A outra face do mal
7 Parte II
Abri os olhos e minha cabeça estava doendo muito do lado esquerdo, tudo estava girando, tentei levantar, mas fiquei zonzo e cai, Deus do céu o que aconteceu aqui! Senti o carpete pressionar meu rosto, levantei a cabeça e vi um móvel branco na minha frente, que com certeza não era do meu quarto. Ouvi vozes em volta, olhei na direção em que vinham. Emily estava sentada na cadeira da escrivaninha, Amanda em pé ao seu lado com uma vassoura na mão, agora me lembro onde estou e tenho certeza que Amanda me acertou com aquela vassoura. Emily estava pálida e assustada, seus olhos estavam inchados e a ponta do seu nariz vermelho, Amanda roía a unha do polegar.
Gemi de dor fechando os olhos de novo, não queria lidar com isso agora, não tinha ideia do que falar. Senti uma mão macia e quente tocar minha testa, aquele cheiro já se fazia tão presente em minha memória, que o reconheceria em qualquer lugar, até no meio de uma multidão. Ela passou a mão em meus cabelos e onde doía, o que me fez franzir a testa com a dor.
—– SERÁ QUE ELE VAI MORRER EMILY? AI MEU DEUS, NÃO POSSO SER PRESA EMILY, MEUS PAIS VÃO ME MATAR, AINDA ESTAMOS NO ENSINO MÉDIO! QUERO IR PARA A FACULDADE, ME CASAR, TER FILHOS!!! –– Amanda estava surtando com certeza, provavelmente deve ter comido até a raiz da unha.
—–Xiiii ele não morreu Amanda, mas se tivesse não acharia ruim. Odeio ele. ––– Ouvir aquilo doeu mais do que eu esperava.
—– Eu sei amiga, mas se for para morrer, que seja em outro lugar e outro dia, não por minhas mãos. ––– Nossa elas me odeiam mesmo.
—– Precisamos ligar para os seus pais Emy, não sei o que fazer. Estou começando a entrar em pânico. ––
Amanda estava com a voz chorosa e eu precisava sair dali antes que os pais de Emily chegassem e logo em seguida a polícia. Abri os olhos devagar e vi Emily sentada ao meu lado me encarando, quando olhei dentro de seus olhos, pude ver a magoa. Ela levantou e saiu de perto, Amanda caminhou em minha direção e ficou me encarando ainda com a vassoura na mão, na defensiva. Mais uma vez tentei levantar, minha cabeça doía muito, nenhuma palavra foi dita, passei a mão atrás da cabeça de onde vinha a dor, senti alto e dolorido, ela com certeza me acertou em cheio com aquela vassoura. Emily estava parada com os braços em volta do corpo quase que encolhida, caminhei devagar, mas estava zonzo e quase perdi o equilíbrio, sendo aparado por Amanda e logo em seguida Emily que me sentaram na beira da cama, Emily sentou na cadeira de frente para mim e Amanda ficou em pé ao meu lado. Mais como uma ameaça, do que preocupação.
—– O que você estava fazendo aqui?! – Emily perguntou fria, com uma expressão que não pude identificar, na verdade preferia não saber. –– Fala logo Nicolas, o que você estava querendo no meu quarto? –– estava com raiva. –– NÃO FOI SUFICIENTE O QUE ME FEZ?! – Ficou de pé, falava gritando, seus olhos estavam brilhando, lágrimas escorriam pelo seu rosto, sentia uma vontade gritante de levantar, enxugar cada uma delas, abraça-la.
—–– Queria ver se estava bem ––– As palavras quase não saíram, falei mais para mim mesmo, do que para ela. Emily me encarou incrédula, sua feição mudou de raiva para surpresa e depois confusão, ela cruzou os braços andando no quarto de um lado para o outro.
—– MENTIRA! VOCÊ SÓ QUERIA TER A CERTEZA DE QUE EU NÃO FALARIA NADA, NÃO É?! QUE NÃO CONTARIA O QUE VOCÊ FEZ! –––– A raiva se fazia presente mais uma vez, seu rosto estava sem vida, tinha manchas roxas em volta dos olhos, deixando claro que não estava dormindo direito.
—–– Des... desculpa! Não queria que tivesse sido assim... e.… eu... só queria ver se estava bem de verdade... Não queria lhe fazer nenhum mal.... –––– Ela veio enfurecida e me deu um tapa no rosto com tanta força que Amanda prendeu a respiração e eu senti minha cabeça girar, demorei uns segundo para voltar a posição que estava.
—–– Calma Emy, talvez ele esteja falando a verdade? Por que não dá uma chance para ele se explicar? ––– Emily e eu olhamos surpresos para Amanda, sinceramente não esperava esse tipo de reação da parte dela.
—– EXPLICAR O QUE AMANDA? ELE SÓ QUE TER A CERTEZA DE QUE NÃO VOU ENTREGA-LO A POLÍCIA. ––– Amanda franziu a testa e mordeu a unha do polegar. Emily estava muito alterada.
—– Ele é um credito, eu sei e tem toda razão de está magoada, mas por que ele correria o risco de vir aqui pessoalmente? Poderia muito bem mandar um dos capangas dele, não acha? –– Emily estava inflexível. Ela ia continuar falando quando Emily a interrompeu.
—– Amanda sai, por favor! Me deixa sozinha com ele! –– Amanda a encarou surpresa e relutante.
—– Mas Emy? –––
—– SAAAAIII AGORA, POR FAVOR! Fica vigiando, caso meus pais apareçam, me avisa! –– Amanda entregou a vassoura para Emily e saiu preocupada. Ficamos em silêncio por alguns logos e torturantes minutos. –– Por que você está fazendo isso? Por que você insiste em me torturar? MEU DEUS, POR QUE VOCÊ ME ODEIA TANTO? ––– Ela chorava com raiva, com desespero, com mágoa. Muito sentimentos estavam envolvidos agora, intercalava entre sussurros para si mesma e gritos, estava fora de controle.
—– Emy.... eu juro.... Só queria ver se estava bem.... Me desculpa...eu.... Não pensei que te cobrar na escola, fosse tão ruim assim. –– Ela sentou na cadeira e chorou com a cabeça encostada nos joelhos e como aquilo me afetava. Doía vê-la chorar, faria qualquer coisa para não a ver daquele jeito. Respirei fundo, me atrevi a ficar de joelhos de frente para ela, levantei a mão para acariciar seus cabelos castanhos, hesitei, tive medo, minha respiração estava acelerada, fechei os olhos tentando alinhar meus pensamentos. Quando abri os olhos, ela me encarava desconfiada e confusa. Encostei minha mão em seu rosto, enxugando uma lágrima com o polegar, Emily parou de respirar com o toque, senti seu corpo tremer. Numa explosão de raiva ela me empurrou me fazendo cair sentado e levantou da cadeira.
—— SAAAAIIIII DAQUI! VAI EMBORA, EU ODEIO VOCÊ, PESSOAS COMO VOCÊ NÃO DEVERIA EXISTIR! ––– O tapa doeu menos do que aquelas palavras, senti como se uma faca atravessasse meu peito. Sim, ela tinha razão. Pessoas como eu não deveriam existir.
—– Vou embora como me pediu, mas uma vez me desculpa... eu... não quis assustar você ou te machucar! –– Levantei e caminhei até a janela, estava indo embora por onde entrei. Emily veio caminhando em minha direção, fechei os olhos esperando outro tapa, mas só pude sentir sua respiração acelerada e seu hálito fresco perto do meu rosto, ela encostou seu corpo, me fazendo ficar inclinado para fora da janela, por alguns segundos pensei que me empurraria janela abaixo.
—–– Você não quis me machucar? Ahh é mesmo? Você é um covarde que manda seus capangas fazerem o trabalho sujo! Você é uma fraude Nicolas Garen, um merdinha que manda e desmanda nas pessoas, por que na verdade não tem coragem de fazer o trabalho sujo. –––
Meu sangue ferveu com aquelas palavras, mesmo que tivesse ido lá para ver se estava bem, não poderia deixar que ela ofendesse minha honra dessa forma, a encarei com raiva, ela me olhava com fúria nos olhos, senti outro tapa atingir meu rosto com tanta força, que ainda sentia o peso da mão no local, a segurei firme pelos braços e esperei até que ficasse calma, logo a fúria se tornou em um choro com gemidos roucos.
—– Por que você fez aquilo Emily? Por que tentou se matar? De todos na escola, você era a única que nunca faria algo assim! –– Ela puxou os pulsos com raiva, se soltando do meu aperto ficando de costas para mim, seus soluços eram tão dolorosos, que não consegui me conter, a abracei em silêncio por trás, ela ficou tensa e em silêncio por alguns minutos, até que relaxou o corpo.
—– Por que você está aqui Nicolas? Por quê? –– Ela falava baixinho com a voz rouca. –– Nunca pensei que você capaz de mandar o Michael fazer aquilo comigo. Por que você me odeia tanto? –– Minha mente girava com as palavras dela, no fundo eu já sabia, mas não queria admitir, não poderia. Ela ficou de frente para me encarar, sua testa estava franzida, ela fungou algumas vezes, passando a mão no nariz e depois voltou a me olhar.
—–– VOCÊ MANDOU O MICHAEL ME DAR UMA LIÇÃO DEPOIS DA ESCOLA? COMO VOCÊ CONSEGUE SER TÃO MANIPULADOR E FRIO DESSE JEITO?! E DEPOIS VIR AQUI VER SE ESTOU BEM? VOCÊ NÃO PASSA DE UM MENTIROSO –– e lá vem mais uma enxurrada de palavras ofensivas –– VAI ME DIZER QUE NÃO MANDOU ELE ME DAR UMA LIÇÃO QUE JAMAIS ESQUECERIA?! HUN?! – Ela gritava entre soluços e lágrimas, batendo em meu peito com os punhos fechados ––– VAI EMBORA, ESTOU CANSADA DE VOCÊ E SEUS JOGUINHOS MANIPULADORES, VOCÊ É IGUAL SUA MÃE. ––– Meu coração batia em pedaços. Minha mãe? O que Emily sabia sobre ela para me comprar?
–– Ainda sinto o hálito dele no meu pescoço, seu corpo pesado me prendendo no chão, sua boca nojenta deixando marcas no meu corpo. –– Emily agora estava sentada na cama, com os braços em volta do joelho segurando com força, suas palavras saiam como sussurros, quase inaudíveis, pensei que ser comparado a minha mãe fosse a piorar coisa que já ouvi na vida, mas as últimas palavras que saíram de sua boca, me fizeram perder o chão, senti meu estômago virar, minha garganta ficou seca, minha respiração ficou pesada, fechei minhas mãos com tanta força, que podia sentir minhas unhas cortando a carne.
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