A outra face do mal
16 Parte II
Com a potência dessa moto chegaria bem rápido no local do encontro. Deixo a moto alguns quilômetros abaixo do local marcado, para não ser visto, me escondi atrás de umas arvores, com o mato alto e espero. Vejo seu carro estacionar de frente para a entrada da antiga fábrica, a porta do passageiro sendo aberta e Emily sendo arrastada para fora, estava desacordada, tendo que ser carregada por Melinda e um homem, não conseguia ver direito quem estava com ela, meu coração congelou ao pensar nas coisas terríveis que aquela maldita poderia ter feito com Emily. Sinto meu celular vibrar no bolso da calça, vejo uma mensagem de Emily.
“Não se esqueça do nosso encontro, estou chegando”
“Ps: sinto sua falta”
Respondo de volta, que estou a caminho, recebo outra mensagem.
“Que bom, estou ansiosa para vê-lo,”
Estava prestes a colocá-lo no bolso, quando o sinto vibrar novamente, olhei o visor e vi uma mensagem de Marvin, primeiro me xingando, depois me ameaçando e por fim, informando que estava a caminho. Precisava agir rápido, Marvin não conhecia bem o caminho para cá, o que me daria um pouco de tempo. Observei cada entrada e saída da fábrica, conhecia aquele lugar, mas fazia um tempo que não vinha aqui. Analisei bem o perímetro e levantei indo até a moto, a liguei indo para os portões de entrada da fábrica, queria que Melinda me ouvisse chegar.
Desci da moto, olhei no visor do celular entrando na fábrica cautelosamente, 20hs em ponto. Observei cada centímetro, me lembrei dos galões enormes de leite que ficavam dos lados, deixando apenas o caminho reto para um espaço vazio no centro da fábrica, que antigamente era preenchimento pelas máquinas.
Minhas pernas começaram a falhar, quando aos poucos a visão de Emily sentada em uma cadeira no centro da fábrica se formava, queria correr e abraça-la, mas sei que era uma armadilha, qualquer reação errada poderia colocar sua vida em risco. Percebi que havia sangue no chão, minhas mãos começaram a tremer e senti meu corpo gelar, estava começando a ter um ataque de pânico, precisava manter o controle, minha cabeça girava, me dando a sensação que perderia os sentidos.
—– Olá garotão! ––
A voz de Melinda me assustou, mas mantive a calma. Olhei em sua direção e a vi com um vestido vermelho justo, curto, que combinava com seu batom, saltos agulha e cabelos presos em um coque com pequenos fios saltando para frente, dando-lhe uma aparência mais jovem. Sorri irônico, ao vê-la vestida daquela forma, Melinda não aceitava que a idade tinha chegado, que não era mais ume adolescente de 15 anos.
—– Não acha que está velha demais para se vestir assim Melinda? –– o comentário fez seu sorriso sedutor sumir do seu rosto, pude ver um brilho felino em seus olhos. –– Até por que os bailes da sua época já passaram –– Continuei a provocação, ela odiava quando a chamava pelo nome e mais ainda quando zombava.
—– A festa só está começando meu querido –– ela caminhou calmamente em minha direção ficando atrás de Emily, colocou uma mão em seu ombro apertando com força. Tirou a outra mão de trás das costas, revelando uma pistola com um silenciador na ponta. –– Ei acorde garotinha, quero que esteja acordada para ver isso. –– Melinda agora batia no rosto de Emily com o dorso da mão. –– Confesso que estou decepcionada, esperava surpreende-lo, mas pelo visto você já sabia. –– Ela apontou a pistola para a cabeça de Emily me fazendo paralisar.
–– Melinda não faça nada do qual possa se arrepender –– falei em tom ameaçador, Melinda era uma mulher forte e destemida, mas de algum jeito, não sei como, conseguia faze-la sentir medo. Ela me olhou desconfiada, estava blefando, mas ela não sabia disso. –– Você se tornou tão previsível que chega a dar pena. –– Vi seus olhos ascenderem com raiva, ela destravou a arma, fazendo minhas pernas vacilarem, continuei mantendo o controle.
—– Então vamos começar a brincadeira. –– Melinda deferiu um tapa com força na face de Emily a fazendo acordar desnorteada, Emily estava sob o efeito de alguma droga, olhou em minha direção com os olhos brilhantes em lágrimas, agora conseguia ver bem seu rosto e vi que estava com marcas roxas nas bochechas, seu olho direito estava inchado, o lábio inferior machucado, meu coração doeu com a cena, imaginando Melinda batendo em seu rosto, até deixar marcas, simplesmente por puro despeito, por não ser mais tão bonita.
—– Quero que me diga a verdade Nicolas –– Melinda me chamou pelo nome me fazendo encara-la. –– Qual tipo de relação você tem com essa garotinha horrorosa? –– precisava responder com calma, Melinda era boa em saber quando estava mentindo, coloquei minha máscara de frieza, para não me entregar.
—– Já disse que não temos nada, ela é só uma das garotas do Marvin, você mesma os viram se beijando na escola. –– A mulher observava cada gesto meu, procurando uma brecha. –– Você sabe que não misturo negócios com vida pessoal. Ela é só um negócio. ––Encarei Emily com desprezo, não podia demonstrar nada além disso. Pude ver lágrimas escorrem pelos cantos dos olhos e um soluço abafado fugir por debaixo da mordaça, deixando Melinda satisfeita. Um dia ela entenderia o que estava acontecendo aqui, mas não seria por mim, não pretendo sair daqui com vida. Hoje ganho minha liberdade.
Melinda veio em minha direção me encarando, se jogou em meus braços para um beijo, a rejeitei, então ela apontou a arma para Emily, que nos olhava em pânico. Puxei o seu rosto de encontro ao meu e a beijei, meu estômago revirou, segurei a ânsia de vômito, a beijei para que pudesse tirar o foco de Emily. A mulher a minha frente sorriu vitoriosa, senti uma vontade enlouquecedora de chorar, de gritar, minha alma estava em agonia. Queria matá-la.
—– Hummmm que delícia! –– Ela mordeu meu lábio inferior, então forçou ainda mais seu corpo contra o meu, se esfregando em meu membro, virei o rosto para não encarar Emily, sentia nojo, vergonha, queria estar morto. Melinda percebeu minha reação, sentindo prazer com aquilo.
—– Ah! Já ia me esquecendo, trouxe um amigo para fazer parte da nossa festinha particular. –– Encarei Melinda descrente, mas que diabos essa maldita estava aprontando. Ela me soltou indo em direção a Emily, com a arma apontada para ela, caso tentasse alguma investida.
—– Michael querido, venha nos fazer companhia –– Meu coração acelerou, minha respiração perdeu o compasso, Michael colocaria tudo a perder, ele sabia que protegia Emily, que sentia algo por ela. O torturei por causa dela, nesse momento senti raiva de Marvin por não ter me deixado matar esse desgraçado.
Michael saiu das sombras, usava uma tipoia sustentando o braço, com um sorriso sombrio em seu rosto, pude ver que mancava de uma das pernas, a que enfiei o canivete até atravessar. Ele sorriu de canto, segurava uma arma em sua mão esquerda, me arrependo amargamente de não ter quebrado seus braços, assim teria motivos de verdade para usar aquela tipoia. Ele ficou do lado direito de Emily e Melinda do lado esquerdo, Michael passou o dorso da mão no rosto dela, me fazendo ir em direção a ele com ódio, Emily se encolhia de pânico do homem ao seu lado. Quando estava perto de alcança-lo, ele mirou a arma em minha direção para atirar e Melinda entrou no meio, me fazendo recuar e ele baixar a arma.
—– Não toque nela seu maldito –– O ameacei, dava para ver nos olhos dele que sentia medo, mas armado qualquer um vira homem.
—– Calma garotos, a festa mal começou. –– Melinda sorria maldosa. Michael se curvou passando a língua no rosto de Emily que se contraiu com ânsia de vômito, meus olhos ardiam, fiquei cego, Melinda tentava me segurar enquanto ia para cima dele. Ouvi o click de uma arma sendo apontada para minha cabeça, então parei. Melinda apontava a arma para minha cabeça, se morresse agora, não conseguiria tirar Emily daqui.
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