Julgamento

Minhas mãos estão trêmulas, meu coração está acelerado, estou ansioso, Simon está ao meu lado, me dizendo palavras de conforto, mas me sinto tão fraco, tão frágil, como se a qualquer momento fosse quebrar em mil pedaços. Alice minha advogada também tentava me tranquilizar, ela é uma amiga de Simon. Quando ele a contou o ocorrido, ela não hesitou em nos ajudar, sem cobrar nada em troca, entrando para minha lista de pessoas que ficaria em dívida para sempre. A forma como Simon falava sobre ela e a tratava, deixava claro que era mais que amizade e pelo pouco tempo que estive com ela, percebi que era reciproco.

— Vamos Nicolas, está na hora. Fique calmo, vamos ouvir primeiro as testemunhas e por último você. Talvez acabe hoje ou não, vai depender do rol de testemunhas e do juiz. —– Mesmo a advogada tentando me tranquilizar, não conseguia ter pensamentos ruins, estava convicto que sairia dali preso.

— Vamos começar o julgamento, advogados aproximem-se. —

Estava sentando, olhei para trás uma única vez e vi Simon me dando forças de longe, também vi a Sra. Deborah que sorriu maternal, não sei por que ela ainda me tratava tão bem, quase matei sua única filha e ainda sim ela continuava a me tratar bem. Tentei sorrir de volta, mas estava tão nervoso, que me virei para frente rapidamente, a hora não passava, cada segundo parecia interminável.

Finalmente as testemunhas começaram a ser ouvidas, começando por Marvin, que contou a versão que tínhamos ensaiado no hospital. Depois ouvimos o pai de Michael, que me olhava com ódio, jogando toda a culpa em mim, falando de como influenciei o filho dele para o mal, que sempre foi um bom rapaz. Velho desgraçado, tão dissimulado quanto o filho, sentia nojo dele e agora sei de onde Michael puxou o mal caráter. Só um idiota para não perceber que aquele velho miserável estava fingindo. Logo em seguida ouvimos Marvin, que ousou me olhar confiante, balancei a cabeça positivamente, o pai de Michael lançava ofensas e acusações, toda vez que Marvin dizia algo sobre seu filho, foram momentos de tensão, todos estavam em alerta, apreensivos. O advogado que estava me acusando, era sagaz, sabia jogar, mas Alice era tão boa quanto não ficando por baixo.

Emily foi a próxima a testemunhar, quando a vi entrar e sentar-se na cadeira de testemunhas, minhas pernas falharam, meu coração quase saiu pela boca, comecei a tremer, pensei que ia enfartar naquele instante. A advogada percebeu meu nervosismo e segurou minha mão, Emily me olhou de relance e isso foi suficiente para perder o ar. Ela contou o que aconteceu na noite em que Melinda a sequestrou, como aquela mulher miserável aproveitou da sua inocência a fazendo acreditar que eu estava doente e que queria vê-la. Lágrimas se formaram em meus olhos. Por que Melinda era tão má? Por que ela sentia prazer em me machucar? Perguntas que jamais teriam respostas.

Emily contou ao juiz sobre Michael tê-la estuprado, sua voz falhou, fazendo com que todos presentes na plateia e no júri fizessem um som de espanto, as lágrimas que até então estavam presas em meus olhos, caíram pesadas, amargas, dolorosas. O miserável do advogado exigiu que ela contasse em detalhes, muitas vezes sendo interrompidos pelos protestos de Alice. Emily que muitas vezes eu a defendia de Michael, mas o advogado tentava transformar tudo em mentiras, manipulando suas palavras, dizendo que tínhamos um caso e que ela estava tentando tirar a culpa de cima de mim, mas quando ela contou em detalhes como Michael a estuprou, o advogado não tinha mais argumento, o que enfureceu o pai de Michael, que levantou gritando e a insultando de todas as formas, indo em sua direção para agredi-la, ele a acusava de ter consentido e que agora queria tirar proveito da situação. Levantei indo em sua direção, para proteger Emily, mas fui contido por minha advogada.

— Não piore as coisas Nicolas, deixe que os guardas cuidem disso. —– Olhei para a mulher que me segurava e a obedeci.

— Senhor Strong preciso que se acalme ou terei que retirá-lo —– a juíza esbravejou, ao homem enfurecido, mas ele não ouvia e continuava tentando avançar. O pai de Emily que até então estava calado na plateia, surgiu enfurecido, indo tão rápido em direção ao pai de Michael, que os guardas não tiveram tempo de pará-lo. Marcos deu o um soco na cara do Sr. Strong, o fazendo cair desnorteado, ele ia continuar a agredi-lo, mas os guardas os separam. Comemorei por dentro, aquele desgraçado merecia, mas fiquei decepcionado por não ter sido eu a dar o soco.

O advogado do Sr. Strong ficou enfurecido com as acusações de Emily contra Michael, pois de acordo com ele, isso não estava relacionado ao caso em questão e também com a agressão a seu cliente, tentou usar isso para parar o julgamento, mas a juíza não permitiu e ele sentou frustrado, o Sr. Strong foi retirado do tribunal pelos guardas junto ao pai de Emily.

A juíza deu um intervalo, para que todos recuperassem os ânimos. Fui correndo ao banheiro vomitar, meu estômago doía, minha cabeça girava, minhas mãos tremiam. Ouvir Emily contar o que Michel fez com ela, me dava náuseas. Ouvi passos dentro do banheiro e fiquei em silêncio, sentado no chão ao lado da privada, fechei os olhos na esperança de que aquilo fosse só mais um pesadelo terrível, mas não adiantou, era real e precisava enfrentar isso sozinho, como um homem.

Sai do box, lavei o rosto na pia, arrumei o nó da gravata e sai do banheiro voltando para o corredor onde Alice e Simon me esperavam. Ficamos conversando sobre os próximos passos, como deveria agir, o que falar, ter sempre calma, pois o advogado do Sr. Strong ia vir com tudo agora que Emily acusou Michael de estupro. A Advogada realmente era muito boa e me deixava mais cortável, já que não poderia falar com Marvin até que tudo acabasse. Depois de me dar as orientações necessárias, conversamos sobre assuntos aleatórios, para tentar relaxar um pouco, funcionou por uns minutos, mas sempre me vinha à tona Emily falando para todas aquelas pessoas, que Michael a estuprou e como sua voz falhou ao tocar no assunto, como foi difícil para ela passar pelas torturas de Melinda. Senti meu peito apertar, precisava sair dali, fumar um pouco. Pedi licença a Simon e Alice, fui dar uma volta, queria fumar, mas estava proibido. A Dra. Beatriz me disse que se soubesse que andei fumando, ela ia me deixar internado mais um mês sem visitas, então a prometi que não faria mais isso. Não sou do tipo que quebra minhas promessas, mas tem uma delas que está me enlouquecendo completamente, a que fiz ao pai de Emily, de que não a veria mais, essa promessa parece tão errada. Estou lutando com todas as minhas forças para mantê-la, mas quando a vejo, esqueço tudo de ruim que passei, estar com ela é como estar em outra realidade, uma em que as coisas boas parecem ser possíveis.