Caminhei pelo corredor tendo cuidado para não cair, por causa do plástico que eles colocaram no chão, subi as escadas devagar para não a deixar cair, com medo perde-la dos meus braços, entrei no quarto e levei Emily até a cama, continuamos entre beijos e caricias, o gosto dela é como uma droga entrando na minha corrente sanguínea me fazendo querer sempre mais.

— Me perdoa! —– disse me afastando, deitando ao seu lado, não queria parar, mas precisava. Fiz uma promessa ao pai dela e não posso quebrar. Emily me encarava ofegante e confusa, fechei os olhos sentido meu coração bater dolorido.

— Por que luta contra seus sentimentos assim? Por que simplesmente não deixa acontecer? —– Emily encostou a cabeça em meu peito, sei que ela podia ouvir meu coração acelerado, sentir a bagunça que causava dentro de mim.

— Por que não tenho nada de bom para te oferecer. Por que somos de mundos diferentes. —– Dei respostas aleatórias, esperando convencê-la.

— Não somos de mundos diferentes, apenas tivemos criações diferentes. Não estou pedindo que me dê nada em troca, estou apenas pedindo que se permita ser feliz. —– ela agora me encarava, com aqueles olhos grandes e brilhantes, pelos quais me apaixonei. —Todos nós temos defeitos, conflitos, medos e uma vez ou outra fizemos escolhas nas quais nos envergonhamos, mas isso não pode nos definir para sempre, o seu futuro, quem faz é você. —- afundei a cabeça no travesseiro fechando os olhos e respirando fundo, pensar sobre essas coisas me deixava cansado. Pareciam coisas impossíveis.

— Mas todo mundo nessa cidade me odeia e onde eu vou as pessoas me assimilam a Melinda, todos acham que sou como ela! —– Emily levantou apoiando seu corpo sobre o meu, segurou meu rosto me obrigando a encara-la.

— Você não é igual a ela, nunca foi e nunca será, mesmo que ela tenha tentando de todas as formas, ela não conseguiu! —– Emily me beijou com carinho.

— Por que você não consegue ver? Por que você sempre insistiu em dizer que tem algo bom em mim, se tudo que fiz foi te magoar e te ferir? —– Emily sentou ao meu lado com a pernas cruzadas e eu sentei encostando na parede, ela me encarava seria, procurando as palavras certas.

— Você não me fez mal, é verdade que era um pé no saco na escola, mas nunca passou dos limites com ninguém, sempre que Michael era cruel, você intervia. Você só fazia o que precisava para sobreviver, por que se não fizesse, seria punido por isso e qualquer pessoa no seu lugar teria feito o mesmo. As pessoas são capazes de fazer coisas terríveis, para sobreviver. —– As palavras de Emily faziam sentido.

— Mas as coisas poderiam ter sido diferentes, se eu não fosse um covarde. —– Emily balançou a cabeça em reprovação.

— Você não é um covarde. Um covarde teria ficado em silêncio e consentido com o que Michael fez comigo, mas você não, quando te contei naquela noite, vi em seus olhos que não sabia a verdade. Você foi lá e se vingou por mim, lutou por mim. Isso não é atitude de um covarde. —– Emily tinha o poder que nem ela mesmo sabia, de trazer clareza aos meus pensamentos.

— Fiz, por que era o certo. Por que me sentia culpado, se a tivesse deixado em paz na escola, isso jamais teria acontecido. —– fiz porque compartilhávamos a mesma dor.

— Sabe o que mais me deixou surpresa naquele dia? —– A encarei confuso.

— Pude ver em seus olhos que você sentia a minha dor, que compartilhávamos do mesmo sentimento. Naquela noite, comecei a entende-lo melhor. —– Seus olhos escureceram. Ela se aproximou e me abraçou e nesse momento soube que havia encontrado alguém que entendia meus medos mais profundos.

— Mas eu fiz uma promessa e não posso quebra-la. —– Falei encostado em seu ombro.

— Para o meu pai? Ele sabe a verdade sobre você agora. Ele acompanhou o julgamento do começo ao fim, ele queria entender, por que eu o defendia tanto. Não contei aos meus pais Michael fez comigo até o dia do julgamento. —– Me afastei a encarando surpreso, por ela não ter contado aos pais.

— Por que assim como você, sentia vergonha, nojo de mim mesma. Você foi o único para quem contei. Quando tentei o suicídio e meus pais me questionaram o motivo, disse que não estava me adaptando na escola, que me sentia deprimida e eles ficaram muito preocupados. Procuraram por ajuda, tentaram entender o que estava acontecendo comigo. Conversaram com Amanda e ela disse que eu sofria bullying e que você era o principal responsável. Meu pai quis procura-lo, para tirar satisfação, mas eu não deixei. Por isso ele te odiava tanto e quando fui sequestrada por sua mãe, ele achou que você tinha culpa, que estava sendo cúmplice. —– Encarei minhas mãos, me sentindo a pior pessoa do mundo. O pai de Emily tinha razão em me querer longe.

— Ele tem razão. —– Emily balançou a cabeça negando. -— Seu pai esteve no hospital, me pediu ficar longe de você. —– ocultei a parte que ele quase me agrediu. -— Ele me disse que já tinha perdido um filho para pessoa como eu e que não perderia outro. —– Emily abaixou a cabeça, ficando pensativa, vi seus olhos ficarem cristalizados.

— Ele se referia ao meu irmão mais velho, Thiago. Quando morávamos em outra cidade, ele se envolveu com pessoas barra pesada. Ele não era má pessoa, só estava perdido dentro de si, meu pai o cobrava muito, queria que ele fosse bem-sucedido e seguisse carreira como advogado, mas meu irmão queria outras coisas. Ele amava arte, seus desenhos eram maravilhosos, ele via beleza em tudo e quando contou ao meu pai que queria ser artista, meu pai não aceitou e então os conflitos e as brigas começaram. Ele começou a se envolver com uma galera barra pesada na faculdade, chegava em casa sempre tarde da noite, começou a usar drogas e a beber muito, ele fazia isso apenas para provocar meu pai. Para provar que era dono de si mesmo e que podia controlar a própria vida, mas um dia em uma corrida clandestina, ele acabou perdendo a vida junto com mais cinco pessoa. —– Lágrimas corriam por seu rosto, enquanto ela olhava para a porta, como se revivesse aqueles momentos.

— Sinto muito! —- ela me olhou e sorriu enxugando uma lágrima que caia.

— Uma vez você me disse que minha família era perfeita, mas a verdade que estamos longe de ser perfeitos. Meu pai teve que perder um filho para poder mudar, para entender que ele não controla tudo. Por isso nos mudamos para cá, para ele ser um marido e um pai melhor. —– me aproximei dela e a abracei novamente, ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas sentindo a respiração um do outro.

— Me desculpa por ter sido um completo babaca com você! — ela sorriu e encostou sua testa na minha.

— Depois que meu pai foi ao hospital, tivemos uma briga feia. Joguei na cara dele o que havia acontecido com Thiago, sei que peguei pesado, mas ele estava cometendo o mesmo erro. O pedi que te desse uma chance e ele aceitou, acompanhou o julgamento o tempo inteiro. Quando cheguei em casa, depois de contar o que aconteceu comigo, meu pai quase enlouqueceu, chorou muito, de raiva, se sentindo impotente por não conseguir me proteger. Contei a ele o que você fez, que se vingou, que me defendeu e então ele começou a te ver com outros olhos, se sentiu grato, por você ter defendido a minha honra, mesmo sem ter obrigação, por que era o que Thiago teria feito. —- Cada vez que Emily me contava mais, eu me sentia fraco, egoísta, por pensar que só eu tinha problemas, quando na verdade todos a minha volta tinha seus próprios conflitos.

— Ele ainda me acha uma má pessoa? —– Emily se afastou ficando frente a frente comigo, me olhando dentro dos olhos.

— Não, ele se sente culpado por ter sido cruel com você. Quando contou a todos naquele tribunal, o que Melinda fazia com você, o mundo do meu pai afundou e ele se sentiu extremante mal, chegou em casa e chorou no colo da minha mãe. Disse que via muito de Thiago em você. —– as últimas palavras me pegaram de surpresa. -— Se hoje estou aqui na sua casa é com total permissão dele, que decidiu te dar uma chance. —–