A outra face do mal
2 Parte II
Notas iniciais
— MICHAEL CHAMA ALGUÉM! RÁPIDOOO! AJUDAAA! — Michael ficou me encarando assustado, sem entender o que estava acontecendo. Meus olhos estavam arregalados e o sangue tinha sumido do meu rosto. —— VAAAIIIII LOGOOOOO! — Mas Marvin que tomou a iniciativa. Puxei a cabeça de Emily de dentro da privada, sua boca estava espumando, seus olhos estavam revirando e do seu lado um vidro de remédio. O espaço era pequeno para nós dois, tive que me desdobrar todo para tentar tira-la dali, Michael ficou em pânico quando viu a menina em choque, tendo uma overdose por conta dos remédios.
— NIKKI, NÃO PODEMOS SER VISTOS AQUI CARAAA! PRECISAMOS IR EMBORA! — Michael passava as mãos em seus cabelos negros, suas mãos tremiam. –— VAMOS EMBORA DAQUI!! —— ele começou a me puxar pelo braço, mas não a deixaria ali, não daquele jeito.
— NÃO VOU DEIXA-LA AQUI ASSIM! SE QUISER PODE FUGIR COMO UM COVARDE, MAS NÃO ME PEÇA PARA FAZER ISSO! — Seu rosto que antes assustado, agora irradiava raiva. Peguei em seu ponto fraco, ele jamais aceitaria ser chamado de covarde, mas duvido que ficaria. Michael morria de medo de ser preso, ainda mais quando seu pai era promotor de justiça, jamais aceitaria uma humilhação dessa na família. Seu pai pensava que Michael era um garoto exemplar na escola e claro que ninguém diria o contrário, pois todos o temiam.
— VOCÊ SABE QUE NÃO SOU COVARDE, MAS NÃO POSSO ME METER EM PROBLEMAS! SINTO MUITO CARA! — Ele saiu do banheiro indo na direção oposta à que Marvin foi para pedir ajuda. Segurei o rosto de Emily tentando ouvir sua respiração. Nenhum sinal, seu coração também não, precisava pensar rápido. Pensa! Pensa Nikki seu burro! Lembrei de uma aula que tivemos de primeiros socorros em comemoração ao dia do bombeiro. Deitei Emily e comecei a pressionar seu peito com o peso do meu corpo e fazer respiração boca a boca. Parecia uma eternidade, meus braços doíam, não sei quanto tempo fiquei fazendo aquilo, estava ficando exausto, mas de repente ela tossiu se contorcendo, a virei de lado e ela vomitou.
— Emily? Está me ouvindo? — ela surrava alguma coisa, não conseguia ouvir, me aproximei do seu rosto.
— Me deixe morrer... Por favor….—
Aquelas palavras foram como um soco em meu estômago. A puxei para o meu colo e a segurei. ONDE INFERNOS ESTAVA MARVIN, QUE NÃO CHEGOU COM AJUDA. Respirei fundo me recuperando do choque, do esforço, das palavras, tentei pega-la no colo, meio sem jeito, ainda sem forças. Caminhei calmamente pelos corredores com medo de deixa-la cair. A olhando em meus braços daquele jeito, ela parecia tão frágil como se a qualquer momento fosse se quebrar toda. Enquanto a levava para a enfermaria, me lembrei do dia que encontrei meu pai, a cena nuca saiu da minha cabeça.
Ele estava sentado na poltrona do sótão, onde nós usamos como esconderijo, a poltrona ficava virada para a janela, o que dava uma vista lida da rua. Naquele dia o chamei várias vezes e ele não respondeu, na época eu tinha 8 anos, imaginei que estivesse se escondendo como sempre fazia para me assustar, caminhei devagar até o sótão, vi seus cabelos na poltrona e abaixei, fui caminhando silenciosamente para assustá-lo, imaginei que ele estivesse tirando um cochilo. —— Hoje ele não me escapa, pensei! —— Mas estava enganado, naquele dia ele me assustou de verdade, um susto que nunca vou esquecer, foi nesse dia que senti o gelo na espinha pela primeira vez. Temia pelo pior, como se sentisse que algo não estava certo, dei a volta na poltrona e o vi ali com a cabeça caída de lado, o álbum da família em seu colo e na sua mão direita sua pistola calibre 45, meu choque foi instantâneo. Gritei por socorro, gritei tão alto que sentia que meus pulmões explodiriam, mamãe subiu as escadas e meu irmão mais velho Simon logo atrás, meu irmão entrou em pânico quando viu a cena. Minha mãe não demonstrou nenhum sentimento, o que na época ela disse ter sido por conta do choque de não acreditar no que estava vendo.
Aquilo não me convenceu, minha mãe sempre fora uma mulher fria e calculista. Meu irmão chorava como um bebê sacudindo meu pai tentando reanima-lo, eu chorava compulsivamente, até faltar o ar em meus pulmões. Minha mãe deu um tapa em meu rosto e disse a seguinte frase:
— Pare de chorar como um bebê e vira homem! —
Meu irmão a olhou sem acreditar no que ela acabará de fazer. Imediatamente ele largou meu pai e foi para cima dela enfurecido. Entrei na frente, para impedir que fizesse algo da qual pudesse se arrepender, Simon a odiava, ele era furto do primeiro casamento do meu pai, mas a mãe dele faleceu quando ele tina 6 anos.
— SUA VAGABUNDA MALDITA, COMO PODE FAZER ISSO? ELE É SÓ UMA CRIANÇA! — ela sorriu maldosa e gritou com ele de volta.
— POR QUE NÃO QUERO QUE ELE CRESÇA UM MERDINHA COMO VOCÊ! —
Ele voou em cima dela e deferiu um tapa em seu rosto, a fazendo cair, avançou para continuar, mas eu o puxei pelo braço, implorando para acabarem com aquilo e pedir ajuda. Quem sabe desse tempo de salvar meu pai, naquela idade não tinha conhecimento que um tiro na cabeça era caixão na certa.
Estava perdido em lembranças quando alguém tocou meu ombro, me fazendo voltar a realidade, olhei e vi a diretora me perguntando o que tinha acontecido.
— Não sei, a encontrei assim! — Estava trêmulo e confuso, minha cabeça doía. A diretora continuava fazendo perguntas e só respondia as que conseguia assimilar. Menti sobre a ter encontrado dentro do banheiro, para evitar mais perguntas. — Estava indo para a sala, a porta do banheiro das meninas estava aberta, olhei para dentro e a vi caída —— A diretora sabia que não era verdade, mas não questionou.
— Tinha mais alguém com você além do Marvin?! — poderia dizer que sim, Michael, mas ele fugiu como um covarde, filhinho de papai de merda.
— Não, só nos dois! —
Marvin ficou calado e apenas confirmou com a cabeça. Levei Emily para a enfermaria e aguardamos o socorro chegar, a essa altura a escola inteira já estava sabendo, de uma forma distorcida. Fofocas nunca contam a verdade dos fatos, mas sim aquilo que as torna mais interessante. A diretora insistiu que voltasse para a sala, Marvin consentiu, mas eu insisti em ficar, até ter a certeza que ela estaria segura. Acompanhei a ambulância sair da área interna da escola e me virei indo para o estacionamento, precisava silenciar as fofoqueiras, que estavam espalhando que Emily estava grávida e por isso tomou remédios para se matar. Duvido muito que a nerdizinha já tenha beijado na boca, veja lá estar grávida. Ao final da aula, já havia juntado informações suficientes para saber quem espalhou o boato. Enviei uma mensagem para os caras avisando que os esperaria no estacionamento perto da sala do zelador, onde quase ninguém ia e assim poderia calar a boca da fofoqueira da escola.
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