A marca

4 A luz no fim do túnel


O homem apontava a arma para mim enquanto via o valor que havia entregue para ele, ficando impaciente:

— Você acha que sou idiota?! — O homem deu um murro na mesa do caixa, fazendo a garrafa cair de lado — Me entregue TODO o dinheiro!

— Isso é tudo… — Falei em prantos, observando a garrafa rolar pelo caixa — Eu entreguei tudo.

Nisso a garrafa caiu no chão, se espatifando, porém o barulho da garrafa se quebrando causou algo muito pior. O homem se assustou, apertando o gatilho da arma, disparando contra mim.
Tudo que pude ver era escuridão me rodeando, o som abafado da porta da loja abrindo rapidamente e logo depois se fechando e então silêncio, um silêncio assustador. Estava morta, isso é certo, agora era só esperar a luz aparecer, mas ela não apareceu mesmo olhando ao redor buscando minha "salvação", não tinha nada.
"Será que fui uma má pessoa? Deus há de me salvar..."

— Não "Deus", mas alguém há sim — a voz feminina ecoou pelo ambiente escuro.

— Quem? O que?

— Me chame de Ai — O ser apareceu na minha frente, uma garota de cabelos brancos e olhos brilhantes, era visível como se estivesse de dia, porém sem receber iluminação alguma no meio daquele breu — Eu decidi te dar outra chance Helena, uma chance que as pessoas não têm, porém, isso vem com um preço.

— Preço? — Encarei a garota — Você é o demônio?

A garota riu, respondendo logo depois:

— Não sou nada que vocês tenham inventado em seu folclore, você aceita o preço? — Ela estendeu a mão.

Certamente morrer seria muito pior do que qualquer coisa que 'ela' poderia me oferecer, eu apertei a mão da garota firmemente e toda a escuridão foi sugada em instantes para dentro da minha mão junto com a imagem da garota e apenas um leve calor podia ser sentido na mão agora fechada. Quando abri para ver o que era, apenas surpresa poderia explicar o que senti. A bala.

**************

Helena encarava o projétil até que deu-se por conta de que seu colega de serviço deveria ter chegado há algum tempo. Um fino véu negro mais parecendo uma fumaça tomou os olhos dela nesse momento, por menos de um segundo, como tirando (ou colocando) ela de um transe.

— Tenho que fechar a loja, meu turno é o último…

Não demorou muito para a garota fechar a loja de conveniência e se encaminhar para casa, as luzes da cidade estavam todas acesas, o céu tinha um tom de azul profundo, como se o mar estivesse acima de sua cabeça, ela andou distraída por alguns minutos até que luzes vermelhas piscantes tiraram-na de seu pensamento.
Um caminhão havia batido, a frente estava completamente destruída e os médicos tiravam o motorista desacordado, levando para a ambulância, enquanto isso um garoto olhava a cena. Por instinto ela se aproximou do garoto, perguntando:

— O que houve aqui? Onde ele bateu?

O garoto respondeu de maneira automática, não medindo suas palavras:

— Em mim — Notando o que havia dito ele tentou corrigir — Digo, ele… huh, não sei.

Helena olhou o garoto, agora o reconhecendo:

— Will? — Ela encarou ele, mas algo havia de estranho no garoto, mas ela não sabia o que.

Ele encarou de volta, percebendo quem era:

— S… Não, seu nome começava com — Ele fez uma pausa, tentando lembrar

— H? — Ela sorriu — É Helena

— Isso! Acho que bati a cabeça, sei lá — Ele colocou a mão na cabeça, parecendo tentar se lembrar de algo, levantou a sacola, observando que o miojo ainda estava ali, intacto de alguma maneira — Quatro e… — Quando ela fez menção de ajudar ele a interrompeu — noventa, isso?

— Isso mesmo, mas… você tem certeza que não precisa de ajuda, Helena colocou a mão sob o ombro de Will, olhando em seus olhos.

— Está sim — Os olhos dele emitiram um leve brilho roxo

Helena pensou ser algum tipo de reflexo, embora muito estranho, mas deixou de lado.

Will estava na verdade mais preocupado com a proximidade súbita que a garota demonstrou, quer dizer, quando ficaram tão próximos? Ele não necessariamente achava isso algo ruim ou estranho. Porém, o fato de não achar estranho incomodava ele.

— Você… — ele olhou para ela, notando algo estranho, apontando para a blusa de Helena — O que é isso?

Ela olhou para onde ele apontou, notando o buraco na blusa, onde o disparo deveria ter a acertado.

— Não acreditaria se eu falasse — Ela sorriu, tentando disfarçar o medo de lembrar da situação

O garoto olhou para o caminhão com a frente destruída e os médicos que acabaram de sair com o homem enquanto já recebiam outro chamado.

— Acho que acreditaria sim — Ele riu de leve

— Fui assaltada hoje, e… — Ela fez uma pausa, Will olhou rapidamente para ela esperando continuação, preocupado — O homem atirou

— Acho que não entendi bem, ele atirou? Digo… — O garoto apontou para a blusa de Helena.

— É, então… aí que fica estranho, eu lembro apenas de não estar na loja e apertar a mão de alguém, logo depois — A garota abriu a mão, mostrando o projétil amassado

Helena percebia que as coisas faziam cada vez menos sentido quando se lembrava de tudo, parecia tudo um sonho.

— Bom, eu fui atropelado e estou sem nenhum arranhão, então acho que levar um tiro e estar vivo ta no padrão, né?

— Acho que sim — Helena riu, depois notando o que ele havia dito — Espera aí, você? — Ela olhou o caminhão — Ta brincando comigo

— Eu diria a mesma coisa se não tivesse passado por isso, quando olhei a bala

Will sabia que deveria ter alguma explicação lógica, não há como ele ter sobrevivido à um atropelamento de um caminhão tão rápido e a amiga dele, se é que pode se chamar assim, Helena, parece ter sobrevivido a um tiro a queima roupa.
Ambos encararam por um tempo os destroços do caminhão, sem acreditar nos acontecimentos da noite.

— Segunda feira é realmente uma desgraça — Riu William, seguido da garota que não pôde segurar o riso pelo comentário totalmente sem noção do garoto.

— Ele faz piadas afinal de contas — Respondeu ela, recuperando o fôlego

— Eu tento, às vezes — Fez-se um silêncio até Will prosseguir — Então, você mora por aqui?

— Hm? Ah sim, umas duas quadras daqui, você? — Ela olhou ele, o brilho de antes não era mais visível.

— Segundo andar — Respondeu o rapaz, apontando para o prédio a frente

Helena olhou o celular, era relativamente tarde, visto que saiu do trabalho às 18h, agora era 19:30. Se afastou lentamente olhando então para Will.

— Eu, tenho que ir — Falou sem jeito — Está ficando tarde.

— Ah sim, desculpa te prender aqui, sei lá — Will olhou sem jeito, era bem mais tempo que ele costumava passar com uma garota do que normalmente.

Eles se despediram brevemente com um aceno e então Will e Helena se encaminharam para suas casas.
Will ainda não acreditava nos acontecimentos do dia, mas olhe só, pelo menos ele tinha o miojo intacto e sua barriga roncava alto depois de tanto tempo sem comida então sua prioridade agora era comer algo. Foi até a cozinha, agora munido de alimento e logo colocou água para esquentar.
Enquanto comia a TV estava ligada em um programa de reforma de casas bastante popular, não que ele gostasse muito, mas era a melhor programação no momento. Demorou pouco para terminar sua refeição e ir tomar banho. Durante o banho ele não pode deixar de pensar em tudo que houve hoje, começando por de fato falar com alguém, essa pessoa estar de alguma forma coberta por um véu prismático roxo e depois da aula ele ser acertado por um caminhão e simplesmente sair intacto.
Enquanto refletia sobre isso, deixava a água escorrer pelo corpo, apoiado na parede.

— Para onde toda aquela energia foi? Aquele impacto todo — O calor percorreu o corpo dele, indo em direção a mão que apoiava na parede e um estrondo alto ocorreu, quebrando os azulejos.

Metade da parede estava rachada e enquanto o garoto observava sem crer uma voz ecoou em sua mente.

— A energia está toda aí, eu apenas a controlei para você — A voz feminina era calma e doce.

Will buscava pela fonte da voz, mas ninguém estava lá.

— Quem está aí?

— Vocês sempre perguntam "quem?" e sempre erram, isso não importa, eu dei à você uma segunda chance, ou acha que iria sobreviver sem mim?

O garoto não podia evitar senão buscar uma explicação lógica, algo a que acreditar que fizesse sentido, mas as coisas estavam cada vez se encaminhando para o lado oposto. A parede que antes estava imensamente danificada agora parecia se regenerar na frente de seus olhos, como um vídeo voltando no tempo, Will se afastou alguns passos.

— Leve mais esse gesto como uma prova de que quero você bem, não queremos que tenha que explicar isso para os outros.

— O que quer de mim? — O calor no corpo de Will aumentava e por algum motivo ele sabia que isso significava que a destruição de antes poderia retornar.

— Nada que você entenda no momento — O tom da voz sugeria que ela estava se divertindo com o pobre garoto e então uma abrupta pausa, como se algo chamasse a atenção do ser — Eu apenas sugiro que se mantenha perto das pessoas marcadas.

— Pessoas marcadas? O que quer dizer? — O silêncio tomou conta

Will saiu do chuveiro e deitou, agora mais inquieto que nunca, "devo estar alucinando" ele pensava. Quando menos esperava o sono chegou e o abraçou fazendo-o adormecer.
Enquanto isso Helena encarava o projétil sentada na sala de sua casa, segurando o objeto entre seus dedos, observando com cuidado. Ela lembrava muito nitidamente o ocorrido, quanto mais observava mais parecia que o objeto prendia sua atenção e quando deu-se por conta estava na loja de conveniência observando o homem, que depois assaltaria ela, chegando na loja, e ela no caixa. Porém agora ela estava sentada na poltrona de sua casa observando isso tudo em "terceira pessoa", se é que da pra chamar assim.
Embora o homem tenha ido para trás de uma das prateleiras Helena conseguia vê-lo sem dificuldade, olhando para as bebidas e preparando a arma para o assalto, vendo isso ela tinha que fazer algo e foi o que ela fez, ou tentou. Helena parou na frente de si mesma, falando baixo:

— Ei! Aquele cara vai te assaltar, corra daqui, rápido! — Mas não houve resposta, a garota simplesmente parecia não notar a presença de si mesma "do futuro"

A garota então olhou na direção dela e mostrou medo, mas não porque via a si mesmo, mas pelo homem que agora apontava a arma para ela, atravessando o corpo de Helena, não demorou muito para ela ouvir o disparo e sombras tomando conta do corpo da menina, indo na direção do homem e consequentemente de Helena. O homem correu, agora com medo, mas as sombras não seguiram ele, e sim Helena sendo absorvidas pelo projétil em sua mão e levando toda essa ilusão consigo.
Helena suava muito, encarando o projétil, ela foi para seu quarto e o colocou na gaveta da mesa de cabeceira, tomou um banho rápido e deitou-se encarando o teto. Podia ouvir no andar de baixo seus pais chegando em casa, aparentemente cansados discutindo sobre os problemas do trabalho do dia. O pai de Helena era médico cirurgião da emergência e a mãe é policial civil, pelo que a garota pôde notar ambos tiveram um dia bastante corrido devido a múltiplos chamados pela cidade, diversos acidentes e casos envolvendo a polícia, a garota não conseguia ouvir nada do que falavam com clareza, então só podia esperar que as pessoas envolvidas nesses problemas estivessem bem.
E de fato, estavam.

Notas finais
Desculpem se ficou estranho a mudança de primeira para terceira pessoa, mas no fim seria muito complicado manter primeira pessoa com mais de um protagonista. Mas então, ao que interessa, como estou me saindo?