A nova garota
42 Capítulo 42
Notas iniciais
Tentei ser discreta, porque a última coisa que eu queria era que alguém me visse. Olhando em volta, desliguei a lanterna e corri para me esconder atrás de uma coisa que identifiquei como a prateleira em que guardam as bolas de basquete e queimada.
Demorou um segundo até eu me acostumar com a escuridão, mas depois percebi que era mesmo um ginásio. E, cá entre nós, se você olhasse do ângulo certo, aqueles bonecos pareciam até reais...
Procurei desesperada por Nico, e finalmente o achei. Ele estava pendurado de cabeça para baixo na corda de escalada, balançando para lá e para cá. E consciente, porque olhava para todos os lados expressando raiva.
— Deimos! — Gritou. — Agora você vai sumir assim, seu frangote?
Apesar de tudo, esbocei um sorriso. Mesmo machucado, arranhado e pendurado de cabeça para baixo numa corda de ginásio com um monte de falsos alunos mortos olhando para ele, Nico ainda tinha coragem para chamar o deus do pavor de frangote.
Falando do Hades... (n/Hades: Chamaram?) (n/Todos: NÃO!) (n/Hades: Mas de novo com isso? Vocês bem que poderiam avisar quando for alarme falso.)
... Deimos apareceu numa das arquibancadas, parecendo se divertir muito.
— Não tem graça nenhuma colocar monstros pra lutar com você. — Falou. — Você sempre acaba com todos e leva apenas alguns cortes!
Certo, Nico estava bem. Mas eu não podia ficar na moita por muito tempo! Tentei entender o que ele tinha dito. Monstros? Deimos tinha sequestrado Nico para torturá-lo e fazê-lo lutar com monstros? Que coisa mais tosca!
— Dracaenae, empousai, ciclopes, lestrigões. — Enumerou Nico. — E agora?
Ele estava balançando de um lado para o outro... Oh meus deuses, se fosse eu, já teria vomitado.
— Você não perde por esperar...
Mas o que... Oh, droga. Eu estava tentando entender o que Deimos disse quando apareceu a criatura que achei que nunca mais teria que ver na vida.
O gigante azul sorriu com desdém ao ver Nico.
— Aqui estamos nós de novo, garoto. — Rosnou. Era só o que me faltava. Amico.
Perdendo completamente o efeito surpresa e ignorando minha falta de pontaria, joguei a adaga de estimação de Miri na corda que prendia Nico, e arregalei os olhos quando vi que tinha funcionado. Ele estava agora caído no chão, muito confuso, e procurava pela espada. Como não a achou, pegou a adaga que eu tinha acabado de jogar e sorriu.
— Interferência? — Perguntou meu tio, indignado. — Como assim?
Percebi que tinham me descoberto, afinal como não teriam? Ao contrário do que eu tinha pensado, o gigante Amico sorriu, como se pensasse: "Legal. Mais comida."
Saí de trás da bancada de bolas e desembainhei a espada. Nico tinha se colocado de pé e olhava para mim com confiança. Juntos, começamos a correr em direção ao monstro.
Agora, vocês devem estar pensando: "Por que diabos essa burra não usa seu talento, como fez da outra vez?" Acontece que isso é realmente muito cansativo e eu não estava em condições de me esforçar tanto. Era para ser um último recurso, uma carta na manga.
Amico parecia não saber quem matar primeiro. Resolveu se concentrar em mim, finalmente.
Ele ergueu uma das mãos como se quisesse me esmagar. Eu desviei e cortei com minha nova espada, fazendo um talho feio em seu rosto. Ouvi um grito, mas no mesmo instante Nico veio por trás e golpeou a perna do gigante com a adaga de Miri. Outro grito.
Não sei dizer ao certo por quanto tempo ficamos lutando daquele jeito, mas não adiantava. Só conseguíamos irritá-lo. Em certo momento, consegui atingir seu peito, mas ele apenas se afastou por alguns segundos e depois voltou a lutar. Era impossível. Um gigante só poderia ser morto se houvesse a cooperação de um deus com os semideuses.
E, vamos falar a verdade, para Deimos pouco importava se morrêssemos. Ele até se divertiria com isso, se prestarmos atenção ao jeito com que ele assistia tudo: parecia estar vendo um jogo de futebol, com um interesse impressionante.
Nico mancava. E o corte em sua têmpora, que eu tinha percebido no sonho, parecia estar doendo muito. Eu sabia que ele não duraria muito tempo. Sinceramente, não sabia nem se EU duraria muito tempo.
Era a hora de usar a minha última jogada. Eu deveria ter tentado isso um segundo antes, pois quando comecei a me concentrar, ouvi uma batida surda. Amico acabava de acertar a cabeça de Nico com força, com um objeto que não consegui identificar. Parecia ferro... Ele foi jogado contra uma parede e caiu no chão, imóvel.
Fiquei apavorada, mas não tinha mais tempo. Olhei nos olhos do gigante e me concentrei o máximo que pude. De início, nada aconteceu, mas depois de um instante sua expressão mudou de determinação para medo. Ele parecia estar tendo um pesadelo.
Porque é isso o que eu sou, o que eu sempre fui. Um pesadelo. Eu teria sorrido com isso, se a minha energia não tivesse sido drenada totalmente. Caí de joelhos, mas me esforcei para continuar encarando Amico. Ou isso, ou eu morreria.
Quando achei que não teria mais força nenhuma, Deimos se levantou.
— Chega dessa idiotice! — Falou, parecendo zangado. — Era pra ser divertido, e não... Isso. — Ele foi até o gigante, que ainda estava se borrando de medo. — E você aí? Vamos, saia daqui, seu inútil! Você não serve nem para dar conta de dois semideuses adolescentes, vá já para fora daqui! — Foi até engraçado. Meu tio deu um chute em Amico, que saiu correndo como um gatinho.
Mas não dei atenção. Com as poucas forças que me restavam, corri até Nico. Ele estava inconsciente, por isso tive que fazer com que bebesse um pouco de néctar. A cor voltou um pouco a seu rosto, os cortes pareceram melhorar levemente, mas ele não abriu os olhos.
Oh meus deuses...
Já não havia sinal de Deimos. Gritei por socorro, mas quem poderia ouvir? Em poucos segundos, eu estava chorando. Precisava levá-lo ao Acampamento, para que os filhos de Apolo pudessem me ajudar, mas como? Eu teria que carregá-lo até lá?
As lágrimas escorriam livremente, e não fiz nenhum esforço para contê-las. E se... Oh meus deuses... Achei que não tinha mais esperança. E foi aí que eu vi...
Um enorme (e eu digo colossal) mastiff preto apareceu do nada. Teria me assustado se me importasse com alguma coisa a não ser o estado de Nico, mas depois eu o reconheci. Um sorriso involuntário se formou em meu rosto, mesmo que eu estivesse chorando.
— Hey, garoto! — Gritei para Rex. Nem precisei dizer mais nada, ele correu para perto de onde nós estávamos e se abaixou para que eu colocasse Nico em suas costas. Fiz isso rapidamente e depois procurei pela adaga de Miri, além da espada do próprio Nico. Feito isso, subi também nas costas de Rex. — Pode me ajudar a levá-lo para o Acampamento?
Rex latiu e eu fechei os olhos. Senti um frio na barriga e reconheci a sensação de viajar nas sombras. Tinha esperança, afinal. Mas eu não conseguia deixar de sentir uma tristeza imensa, além de muito medo daquelas duas palavras que em pouco tempo me deixariam maluca.
"E se...?"
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