A moça e o dragão
21 Boas-vindas e adeuses
Virgínia tirou alguns dias no trabalho, mesmo o chefe a olhando de cara feia, mas não se importava, só queria mais um tempinho a mais com o seu fugidio amor, talvez, os derradeiros. Mas, não queria pensar nisso agora.
Foi entre o Natal e o ano-novo que houve a despedida dele, em um barzinho lotado e barulhento, e estavam todos lá, as Tatis, Carolines e Amadas, Mauro e Edu, todos felizes festejando a conquistar de Jonas. Para eles, Virgínia distribuía falsos sorrisos e dissimulada alegria.
— Virgínia, eu sei como é isso – Mauro começou com uma fala mansa, bem juntinho dela, quando Jonas estava lá do outro lado do bar.
— Sabe?
— Sei. Jonas vai embora e, com o tempo, você vai se sentir bastante sozinha.
— Vou.
— Então, se estive se sentindo muito mal, assim, para baixo, dá uma ligada para mim.
— Ligar para você?
— Sim, eu posso te fazer companhia, ajudá-la a passar dessa fase ruim.
— Tudo bem – Ela o olho de um modo falsamente inocente, mas, por dentro, consumia-se de ódio, pensando que ele podia esperar sentado. Vê se pode? Jonas sequer entrou no avião e Mauro já estava dando em cima dela, jogando com a sua futura carência.
Deus me livre! Mas, será que um dia, ela estaria tão carente, tão sozinha, que ligaria para Mauro?
Do outro lado do bar, Jonas olhou para ela e sorriu. Ela sentiu o peito apertar, não conseguia respirar, começou a suar frio, parecia que ia morrer, saiu correndo para fora, precisava de ar.
— Tudo bem com você? – Um rapaz de cabelos compridos, expansor na orelha e que fumava se aproximou dela, com um ar preocupado.
— Agora, estou. Deve ter sido o calor – Ou um ataque de pânico. – Está muito quente lá dentro.
— Quer que eu pegue uma bebida para você? – perguntou, com educação.
Virgínia estava preste a responder quando sentiu a mão de Jonas envolver sua cintura.
— Pode deixar, irmão. Eu cuido dela – Jonas respondeu, seco.
— Obrigada – Virgínia agradeceu a gentileza, o outro rapaz acenou com a cabeça, antes de afastar-se com o seu cigarro.
— O que houve? – Jonas perguntou.
— Nada, só estava com calor.
— Não dá para deixar você sozinha, que a rapaziada já sai caindo em cima – ele brincou com um sorriso torto.
Você nem imagina, ela pensou, enquanto voltam para dentro.
O ano-novo. Virgínia não se lembrava de um ano-novo mais triste, nem quando Theo morreu, em um mês de maio, e ela teve algum tempo para se recuperar, apesar das dolorosas lembranças. Não que ela se importasse muito com aquela festa, afinal, era só mais o fim de uma volta em torno do sol, onde ensaiamos um recomeço e fazemos um monte de promessas, que sabemos que não vamos cumprir.
— O que você quer fazer? – Jonas quis saber.
— O que você quiser – ela continuava fingindo que estava tudo bem.
— Nem tenho nada em especial.
— Nem eu. Só quero ficar com você.
— Então, por que não vem comigo?
— Já falamos sobre isso antes.
— Sim, falamos, mas ainda não entendo.
— Eu simplesmente não posso.
Ele a olhava com aqueles olhos castanhos esverdeados, cheio de dúvidas. Ela só queria abraçá-lo, apertá-lo contra o seu peito e nunca mais soltar.
— Vamos ficar aqui, em casa – ele decidiu.
Assim, o show pirotécnico daquela passagem de ano aconteceu no quarto de Virgínia, para no fim, ela descansar a cabeça no peito de Jonas, imaginando que não haveria outra segunda-feira, não haveria semana que vem para eles, pois só faltavam seis dias para ele partir.
No dia seguinte, o 1º dia do ano, começou a dolorosa função de arrumar as malas, mal saiam de casa, por uma desculpa ou outra. Muitas vezes, Jonas pegava Virgínia olhando para ele, fixamente, decorando seus movimentos, seus pequenos gestos, com ar triste.
Não pensem que Jonas estava imune a tudo isso, dividido entre a alegria por ir atrás de um sonho e a tristeza de deixar para trás, alguém com que se importava bastante, como Virgínia. Mas, não era a primeira vez, sua vida sempre foi cheia de adeuses e despedidas, sua família, sua cidade, seus amigos de infância e de todas as cidades que passou pela Europa, acostumou-se a não criar vínculos, não levar bagagens que não pudesse carregar, simplesmente, Jonas partia, sem olhar para trás, então por que era tão difícil deixar Virgínia? Porque gostava de ficar só com ela, sem se importar com o mundo a sua volta, seria isso amor? E por que ela tinha que ser teimosa? Com aquele medo dela de enfrentar o mundo, deixar suas quinquilharias para trás, em nome de uma falsa segurança. Mesmo não querendo se separar dela, ele precisava partir, não podia ficar, esquecer seus planos, murchar, pois ele enlouqueceria, então, logo, a odiaria, se odiariam, tinha que partir, viver o seu sonho.
Os dias se seguiram mais rápido do que deviam, Virgínia corria atrás das horas tentando segurá-las, porém elas insistiam em passar. A cada amanhecer, sentia-se mais triste até que chegou o derradeiro dia, que a pressa da preparação consumiu em um piscar de olhos. E, agora, estavam no meio do burburinho do aeroporto, entre tantos rostos ansiosos, tristes, alegres, esperançosos.
— Para você — Ele entregou um bloco de papéis para ela, horas antes de partir.
— Para mim? – Ela o olhou surpresa e ele concordou com a cabeça, então ela folheou as páginas de desenho em preto e branco. – Uma história?
— Sim, um mangá. A moça e o dragão – ele anunciou, ela o interrogou com os olhos. – Somos nós. Sim, mas você lê depois, tenho que ir.
Minutos depois diante do portão de embarque internacional, atrapalhavam a passagem.
— Você sabe onde me encontrar. Vamos trocar mensagens sempre. Quero falar com você todos os dias. Um ano passa rápido. Eu vou voltar bem depressa. Vai dar tudo certo. – Jonas falava, limpando com os polegares as lágrimas no rosto de Virgínia, ela apenas sacudia a cabeça, concordando com tudo, sem conseguir falar. Ele a beijou, uma, duas, muitas vezes. Ela guardou cada beijo.
Aí ele se foi, cruzou a portão da área de embarque, desapareceu de vista, saiu da vida dela. E agora, o que fazer? Ela esperou, talvez, por uma greve dos aeronautas, uma nevasca em Londres, uma tempestade solar ou qualquer coisa que o impedisse de ir. Mas foi em vão, o avião alçou voo, ganhando o céu, indo para longe, muito longe, enquanto Virgínia ficou perdida aqui embaixo, sozinha, no meio do aeroporto movimentado, cheio de boas-vindas e adeuses. Assim, ela deu meia-volta e voltou para a sua casa vazia. Essa história poderia terminar assim, com nossa heroína voltando a sua antiga e triste vida, mas...
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