A outra face do mal
26 Parte II
De volta ao tribunal, voltamos a ouvir as testemunhas, uma delas fora a Dra. Beatriz que me deixou muito surpreso com sua presença, o que ela estaria fazendo aqui? O que ela sabia sobre minha relação com Melinda? Ela fazia o juramento de dizer a verdade, quando começou a ser interrogada por minha defesa, cada palavra que saia de sua boca, me causada uma pontada no estômago. A Dra. Beatriz começou falando de como Melinda me tratava quando criança, falava de como me tornei uma criança retraída e agressiva, que chegava sempre com marcas no hospital e de como ela desconfiava que Melinda era uma mãe abusiva e que suas suspeitas se tornaram verdade quando ela viu as marcas em minhas costas.
O que eu não sabia é que Melinda já me machucava desde quando era um bebê. A Dra. Ameaçou denuncia-la para o juizado de menor, quando fui hospitalizado com um corte profundo na cabeça, aos três anos de idade, que não parecia ter sido de uma queda e sim por um objeto cortante. Melinda implorou dizendo que não me machucaria mais e a Dra. deu um voto de confiança a ela, mas depois da morte do meu pai, Melinda parou de nos levar as consultas. O advogado do Sr. Strong tentava de todas as formas distorcer tudo, mas a Dra. Ana Beatriz já estava acostumada a lidar com homens como ele e não deixou nenhuma falha em seu testemunho.
A agente Ângela também foi ouvida e mostrou ao juiz o vídeo que Marvin gravou, o advogado do Sr. Strong questionou o fato de não ter tido conhecimento dessa prova e pediu que a prova fosse retirada, mas a Juíza negou. Estava começando a gostar dessa juíza, ela não se deixava ser enganada, fazia tudo de forma correta e a forma como conduzia o julgamento era admirável, pois ela realmente parecia ser honesta e não ter sido corrompida ou comprada pelo Sr. Strong. Ouvimos os policiais que estiveram na cena do crime, a perícia e tudo estava correndo de forma tranquila. Até que o policial Torres entrou para ser ouvido, o homem despejou inúmeras acusações contra mim, disse coisas horríveis e aí o advogado do Sr. Strong tirou várias cartas da manga, várias provas sobre meu envolvimento com tráfico, minha advogada teve que intervir várias vezes, algumas vezes a juíza cedia em outras não. Meu coração ficava pequeno cada vez que o advogado vinha com algo diferente, provas, acusações que pareciam surgir como um passe de mágica. Sentia que a batalha estava perdida.
Logo chegou minha vez de testemunhar, foi o momento mais difícil da minha vida. Pensei que não fosse conseguir. Falar diante de tantas pessoas o que aconteceu naquela noite era fácil, mas quando o advogado do Sr. Strong me questionou sobre os abusos de Melinda, foi como se tudo viesse à tona, expor minha vergonha ali diante de todo mundo, me fazia se sentir um lixo. O Advogado me acusou de compactuar com os abusos, meu sangue ferveu, fui para cima dele, mas fui contido por um dos guardas, a juíza me pediu para ficar calmo, ou teria que adiar o julgamento, se houvesse mais episódios como o de mais cedo. O advogado usou minha explosão de raiva dizendo ao júri que eu era um rapaz descontrolado, usuário de drogas, que estava ciente de tudo que fazia e não fui forçado a nada. Lágrimas amargas corriam em meu rosto, senti meu estômago revirar, ele destilava seu veneno e estava convencendo a todos, mantive minha cabeça baixa, queria sumir, estava começando a me perder na escuridão. Alice protestou e a juíza concordou, agora era a vez dela me interrogar.
— Sr. Garen, é verdade que Melinda Garen, o mantinha sob total controle dela? —– Alice me encarava determinada, me passando confiança.
— Sim. —– respondia sem ânimo.
— E quando não conseguia o resultado que desejava ela o punia com torturas físicas e psicológicas? —– Acenei com a cabeça confirmando, ela me fazia muitas perguntas e eu apenas respondia sim ou não.
— Então o senhor afirma Melinda Garen tentava força-lo a ter relações com ela? —– As perguntas começaram a ser mais intimas, mais detalhadas. Cada vez que era forçado a falar com detalhes o que houve, minha alma se perdia.
— Sim. —
— Você pode nos dizer quando os abusos começaram — fechei os olhos me recordando do meu aniversário de 9 anos.
— No meu aniversário de 9 anos — Todos estava em silêncio.
— Pode nos dizer como foi? Leve o tempo que precisar. — Alice estava determinada, mas suas perguntas só me destruíam por dentro.
— Comemoramos meu aniversário em casa naquele dia. Simon saiu logo depois com alguns amigos e eu fui para o quarto, não me recordo o horário, já estava deitado dormindo. Ouvi a porta do quarto ser aberta, pensei que fosse Simon verificando se estava dormindo, por que as vezes tinha pesadelos, mas não era ele... — fiz uma pausa, tinha um nó em minha garganta, minha voz saiu rouca. — Melinda estava maquiada e de camisola, ela foi até minha cama e tentou me beijar — todos no tribunal fizeram um som de espanto. — eu resisti, mas ela subiu em cima de mim, ficou se esfregando e tentando me beijar, chorei perguntando por que ela estava fazendo aquilo, ela dizia que eu ia gostar. Quando continuei resistindo, ela me deu um tapa no rosto, não sei quanto tempo demorou, mas ela só parou quando ouvimos o barulho do carro de Simon estacionando na garagem. Ele me salvou naquela noite, sem saber. — todos no tribunal estavam incrédulos.
— Sinto muito — Alice me olhava afetiva — Agora farei uma pergunta, que acho que todos presentes aqui, estão fazendo a si mesmos. Sr. Garen, por que não a denunciou? —– Meu coração gelou, meus pensamentos foram a mil e agora havia um nó em minha garganta. Demorei tanto tempo para responder essa pergunta a mim mesmo, me negava a aceitar que ela estava lá, mas sei que esse dia chegaria, que teria que respondê-la.
— Por que? —– Respondi com outra pergunta e o tribunal ficou apreensivo, todos queriam saber a resposta. Minhas palavras saiam pesadas e dolorosas. Fiquei de cabaça baixa, sentindo um gosto amargo.
— Responda pergunta Sr. Nicolas. —– A juíza pressionou. Por que Alice estava me colocando contra a parede? Por que estava fazendo aquilo? Minha cabeça se enchia de questionamentos, tentando fugir da pergunta principal.
— Sr. Garen, por que não a denunciou — Alice foi firme com suas palavras, me causando uma explosão de sentimentos.
— POR QUE ELA ERA MINHA MÃE. —– Falei em um tom mais alto do que esperava, Alice me encarou assustada. Respirei fundo, as lágrimas caiam assumindo minha derrota. — Ela era minha mãe — respondi novamente, para o meu coração.
— Como poderia denunciar minha própria mãe? Quem acreditaria em mim? — As palavras saiam com dificuldade, demorei tanto tempo para admitir isso, que falando agora em voz alta, só me destruía por dentro.
— Você entende? Como poderia denuncia a mulher que me trouxe ao mundo? Se a vida toda somos ensinamos a amar e respeitar nossos pais. Tive medo, tive vergonha, fui covarde. Não queria admitir, que minha mãe fosse daquele jeito, não queria que as pessoas soubessem que ela era um monstro. Devemos proteger nossos pais, ama-los. É o que nos ensinam desde pequenos. —- chorei compulsivamente e o silêncio se fez presente no tribunal, ninguém conseguia dizer uma palavra sequer. Os burburinhos que tinham uma vez ou outra cessaram, agora todos ouviam atentamente o que Alice me dizia.
Sei que aquilo era necessário para provar minha inocência, mas doía tanto e só me arrastava para o fundo. Alice me pediu que contasse em detalhes como era a convivência com Melinda, quando faltava algum detalhe ela me pressionava a falar, em determinados momentos minha voz falhava e a dor se tornava insuportável, a plateia e o júri ainda permaneciam silêncio absoluto, só se ouvia minha voz e a de Alice, quando mencionei o nome de Samanta, o advogado do Sr. Strong tentou intervir, mas a juíza não aceitou e me pediu que continuasse. Alice pediu que dissesse o nome de Samanta todo e assim o fiz. Permaneci de cabeça baixa, minha voz saia com dificuldade, as lágrimas caiam persistentes, não conseguia olhar para frente, para Alice, nem para a juíza, nem para o júri, fechei os olhos me imaginando em uma sala vazia, tentando tornar aquilo mais fácil. Lembrar de Samanta abriu feridas que a muito tempo estavam escondidas. Quando finalmente acabou, levantei da cadeira quase me arrastando, não levantei a cabeça por um segundo se sequer, não conseguia encarar aquelas pessoas, meu rosto estava molhado e quente, minha blusa molhada pelas lágrimas, senti uma mão em meu ombro e vi que Alice estava ao meu lado me dando forças, voltei a me sentar na mesa, não ouvia mais nada, me perdi dentro de mim.
Não sei quando tempo fiquei imerso em minhas lembranças, mas de repente senti alguém tocando em meu ombro, Alice me trouxe de volta a realidade.
— Nicolas agora vamos ouvir o veredito — fechei os olhos respirando fundo, cansado. Esperando pelo pior.
Quando a juíza leu o veredito, demorei um tempo para assimilar. “INOCENTE”, ela disse, fiquei sentado paralisado, sem acreditar que aquilo era verdade. Alice comemorou me abraçando. O que mais me surpreendeu foi que a plateia estava vibrando junto com a gente, estavam felizes por que fui inocentado, ainda sem acreditar ia passando pelas pessoas e elas me cumprimentavam, me abraçavam me dando forças, sentindo muito por tudo que passei, muitas me dizem coisas ruins sobre Melinda, que sabiam que ela era uma mulher horrível. Não posso descrever minha surpresa, pensei que aquelas pessoas me odiassem, mas estava enganado, uma ou outra que me acusava, mas a maioria estava do meu lado. Estávamos saindo do tribunal, quando Marvin veio me abraçar, senti um alivio muito grande ao ver meu amigo seguro.
— Agora vamos recomeçar. — ele me disse, mexendo no meu cabelo, bagunçando-o.
— Recomeçar. —– Repeti baixinho, mais para mim mesmo.
A impressa estava lá fora, faziam perguntas indiscretas, Marvin e Simon estavam ao meu lado como seguranças, os jornalistas estavam como predadores, tentando arrancar qualquer pedaço de mim, para usarem como matéria, entrei no carro de Marvin e saímos de lá o mais rápido possível.
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