A moça e o dragão
22 Amor
Virgínia leu e releu a história da moça triste, que resgatou um dragão perdido e ferido, cuidou dele, deu-lhe amor, ele sarou, mas não poderia ficar naquele mundo parado, pois suas asas sumiriam, então morreria de tristeza. O dragão pediu que ela fosse embora com ele, no entanto, a moça teve medo de voar, queria ficar com os pés no chão. Sendo assim, mesmo triste, ele precisou partir e ela ficou só e infeliz para trás. Como Jonas pode fazer isso com ela, colocando no papel, naqueles desenhos tão lindos, toda a sua dor.
Era mais uma manhã comum, quando Virginia entrou no elevador, encarou a mulher a sua frente, no espelho, e não gostou do que viu, a mulher de rosto cansado e triste, olhos apagados. Onde estava aquela outra mulher de olhos brilhantes e pele luminosa, que ela encontrava todos os dias, no espelho do elevador, nos últimos tempos? Foi embora, junto da bagagem daquele rapaz tatuado, o garoto do dragão, que ela conheceu um dia nesse mesmo lugar, e que, agora, vivia seu sonho, bem longe, em uma grande ilha no meio do oceano. Ela sentia falta daquela mulher de outrora, do calor que sentia por dentro, mas, principalmente do rapaz tatuado, que lhe aquecia a cama e a vida. O elevador não parou no 5º andar. Chegou direto ao térreo. Lá fora chovia, não uma chuva de verão, forte e estrondosa, mas aquela chuva chata e persistente, combinando bem com os sentimentos dela.
Enfrentou a condução lotada, sem tanta ansiedade para chegar ao trabalho e encarar a pilha de papéis, que a aguardava, em cima da mesa.
— Bom dia, Virgínia.
— Bom dia, Sandra.
— Tudo bem com você?
— Sim, tudo – Já estava acostumada a mentir.
— Teve notícias do seu namorado? Qual é mesmo o nome dele?
— Jonas. Sim, tive, ele está bem, já morou na Europa antes.
— Naquela idade, tudo fica bem. Ah, você se lembra daquele primo do meu marido, aquele que eu falei para você?
— Sim, por quê?
— Eu pensei, já que você está sozinha agora...
— Eu e Jonas não terminamos, só estamos separados.
— Pode ser, espero que ele pense como você, porque um ano é muito tempo, muita coisa pode acontecer.
Virgínia não falou mais nada, apenas abaixou a cabeça para o trabalho, segura que Sandra estava certa, pois, Jonas encontraria muitas Margies, Margaretes e Chloes, pelo caminho, algumas tediosas ou animadas, talvez solitárias, ou seja, lá qual seria a desculpa. Não seria melhor deixá-lo livre? Libertá-lo de qualquer compromisso ou do peso da traição? Afinal, o que mudaria para ela?
Os dias de verões se seguiram, como sempre, infernais, enquanto, pela tela do computador, Jonas reclamava do frio intenso, da chuva fina, dos dias cinzentos. Ele contava que havia conhecido muita gente, que o trabalho era bastante produtivo, que estava aprendendo muito, reclamava da cama fria e a ausência do calor do corpo dela. Ela sorria, dizendo que também sentia a falta dele, das noites no sofá, do aconchego da madrugada, de acordarem juntos. Tudo, atualmente, era só boas lembranças que aos poucos iriam se perdendo, ela já havia passado por isso antes, ainda guardava vagas recordações de Theo, mesmo belas, mas tão tênues e distantes. E quando a tela se apagava, só lhe restava o apartamento vazio e silencioso.
A ideia surgiu de repente, foi crescendo devagarinho, ela procurou no armário a caixa de documentos esquecidos, dentro dela, achou a cadernetinha azul, nunca usada, obtida um pouco antes da tragédia da sua vida, quando ainda tinha sonhos de conhecer terras distantes, e para a sua alegria ainda estava válida. Encarou-a por algum tempo, imaginando se teria coragem para se aventurar, se não era melhor esquecer, guardou no mesmo lugar, não havia nenhum sentido nisso, e voltou para a sua vida de sempre.
Com o tempo, já fingia que se acostumava novamente com a solidão até aquela tarde, quando saiu do trabalho, em que o céu azul se fez pesado e cinza como mica, já se escutava trovões ao longe, o vento quente fustigava aqueles que tentavam fugir e se proteger da tempestade iminente, jogando poeira nos olhos, embaraçando cabeleiras, levantando saias, empurrando para trás quem queria avançar. A chuva forte a pegou na saída da condução, a caminho de casa e o guarda-chuva não bastava, lutava contra o vento para mantê-lo aberto, mas a contenda foi inútil, ficou toda molhada. Eram as águas do idos de março, fechando o verão.
— O mundo está desabando, Antônio – ela disse, sacudindo o guarda-chuva, ao porteiro entediado, que contemplava o vazio sem interesse.
— Pois é, dona Virgínia.
Ao entrar no elevador, veio-lhe à memória, como um de já vu, uma cena do passado, por um breve instante, esperou que o rapaz com a tatuagem de dragão aparecer através da porta, mas isso não podia acontecer, pois ele estava bem longe, em uma ilha do outro lado do mar. O elevador começou a subir, deu um solanco, tudo escureceu e a luz de emergência a transportou para um mundo fantasmagórico. Bateu aquele desespero, mais do que o medo de estar ali presa sozinha, foi o medo da ausência, do vazio, da solidão. Um novo tranco, a luz se acendeu e o elevador começou a subir, parando no 7º andar.
O dia seguinte, parecia um dia normal, o céu azul, apesar das ruas sujas, das poças d’águas, das árvores caídas, mas ninguém ligava, eram coisas de depois da tempestade de verão. No entanto, Virgínia entrou decidida, pisando forte, foi direto para sala do chefe, depois, saiu e sentou-se à sua mesa, foi nesse instante que Sandra notou algo diferente, havia um brilho nos olhos, um pequeno sinal daquela luz que se apagou.
— O que houve?
— Eu vou para Londres.
— Você se decidiu assim tão de repente?
— Não foi de repente, eu demorei muito.
— E quando você vai?
— Daqui a duas semanas.
— Tão rápido!
— Eu já comprei a passagem, foi isso que vim avisar ao chefe, que vou tirar férias.
— E o que ele disse?
— Que estava louca e nunca esperaria isso de mim. Eu disse a para ele, que tenho um monte de férias para tirar.
— E o dinheiro?
— Tenho um dinheiro guardado, nunca gastei com nada.
— Já contou para Jonas?
— Ainda não tive coragem.
Sandra a encarou admirada, erguendo as sobrancelhas.
— Quer dizer que você comprou passagem, peitou o chefe, mas não contou para o seu namorado?
— E se ele não gostar da ideia?
— Logo você vai saber...
Naquela noite, Virgínia ainda não tinha coragem para contar para Jonas que iria encontrá-lo.
— Sabe, Jonas, e se eu fosse passar uns dias aí com você? – Começou devagarinho.
— Seria ótimo, apesar do lugar que eu vivo ser bem pequeno, não tem muito conforto, e eu estou sempre muito ocupado, sem tempo mesmo.
Virgínia murchou por dentro, ele estava dando um monte de desculpa, com certeza, não queria ela por lá. Será que já havia outra pessoa? E agora, talvez, conseguisse reembolso do dinheiro da passagem.
— Mas, seria ótimo que você viesse – ele completou.
E agora, o que fazer? Ficou cheia de dúvidas, o que decidir? Foi uma loucura, um impulso inconsequente, devia ter falando com ele antes. Não podia fazer isso dessa maneira tão impulsiva, tinha tudo para dar errado.
Algumas semanas depois, Virgínia olhava o céu cinzento e a fina chuva que caía lá fora, antes de se levantar, pegar seus pertences e sair, se juntando as pessoas apressadas e ansiosas. Caminhava prestando atenção ao seu redor, aflita para chegar ao seu destino, parou no final da fila que avançava lentamente.
— Qual o motivo da sua viagem? – indagou a agente alfandegária, de um modo sisudo e impessoal.
— Amor – Virgínia respondeu, a agente ergueu as sobrancelhas em interrogação. – Desculpe, turismo.
— Aproveite sua estada – disse a agente, carimbando o passaporte.
Depois de intermináveis minutos, saiu pela porta do setor de desembarque, procurando, angustiada no meio na multidão, o rosto conhecido e desejado, então, encontrou, Jonas deu um passo à frente, estavam juntos, agora.
— Oi, Virgínia. Senti sua falta.
— Oi, Jonas. Eu também senti a sua.
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