A moça e o dragão

20 O primeiro e último Natal.


Três meses se passaram muito rápido, quase em um piscar de olhos, porém, ao mesmo tempo, foi dolorosamente lento, pois, com os preparativos para viagem, a cada instante, a partida se tornava mais concreta e real, daqui a pouco chegaria a hora do definitivo adeus, em uma lenta agonia de morte anunciada. Ele nunca falava no futuro e ela não ousava sonhar com ele.

Cada momento junto tinha um gosto de despedida, com isso, Virgínia se esforçava para guardar na memória cada mínimo detalhe, quase decorando as partes do corpo de amante, cada traço do seu dragão colorido, da caveira de olhos floridos, das estranhas figuras orientais desenhadas na pele dele, mesmo sabendo que aquilo seria em vão, porque o tempo implacável roubaria a maior parte das suas lembranças. O para sempre pode durar apenas um breve instante.

Para o mundo lá fora, Virginia colocou um sorriu no rosto fingindo que tudo estava bem, querendo bancar a descolada, que achava legal o namorado está indo morar um ano fora, mas ela não era tão boa atriz assim.

— O que está acontecendo com você, Virginia? – Sandra perguntou preocupada, ao perceber que aquela pequena luz que a iluminava, há cerca de um ano, estava se apagando. – As coisas estão dando errado entre você e o seu namorado?

— Não está tudo bem entre nós dois – respondia, com um sorriso que não refletia nos olhos.

— Relacionamentos são assim mesmo, uns dias são melhores, outros piores – Sandra continuou descrente da resposta.

— Eu juro está tudo bem entre a gente – rebatia, a outra mulher dava de ombros, fingindo acreditar.

Por fim, chegou o momento da partida, a constatação da dura realidade, as malas a amostra, a passagem comprada, as roupas escolhidas. Era tudo verdade, ele iria embora de vez.

— O pessoal vai fazer uma festa de despedida para mim – Jonas comunicou, com cuidado, em uma noite qualquer.

Festa! Eu não quero festejar nada! Pensou.

— Que legal. Quando será? – perguntou, fingindo-se interessada.

— Daqui a duas semanas, naquele barzinho, onde costumamos ir.

— Que bom.

Não, não está nada bom! O seu amor vai partir! Cruzar os oceanos, deixá-la ali, sozinha, afundando aos poucos na tristeza, de onde custou tanto a emergir, já havia se acostumado com a luz. Ela lhe dirá adeus com um sorriso nos lábios e lágrimas nos olhos e palavras de boa sorte. Então, voltará para casa, abrirá aquela porta e será como se aquele ano não tivesse acontecido, como se fosse apenas um sonho bom, que por fim se tornou um pesadelo. Mas por que se lamentar? Ela sabia que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria, ele iria embora, viver outras aventuras

Todos, a sua volta, pareciam pressentir o que acontecia dentro dela, que o seu brilho se apagava lentamente. O porteiro Antônio a cumprimentava com ar sério, o jornaleiro Camilo já não lhe oferecia revistas de turismo, até a vizinha Marilza a olhava de nariz em pé, como dizendo, eu sabia.

— O que está acontecendo com você, Virgínia? E não me diga que não é nada! – Sandra a encostou contra parede um dia, durante o almoço.

— Nada demais.

— Como nada demais? Você anda cabisbaixa pelos cantos, quase não come, quase não fala, quer dizer, fala menos do que falava.

Virgínia soltou um grande suspiro, resignada, seria melhor contar a verdade.

— Jonas conseguiu um estágio em uma das melhores empresas de designer gráfico.

— Isso é muito bom! – Sandra falou animada.

— Em Londres.

— Isso é muito ruim – a colega abaixou o tom.

— E quando ele irá?

— No mês que vem, logo depois das festas.

— E ele não chamou você para ir com ele?

— Chamou, mas...

— Mas, o quê?

— Eu não posso deixar tudo para trás.

— Por que não?

— Porque não posso.

— Tudo bem. Você é quem sabe, mas não entendo – Sandra deu de ombros.

As festas de fim de ano! Virgínia havia esquecido. Seria o primeiro e o último natal que passariam juntos. A única festa de fim de ano, para ele um novo recomeço, para ela um triste fim, já que ele viajaria no dia 6, dia de Reis, para começar no dia 8, no novo emprego.

— O que pretende fazer no Natal, Jonas? Visitar sua família em São Basílio? – Ela perguntou displicente durante o jantar, ele a encarou surpreso.

— Eu não tinha pensado nisso.

— Talvez, fosse uma boa ideia rever sua mãe. Dizer adeus a eles.

— Eu já disse adeus para eles, há muito tempo. Pensei em ficar aqui com você.

— Penso? Tem alguma festa para ir?

— Não, só eu e você.

— Não seria muito triste?

— Para mim, não. E para você?

Para ela? Seria maravilhoso ter ele só para ela, ficar bem juntinhos, só eles dois. Tão juntinho, mas tão juntinho, que pusesse, até mesmo, se transformar em uma das suas tatuagens, ficaria sempre preso a ele, sentindo cheiro e o calor da sua pele o tempo todo.

— Para mim, está bom – Ela deu de ombros, com falsa indiferença.

Precisava comprar um presente. Não! O presente. O presente mais maravilhoso e inesquecível, que toda vez que ele olhasse se lembraria dela. Mas, o quê? O que poderia tão maravilhoso ou marcante, tão incrível? Ela começou a olhar nas lojas, procurando avidamente, contudo, não a impressionava.

Foi quase sem querer que achou o seu presente ideal, passando por uma pequena loja, olhou para a vitrine sem pretensão e lá estava, perfeito.

Naquela véspera de natal, enfeitada com a árvore de natal que não via a luz há 4 anos, Virgínia preparou um jantar especial, se arrumou com cuidado, tudo para que aquele momento ficasse gravado para sempre na memória de Jonas. Ela queria deixar sua marca, uma boa lembrança.

— Você está bonita – ele lhe disse de modo doce.

— Você também.

—Tem certeza que não quer vir comigo para Londres?

— Sim. Mas, eu tenho uma coisa para você se lembrar de mim. — Ela pegou uma pequena caixa e entregou a ele.

— Eu também tenho uma coisa para você – E entregou uma pequena caixa a ela.

Eles abriram juntos. Para ela, um cordão com um dragão de prata e, para ele, uma pulseira de couro com um dragão de prata como fecho. Os dois admiraram para os seus presentes e, em seguida, olharam um para outros com um brilho de surpresa, sorriram e se beijaram, a ceia poderia ficar para depois, mais tarde, ela apenas vestindo um cordão de prata e ele somente uma pulseira de couro.