A nova garota
43 Capítulo 43
Notas iniciais
POV Nico
Eu não coseguia assimilar nada. Desde que aquele gigante tinha acertado minha cabeça com uma barra de ferro que ele arrumou sei lá onde, tudo ficara completamente confuso.
Me lembro de sentir cheiro de morangos. E, claro, uma enorme dor de cabeça, tão forte que parecia que meu cérebro ia explodir. Da primeira vez que consegui abrir os olhos, pude ver um ventilador de teto. O cheiro dos morangos já tinha denunciado que eu estava no Acampamento Meio-Sangue, e agora o ventilador... O único lugar no qual havia um ventilador era a enfermaria.
O meu enjoo era inacreditável. Tudo balançava, como se eu estivesse ao sabor das ondas num barco em alto mar. Cheguei a abrir os olhos algumas vezes, mas depois de alguns segundos o cansaço me vencia e eu apagava de novo. Em um desses momentos, consegui virar a cabeça para o lado e pude ver Julie dormindo sentada numa poltrona.
Seu cabelo caía nos ombros, sem emaranhados. Ela respirava serenamente, mas seu pescoço parecia estar numa posição desagradável. Quis arrumá-la no encosto, para que ficasse mais confortável, só que nenhuma parte do meu corpo respondia ao comando. Tentei chamar seu nome, dizer a ela que acordasse, mas minha língua estava terrivelmente pesada e o que saiu foi:
— Pschalandr grmlml. — E, pra piorar, num som quase inaudível. Depois disso, desmaiei novamente.
A cama não parava de jogar para trás nem por um segundo sequer. Eu ouvia vozes distantes e conseguia indentificá-las, às vezes. Julie, Annabeth, Percy e todos os meus outros amigos, além de Drake Nichols, conselheiro do chalé de Apolo.
*****
Na vez seguinte em que acordei, eu estava um pouco melhor. A dor de cabeça monumental ainda estava lá, latejante, mas eu conseguia me mover levemente. Nisso, percebi que alguém segurava minha mão. Julie estava de novo dormindo naquela poltrona. Um pequeno aperto que dei em sua mão, a única maneira que encontrei de avisar que estava acordado, foi suficiente para fazer com que ela abrisse os olhos sobressaltada.
E os arregalou quando me viu. Isso me mostrou que eles estavam vermelhos e inchados... Julie estava chorando?
Ela abriu a boca e fechou, depois abriu novamente. Daí largou minha mão e correu para pegar um copo de néctar, que me entregou logo em seguida. Bebi rapidamente, e achei que já podia tentar levantar. Me apoiei nos cotovelos, juntando todas as forças que tinha, e consegui me erguer alguns centímetros.
— Fique deitado. — Julie advertiu, mas eu ignorei a dor de cabeça e acabei sentando. Ela me olhou na expectativa. Seus olhos ficaram marejados. — Está tudo bem com você? — Assenti, e ela respondeu jogando os braços em torno de meu pescoço e apertando forte. A abracei também.
— Cuidado. — Brinquei, minha voz saiu tão rouca que era até estranho. — Vai acabar me enforcando.
— É exatamente isso que eu vou fazer se me assustar assim de novo. — Ela disse, sem me soltar. Senti lágrimas quntes molhando meu pescoço, mas nem me importei com isso. Tudo o que fiz foi estreitar Julie ainda mais em meus braços.
Não sabia ao certo quanto tempo tinha passado inconsciente, mas se foi o bastante para assustar Julie... Nossa.
— O que acharia se eu nunca mais soltasse você? — Perguntei, tentando animá-la um pouco.
— Não precisa me soltar. — Falou, mas eu ainda sentia as lágrimas escorrendo.
— Precisa sim. — Disse uma outra voz que vinha da porta. Olhando, pude ver Drake parado lá, os braços cruzados. — Devia ter me avisado, Julie.
Ela se afastou, um pouco corada, e justificou:
— Nico acabou de acordar...
— Tudo bem. — Drake concordou com a cabeça. — Poderia buscar mais ambrosia, por favor?
Julie olhou relutante para a porta, para mim, para a porta de novo e por fim se levantou. Saiu caminhando resoutamente depois de sorrir com confiança na minha direção.
— Tudo certo, cara? — O filho de Apolo perguntou depois que ela saiu. Dei de ombros, mas não deveria ter feito isso porque minha cabeça latejou com mais força. — Não vou mentir, você deu um susto em todo mundo.
— Quanto tempo... — Não concluí a frase.
— Treze dias. A maioria pensou que você não ia mais acordar. — Ele me entregou novamente o copo de néctar.
— A esperança de vocês é impressionante, obrigado. — Retruquei, e Drake riu.
— Mas vou te dizer, Julie ficou aqui o tempo todo. E eu digo o tempo todo mesmo! Ela mal saía pra comer. Ficava furiosa quando eu sugeria que voltasse para as atividades. Quíron deixou que ela ficasse, depois de muita persistência. — Ele contou. — Vou ser sincero, sua namorada gosta mesmo de você. Sempre que estava aqui ela falava sobre coisas que, sério, eu não entendia nada. Mais como gigantes hiperbóreos e ameaças a Deimos.
Dei uma risada. Eu tinha ouvido muitas dessas coisas, mas acho que eless não sabiam disso. Só depois percebi uma coisa.
— Ela não é minha namorada...
— Ah, não? — Ele pareceu surpreso. — Pois eu acho que deveria ser.
Pensei nisso. Eu concordava com Drake. Por que mesmo Julie não era minha namorada? Ela não tinha tido tempo de me dar uma resposta, por isso eu não sabia qual era. Ao que tudo indicava, eu teria que perguntar de novo, e era exatamente o que eu ia fazer. Mais tarde, na hora certa.
Isso me fez sorrir, até porque nesse instante ela apareceu de novo com muitos quadradinhos de ambrosia.
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