A moça e o dragão

4 Só um pouco esquisito


Virgínia não fazia a menor ideia de como seria um recital de poesias nos tempos modernos, mas, subindo as escadas estreitas e escuras daquele sobrado antigo, descobriu no lugar de aspecto underground, pouco iluminado, pequeno, cheirando a cerveja e gente, preenchido pelo burburinho dos presentes, que ocupavam as poucas mesas, encostavam-se no gasto balcão de madeira do bar ou junto as paredes encardidas, quase totalmente encoberta de cartazes e avisos. No fundo, um pequeno e acanhado tablado fazia as vezes de palco, no seu centro, o microfone preso no pedestal ainda estava vazio.

Jonas abriu caminho pela pequena multidão, cumprimentando um ou outro, com um leve tapa nas costas, um aperto de mão ou beijos no rosto, atrás dele, Virginia seguia abraçada a sua bolsa, angustiada pois desde...Há muito tempo, não estava cercada de tanta gente em um espaço tão pequeno, tentando lembrar-se de respirar, lutando para não sair correndo dali, como uma louca. Pensou que se houvesse um incêndio no local, morriam todos, porque não conseguiriam escapar pela aquela escada precária, sem perceber que Jonas a guiava até a frente do palco, parava diante de uma mesa já lotada e a apresentou a um monte de gente, cujos nomes não se lembraria mais, em cinco minutos, puxou duas cadeiras e se acomodou. Virginia percebeu o brilho nos olhos da menina loirinha bonitinha, Caroline, era assim que achava que a garota se chamava, ao ver Jonas ali, não era para menos, os dois deveriam ter mais ou menos a mesma idade, aquilo parecia ser muito natural.

— Vou pegar uma cerveja para a gente – Jonas avisou, levantando-se.

— Eu não bebo – ela disse para as costas dele, que não escutou.

Virginia ficou ali cercada de estranhos, sem saber o que falar, mas, também, eles não pareciam se importar com sua presença ali, então, permaneceu calada, ouvindo, sem muito interesse, as conversas ao seu redor. Demorou algum tempo, Jonas regressou com dois copos descartáveis com cervejas meio quente entregou um a ela, que tomou um pequeno gole, reprimiu uma careta e o colocou sobre a mesa. As luzes reduziram ainda mais, um refletor iluminou o pequeno palco, então ela se lembrou.

— Sua namorada não vem?

Ele a olhou sem entender, erguendo as sobrancelhas.

— Ah, Tati? Ela não é minha namorada, só é minha amiga.

Virginia não perguntou mais nada, olhou para o pequeno palco onde, iluminado pela forte luz, uma versão moderna de Lord Byron, alto, magro e desengonçado, começou a recitar frases desconexas que ela não compreendia, enquanto os demais tinham olhos atentos e admirados. Assim, seguiu-se um após outro, mas Virginia já não estava mais lá, apesar de seu corpo permanecer no mesmo lugar, angustiada, sua mente vagava por outros lugares bem longe dali. Então, de repente, ela volta ao ouvir:

“Construo uma torre alta, muita alta, tento em vão alcançá-lo, me tranco nela.

Não sei onde está, para onde foi, deixando somente o vazio na minha alma.

Buscarei por toda a minha vida, uma resposta que sei que não existe. ”

No palco, a garota pequena vestida de preto, cabelos curto, resplandecia, enlevada pelo seu poema. A plateia aplaudiu’ com entusiasmo.

— O nome dela é Amanda. Ela é demais! – Jonas sussurra, enquanto aplaudia.

Sem agradecer os aplausos, a garota chamada Amanda se aproximou, seus olhos procuraram Jonas.

— Amanda, foi demais! – ele disse, entusiasmado, a garota dá um meio sorriso indeciso.

— Preciso ir! – Virginia se levantou abruptamente, quase virando a mesa.

— Por quê? – Jonas se assusta e a segue, enquanto Virgínia abre caminho pelo público até chegar a escada. — O aconteceu?

— Nada! Só tenho que ir!

— Eu vou com você.

— Não, fique com seus amigos.

— Não, eu vou com você.

Seus olhos se encontraram, ela tinha medo de ficar sozinha agora, assentiu com a cabeça, descendo juntos a escada e ganhando a noite. Caminharam lado a lado, por um tempo em silêncio.

— Você está bem? – Jonas pergunta, ela assentiu com a cabeça.

— Desculpe, eu parecia uma louca lá dentro, mas aquela poesia me angustiou um pouco.

— Poesia pode fazer isso com a gente, mexe com as emoções.

— Não comigo! Pelo menos, não devia, não mais.

— Às vezes, tem aquela palavra que toca fundo e despertam coisas adormecidas.

— Não é tão simples assim, eu não quero despertar nada, só quero ficar em paz, esquecer.

— Esquecer o quê?

Ela deu de ombros.

— Tudo. Por que não volta lá para os seus amigos, em vez de ficar ouvindo o papo chato de uma velha?

— Você não é velha.

— Para você, eu sou. Eu tenho o quê? Dez, Doze anos a mais que você.

— Não, você não é velha, só um pouco... deprimida.

— Vamos pegar um táxi, eu quero ir para casa – falou, já se aproximando da rua e estendendo o braço, o carro parou com uma freada brusca. Ela entrou sem olhar para trás e ele a seguiu, fizeram trajeto em silêncio, até chegarem ao prédio.

— Você quer beber alguma coisa? – ele quis saber, ela assentiu com a cabeça.

— Não tem nada lá em casa, talvez, encontre uma garrafa de vinho perdida. – Ela deu de ombros.

— Sempre tem alguma coisa na minha casa.

— Eu prefiro não ir para o seu apartamento

— Vou até o meu apartamento, pego o que tiver, encontro você no seu, daqui a pouco.

— Por quê?

— Porque gosto da sua companhia.

— Você é alguma espécie de maluco – Ela lhe deu um sorriso triste.

— Não, só um pouco esquisito.

Ele saiu do elevador no 5º andar, ela seguiu na sua ascensão acompanhada dos seus pensamentos e culpas. Talvez, fosse melhor ele não vir, pois qual o sentindo de passar a noite bebendo com aquele garoto? Talvez, fosse melhor do que ficar sozinha, remoendo seus pensamentos, ela era uma péssima companhia para si mesma.

Abrir a porta e entrar no seu apartamento era sempre muito difícil, dar o primeiro passo para dentro e encontrar tudo da exata maneira que deixou. Teria sido melhor ter ido embora tempos atrás, quando tudo estava recente, ela estava mais propensa a mudanças, no entanto, agora, estava entranhada naquele lugar, presa as suas recordações, criou raízes profundas.

Parecia ter passado segundos quando a campainha tocou, Virginia hesitou por um breve instante, antes de abrir a porta, Jonas entrou e com um sorriso vitorioso, erguendo uma garrafa meia vazia de um líquido dourado e uma garrafa de Coca-Cola na outra.

— É rum. Só encontrei isso. Você gosta de Cuba libre?

— Rum? Eu nem sei há quanto tempo não bebo isso – ela sorriu com a lembrança das cubas libres das festas da adolescência.

Virgínia foi até a geladeira pegou gelo e encheu os copos que tirou do armário e os colocou sobre a mesa, ele despejou uma boa dose de rum em cada um, completou com Coca-Cola e deu um para ela, que se sentou ao lado dele.

— A nossa amizade! — Jonas ergueu um brinde, Virgínia levou algum tempo para acompanhá-lo, pensando se eles eram realmente amigos, enquanto o rapaz ficava com o copo erguido no ar por constrangedores segundos, até ela elevar a sua mão e tocar o seu copo no dele. Virando-o um grande gole na boca, rápida e decidida, não podia parar para pensar.

— O que você gosta de fazer, Virginia?

— Como assim?

— O que a deixa feliz? Por exemplo, eu gosto de desenhar desde guri, criava histórias para mim, inventava personagens.

— O que eu gosto de fazer? Eu não sei... Gostava, quer dizer, gosto de ler e ver revistas de viagem. Costumava planejar viagem inteiras, dentro da minha cabeça, para lugares diferentes, já me imaginava lá, mas, agora, não ligo mais.

— Por quê?

— Porque a gente muda, cai na real, e percebe que a vida não é uma fantasia, que não dá para viver sonhando.

— Pois, eu quero sonhar, quero imaginar mil possibilidades, viver a vida intensamente, criar, produzir, ser – Jonas disse com um brilho nos olhos que causou inveja em Virginia.

— Eu já fui assim tempos atrás, a vida era cheia de expectativas e futuro, esperança.

— Então o que mudou?

— Um dia você perceber que a vida não é essa festa. Uma manhã, você acordar com o telefone tocando e quando atende descobre que toda sua vida mudou, desmoronou completamente, deixando você perdida, sem rumo.

— O que aconteceu que transformou sua vida?

— Meu marido morreu – ela virou o que restava no copo de uma só vez e estendeu a mão pegou a garrafa e se serviu de outra dose generosa e encheu de Coca-Cola, tomou mais um pouco — Um motorista bêbado que perdeu a direção e invadiu a calçada, ele morreu na hora, levando consigo a minha melhor parte.