Marvin tinha razão, aquele assunto me trazia muito desconforto, nunca o mencionei para ninguém além dele, não sei se teria coragem de falar sobre isso com a polícia. Eles poderiam pensar que era conivente com aquilo. Marvin chamou minha atenção, percebendo que me perdi em pensamentos.

—— Nikki presta atenção —— Olhei para ele balançando a cabeça –—Diga que ela junto com Michael, tentaram se vingar de você usando Emily, que ela tentou convence-lo que era melhor ficar com ela e quando viu que não ia ceder, mandou Michael matar Emily, você atirou nele e Melinda foi para cima de você para impedi-lo mas a arma disparou acertando um tiro na barriga dela, você pensou que ela estivesse morta indo ajudar Emily, quando foi surpreendido por ela que disparou contra vocês o acertando pelas costas, você caiu com o impacto batendo a cabeça e o restante deixa comigo. —— Não sei se conseguiria me lembrar dos detalhes, mas tentaria. Precisava saber mais de Emily, onde ela estava, se estava bem.

—— Emily? —– Marvin revirou os olhos impaciente, sei que não era o momento para isso, precisava me concentrar no meu álibi, mas Emily era minha única preocupação.

—— Ela está bem, mas se recusa a falar com a polícia. Só vai conversar com eles depois que falar com você e o pai dela está relutante quanto a isso. Por que acha que você é culpado —– Ele tinha razão, só a fiz mal, tirei seu sorriso, sua liberdade, meu egoísmo só a machucou. —— Marvin ficou o dia todo comigo, nunca conseguiria pagar essa dívida, se não fosse por ele estaria morto e Emily também, mas talvez se tivesse morrido tudo seria mais fácil.

A porta do quarto se abriu, uma enfermeira morena de olhos verdes brilhantes entrou na sala, fazendo Marvin sentar corretamente na poltrona, ela sorriu para ele com as bochechas coradas e ele deu um sorriso simpático de volta, pelo menos alguém estava se dando bem aqui. A enfermeira trouxe uma bandeja, pediu que Marvin a ajudasse a elevar um pouco a cama, para que assim pudesse comer. Ele levantou prestativo, elevando a parte das costas, sem nem sequer olhar para mim, me senti desconfortável com o movimento, estava bem dolorido ainda. A enfermeira encarava Marvin, que retribuía o olhar na mesma intensidade, pigarreei para que prestassem atenção em mim, antes que Marvin lentasse tanto a cama que ia acabar encostando a cara nos joelhos, ele encarou percebendo que tinha elevado demais, pediu desculpas ajustando.

—— Então Sr. Nicolas, precisa comer um pouco. Você prefere que eu o alimente ou quer tentar fazer isso sozinho. —– sorri de canto olhando para Marvin que me encarava com uma sobrancelha levantada.

—— Se não for incomodo, você pode fazer isso por mim. —– Marvin me fulminou com o olhar e fiz uma cara de coitado. A enfermeira sorriu sem perceber as trocas de olhares.

—— Pode deixar que eu faço isso! —— Olhei para Marvin com os olhos semicerrados, pelo menos estava tendo um pouco de diversão.

—— Acho melhor ela faz isso Marvin, você já fez muito por amigão. —— A enfermeira o olhava encantada, enquanto Marvin disfarçava a vontade de me matar. Olhei para a enfermeira com cara de coitado e ela começou a me dar comida, Marvin sentou na cadeira me sussurrando que aquilo teria volta. A enfermeira olhava para Marvin entre uma colherada e outra, ambos pareciam dois adolescentes apaixonados, que me fez lembrar de Emily, as lembranças traziam um misto de alegria, tristeza e saudade.

Alguns minutos depois, Simon entrou no quarto, ficando surpreso ao me ver acordado, sendo alimentado, caminhou até mim às pressas e me abraçou sem se importar com o olhar de espanto e de reprovação da enfermeira ao lado, Marvin levantou em prontidão.

—— Finalmente você acordou! Pensei que o perderia também. —– suas palavras eram carregadas de culpa e medo. –— Fui em casa tomar um banho e trocar de roupa, Marvin e eu estivemos revezando. —– ele olhou para Marvin que balançou a cabeça confirmando.

—— Estou bem. —– ele me encarava preocupado, olhou para Marvin que se aproximou da cama.

—— Ele está fora de perigo, falei com a Dra. Ana Beatriz e ela virá aqui mais tarde para fazer alguns exames, mas o que tudo indica é que logo ele estará bem para ir para casa. —— Simon respirou aliviado, relaxando os ombros que até então estavam tensos. A enfermeira que estava sendo ignorada completamente por Simon, pigarreou chamando nossa atenção.

—— Desculpe enfermeira? —– Simon se desculpou envergonhado, por notar só agora a presença da moça.

—— Liz —— ela respondeu sorrindo. -— Sei que está preocupado com seu irmão Sr., mas precisa ficar mais calmo, mesmo que ele já esteja fora de perigo, ainda não é aconselhável que faça movimentos bruscos e que sofra emoções fortes. — Simon a olhava hipnotizado por seus olhos verdes brilhantes.

—— Ah desculpe! Vou ser mais cauteloso de agora em diante, mas é que ele é minha única família e não consegui segurar as emoções ao velo acordado depois de meses tão difíceis. —— Franzi a testa com as últimas palavras, será que foi tão ruim assim o tempo que fiquei aqui?

—— Entendo bem como é isso, mas não se exceda, ele precisa de repouso absoluto. —– Simon concordou com a enfermeira, enquanto a mesma terminava de organizar a bandeja e saia da sala.

—— Vou deixá-los a sós para poderem conversar, preciso ir em casa trocar de roupa. —– Marvin se despediu saindo da sala, o lancei um olhar desconfiado e ele deu de ombros sorrindo sacana. Sabia que ele ia puxar assunto com a enfermeira, por isso saiu às pressas.

Simon sentou na cama, me olhando com o mesmo olhar que meu pai de dava quando era criança e me machucava ou ficava doente.

—— Me perdoe por tê-lo abandonado —– seus olhos estavam marejados, fiquei muito tempo em coma para saber até que ponto ele sabia. –— Por que não me contou o que acontecia dentro daquela casa? Sou seu irmão mais velho, estou aqui para protege-lo. Deveria tê-lo protegido. Prometi isso a nosso pai. —– agora as lágrimas caiam pesadas, era como se pudesse sentir sua dor, sua frustração, seu sentimento de que falhou como irmão.

—— Sentia vergonha, não queria te meter em problemas e não achei que fosse acreditar em mim. – ele abaixou a cabeça frustrado.

—— Como pôde achar isso? Sou seu irmão, sempre vou acreditar em você. —– ele me encarava terno, seu olhar me passava segurança. –— Como pude ser tão cego de não perceber o que estava acontecendo? Falhei com você Nikki, não fui o irmão que precisava, ao invés disso fui embora, o deixando a mercê daquela vagabunda. —— suas palavras estavam carregadas de tristeza.

—— Está tudo bem Simon, acabou. —– ele me olhava nos olhos, conseguia ver em seu olhar o sentimento de falha.

—— Mesmo que tenha acabado, não muda o que ela fez com você. Ela tentou transforma-o em um monstro como ela, tirou sua liberdade, isso deixa sequelas. —— ele tinha razão, nunca conseguiria apagar.

—— Fui embora de casa na esperança de conseguir uma estabilidade para nos dois, para te levar para morar comigo, por que Melinda retirou meu nome do testamento, não me deixando absolutamente nada. —– não fiquei surpreso com o que ouvi, já esperava por isso da parte dela. Ela sempre deixou claro seu ódio por Simon.

—— Não estou com raiva de você, sei os seus motivos. —— ele se inclinou me abraçando, queria o abraçar de volta, mas sentia dor quando mexia os braços.