A marca

3 William


Mais um dia de escola, mais um dia observando o movimento de alunos populares se divertindo enquanto eu ficava ali, parado em um canto. Nunca entendi o porque de não conseguir fazer nenhuma amizade verdadeira, quero dizer, sou um jovem normal do segundo ano do ensino médio, tenho uma altura média, cabelos pretos com um corte curto, nada de mais, a única coisa que poderia chamar a atenção seria meus olhos verdes. Mas ninguém chegou perto o suficiente para notar eles, chegou?

Além disso tudo, minhas notas não surpreendiam, eram um pouco acima da média apenas. Talvez fosse então porque eu nunca tentava conversar? Quero dizer, o fato de observar sempre me agradou, e as grandes janelas das salas de aula facilitam muito isso, sempre gastei meus intervalos olhando por elas, para os outros alunos da escola circulando de um lado para o outro, foi então num destes momentos que fui interrompido subitamente por uma voz feminina:

— Com licença.

Me virei com um pulo para ver a dona da voz, era uma das meninas populares da minha classe, ela tinha olhos castanhos escuro e seus cabelos levemente ondulados tinham um tom um pouco mais claro que o dos olhos, sua pele era tão branca que parecia não tomar um banho de sol há algum tempo, por fim, era baixa… quero dizer, mais do que eu, ao menos.

— Sim? — Retribuí, sem saber o que dizer

— Desculpe te interromper com seu — ela pareceu pensar um pouco em como colocar em palavras — lance stalker… Gostaria de saber se você já tem alguém em quem votar para presidente de classe.

A menina parecia um tanto indiferente, impaciente também, então tentei ser breve.

— Uuuh, não tenho ninguém não, você está concorrendo?

— Sim! — Ela esboçou um sorriso.

Ficou um silêncio por alguns instantes até que ela notou que havia faltado uma informação, e logo completou.

— Meu nome é 'Shimeri', conto com seu voto — Ela sorriu, coçando a nuca, sem jeito.

Ao fazer isso pude notar uma pequena tatuagem em seu pulso, um símbolo que nunca havia visto. Porém antes que pudesse perguntar sobre, ela havia ido embora para perto de suas amigas.

Fiquei um tempo então refletindo sobre o estranho nome da garota e aquela estranha tatuagem. Não parecia combinar com o estilo alegre da menina e não acredito que os pais dela iriam concordar com isso inclusive. Quando menos esperava o sinal que indicava o início da aula do dia tocou, a sala então foi rapidamente preenchida com pessoas, gritos, risadas e tudo mais.

Shimeri estava sentada em um lugar diferente hoje, duas classes atrás da habitual primeira classe, logo a frente do professor, suas duas amigas pareceram não entender muito bem a mudança mas foram junto com ela. A garota pareceu notar meu olhar sobre ela, pois a mesma olhou levemente em minha direção e o canto de sua boca formou um pequeno sorriso. Virei rapidamente então na direção do professor que começava a fazer a chamada, tentando disfarçar.

O resto da aula foi diferente do normal, por parte minha e da garota, pois sabia que ela olhava para mim, mas tentava não olhar de volta… sem sucesso. Quando a aula finalmente acabou juntei meu material na mochila e fui em direção a minha casa que não era muito longe dali, embora ainda estivesse muito intrigado em saber o que havia acontecido hoje. Pouco antes de colocar o pé fora dos portões da escola olhei para trás e pude ver Shimeri arrumando seus materiais dentro da sala, um tom diferente cobria ela, como um véu roxo, mas em um piscar de olhos tudo estava normal. Olhei a minha volta, procurando alguém que tivesse notado qualquer coisa diferente, mas todos pareciam distraídos enquanto iam para suas casas.

Fui calmamente em direção a minha casa, que ficava a poucas quadras da escola. O bairro era basicamente constituído de prédios de dois ou três andares em torno da escola, sendo que eu morava em um desses prédios, como a maior parte dos alunos que vinham de longe para estudar aqui pois a escola era altamente conceituada. Chegando ao meu apartamento fui direto para meu quarto largando no meio do caminho a mochila, casaco, dentre outras coisas que carregava. Não preciso me importar com nada aqui já que moro sozinho, o dinheiro vem todo o mês para uma conta no banco em que meus pais depositam, o que era algo bom e ruim, pois precisava tomar conta de tudo sozinho mas também não precisava me preocupar com ninguém possivelmente reclamando sobre o horário de ir dormir.

Fiquei deitado na minha cama por alguns segundos, tentando lembrar dos acontecimentos do dia, fechei os olhos tentando rever tudo que havia visto mais cedo. Mas havia algo nas lembranças de estranho, o tal véu roxo não estava sobre a garota, de fato eu mal podia me recordar de falar com ela, quero dizer… qual era seu nome?

A pergunta sumiu da minha mente ao ouvir o som de plantão noticiário na TV que tinha deixado ligada para fazer companhia. Me virei para ela e a repórter falava sobre um sequestro de avião que tinha levado à incontáveis mortes. Boa maneira de dormir, pensei, com uma notícia dessas....

Me levantei, passando a mão na barriga de leve encarando a TV.

— Acho que vou buscar algo para comer então — Fui até a pequena cozinha, nada na geladeira, nada nos armários. Não havia sequer uma lata de salsichas em conserva — Qual é, eu juro que tinha comprado mais comida…

Coloquei meu tênis e fui para a loja mais próxima dali, era uma pequena conveniência próxima da escola, o céu ainda estava alaranjado e o movimento na rua era pouco. Entrei na loja e fui direto para a parte onde tinha comida instantânea, peguei um pacote de miojo, o primeiro que vi e fui ao caixa. Lá estava ela, a garota de antes, minha colega.

— Uh.. Oi, é… quanto custa? — Perguntei mostrando o miojo.

— Uhm? Ah, É quatro com vinte e dois — Ela sorriu — Você é o… Will, não?

— Isso — Entreguei o valor para ela — E você é a…

— Shimeri — Ela respondeu, pegando o troco, foi quando eu pude notar que a tatuagem no pulso dela não estava mais lá, teria sido impressão minha? Não… não pode ter sido — Algo mais?

Havia se passado um tempo considerável desde que entreguei o dinheiro, o silêncio estranho ia aumentando.

— Não não, era isso, obrigado — Sorri, pegando o pacote e saindo da loja.

No caminho de volta a noite estava praticamente presente, poucas faixas laranjas de sol pintavam o céu, por não estar completamente noite poucas das luzes da rua estavam ligadas o que fez eu perceber que outra pessoa vinha em minha direção pouco antes de esbarrar nela. Parecia um homem, bêbado, dei espaço para ele passar porém ele pareceu nem ter notado minha presença.

"Estranho" pensei, algo nele não parecia certo, além do fato de estar claramente embriagado tão cedo. Bom… ele já foi, continuei seguindo o caminho para casa, estava do outro lado da rua, as luzes do apartamento ao lado estavam acesas, incomum.

Quando estava no meio da travessia escutei um som, ao longe, uma buzina de caminhão e pude ver a luz se aproximando. Não era possível, eu havia olhado para os dois lados, tinha certeza que não tinha nada na rua, de qualquer forma era tarde demais, fechei os olhos e esperei o fatídico fim me encolhendo de costas para o caminhão.

Pude apenas ouvir o estrondo porém nada havia me atingido, um calor estranho me cobria, ao abrir meus olhos pude ver destroços de ambos os lados, óleo no chão e a minha direita o que pude deduzir ser o motor do caminhão. Encarei por uns instantes o cenário caótico até que decidi sair dos escombros, não havia um arranhão em mim embora o caminhão tivesse me atingido em cheio, era perceptível o local do impacto embora não desse para dizer o que o caminhão tinha atingido. Eu não saberia dizer ao menos, se não tivesse presenciado tudo, de perto.

Fui até o lado do caminhão checar o motorista, ainda tinha sinais vitais. Peguei meu celular porém ele estava estilhaçado, óbvio. Fui ao orelhão mais próximo e liguei para emergência.

— Alô é do hospital?

— Sim, qual sua emergência? — A mulher prontamente perguntou

— Houve um… acidente, com um caminhão, o motorista está desacordado — Logo depois disso passei meu endereço e desliguei o telefone.

Nesse momento pude ouvir ao longe, um estrondo levemente agudo ecoando, parecia um… tiro?

A ambulância havia chegado, me tirando do susto do disparo. Um médico se aproximou rapidamente de mim enquanto outros dois foram na direção do caminhão, socorrendo o motorista. O médico fez eu olhar para uma pequena lanterna, verificando minha reação.

— O que..? — Ele mexeu na lanterna, testando novamente meu olho — Pensei ter visto algo.

— Está tudo bem? — Eu olhava para a luz com desconforto

— Sim sim, fique por aqui ok? Se sentir qualquer coisa errada, chame — Ele foi indo na direção do caminhão, ainda olhando algumas vezes para mim.

Notas finais
Eu sei, eu sei... "O que aconteceu com a Helena?" Bom, como no cap anterior, me informem o que acharam. É importante até pra eu continuar nesse projeto.