A outra face do mal
18 Capitulo 7
Acordei ouvindo o bipe do monitor de sinais vitais, abri os olhos devagar, sentia minha respiração pesada, estava com máscara de oxigênio, encarei o teto do quarto, a luz estava fraca. Me sentia cansado, como se estivesse corrido uma maratona. Olhei para os lados procurando me situar, vi Marvin quase deitado na cadeira de visitas ao lado da cama. Tentei tirar a máscara de oxigênio, mas minha mão estava presa na cama, fiz esforço para ver o que a prendia e meu peito doeu, me fazendo gemer. Marvin acordou assustado me olhando com os olhos arregalados, saltou da cadeira vindo em minha direção.
—— Graças a Deus, você me quase me matou do coração —— O encarei confuso franzindo a testa. Puxei em minha memória o que havia acontecido, mas estava tudo nublado, lembrava apenas de fragmentos. Me esforcei para falar, Marvin não conseguia entender por conta da máscara e a puxou para baixo.
—— O que aconteceu? — Agora Marvin que franzia a testa confuso.
—— Não me diga que você perdeu a memória? Era só o que me faltava. Você foi salvar Emily lembra? —— Acenei com a cabeça afirmando. -— As coisas deperderam o controle e você levou um tiro. —– Marvin estava escolhendo as palavras, sabia que ele estava me escondendo algo.
—— Onde está Melinda? —– Marvin ficou em silêncio, balançou a cabeça em um sinal negativo, entendi na hora o que ele quis dizer com aquilo, de repente uma enxurrada de lembranças veio a minha memória, meu coração acelerou fazendo o monitor cardíaco bipar mais rápido, meus olhos começaram a perder o foco de novo. Lembrei do tiro que ouvi quando estava caído no chão, o tiro que tenho certeza que foi em Emily, mais uma vez estava me perdendo na escuridão. Ouvi enfermeiros entrando no quarto às pressas, Marvin estava em pânico, pedindo ajuda.
— Senhor preciso que saia! —– Alguém tirou Marvin do quarto –—A pressão dele está caindo —— fiquei imerso na escuridão, no silêncio. De repente ouvi uma voz familiar, alguém estava me chamando, olhei ao meu redor e me vi parado para o campo onde encontrei meu pai a primeira vez, corri para o abraçar, mas ele ficava mais distante a cada passo que dava, estava me dizendo algo, não conseguia entender, só consegui ouvir quando parei de correr.
— Volte Nicolas —
—— PAIIIII —– Gritei por ele com toda força que tinha em meus pulmões, mas a distância ficava cada vez maior.
—— Você precisa voltar filho, por ela! —— ele falava com ternura.
—— QUERO FICAR COM VOCE, PAIIIIIIIIII!!! —– gritei em plenos pulmões.
—— Ainda não é a hora. ——
—— PAIII!!! —— Não queria voltar, finalmente ficaria me paz. Então fui puxado de volta para o quarto de hospital. Abri os olhos ainda confuso e vi uma enfermeira acariciando meus cabelos.
——Você nos deu um baita susto rapazinho. —– Estava muito confuso, minha cabeça latejava. Marvin estava na porta tentando entrar, sendo barrado por outro enfermeiro.
— Marvin —– tentei falar, olhando para a porta, a enfermeira intercalou o olhar entre mim e ele, a olhei com suplica — Por favor! —- A enfermeira ficou relutante, mas acabou cedendo, Marvin entrou como um foguete, ficando ao meu lado da cama.
—— Está bem, vou deixa-lo ficar, mas certifique-se que ele não se esforce. —— Marvin concordou. —— Evite tocar em assuntos que possam deixa-lo agitado. —– Marvin recebeu um olhar de repreensão da enfermeira, ela saiu da sala nos deixando a sós. Ficamos em silêncio por um tempo, até que me forcei a falar, queria saber o que tinha acontecido, minhas lembranças ainda estavam turvas, me lembro de um tiro e um grito de dor.
—— Marvin, o que aconteceu? —– Minha voz estava rouca, uma pressão se formava em meu peito.
—— Depois falamos sobre isso, descanse um pouco, não quero sobrecarrega-lo, viu o que aconteceu agora pouco. —– Fechei os olhos sentindo uma pontada na cabeça.
—— Não posso ficar pior que já estou, me diga o que ouve, preciso saber. —– Marvin continuava em silêncio, relutante. –— Por que estou algemado? ——
—Você não está algemado, está preso porque teve convulsões e acabou arrancando os curativos e aparelhos, por isso as enfermeiras o prenderam na cama. —– Meu coração estava pesado, um nó se fazia presente em minha garganta. –— Precisamos ter cuidado, apesar de estar seguro, a polícia está esperando sua melhora para interrogá-lo. —
—— Quanto tempo fiquei desacordado? —– Marvin estava sendo paciente ao responder minhas perguntas, ele sabia que precisa de respostas para ter paz. –— E por que meu peito dói? —– Meu peito doía cada vez que falava uma palavra, me forçando a falar pausadamente.
—— Está aqui a dois meses! —– Sua expressão mudou de calmo para medo.
—— Pensei que não conseguiria salva-lo, você estava sufocando em meus braços cara. Vivi um verdadeiro inferno naquele dia. Quando chegamos ao hospital os enfermeiros o levaram direto para a mesa de cirurgia, a bala atravessou seu pulmão, mas não saiu ficando alojada entre ele e as costelas, tiveram que tirar um pedaço do seu pulmão para retirar o projétil, demoram para retirar, seu coração parou duas vezes, sinceramente pensei que não ia resistir —– Marvin estava com o olhar distante, parecia reviver a cena, mexia as mãos ansioso, seus ombros estavam tensos.
—— Sou osso duro de roer. —– Marvin voltou seu olhar para mim, relaxando os ombros, esboçou um sorriso de canto.
—— E a polícia? —— Agora estava frases curtas, me sentia cansado.
—— Eles sabem a minha versão, estão esperando você acordar, para ouvirem sua. —— Fechei os olhos com sentindo uma leve pressão no centro da cabeça. Não queria lidar com a polícia agora, estava tão cansado de tudo, só queria que esse inferno acabasse de uma vez. Minha vida estava acabada, não tenho mais motivos para estar vivo, não conseguia proteger as pessoas que amava. Talvez tenha nascido apenas para fazer mal aos outros.
—— Acho melhor você descansar cara, precisa estar raciocinando bem quando for responder as perguntas da polícia. —– Marvin tinha razão, mas dormir só me traria pesadelos ruins, meu coração doía a cada batida, cada pulsação gritava o nome dela. A culpa estava me corroendo.
—— Vou me entregar, Marvin —— Marvin me olhou desacreditado, como se o que acabara de ouvir, fosse absurdo.
—— Está maluco? Não está em seu juízo perfeito. Sabe como foi difícil com a polícia? Sua mãe era uma mulher poderosa, tinha aliados dentro da delegacia que não ficaram nenhum pouco felizes com o que aconteceu. Por isso você vai falar exatamente o que eu mandar. ——
—— Minha vida não faz mais sentido, preciso pagar pelos meus erros. —– Marvin balançava a cabeça em reprovação. –— Não consegui salva-la. — E finalmente o peso em meu coração tomou forma, escorrendo pelos cantos dos olhos, cada lágrima que caia quente e pesada, cortava minha alma. A dor se tornava insuportável, me fazendo sufocar. Marvin colocou uma mão em meu ombro.
—— Do que está falando? Não sabia que se importava com Melinda! —–– Franzi a testa confuso, do que Marvin estava falando? —— Ela tentou matar você e a Emily cara, foi melhor ter morrido mesmo. — Marvin me dizia palavras que não se encaixavam. —— Sabe como foi difícil tirar vocês dois de lá, graças a Deus Emily só levou um tiro na perna.
—— Emily está bem? —— ele balançou a cabeça confirmando e um peso esmagador saiu do meu peito.
—— Já Melinda não resistiu e é por isso que preciso que se acalme e faça tudo que eu mandar. Está entendendo? — – Nesse momento estava tentando absorver tudo, mas só pensava em Emily, saber que estava bem, já me deixava melhor.
—— Nikki, se concentra. Prometo que no momento certo, darei um jeito para que você possa vê-la, mas preciso que se concentre agora, vou contar o que aconteceu naquela noite. —– Voltei minha atenção a Marvin, se realmente queria ver Emily precisava me concentrar.
—— Depois que saiu da minha casa, fui para a fábrica, foi difícil chegar lá, estava um engarrafamento dos infernos e não me lembrava direito do caminho, mas para minha sorte, a moto que você pegou tem rastreador. Quando cheguei a fábrica, fiquei escondido atrás dos galões esperando o momento certo para agir, coloquei o celular para gravar a conversa, mas ele descarregou um pouco antes dos tiros, deu para gravar uma boa parte. ——- Ouvia atentamente o que Marvin me contava, aos poucos as lembranças vinham à tona.
—— Quando Melinda o acertou, entrei em cena e atirei no peito daquela vadia. Preciso que se lembre de cada detalhe que vou falar, porque assim que a enfermeira contactar a polícia, eles viram para te interrogar. Quando a polícia perguntar diga que recebeu uma mensagem de Emily pedindo para encontra-lo na antiga fábrica, o que é verdade e que chegando lá, você percebeu que era uma armadilha de Melinda, para se vingar por não corresponder os sentimentos doentios que nutria por você. Sei que é um assunto desconfortável para você, mas sabemos que é verdade e que pode livra-lo da cadeia. ——
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