A moça e o dragão

3 Um recital de poesia?


Era sábado, fazia sol, como sempre, mesmo sem precisar, Virginia acordou cedo para ir ao mercado, fazer suas parcas compras semanais, lembrando-se como gostava de fazer isso tempo atrás, de ver as frutas e legumes bem arranjados, exibindo suas cores luxuriantes, as verduras arrumadas, salpicadas por gotas de água e ainda ressentindo o cheiro de terra, antes de mãos exigentes e descuidadas acabassem por destruí-las. Em outras épocas, escolheria os melhores e elaboraria pratos especiais e apetitosos, para o fim de semana, mas, não agora.

E como se criasse um hábito, o elevador parou no 5ֻº andar, e as portas se abriram, deixando Virgínia expectativa e, em seguida, chocada, ao revelar o jovem casal em um indecoroso e pecaminoso beijo, bem no meio corredor. Irritada, pigarreou para chamar a atenção, no entanto, não adiantou as bocas não desgrudaram. Apertou, insistentemente, o botão na tentativa de seguir sua viagem, porém a porta foi impedida de fechar por um dragão enrolado no braço que estendia para as costas despidas do seu dono, que só usando uma calça, equilibrada perigosamente nos seus estreitos quadris, os pés descalços, os cabelos soltos e ar sonolento. Por fim, o casal se separou, o rapaz olhou para dentro do elevador e encontrou o olhar nada simpático da sua ocupante.

— Bom dia, Virginia – ele disse em um tom alegre, ainda pendurado no pescoço da garota pequena de compridos cabelos escuros.

— Bom dia, Jonas – O tom da mulher foi seco e ácido.

— Adeus, Tati.

A menina entrou no elevador, depois de mais um breve beijo.

— Adeus, Jonas.

A porta se fechou, continuaram sua descida, a garota olhou para a mulher atrás dela e sorriu despretensiosamente, depois, tirou o celular do bolso da minúscula saia e começou a digitar ferozmente. Virgínia se sentiu incomodada, imaginando se ela estava relatando os fatos da noite passada, por julgar pelo beijo seria pura indecência. Imaginou se, por acaso, uma das senhoras idosas do edifício assistisse aquela cena indecorosa, o que pensaria? Afinal, aquele era um prédio de respeito e regras de educação deviam ser seguidas, a fim de determinar a boa convivência entre todos os moradores. Ao mesmo tempo, Virgínia não conseguia desviar os olhos das asas tatuadas nas panturrilhas e do gato verde no ombro da garota.

O elevador fez sua derradeira parada.

— Tchau.

— Tchau.

Quando saiu a rua e os primeiros raios de sol tocaram seu rosto, já estava mais calma, respirou fundo, sentindo o ar ainda com baixo índice de poluição, parou na banca de jornal na esquina.

— Bom dia, Virgínia.

— Bom dia, Camilo.

— Chegou aquela revista de viagem que você gosta – o jornaleiro informou e ela parou e folheou a edição com algum interesse, vendo as belas fotos de lugares tão longínquos e inacessíveis, que já deixou tanto conhecer.

— Eu vou levar essa. Não sei por que gasto meu dinheiro comprando essas coisas? Será que um dia conhecerei algum desses lugares, Camilo?

— Pelo menos, você pode sonhar. Quem sabe um dia? — O homem lhe um sorriso benevolente.

— É, ainda posso. – Pagou a revista, colocou dentro da bolsa e seguiu seu caminho.

Há muito, viajar para aqueles lugares tão bonitos das fotografias era um sonho, um plano para o futuro, hoje em dia, não era mais nada, comprar aquelas revistas era apenas um hábito, que não conseguiu perder, entre tantos que foram desaparecendo devagarinho, por mais que tentasse preservá-los.

A sua volta, o mundo que passava não lhe despertava nenhum interesse, tudo parecia insosso e sem propósito, a vida era apenas uma sucessão de dias iguais a outros, uma continua espera da morte. Ela comprou o que precisava, nem mais nem menos, não era adepta a excessos. Por um breve segundo, pensou no beijo que presenciara aquela manhã, não pode deixar de sentir um certo desconforto. Inveja? Talvez, sentisse falta daquele calor, tal qual o sol aquecendo a sua pele gelada e anestesiada, como se vivesse em um eterno inverno, recoberta pela neve. Sacudiu a cabeça para espantar aquela imagem e voltou a sua vida de sempre.

À noite, estava em casa, seu telefone em silêncio, cansado de ter os convites recusados, já que, ela preferia a solidão à fingida felicidade das noites fúteis e vazias de conversas inconsequentes. Preferia colocar uma roupa confortável, depois de um bom banho, sentar no sofá, fingir assistir algum filme ou ler algum livro, somente para passar o tempo e dormir, não queria deitar na cama e ficar rolando, insone, perdida em pensamentos torturantes. Quem sabe, tomaria alguma pílula mágica e se esqueceria em um sono profundo e sem sonhos, até que, no dia seguinte, o sol a lembraria que ainda estava viva. Então, inesperadamente, a campainha tocou, sem saber quem seria, assustou-se, talvez, o prédio estivesse pegando fogo, mas não sentiu o cheiro de fumaça nem escutou as sirenes dos bombeiros. Pelo visor, enxergou Jonas, institivamente, levou a mão aos cabelos na tentativa de ajeitá-los, arrumou a roupa, antes de abrir a porta.

— Oi, Virginia.

— Oi, Jonas. Algum problema?

— Não, só que é noite de sábado, então, eu pensei se queria ir a um recital de poesias de uns amigos meus?

Será que ela entendeu bem? Ele a estava convidando para ...

— Um recital de poesias? Isso ainda existe?

— Sim, e tem muita gente fazendo coisas bacanas. Há um lugar, um barzinho, onde o pessoal se reúne e lê seus trabalhos, alguns tocam músicas que compuseram, outros só falam das suas ideias. É legal.

Virginia não entendia o que era legal naquilo, muito menos, o que Jonas estava fazendo parado, na sua porta lhe fazendo um convite desses.

— Eu não sei...

— Você está fazendo alguma coisa, agora?

Ele já sabia a resposta.

— Não, mas...

— Então, por que não vem? Se não gostar pode ir embora, na hora que quiser.

Ela olhou para trás, para sala na penumbra iluminada pela luz da TV, voltou-se para frente e viu Jonas.

— Tudo bem. Eu vou trocar de roupa.

— Eu espero você.

Ela abriu a porta para ele entrar.

No seu quarto, ficou em dúvida qual roupa usar, como há muito não acontecia, principalmente, em um recital de poesia, seja lá o que fosse aquilo. Pensou em que Jonas vestia, por isso optou por um jeans e uma camisa, sem outras vaidades.

Ao voltar para sala, ele a esperava, olhando em volta, curioso.

— Você não demorou nada – Ele constatou, com um leve sorriso de satisfação.

— Não sou muito vaidosa.

— Gosto disso em você. Diferente das mulheres da sua idade, você não se esconde atrás de um monte de maquiagem — disse, ao saírem pela porta.

— Eu já goste de usar maquiagem.

— E por que não usa mais?

— Porque eu mudei.