A outra face do mal
6 Capítulo 3
Meu aniversário seria em algumas semanas, o dia que mais odeio no mundo, a data que me fez vir a esse lixo de mundo, onde meus desejos em formato de velas se tornaram pesadelos. Quando meu pai estava vivo, comemorávamos com bolo, balões, chamava todos os meus colegas, tinha brinquedos legais, confetes e tudo que uma criança sonha, naquele tempo não odiava meus colegas de escola. Então ele se foi e no ano seguinte tive apenas um bolo na sala e umas poucas velas, com apenas minha mãe e Simon, que me deu um canivete com meu nome desenhado no cabo de madeira, ele me disse que estava me tornando um homem e que meu pai tinha dado um para ele também e que estava esperando o meu próximo aniversario para entregar o meu, mas não teve tempo e por isso ele estava fazendo em seu lugar. Senti meus olhos arderem, mas segurei as lágrimas, queria mostrar que era forte. Segurei o canivete com muita força para não o perder, sentia como se fosse um pedacinho do meu pai, guardei dentro do guarda roupa onde só eu pudesse achar, não queria que minha mãe visse, se não ela jogaria fora como fez com tudo que lembrava ele.
A noite terminou calma, Simon saiu com os amigos e eu fui para o meu quarto jogar online com meus amigos. Era apenas uma noite como qualquer outra, pelo menos foi o que pensei, como me odeio por ter permitido aquilo, por não ter contado para Simon, por não ter dado um basta. O presente de Simon não foi o único que recebi naquela noite, minha mãe também me presenteou, mas o dela deixou feridas que nunca se cicatrizariam. Mas ninguém acreditaria em mim se contasse.
AGGGGRRRRR! Minha cabeça estava doendo que só um inferno! Minha mente está muito barulhenta e não consigo parar de pensar na garota de olhos castanhos, preciso vê-la por um segundo, apenas olhar para ela. Só que não posso fazer isso, teria que ter um bom motivo. Vou ligar para Marvin e saber como estão as coisas.
—– E ai cara! Alguma novidade para mim? –– Pude ouvir Marvin respirar fundo do outro lado da linha, já sei que vai vir uma pergunta idiota, da qual não vou saber responder, aquele cara me conhecia muito melhor que eu mesmo.
—– Depende de qual delas você quer saber, quer notícias da Emy ou sobre Michael? –– Revirei os olhos, minha cabeça latejava, tinha a sensação que iria explodir a qualquer momento. Ouvir Marvin se referir a Nerd de forma tão intima me deu uma pontada de ciúmes.
—– De Michael claro, porque iria querer saber da nerdizinha? Meus negócios são mais importantes do que uma garotinha mimada tentando chamar atenção, com uma tentativa fajuta de suicídio. –– Tive quase que uma visão de Marvin revirando os olhos, sei que peguei pesado nas palavras.
—– Certo, Michael está tentando tomar seus negócios e está empenhado nisso. Hoje à noite ele estará no Hoka do Marcos, está tentando convencê-lo a deixar você e comprar com ele. –– Maldito.
—– Então vamos ter que fazer uma visita ao Hoka hoje e pegar todo mundo de surpresa. Passa aqui mais tarde –– Hoje acabo com esse desgraçado.
—–– Ahhhh e só para você saber, os pais da Emily vão a um jantar com amigos e ela ficará sozinha boa parte da noite, caso queira tirar sua capa de bandido mal e pesar na balança o que é mais importante. –– Às vezes eu odeio Marvin.
Preciso dar um jeito em Michael, antes que ele crie laços com meus sócios, mas queria ver a Emily, precisava vê-la, sentir seu cheiro mesmo que de longe. Nunca pensei que algo me deixaria tão dependente, ela era como uma droga, que me deixava relaxado por alguns segundos. Preciso pensar no que fazer! Mandei mensagem para Marvin pedindo que vá na frente e fique de olho em Michael, enquanto passo na casa da nerd e vejo como ela está, depois vou para o Hoka e acerto as contas.
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20h00
Estava pronto, Marvin disse que os pais de Emily sairiam as 20hs de casa e que a barra estaria limpa, estacionei o carro na rua debaixo e subi pela parte escura, perto dos muros. Minhas mãos estavam suando e meu coração acelerado... QUE DIABOS ESTAVA ACONTECENDO COMIGO.... Preciso manter a cabeça no lugar, sem distrações. Olhei em volta para ter certeza de que não tinha ninguém, subi o muro perto de uma arvore que tinha no quintal dela. Observei quieto a casa toda, no andar debaixo as luzes estavam acessas, vi luzes se acenderem do lado esquerdo, queria ver melhor, mas estava difícil, a posição da arvore, não me dava um bom campo de visão, teria que descer. Esqueci de perguntar para Marvin se eles tinham cachorro, espero que não, ser mordido não vai ser legal. Pulei no gramado tentando fazer o mínimo de barulho, caminhei devagar até a varanda da casa e espiei pela janela da cozinha, Amanda estava lá, a melhor amiga da Emily, xinguei Marvin baixinho, ela estava comendo um sanduiche ou alguma coisa parecida. Caminhei agachado até o outro lado da casa, onde vi a luz acessa no andar de cima, procurei algo para me apoiar e subir, não tinha nada, só o parapeito da janela, dei um impulso e me apoiei na parede, olhei para dentro do cômodo, era um quarto e estava vazio.
Meus braços estavam começando a doer me fazendo perder as forças, precisava sair dali, aquela posição não estava me favorecendo. Abri a janela devagar e me joguei para dentro, fiquei com os dedos das mãos formigando pelo esforço. Olhei em volta e vi alguns livros em cima de uma escrivaninha no canto direito, do lado havia uma porta que estava fechada, caminhei até ela e coloquei o ouvido perto, ouvi o barulho do chuveiro ligado, fui até a escrivaninha que tinha alguns cadernos e livros em cima, na parede um pôster do corpo humano, um porta lápis com canetas e marca textos de todas as cores. Olhei em volta do quarto e do lado da cama na parede perto da porta de saída, tinha uma cômoda branca com alguns perfumes, maquiagens e um porta retrato em cima, cheguei perto e lá estava Emily abraçada com seus pais, o sorriso dela iluminava a foto, aquilo me causou um aperto no peito.
Ouvi a porta do banheiro sendo destrancada e meu coração disparou, precisava pensar rápido, me enfiei embaixo da cama, DROGA! DROGA! Como vou sair daqui, fiquei quieto, quase que sem respirar, vi pernas caminharem até a cômoda, abri algumas gavetas, Emily estava de toalha, vestido uma peça intima, não pude deixar de levar meus pensamentos a pontos que não queria, NÃO! NÃO! NÃO! Não queria pensar nela dessa forma. Ela caminhou até o armário embutido na parede e tirou uma calça moletom e uma blusa de alcinhas rosa, deixou a toalha cair no chão e nesse momento fechei os olhos, tentei mantê-los assim o máximo que pude, a curiosidade estava me comendo vivo, mas não faria isso, não a olharia sem roupa, não sem o consentimento dela.
Ela caminhou até o banheiro de novo, rolei devagar para fora da cama e levantei, por sorte deixei a janela aberta e ela não percebeu, caminhei devagar até a janela, segurei o parapeito para pular, quando ouvi um grito, me virei para olhar de onde vinha e de repente tudo ficou escuro.......
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