazia presente. Ele me abraçou de forma repentina, fiquei paralisado, estático, surpreso com o gesto, mas fui cedendo. Encostei minha cabeça em seu ombro e chorei, chorei baixinho como fiz em todos esses anos. Começou calmo, cansado e foi se tornando forte e doloroso, sufocante. Abafei meu choro em seu peito, meu corpo tremia e Marvin apertou o abraço. O abraço que queria sentir do meu pai naquele momento, de Simon, mas não podia. Chorei compulsivamente, o grito saiu sendo abafado por seu peito, liberto pelo nó que a tanto tempo o prendia. Chorei até não conseguir mais abrir os olhos, até não ter mais lágrimas e pela primeira vez em anos, me senti leve, a pedra que carregava em meu peito me levando para o fundo, já não estava mais lá, se desfez com as lágrimas que caiam. Aos poucos tudo foi ficando calmo, silencioso e Marvin foi desfazendo seu abraço, o porto seguro. Esperou um tempo até me recompor. Por isso o escolhi como melhor amigo, porque ele sempre sabia o que fazer em todos os momentos.

Passamos horas ali, o Sol já estava se pondo, nos levantamos em silêncio e Marvin perguntou se queria dormir na casa dele hoje, não era uma má ideia, mas precisava voltar, não queria alimentar as desconfianças de Melinda. Ele entendeu e respeitou minha decisão, afinal moro a anos naquela casa, um dia a mais ou a menos não vai mudar as coisas.