Estou de frente para a casa onde tive meus dias mais felizes transformados em pesadelos, Marvin está ao meu lado me esperando criar coragem para entrar, ele sabe como é difícil voltar para o lugar onde perdi tudo, inclusive minha dignidade. Respiro fundo e toco na maçaneta girando devagar, o barulho da porta rangendo me lembra um filme de terror, me dando a sensação de que Melinda surgirá a qualquer momento com uma camisola de seda e seu batom vermelho, tentando me machucar. Marvin toca meu ombro me fazendo voltar para a realidade, entro na casa apreensivo, meu coração está apertado, olho em volta e não vejo ninguém, ainda sinto o cheiro de perfume barato e charutos. Queria não lembrar de nada, queria não estar aqui, queria não ter sobrevivido, mas estou aqui e agora preciso continuar, enfrentar meus medos, tentar. Melinda está morta e finalmente posso ser livre.

— Onde deixo suas coisas?! — Marvin estava segurando minha bolsa com as roupas que levou para o hospital quando estive de repouso.

— Me dá aqui, vou subir para o quarto e tomar um banho, ver se consigo tirar esse cheiro de hospital, que está impregnado no meu corpo. — Pego a bolsa e subo as escadas, abro a porta do quarto devagar, tudo está limpo e arrumado, Simon deve ter passado por aqui. Ele tem se esforçado muito para ser um irmão mais presente, sempre fica comigo quando não está no trabalho e quando não pode, pede para Marvin me fazer companhia.

Deixo a bolsa no chão e caminho para o banheiro, ligo o chuveiro quente deixando a água cair, me sinto cansado e ao mesmo tempo leve. Estar em casa sem me preocupar em ter minha privacidade, invadida é maravilhoso, fico ali pensando em tudo que aconteceu e em como as coisas com Emily terminaram, não consigo tirá-la da cabeça. Queria tanto que tivesse sido de outra forma, mas somos de mundos diferentes e insistir nisso só nos machucaria. Desligo o chuveiro vendo que meus dedos já estão enrugados como uvas passa, saio do banho só de toalha e volto para o quarto, visto uma cueca e me jogo na cama, encarando o teto. Peguei o celular na esperança de ter alguma mensagem de Emily, mas só tem mensagens de Simon, perguntando se estou bem e que ficará até tarde no trabalho.

Fiquei no hospital até o dia do julgamento, mesmo tendo recebido alta, não sentia vontade de voltar para casa e fui instruído a não ter contato com Marvin até o dia da audiência, mesmo ele tendo me oferecido sua casa para ficar por um tempo, a advogada me pediu para manter distância, para que o advogado do Sr. Strong não usasse isso contra nos. Depois que o julgamento terminou, fiquei uma noite apenas no hospital e decidi voltar para casa, mesmo Marvin insistindo para ficar um tempo longe, decidi voltar, precisava enfrentar meus medos indo primeiro para o lugar onde tudo começou.

Toc... toc... toc...toc...

Respirei fundo passando a mão no cabelo, estava cansado e precisava dormir um pouco, dormir de verdade, as noites no hospital eram turbulentas, sem regadas de pesadelos e insônia. Levantei relutante e fui até a porta.

— Tive uma ideia, o que acha de darmos uma geral aqui? Deixar com uma cara nova? — O olhei estreitando os olhos, tentando imaginar se aquilo seria uma boa ideia. Talvez mudar o ambiente, me fizesse se sentir melhor.

— Pode ser. —– a ideia me parecia boa, mas minha animação estava péssima.

— Ótimo, vou ao mercado comprar umas coisas e passar em uma dessas lojas de matérias de construção. Já volto, tente não fazer nenhuma besteira, enquanto estiver fora. —– Revirei os olhos e fechei a porta, voltando a me deitar na cama. Meus olhos ficaram pesados e meu corpo começou a afundar na cama, o sono me levou para longe, para um lugar diferente dos outros.

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Acordei assustado com barulhos vindos do andar debaixo, olhei na tela do celular e já se passavam das 20hs, olhei para meu corpo que estava coberto com meu cobertor, não me lembro de me cobrir. Levantei da cama e peguei um short de linho na gaveta, abri a porta do quarto e ouvi vozes e risos, reconheci a voz de Marvin e as outras vozes femininas soavam familiar, vinham da cozinha, passei pelo corredor, mas não pude deixar de notar que ele fez um ótimo trabalho na sala, tirou as cortinas escuras e pesadas, colocando outras mais claras e vivas, limpou a mesinha de centro, colocando as revistas em ordem com um vaso de flores artificial em cima. Tirou o tapete, deixando o piso de madeira exposto, dando a casa um ar mais leve e mais aconchegante. Duvido muito que Marvin tenha feito isso sozinho, nos homens não temos esse dom para detalhes, logo saberia quem o ajudou, o corredor estava com plástico no chão, para proteger da tinta que foi usada para pintar as paredes, o tom de verde limão, quase branco que me dava a sensação de calmaria. Entrei na cozinha, Marvin me encarou sorridente, mas apreensivo, Amanda estava sentada ao seu lado e ficou tensa, eles estavam de frente para entrada do corredor, mas a outra garota, estava de costas, reconheceria ela em qualquer lugar, mesmo estando no meio de uma multidão. Sua silhueta bem desenhada, seus cabelos ondulados soltos que iam até o meio de suas costas, seu perfume familiar e vivo em minha memória, me fizeram perder o ar. Emily se virou ficando de frente para me encarar, fiquei sem reação, não sabia o que fazer, como reagir, uma tempestade se formava dentro de mim.

— Oi Nikki! —– Disse Amanda, tentando quebrar o clima tenso que se formou.

— Oi —– a respondi sem tirar os olhos de Emily, meu mundo parou. Marvin puxou Amanda pela por dos fundos, nos deixando a sós.

— Desculpa ter vindo sem avisar, encontrei Marvin no mercado e ele disse que estava comprando umas coisas para reformar a casa, então achei que seria legal ajudar. —

Emily falava sem parar, sentada na cadeira perto do balcão da cozinha, segurando as mãos ansiosa. Não conseguia dizer nada, absolutamente nada, ainda não acreditava que ela estava ali na minha frente, mesmo depois de tudo que fiz para mantê-la distante, ela ainda estava ali pronta para me ajudar. Meus pés se moveram involuntariamente indo em sua direção, queria beija-la, sentir seu cheiro, seu gosto. Cheguei perto o suficiente para deixa-la tensa, suas bochechas coraram, passei a mão em seu rosto, enquanto ela continuava a tagarelar, coloquei uma mecha do seu cabelo atrás da orelha, sua respiração ficou acelerada.

— O que está fazendo Nikki? —

Sua voz estava trêmula, sua respiração acelerada. Me aproximei um pouco mais, diminuindo o espeço entre nós, suas mãos pousaram em meu peito, sentia sua respiração quente, a beijei devagar, sentindo o gosto doce dos seus lábios, pedi espaço com a língua e ela deu. Minha respiração estava acelerada, meus batimentos fora de compasso, meu corpo aquecia em uma velocidade impressionante. Segurei seu rosto tornando o beijo mais intenso, ela colocou as mãos em volta do meu pescoço, segurando meu cabelo de leve com uma das mãos, desci as mãos para suas costas, pressionando seu corpo frágil contra meu peito. O ar começou a faltar, nos obrigando parar o beijo, mas queria mais, beijei seu pescoço, fiz um caminho até a extremidade do seu ombro, sentindo sua pele macia, Emily abriu mais as pernas me dando espaço para ficar mais perto, voltei a beija-la descendo minhas mãos até suas coxas, em um só movimento a levantei da cadeira, ela deu um gritinho assustada me fazendo rir.