A outra face do mal
15 Capitulo 6
Cheguei à escola bem cedo, como estava frio e chuviscando decidi ir de carro, não estava a fim de pegar um resfriado. Esperei Marvin no carro entrarmos juntos, o sinal tocou indicando que a aula a começar e nem sinal dele, sai do carro relutante, não queria enfrentar Emily sozinho, Marvin me servia como apoio, caso a coisa ficasse feia. Entrei na sala antes que todos entrassem e me sentei no fundo no canto da janela, não queria ser visto e nem incomodado por ninguém. Depois da conversa que tive com Marvin ontem, algo estava diferente dentro de mim, o peso que carregava nos ombros estava mais leve.
Passaram-se a primeira e a segunda aula e Marvin só apareceu no meio do terceiro horário, deve ter entrado grande nos fundos, por onde o guarda não poderia vê-lo, caso contrário levaria uma advertência. Ele caminhou calmante até o fundo da sala, estava nervoso preocupado.
—– O que houve com você? Porque demorou tanto? –– Marvin ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse procurando as palavras certas para me falar.
—– Eu passei na casa da Emily, para traze-la comigo, mas quando cheguei lá, a mãe dela me disse que ela tinha ido dormir na casa da Amanda. Então fui até a casa da Amanda, e ela também não estava lá. Amanda me disse que elas não tinham combinado nada. Então a procurei nos lugares que sei que ela gostava de ir e não a encontrei em lugar nenhum. –– Absorvia cada palavra que Marvin me dizia e a sensação que crescia em meu peito era esmagadora, somente a imagem de Melinda vinha a minha mente. Como se estivesse revivendo um pesadelo.
—– Já ligou no celular dela? –– Ele me encarou como se aquilo fosse obvio. Talvez ela só estivesse chateada e precisou sair para esfriar a cabeça, mas no fundo sei que estava me enganando. Levantei pegando a mochila e ignorando totalmente as ameaças suspensão da professora por estar saindo de sala, Marvin me seguiu e fomos ao estacionamento, entramos em seu carro e peguei o celular dele, ligando para Emily, chamou até cair na caixa de mensagem.
—– Ok, pensa Nikki, pensa! Vou tentar mais uma vez. –– Marvin concordou e ligou novamente, caixa de mensagem novamente. Estava nervoso, pude ver que Marvin também estava, mas precisávamos pensar com calma, se Melinda estiver metida nisso, estaríamos lidando com um predador grande. Então temos que agir na mesma proporção.
—– Tive uma ideia, vou mandar mensagem do meu celular. ” – Marvin me encarava apreensivo, o clima estava tenso. Peguei o celular no bolso e mandei uma mensagem para Emily, dizendo que precisava encontra-la para me desculpar, então esperamos. Alguns segundos seguintes o celular vibrou, ela respondeu com um “sim” e que poderíamos nos encontrar mais tarde. Perguntei onde e que horas e ela me pediu para ir até a antiga fábrica de leite, perto das pedreiras as 20hs. Então tive a certeza que Melinda estava com ela.
—– Ela a pegou Marvin, Emily está a pouco tempo na cidade, ela não saberia onde fica a antiga fábrica de leite. Precisaremos agir com cuidado, ela é capaz de qualquer coisa –– Marvin assentiu, abriu o porta-luvas e pegou uma pistola Desert Eagle, o encarei questionando.
—– Meu pai me deu de presente ano passado, ele é um amante de armas, mas isso é assunto para outro dia. A deixo no carro para o caso de precisar usa-la um dia e hoje creio que seja esse dia.–– Marvin nunca foi de falar da sua relação com seu pai ou mãe e nunca achei que fosse da minha conta.
—– Melinda é esperta, com certeza já tem tudo planejado e ela estará esperando por nos dois, não quero colocá-lo em risco, você já fez muito por mim todos esses anos e hoje estou te retirando esse fardo. –– Marvin ficou sério, franziu a testa em reprovação.
—– Cala boca! Não estou fazendo isso por que trabalho para você, nunca fiz nada forçado ou por obrigação, faço isso por que somos amigos, sempre fomos e um amigo não abandona o outro na guerra, mesmo que isso custe nossas vidas. –– Sabia que Marvin não me deixaria ir sozinho, por isso pretendia despista-lo, não colocaria mais ninguém em risco. Isso acaba hoje.
—– Preciso de uma arma, a minha está em casa. Droga! Nunca saio de casa sem minha pistola, sai logo hoje que preciso dela. Não posso correr o risco de ir para casa e encontrar Melinda lá, ela pode tentar algo, se me ver fora da escola tão cedo. ––
Marvin concordou saindo do estacionamento, nós fomos até sua casa. A casa é mansão gigante, com uma sala enorme, quadros perdurados nas paredes, de todos os tipos, de vários pintores famosos. Na parede principal um retrato de um homem de terno, com barba grossa e um olhar perturbador, seus traços lembrava muito Marvin, o que me fez deduzir que aquele era seu pai. Passamos por outra sala, o que parecia ser uma sala de chá, com sofás e poltronas e uma mesa de centro, ao lado uma estante com poucos livros, chegamos ao quarto de jogos. Haviam vários tipos de jogos, de tabuleiros, tiro ao alvo, mas o mais impressionante era uma estante embutida na parede com vários tipos de armas, pistolas, resolveres, espingardas, granadas, novas, antigas, modernas, rusticas. Marvin abriu a porta de vidro que as deixavam protegidas e me entregou uma glok.
—– Toma essa, quando for vestir a roupa, coloca esse coldre aqui, onde vai poder encaixar a arma debaixo do braço. Assim ficará mais fácil de puxar, caso precise. –– Encarei Marvin, ele parecia experiência naquilo. Ele pegou uma outra arma menor e me entregou. –– Essa é uma Taurus 380 e esse é um coldre de tornozelo, antes de vestir a calça, coloca o coldre e encaixa a pistola. Se essa vadia está preparada, nos também estaremos. –– Nunca vi Marvin agir daquela forma, seus olhos estavam frios e calculistas, sua expressão me dava arrepios.
Ele pegou mais duas pistolas, estavam todas carregadas, pegou uma doze. Saímos da sala de jogos e caminhamos calmamente até a cozinha, saindo por uma porta que dava acesso a garagem, havia pelo menos 10 carros na garagem, todos cobertos. Me perguntei por que alguém como Marvin, preferia estar comigo, um merda sem escrúpulos do que torrar toda sua grana com mulheres e bebidas, como Michael fazia, mas ele nunca se importou com essas coisas, quase nunca falamos sobre nossos pais, a relação de Marvin com o seu parecia ser complicada, ele sempre preferia estar fora de casa, assim como eu.
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19h
Passamos o restante do dia planejando como salvaríamos Emily de Melinda sem que alguém saísse ferido. Quando estava perto do horário combinado, disse a Marvin que iria em casa pegar umas roupas, ele discordou completamente, me emprestando algumas de suas roupas. Não seria fácil despistar o grandalhão.
Marvin foi para a garagem me esperar no carro, sabia que ele não ia correr o risco de me deixar ir sozinho, mas daria um jeito, não iria colocá-lo em risco, ele era meu único amigo, esteve comigo em cada momento da minha vida. Não posso perde-lo.
Encarava meu rosto pálido no espelho do banheiro, olhando minhas roupas e xingo baixinho, deveria ter ido em casa. Peguei as roupas que Marvin me emprestou e comecei a me trocar, ficaram largas em mim, enquanto trocava de blusa, olhei minhas costas no espelho, as marcas das torturas estavam lá firmes e fixas, para me lembrar que nunca seria livre. Ouço Marvin buzinar impaciente, preciso pensar rápido, coloco o coldre por cima da blusa e encaixo a pistola, visto a jaqueta por cima e pego o coldre de tornozelo, encaixaria quando estivesse dentro do carro. Passo pela cozinha cumprimentando uma das cozinheiras, uma senhora simpática e meiga, quando estava prestes a uma luz surgiu em minha mente, me dando uma ideia.
—– Com licença, senhora. –– A cozinheira parou de cortar os legumes e me encara sorridente.
–– Marvin me pediu para pegar sua carteira, que ele acabou deixando na sala onde estão as chaves dos carros, a senhora pode me levar até lá? –– Ela sorri balançando a cabeça e me guia pelo corredor da casa, abre uma porta dando acesso a uma sala com vários modelos de carros antigos em miniatura e uma parede com chaves penduras, pego a chave de uma moto, se for a que estou pensando, vou chegar bem rápido onde quero, saio da sala e grito por Marvin para que me ajudasse com algumas coisas, ele sai do carro impaciente em contragosto, o espero passar pela porta da cozinha, saio detrás dela a trancando pelo lado de dentro. Marvin pode ser forte, mas não é tão rápido. Não foi difícil achar a moto, é uma Yamaha YZF-R1, ela estava em destaque, com certeza deveria ser uma das preferidas, ainda mais por sua potência e design, subo rápido ligo saindo depressa, vejo Marvin correr pelo gramado da casa, exclamando algum xingamento que foi abafado pelo ronco da moto.
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