A outra face do mal
4 Capítulo 2
Já havia se passado um mês desde o ocorrido no banheiro das meninas. Tudo voltou a sua normalidade, soube por alto que Emily estava se recuperando bem, isso me deixou mais calmo e melhorando meu humor. Marvin e Michael deram graças a Deus, por meu temperamento estar normal de novo, eles estavam enlouquecendo comigo nas últimas semanas, ao ponto de Marvin ir escondido no hospital ter notícias de Emily, sem Michael saber. Ele me avisou que ela estava bem, que recebeu alta e estava se recuperando em casa, queria vê-la, queria mesmo, mas jamais faria isso, não posso ter fraquezas, não nesse momento.
Estávamos no corredor indo para a sala da professora Missy, que depois de uma longa e agradável conversa, entendeu quem manda aqui, quando Marvin parou no meio do caminho se agarrando com uma menina qualquer da outra turma, Michael apenas bufou e seguiu caminho até o banheiro. Estava desconfiado de que Michael estivesse agindo pelas minhas costas, mas no momento estava sem cabeça para isso, minha mãe estava fazendo dos meus dias um inferno e só queria ficar longe daquela casa o máximo de tempo possível.
Depois do falecimento do meu pai, as coisas mudaram drasticamente dentro de casa, meu irmão Simon e minha mãe não ficavam no mesmo cômodo sem tentar se matar. A pressão sobre mim ficou cada vez pior, sofria constantemente ameaças e pressões psicológicas, ela não me deixava em paz um segundo, até meu celular era monitorado, as regras eram claras, tenho que focar em herdar os negócios da família, que a muito tempo deixaram de ser somente construções de prédios. Agora estávamos envolvidos em tráfico e tudo quanto é tipo de negócios ilícitos que existia. Essa semana ela estava ocupada com o contrabando de peças roubadas, cada mercadoria era codificada com nomes estratégicos, para passar despercebido pela alfandega, mas claro que lá dentro tinham pessoas trabalhando para ela, isso tornava a entrada no país mais fácil. Ela comprou todo mundo e eu a odiava por isso, nunca pude me envolver com ninguém, ela jamais permitiria. No fundo sei que era muito mais complexo do que apenas herdar os negócios da família, ela queria mais que isso da minha parte.
Uma vez quando tinha 14 anos, conheci uma garota, trocamos mensagens e até gostava do jeito dela, sempre sorridente e meiga. Samanta, tinha lindos cabelos negros e um sorriso fascinante. Uma vez combinei de espera-la depois da aula, seria meu primeiro beijo de verdade, com sentimento. Não sei como minha mãe descobriu, porque quando cheguei em casa, ela estava me esperando com uma corda trançada, sabia para que servia aquilo, ela já usará outras vezes. Fiquei uma semana sem ir à escola, até respirar doía, ainda tenho algumas cicatrizes, tive que voltar a escola mesmo sem estar totalmente recuperado. Usei um casaco preto por vários dias, até ter certeza que os cortes haviam fechado, mas nada doeu mais do que saber que Samanta foi embora da escola repentinamente, sem avisar ninguém. Minha mente me convenceu de que ela realmente tinha ido embora, precisava acreditar naquilo, para não enlouquecer. No fundo sabia que minha mãe tinha algo a ver com seu sumiço. Quando Simon foi embora de casa, depois de conseguir uma bolsa na faculdade, soube que minha vida tinha acabado naquele instante. Mesmo ele me prometendo que voltaria para me buscar, sabia que ela jamais permitiria. Ainda lembro os olhos de Simon marejados, no dia que partiu, fui cruel com ele, disse coisas que não devia, coisas horríveis. O culpei pela morte do papai, precisei fazer aquilo, queria mantê-lo seguro dela, minha mãe sorria satisfeita com as palavras que deferia contra meu irmão. Antes de partir ele me abraçou e surrou em meu ouvido:
— Não precisa tentar me proteger dela! Sou mais forte que imagina! —
Sussurrei de volta — Fuja! — e o empurrei com raiva segurando as lágrimas, despedaçado por dentro. Maldito Simon, por que não meteu uma bala na minha cabeça ao invés de partir e me deixar aqui nesse inferno. Por um lado, isso me tornou forte, temido e sem escrúpulos. Ela queria um monstro, ela teria um monstro, logo que Simon partiu, me tornei uma pessoa ruim, fui conquistando espaço, tornei a vida de todos na escola um verdadeiro caos, todos trabalhavam para mim, mesmo que indiretamente. Minha teia estava formada e quem caísse nela, seria devorado. Michael logo se aliou a mim, acho que ele precisava de uma chance de colocar para fora seu verdadeiro eu e Marvin preferia ficar ao lado dos mais fortes, mesmo sendo um cara de porte grande, que mete medo em qualquer um, por alguma razão ele gostava de estar ao meu lado. Uma vez por semana passava recolhendo a grana do pessoal na escola, Marvin ficava com a parte de receber os lucros e Michael de garantir que receberia. Recolhia o dinheiro dos viciados em cocaína, depois das patricinhas viciadas em remédios emagrecedores. Os atletas viciados em anabolizantes, o grupo dos hippies maconheiros e os nerds que não tinham nenhum vicio, mas que tinham que pagar por que eu os permitia frequentar a escola.
Os professores e a diretora sabiam o que acontecia na escola, mas faziam vista grossa, a grana que recebiam para ficar de bico fechado era bem generosa e eles tinham medo da minha mãe. Ela era a rainha da cidade e eu o rei da escola, tal mãe, tal filho. Meu pai me odiaria por isso, ele sempre foi um homem honesto, ainda me pergunto como se apaixonou pela megera da minha mãe, eles eram como o céu e o inferno. Anjo e demônio. Ele me ensinava como ser uma pessoa melhor, como o mundo precisava de pessoas honestas, mesmo que tudo estivesse afundado na lama da corrupção e da maldade. Eu o amava, meu pai, meu herói, minha inspiração de vida, mas talvez o destino me escolheu para ser do lado negro e Simon do lado bom. Me encaixava bem no papel de anjo mal, gostava disso, me sentia poderoso, indestrutível, sem fraquezas, sem medo, sem arrependimentos. Me perdoe pai, mas ser bom não é tão divertido.
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